Século XXI: O século ciberpunk

March 7th, 2010

Em novembro do ano passado, provocado por @lisandramaioli, e Gil Giardelli, falei sobre a ética e a estética ciberpunk e sua crescente influência em nossa civilização e desde então sinto que devia escrever mais sobre isso.

Em primeiro lugar nós sempre fomos ciberpunks se assumirmos que a utilização de tecnologia para estender as nossas capacidades é a essência do ciberpunk.

Nós usamos exoesqueletos para nos transportar (carros), lentes óticas para enxergar melhor (óculos ou lentes de contato) e, claro corações mecânicos quando o orgânico deixa de funcionar. A lista de implantes orgânicos ou não é enorme, mas o fato é que gostamos de usar nossa engenhosidade para expandir nossos horizontes.

O mesmo vale para nossa forma de ver e conceber o mundo.

Mesmo que toda nossa tecnologia nos fosse arrancada subitamente ainda assim a forma como interagimos uns com os outros e com o nosso ambiente continuará sendo um resultado da nossa tecnologia.

Isso acontece porque não é verdade que nossa consciência é fruto da nossa tecnologia, mas sim a nossa tecnologia é fruto da nossa consciência, o que na verdade é bem óbvio.

Apesar disso falamos no mostro das novas tecnologias da informação e seu impacto em nossas vidas quando o que deveríamos discutir é a nossa consciência e as tecnologias que ela cria para se modificar.

No universo ciberpunk a máquina parece ser um tipo de monstro que procura nos absorver como os Borgs de Star Trek ou, mais brilhantemente construídos, os Cylons de Battlestar Galactica e Caprica.

Isso acontece provavelmente porque não compreendemos e muito menos ainda somos capazes de controlar nossa consciência e ela certamente não está sujeita aos interesses dos nossos genes.

Em algum ponto da nossa evolução a consciência suplantou o poder instintivo pacientemente construído pela seleção genética, provavelmente em algum ponto entre o surgimento da fala e a criação da escrita.

Note que falo em surgimento da fala pois não creio que ela tenha sido desenvolvida por nós.

E de onde vem esse impulso no sentido de uma consciência não genética? De uma consciência memética?

Talvez possamos olhar para o Universo não como um fenômeno físico, mas um fenômeno informacional. Com isso quero dizer que não são forças magnéticas ou quânticas que formaram esse fantástico arranjo de 11 dimensões que chamamos de Universo, mas a propensão natural da informação para se organizar de formas exponencialmente mais complexas seguindo um processo de seleção.

As mais recentes teorias de supercordas de certa forma reduzem toda a realidade a informações em cordas, vibrações que geram quantas e partículas sub-atômicas.

Sem poder modificar as partículas a “informação” as combinou criando os diversos elementos químicos também incapazes de sobrer mutações e portanto criar hereditariedade e registrar informação de maneira rica.

Assim nasceu a vida, átomos organizados de uma forma tão intrincada que não é possível enxergar semelhança entre uma pedra e um urso sem o conhecimento científico que acumulamos nos últimos milênios.

Da mesma forma surge a consciência, um tipo de arranjo de memes. Totalmente livre das limitações da matéria tornando-se capaz de se multiplicar, reproduzir e modificar em razões exponenciais jamais imaginadas pela matéria.

Carl Sagan, em sua obra póstuma Bilhões e Bilhões nos alerta para o poder do crescimento exponencial. Onde nos levará a evolução descontrolada dos memes? A novos e melhores humanos ou a um novo passo evolutivo? Uma nova espécie consciente alimentada pelos Temes sugeridos por Susan Blackmore?

A corrida evolutiva da informação, dessa estranha forma de consciência, o Pó de Fronteiras do Universo, é anterior a nós, é anterior à existência do próprio sistema solar e temos sido seus instrumentos inconscientes.

Gosto da raça humana apesar de me fascinar pela consciência esteja ela em humanos ou em outras formas, e desejo que sejamos capazes de evoluir para um destino como o de Babylon 5 e não para o colapso de Battlestar Galactica.

Depende de nós escolher a vida em Cáprica ou finalmente assumir as rédeas da nossa evolução tornando-nos o melhor receptáculo possível para a consciência.

Você conhece a Internet grátis do Rio de Janeiro?

March 5th, 2010

Estou fazendo  uma pesquisa sobre os objetivos, usos e alcance da Internet grátis que está sendo instalada no Rio de Janeiro.

Em breve escreverei um post completo, por hora gostaria muito que você respondesse esse rápido questionário:

#cafe22: Uma estrutura para viralizar a cultura do conhecimento

March 1st, 2010

Nesse sábado ocorreu a segunda edição do Café 22.

Os eventos focados em criatividade, Internet, tecnologia e outros setores do conhecimento humano tem se tornado cada vez mais comuns no Rio e em diversas outras cidades, mas o Café 22 faz parte de uma categoria especial e importantíssima.

Decidi falar dele e não dos outros por dois motivos: estou tendo a honra de ajudar na sua produção e, até onde sei, é  um dos mais opensource (explico mais adiante).

A enorme maioria dos eventos reúnem dezenas e até centenas de palestrantes e platéias proporcionais e, apesar da maioria ser excelente, não são de fácil reprodução e, até onde sei, apenas o Sou Mais Web consegue manter uma boa peridiocidade (um por mês exceto nas festas de fim de ano).

O que ocorre na categoria de eventos onde o Café 22 pretende se colocar como um modelo é que sua essência é viral. Ele é projetado para ser barato e facilmente organizado em uma estrutura descentralizada e colaborativa.

Além disso, e talvez o ponto mais importante, todas as pessoas que participam do evento podem submeter falas e o grupo vota com antecedência em quais serão apresentadas em cada edição.

É um passo adiante na estrutura do Sou Mais Web onde o palestrante deve estar preparado para uma platéia que participa da construção da palestra.

Por passo adiante não entenda passo evolutivo, o modelo que vem sendo moldado no Café 22 provavelmente é até um passo anterior, um tipo de encubadora de platéias e palestrantes para eventos como o Sou Mais Web.

O que é mais importante ao meu ver nesse tipo de estrutura é seu potencial viralizante.

Qualquer grupo de amigos pode alugar um salão em um playground ou até buscar espaços mais criativos e montar seu próprio evento onde cada um trará mais duas ou três pressoas novas para o grupo a cada edição, mas mantendo um número pequeno de participantes.

Nada é certo ou garantido na evolução da nossa espécie, no entanto creio que é importante que finalmente percebamos que devemos aprender a fazer de cada século a base do século seguinte assumindo as rédeas da nossa evolução cultural.

Modelos como o do Café 22 – espero – são a semente de uma cultura que girará em torno da criatividade e do conhecimento e não da propriedade e poder aquisitivo.

Fique de olho no site do Café 22 onde, além dos vídeos de cada edição, haverá artigos sobre os erros e acertos que vão modificando sua estrutura de funcionamento.

Em todo caso compartilho aqui duas dicas que considero importantes:

  • Mantenha as falas com no máximo 20 minutos
  • Não faça sessões de perguntas pois. Isso evita que se quebre o ritmo e pode estimular os comentários e debates online

Para concluir… Me parece que esse tipo de evento não deve existir como um perfil no Twitter, mas apenas como uma hashtag

Espero que esse meu texto estimule você a criar seu próprio evento de conhecimento. Ah! É essencial fazer um botecamp logo em seguida!

Campus Party Brasil: Infinitas facetas de uma tribo

February 4th, 2010

A evolução segue seu curso regida primeiro pelos genes que, num impulso natural e inconsciente, criam organismos cada mais mais complexos e adequados a perpetuar sua variação, hereditariedade e seleção.

Nossos mares foram um verdadeiro caldo de vida por milhões de anos até que houve a explosão de diversidade que saiu dos mares e se espalhou por toda a Terra.

Desde que os seres criados pelos genes começaram a desenvolver a capacidade de processar informações outro maestro passou a interferir na sinfonia da vida, o Meme.

O fato de termos criado uma civilização, idiomas, livros e diversas tecnologias para permitir que os Memes variem, transmitam hereditariedade e sejam selecionados é uma prova de que há no planeta duas forças conduzindo nossa evolução. E o Meme se tornará a predominante em algum momento.

Hoje temos um novo mar onde a “vida” memética evolui, o mar das tecnologias da Informação e, com a criação da Internet ele começou a transbordar assim como aconteceu com os Genes e eventos como a Campus Party são ricos poços de vida memética onde os seres mais expostos ao seu fluxo de informação se reúnem.

Sei que essa é uma introdução longa e esquisita para o assunto, mas tenho visto tantas espectativas sobre a Campus Party que decidi mostrar como a vejo antes de dizer porque discordo com as afirmações de que ela está vazia de interação ou de consciência.

Vendo do ponto de vista evolutivo um acontecimento como esse não é equivalente a um forum mundial social, mas meramente um espaço neutro onde todo e qualquer Meme tem chance de se reproduzir ou se extinguir.

Por exemplo, antes do Lawrence Lessig falar a favor da cultura Read/Write e contra a cultura Read/Only notei que praticamente todos os campuseiros se distraiam com jogos. Bem, alienação ou sinal de que as ciberpessoas começam a preferir o lazer read/write dos jogos à observação passiva dos filmes e seriados read/only?

A interação entre os campuseiros através do chamado grito de acasalamento (Oooo-Oooo) é uma demonstração de ligações fracas ou de que as tribos isoladas querem buscar símbolos comuns?

Demorei a escrever sobre a Campus Party justamente por perceber que precisarei de muita reflexão e pesquisa para construir uma opinião que respeite essa subcultura que, tenho certeza, será a principal influenciadora dos novos paradigmas.

Durante os 5 dias que participei da festa mal entrei na Internet preferindo me conectar a pessoas e o que vi antes de mais nada foi uma predisposição generalizada em interagir. Depois notei que uma grande parte de quem estava ali era de regiões distantes do país aproveitando para encontrar outros com interesses em comum como é o caso do campeão e o vice campeão mundiais de casemod que moram em cidades pequenas onde certamente não encontram muitos outros casemoders. Ou o caso do pessoal de robótica da Universidade de Guarulhos que colecionam troféus, mas é ali que encontram centenas de novos interessados em robótica.

Vi também que eu não era o único que vagava entre as mesas me expondo aos memes de cada tribo. Talvez as pessoas fossem conduzidas apenas pela curiosidade ou pela possibilidade de lazer (principalmente na área de games), mas estavam ali misturando suas ideias com a dos outros e isso basta para promover a evolução.

Sob uma análise lógica e considerando que os humanos possuem uma consciência autônoma e não uma ainda conduzida por seus instintos pode-se considerar a Campus Party uma triste demonstração de alienação e de falta de mobilização política (e concordo que haveria jeitos de mudar esse quadro), mas os humanos não possuem esse tipo de consciência, pelo menos não na maior parte do tempo e nada nos marca mais do que o que nos dá prazer e é isso que atrai essas ordas de ciberpunks para o pavilhão Imigrantes: o lazer.

Apesar disso e da impressão de que a única coisa comum a todas as tribos era a preferência por se distrair com jogos arrisco afirmar que era uma só tribo com diversas facetas ainda mal lapidadas, mas em franco processo de lapidação ali mesmo naqueles corredores.

Digo que é uma única tribo pois a linguagem é a mesma, os códigos de comportamento são os mesmos e, enquanto ouvi reclamações sobre o caos do forum social, ali francamente, havia um tipo de harmonia ou pelo menos equilíbrio, aliás, maior do que no ano passado.

É claro que não é fácil perceber o que 6 ou 10 mil pessoas estão pensando e posso estar errado, mas isso o tempo dirá.

Café 22: O Piloto

January 20th, 2010

Planejado e organizado pela @Maffalda o #cafe22 procura inspirar uma cultura em torno do conhecimento onde pequenos grupos de pessoas se reúnem para apresentar ideias inovadoras sobre sua área de pesquisa considerando que todos nós pesquisamos alguma coisa, mesmo que não seja na mesma área em que trabalhamos.

No sábado passado ocorreu o piloto do evento com o objetivo de buscar o melhor modelo para os próximos. Quando chegarmos a um modelo funcional ele deve ser publicado em cafe22.com.br para que outros grupos possam copiá-lo, modificá-lo para o seu ambiente ou desenvolvê-lo.

Mesmo sendo apenas uma experiência o resultado foi muito bom.

Vinte e cinco pessoas participaram do evento e seis apresentaram ideias:

  1. @Maffalda: Simplicidade voluntária
  2. Halime Musser (@limejovi): O bestseller e a popularização da cultura (adorei)
  3. Spark (@dj_spark): Como fazer backup online e não ficar de cabelos brancos antes do tempo
  4. Antonio Azevedo (antonioazevedo.com.br): Suportes para uma vida feliz
  5. Cristiano Ferreira dos Santos (@cristianoweb): Síndrome de Asperger

A palestra da Heloísa me fez lembrar do tempo que cursei a Universidade Holística e os questionamentos sobre luxo essencial e simplicidade voluntária. Temas muito propícios a uma sociedade mudando rapidamente de valores.

O que era luxo ontem tem se tornado essecial como o acesso à Internet, a formas sofisticadas de cultura e a atividades profissionais desafiadoras e mais complesas. Temos que lembrar que até poucos anos as mulheres, por exemplo, não tinham direito a opinar politicamente ou trabalhar usando sua inteligência. Memeticamente falando ao buscar a simplicidade física podemos nos dedicar a complexidades da razão, da consciência ou do espírito.

O Cristiano e sua história de vida com o filho sempre me fazem pensar em como algumas síndromes da mente são vistas como limitações, mas escondem habilidades impressionantes que poderiam ser usadas para que esses indivíduos fossem até mais produtivos que os ditos normais. O Nicolas, filho do Cristiano e portador de Asperges, aprendeu a ler aos dois anos…

Fiquei especialmente interessado na fala da Halime que, além de trazer algumas informações sobre o surgimento dos best sellers que eu não conhecia, nos fez perceber sua importância para levar a cultura a massas que até então nem eram alfabetizadas.

As considerações dela me remeteram à ideia de que a cultura erudita está condenada ao esquecimento se não é transportada para grandes porções da nossa civilização pela cultura pop como Jornada nas Estrelas, Fronteiras do Universo (a trilogia literária) e até Tom e Jerry.

Enfim, esse post está mais adequado ao meu site pessoal onde falo de cultura apesar de estar claro em cada uma das palestras acima que há um fator memético unindo-as, em todo caso não falarei mais até porque espero que todos os palestrantes liberem seus vídeos para serem divulgados no Videolog e outros sites de vídeo que vieram depois.

O objetivo ao escrever sobre o Café 22 é lançar uma pequena gota de água no vasto campo repleto de sementes que é a nossa sociedade da informação. Espero que outros se inspirem a fazer encontros semelhantes e compartilhem os resultados online criando verdadeiras encubadoras criadoras de conhecimento.