Fora Sarney: um grito desajeitado

June 30th, 2009

A história resumida…

Ontem o time brasileiro de futebol ganhou de virada um campeonato de futebol contra os Estados Unidos.

Ashton Kutcher, ator e marido da Demi Moore festejava no Twitter cada gol do seu time (EUA, claro).

Quando houve a virada uma vasta onda de brasileiros alagou o ator com a tag #chupa que vem sendo usada como sinônimo de “toma” ou um tipo de “agora engole essa”.

O bom humor da ação e do ator garantiram a propagação da palavra chave e sua colocação em primeiro lugar na lista de palavras mais usadas no Twitter por algum tempo.

Animadas com isso e mal conformadas em ver que o Irã e Moldávia se mobilizam politicamente pelo twitter enquanto nós parecemos nos limitar a brincar, várias pessoas iniciaram uma campanha para colocar a palavra chave #forasarney na mesma lista.

Hoje perto da meia noite isso aconteceu. É uma das primeiras vezes que nos destacamos politicamente no Twitter e talvez até online.

Mas…

Porque fora Sarney?

A maioria não sabe e repete simplesmente porque é o que todos, embalados por @rafinhabastos, estão repetindo desde o dia 16/07/2009 e pensam que é pelas recentes denúncias envolvendo o senador José Sarney, mas há razões mais antigas para a escolha deste político para um dos primeiros gritos por um governo limpo.

O primeiro movimento “Fora Sarney” foi em 2006 quando ele utilizou a justiça para tirar do ar o blog da jornalista Alcineia que o criticava. A propósito, agora Alcinea Cavalcante mantém seu blog no Blogger.

Desde então o atual senador faz parte do imaginário do Internauta cidadão como um símbolo do cerceamento da liberdade de expressão.

Vários cidadãos mais atentos tem observado como o @inagaki que

essa “mobilização” está para o exercício da cidadania na mesma proporção dos álbuns de Vanilla Ice para o hip hop.”

Eles provavelmente estão certos pois os fatos acima devem ser desconhecidos (ou esquecidos) pela maioria, entretanto não creio que seja um movimento vazio e por isso até me uni a ele e agora escrevo esse post (mais uma vez correndo o risco de algum político achar que não tenho direito a dar essas opiniões…) para contextualizar e sugerir que o #forasarney não seja meramente uma ferramenta de repetição acéfala e sim um primeiro passo para o #governolimpo.

No estágio atual é bem provável que estejamos mais para a massa de zumbis que entoava o mantra Imhotep-Imhotep no filme A Múmia[bb] do que para a sociedade engajada que levanta sua voz clamando por democracia.

Soma-se a isso a interferência de celebridades bacalhau (sub-celebridades) que tentam esmolar um pouco de evidência sequestrando a idéia que não é deles, mas isso é assunto para outra ocasião.

Corremos o risco de ser massa de manobra de interesses políticos contrários a José Sarney que não serão necessariamente mais confiáveis.

Em todo caso, mesmo que seja irrelevante o fato de colocarmos uma palavra chave na lista de tópicos atuais do Twitter, faço questão de não concordar que a mobilização seja irrelevante!

O importante é a direção que está sendo tomada.

Amanhã saberemos que não adianta gastar 38 segundos para enviar um post com vários #forasarney para o Twitter e faremos o que estou fazendo: indicaremos um artigo em jornal ou blog, acrescentaremos alguma opinião ou sugestão pessoal.

Assim, a pequenos passos, a massa se movimenta até que ganha momentum e passa a acelerar cada vez mais.

Jornalistas sem diplomas

June 18th, 2009

Apesar do poder da Internet a mídia offline continua sendo centenas de vezes mais importante na criação, propagação e mutação de memes e, atrás das cortinas da mídia estão os jornalistas (e roteiristas, produtores de cinema… mas essa é outra história) portanto não posso deixar de falar nisso aqui no Meme de Carbono.

Ontem o supremo tribunal federal derrubou a obrigatoriedade de ter um diploma em comunicação para exercer a profissão de jornalista.

Isso é bom ou é ruim?

As reações são, com toda razão, marcadas pela emoção e insatisfação de quem passou anos na faculdade e agora se vê obrigado a competir com um universo muito maior de pessoas.

Tenho mais perguntas do que respostas sobre esse assunto, mas, correndo o risco de contrariar muitos amigos (a blogosfera está cheia de jornalistas diplomados) o intenso #mimimi me desperta maus pensamentos.

Será que os temores são fundados? Um jornalista formado em comunicação terá dificuldades em concorrer com médicos, biólogos, historiadores ou mesmo leigos que se aventuram a  escrever sobre os mendigos do próprio bairro?

Se essa ameça é real não será bom para nós, leitores, que essas pessoas possam escrever notícias?

Principalmente nas áreas técnicas como física, astronomia, medicina, biologia, antopologia, psicologia… a obrigatoriedade de diplomas de comunicação pode ser responsável pela mediocridade dominante.

Não seria o caso de haver obrigatoriedade de dois diplomas para escrever sobre um determinado assunto? Um de comunicação e outro da área específica?

É fácil compreender a obrigatoriedade de um curso formal para ser médico, engenheiro e astrofísico apesar de algumas das maiores descobertas da astrofísica pertencerem a amadores apaixonados e os computadores pessoais serem obra de engenharia de um auto-didata (Wozniak).

E na comunicação? Que conhecimentos só podem ser obtidos na universidade?

A propósito, e a validade do diploma? Podemos confiar nos diplomas de comunicação? Sei que há até mesmo médicos (área, convenhamos, exponencialmente mais complexa do que jornalismo) que fazem a faculdade no bar da esquina e vão dando um jeitinho de passar até obter o diploma.

Outra pergunta que devemos nos fazer é “Por quê a obrigatoriedade do diploma de comunicação foi derrubada?

Até o momento só vi o @ocktock se fazer essa pergunta… e responder em seu blog (linkado no parágrafo acima):

É claro que essa história da queda da obrigatoriedade é “testa de ferro” para desviar os olhos dos jornalistas de outros assuntos que ocorrem por trás das cortinas de ferro da política brasileira

Este é um alerta importante.

Nossos amigos jornalistas estão sendo manipulados e, egos pela emoção, deixam passar uma oportunidade de mostrar sua força, articulação e, principalmente, que um jornalista não se deixa iludir por artimanhas maquiavélicas?

Resumindo as perguntas que foram surgindo no calor do meu texto e acrescentando mais algumas:

  1. De que forma os jornalistas formados serão ameaçados pela concorrência não qualificada?
  2. Se hoje o QI é grande determinante como alguns me disseram, que importância tem o diploma?
  3. Já não seria hora de deixar de aceitar o estabelecimento de maus jornalistas graças ao QI?
  4. Quais são as reais intenções por trás da derrubada da obrigatoriedade do diploma?
  5. Não é verdade que essa obrigatoriedade foi criada na ditadura para controlar melhor os jornalistas? Ela ainda é necessária?
  6. Será uma boa idéia lutar não pela obrigatoriedade de apenas um, mas de dois diplomas para exercer a profissão de jornalista? Um em comunicação e outro na área específica de atuação?
  7. Será que comunicação e jornalismo não deveria ser uma pós graduação?
  8. Será que não podemos aproveitar a abertura para criar novos canais de jornalismo na blogosfera onde jornalistas amadores disputam com os formados? E isso não seria bom para melhorar a qualidade do jornalismo como um todo? Isso me faz lembrar do overmundo.

O sentido da vida é compartilhar

June 14th, 2009

Em 1940 Charles Chaplin[bb] nos entregou um dos mais belos discursos da história do cinema no filme O Grande Ditador.

Sessenta e nove anos se passaram e ainda vemos discursos inflamados negando o tratamento humanista a criminosos, homossexuais, seguidores dessa ou daquela religião.

Para muitos ainda há pessoas que não são humanas… O fascismo de Hitler é um espectro que nos acompanhará por muito tempo ainda.

“A voz do povo é a voz de Deus”

Não sei muito sobre Deus, mas creio que nossa voz coletiva é a voz da razão, é a voz da compaixão e do amor.

O problema é que essa voz não vinha sendo ouvida.

A voz de Chaplin não é a voz do povo, era a voz de um homem que conquistou o povo com sua arte. A voz de Hitler não era a voz do povo, era a voz de um grupo que conquistou a opinião pública pela força de uma mídia subjugada e pela promessa do fim do medo.

Uma civilização com medo é uma civilização facilmente controlada exatamente como nos alertou Michael Ende em História Sem Fim.

Olhar de frente e sem se entregar ao medo para os obstáculos que nossa espécie precisa superar não é nada fácil e além disso estamos acostumados a ser espectadores da nossa própria história e a acreditar que os governos, a mídia e as corporações cuidarão de tudo enquanto nos ocupamos em seguir ordens, formar famílias e nos divertimos com os amigos, afinal o que uma pessoa sozinha pode fazer?

Bem, nenhum desses três pode fazer muita coisa por nós.

As corporações são míopes precisam manter muita atenção no aumento da produção e do consumo para se preocupar com direitos humanos ou mudanças climáticas.

Os governos e a mídia se tornaram muito dependentes dos recursos das poderosas corporações e servem antes às necessidades delas do que as nossas.

Sim… é verdade que sem humanos as corporações não podem produzir e não terão consumidores, mas reflita um pouco, você acha que elas se comportam como se tivessem essa consciência? Mesmo sendo administradas por humanos nós mesmos podemos facilmente ficar míopes no esforço de atender as necessidades imediatas da empresa onde trabalhamos.

“As human beings, we are endowed with freedom of choice, and we cannot shuffle off our responsibility upon the shoulders of God or nature. We must shoulder it ourselves. It is our responsibility.” Toynbee

Hoje estamos deslumbrados com a tecnologia que criamos, principalmente a Internet (muito embora pessoalmente eu me anime mais com os estudos do Cern e a psicologia evolutiva) e achamos que ela será a solução para o empasse desse milênio: as pequenas vozes individuais esmagadas pelos megafones da indústria do espetáculo preconizada por Guy Debord.

Não irá.

Também não podemos colocar nos ombros da tecnologia o peso da nossa responsabilidade.

O fato das últimas tecnologias de comunicação permitirem que cada ser humano venha a ter sua voz ouvida (e ainda falta muito para isso em um planeta onde cerca de 20% sequer tem luz)  não mudará nada.

O que está mudando nossa sociedade e é hasteado na maioria das bandeiras da cibercultura não tem absolutamente nada a ver com tecnologia embora talvez seja mais visível para quem está mais mergulhado nas redes sociais online e outros ambientes similares.

Nós queremos compartilhar cultura, arte, lazer, sonhos, literatura, conhecimento…

O crescimento vertiginoso do twitter onde são compartilhadas as pequenas coisas do dia-a-dia como a alegria de ver uma bela lua cheia ou passar algumas horas com amigos queridos é somente a prova mais recente do que já temos visto nos blogs, fotologs e youtubes da vida.

No entanto não basta compartilhar isoladamente, não basta ter um blog jogado em algum lugar onde meia dúzia de amigos alimenta nosso ego ao nos deixar alguns comentários.

O que nós queremos é nos misturar na multidão de terráqueos, queremos ser mais um em um flashmob com milhares de pessoas.

A primeira grande mudança que estamos observando conforme a sociedade industrial do espetáculo cede espaço para a sociedade do conhecimento (provavelmente centrada em serviços) é que negros, brancos, vermelhos, amarelos, azuis, mulçumanos, cristãos, ateus, moradores de rua, crianças, idosos, afinados ou desafinados podemos cantar juntos a mesma música e criar um mundo de igualdade e não mais um onde estamos presos a castas.

Blog da Petrobrás: A velha mídia se perde

June 10th, 2009

Deixei o seguinte comentário no post do blog da Petrobrás em resposta ao #mimimi do jornal O Globo:

É com muita animação que recebo a criação desse blog!

Por décadas a mídia se acostumou a ser um porta voz acéfalo que repetia os fatos e dados, muitas vezes com erro.

Deveria caber à mídia analisar os fatos e dados construindo artigos críticos e inteligentes. O que temos visto é uma vasta galeria de matérias apressadas que parecem pagas hora por uma empresa, hora por sua concorrente.

Finalmente chegamos a uma era em que não precisamos de intermediários para compartilhar nossos fatos, dados e voz pessoal ou corporativa.

É triste ver a velha mídia preferindo chamar os blogueiros de chipanzés (não esqueci da propaganda do Bruno…) enquanto se comporta como um babuíno enfurecido.

A iniciativa da Petrobrás é louvável! Agora vamos observar duas coisas:

  1. Será que a velha mídia redescobrirá sua missão de aplicar inteligência aos fatos e dados?
  2. Quando os blogueiros fizerem o que a velha mídia não tem feito (e nós faremos) a Petrobrás saberá dialogar conosco sem apelar para a justiça com o intuito de restringir nossa liberdade de expressão como muitos tem feito?

A propósito faltou dizer no comentário que outra prática comum e irritante na velha mídia quando tenta atuar online é raramente fornecer links externos onde possamos ouvir o outro lado da matéria. Erro que o blog da Petrobrás também está cometendo e procuro corrigir aqui ao citar os dois.

Abordamos esse tema no Twitcast que irá ao ar ainda essa semana, mas há algo que precisa ser dito também em texto claro ;-)

Você abre o jornal para saber como vão seus pais? Liga a tv para saber se a sua rua está engarrafada?

Não precisamos da mídia para nos mostrar o que está acontecendo ao nosso lado, e na era da Internet absolutamente tudo acontece logo aqui do nosso lado, da consulta da Demi Moore no dentista ao acesso aos dados da Petrobrás.

Precisamos dela para dizer que aquele complexo vitamínico que nossos pais estão ingerindo não é eficaz apesar da grande propaganda de meia página na folha anterior do jornal.

Quem está cumprindo esse papel são blogueiros como a Denise Arcoverde em sua série de posts sobre aspartame (um caso antigo para mostrar que não é um fenômeno novo).

Há muitos anos não leio jornais, não preciso deles para saber horas ou dias depois o que vejo quase instantaneamente online e cada vez mais gente percebe isso.

Para sobreviver a velha mídia precisa compreender a nova sociedade.

É claro que a inclusão digital ainda é um projeto e que gente sábia como o Nepomuceno nos lembra que não estamos diante de uma nova sociedade, mas o fato é que as espectativas sobre a mídia mudaram.

Sim, sim, também comentamos no Twitcast que as pessoas se sentem atraídas por coisas toscas e que a velha mídia está apenas buscando consumidores ao fazer sensacionalismo ou reality shows toscos, mas isso promove uma corrida para longe da qualidade do conteúdo da mídia em direção a coisas que qualquer um pode fazer melhor (e faz) no Youtube ou em blogs.

Arrisco uma sugestão (entre muitas outras) para reavivar a velha mídia: Junte-se a nós. Não tente ser um facho de luz cercado de pessoas perdidas, veja-se como mais uma voz, caminhe lado a lado com os milhões de Brunos que copiam e colam informações somando uma ou duas linhas da própria opinião (sempre linkando a fonte original), use a vantagem da sua capacidade investigativa para descobrir o que não podemos e converse conosco!

Acima de tudo, nós pessoas, gostamos de ser tratadas com repeito, como iguais e seremos muito legais com vocês se notarmos que seu compromisso é conosco e não quem aquele anunciante da página central ou aquele grupo politico-corporativo com quem todos tem ligações estranhas.

Wolfram Alpha – Um buscador que pensa

June 9th, 2009

O Wolfram Alpha é uma inteligência artificial[bb] desenvolvida para ler recolher informação da Internet e calcular respostas.

Apesar dele definitivamente não ser um buscador como o Google creio que esse é o ponto de partida inevitável para tentar explicá-lo.

Quando queremos nos informar sobre alguma coisa nós vamos ao Google buscar dados. Digitamos as palavras chave que imaginamos que estarão em um texto com os dados que precisamos e torcemos para achar algo que, além de dados, nos entregue algumas informações.

Digamos por exemplo que queremos fazer uma pesquisa sobre a água disponível na Terra[bb]. Podemos entrar no Google e perguntar volume água terra.

O Google é mesmo incrível e as três primeiras ocorrências contém respostas para nossa pergunta, mas a primeira tem uma resposta errada… 100o vezes errada.

Cabe a nós que estamos pesquisando reconhecer que site tem a informação mais correta (1.4087 bilhões de Km³ considerando apenas os oceanos).

E se decidirmos fazer algumas comparações interessantes como calcular o peso dessa água toda, comparar com o volume de água doce ou calcular quantas Phobos (lua de Marte) podemos encher com nossa água potável?

Serão horas de pesquisas e cálculos.

E se algum robô fosse capaz de recolher todo conhecimento humano e nos permitisse fazer perguntas como:

  • total water in earth – ele avisa que está assumindo que nos referimos a lagos e rios e nos responde: 100 mil Km cúbicos, uma esfera de 29Km de raio ou um cubo de 50Km de lado entre algumas outras comparações.
  • Total water in oceans – temos 1,4 trilhão de Km cúbicos.
  • Já que o volume de água potável é irrelevante vejamos quanto pesa a água dos oceanos (weight 1.4×10^9 km3 of water): 1,4 quintilhão de toneladas. (tente descobrir isso no Google)
  • Phobos – Ele avisa que está assumindo que nos referimos à lua de Marte e nos fornece uma série de informações sobre ela, mas queremos apenas saber o volume de Phobos: certo, 5730 Km cúbicos.
  • E quantas luas Phobos podemos encher com nossos mares? total water in oceans/phobos volume = 240.000 (na verdade há um pequeno erro, seriam 244.328,098)

Essa é apenas uma amostra, o Wolfram pode compreender perguntas mais complexas:

O mais interessante no Wolfram é que ele não é um banco de dados[bb] ou uma calculadora esperta.

Para gerar seus resultados ele realmente analisa semanticamente[bb] nossas perguntas para saber o que queremos, pesquisa na Internet, lê os sites que encontra, identifica os dados necessários e, além de fazer o cálculo que pedimos apresenta várias outras informações que podem ser úteis.

No final de cada consulta há um link onde você pode ver as fontes que ele estudou para calcular sua pergunta, tente por exemplo comparar Brasil e Argentina.

Apesar disso tudo o Wolfram Alpha ainda é muito jovem e tem algumas falhas como vemos ao dividir (total water in oceans)/(total water in earth) e obter 10 mil em vez de 14 mil.

O próprio criador (Stephen Wolfram, criador do Mathematica[bb]) afirma que se trata de um projeto de longo prazo ainda em seus passos iniciais, mas já é uma ferramenta tão impressionante quanto útil!