Archive for the ‘Consciência’ Category

Século XXI: O século ciberpunk

Sunday, March 7th, 2010

Em novembro do ano passado, provocado por @lisandramaioli, e Gil Giardelli, falei sobre a ética e a estética ciberpunk e sua crescente influência em nossa civilização e desde então sinto que devia escrever mais sobre isso.

Em primeiro lugar nós sempre fomos ciberpunks se assumirmos que a utilização de tecnologia para estender as nossas capacidades é a essência do ciberpunk.

Nós usamos exoesqueletos para nos transportar (carros), lentes óticas para enxergar melhor (óculos ou lentes de contato) e, claro corações mecânicos quando o orgânico deixa de funcionar. A lista de implantes orgânicos ou não é enorme, mas o fato é que gostamos de usar nossa engenhosidade para expandir nossos horizontes.

O mesmo vale para nossa forma de ver e conceber o mundo.

Mesmo que toda nossa tecnologia nos fosse arrancada subitamente ainda assim a forma como interagimos uns com os outros e com o nosso ambiente continuará sendo um resultado da nossa tecnologia.

Isso acontece porque não é verdade que nossa consciência é fruto da nossa tecnologia, mas sim a nossa tecnologia é fruto da nossa consciência, o que na verdade é bem óbvio.

Apesar disso falamos no mostro das novas tecnologias da informação e seu impacto em nossas vidas quando o que deveríamos discutir é a nossa consciência e as tecnologias que ela cria para se modificar.

No universo ciberpunk a máquina parece ser um tipo de monstro que procura nos absorver como os Borgs de Star Trek ou, mais brilhantemente construídos, os Cylons de Battlestar Galactica e Caprica.

Isso acontece provavelmente porque não compreendemos e muito menos ainda somos capazes de controlar nossa consciência e ela certamente não está sujeita aos interesses dos nossos genes.

Em algum ponto da nossa evolução a consciência suplantou o poder instintivo pacientemente construído pela seleção genética, provavelmente em algum ponto entre o surgimento da fala e a criação da escrita.

Note que falo em surgimento da fala pois não creio que ela tenha sido desenvolvida por nós.

E de onde vem esse impulso no sentido de uma consciência não genética? De uma consciência memética?

Talvez possamos olhar para o Universo não como um fenômeno físico, mas um fenômeno informacional. Com isso quero dizer que não são forças magnéticas ou quânticas que formaram esse fantástico arranjo de 11 dimensões que chamamos de Universo, mas a propensão natural da informação para se organizar de formas exponencialmente mais complexas seguindo um processo de seleção.

As mais recentes teorias de supercordas de certa forma reduzem toda a realidade a informações em cordas, vibrações que geram quantas e partículas sub-atômicas.

Sem poder modificar as partículas a “informação” as combinou criando os diversos elementos químicos também incapazes de sobrer mutações e portanto criar hereditariedade e registrar informação de maneira rica.

Assim nasceu a vida, átomos organizados de uma forma tão intrincada que não é possível enxergar semelhança entre uma pedra e um urso sem o conhecimento científico que acumulamos nos últimos milênios.

Da mesma forma surge a consciência, um tipo de arranjo de memes. Totalmente livre das limitações da matéria tornando-se capaz de se multiplicar, reproduzir e modificar em razões exponenciais jamais imaginadas pela matéria.

Carl Sagan, em sua obra póstuma Bilhões e Bilhões nos alerta para o poder do crescimento exponencial. Onde nos levará a evolução descontrolada dos memes? A novos e melhores humanos ou a um novo passo evolutivo? Uma nova espécie consciente alimentada pelos Temes sugeridos por Susan Blackmore?

A corrida evolutiva da informação, dessa estranha forma de consciência, o Pó de Fronteiras do Universo, é anterior a nós, é anterior à existência do próprio sistema solar e temos sido seus instrumentos inconscientes.

Gosto da raça humana apesar de me fascinar pela consciência esteja ela em humanos ou em outras formas, e desejo que sejamos capazes de evoluir para um destino como o de Babylon 5 e não para o colapso de Battlestar Galactica.

Depende de nós escolher a vida em Cáprica ou finalmente assumir as rédeas da nossa evolução tornando-nos o melhor receptáculo possível para a consciência.

A reforma de Lutero e o século XXI

Friday, October 2nd, 2009

Quando Martinho Lutero fixou suas 95 teses na porta de uma igreja convidando os letrados a discutí-las poucos notaram, mas provavelmente estava dada a partida em uma série de mudanças que marcaria o fim de uma estrutura social, política e econômica que já durava séculos e o início da democracia, do capitalismo e da atual sociedade.

O Manifesto Cluetrain também com 95 teses é um novo marco? Estamos vivendo uma nova transição entre eras similar à dos tempos de Lutero (1514)?

A chamada cibercultura com seus princípios hacker nos apresenta um manifesto de apenas três teses tão poderoso quanto o de Lutero?

Essa é a tese que conheci nas palavras do Carlos Nepomuceno sobre a Reforma do Consumo e me sinto inclinado a adotar.

Resumindo Lutero

Filho de um mineiro que trabalhou duro para subir na vida (algo novo na época: subir na vida) Lutero teve formação em direito quando conheceu os humanistas da época (também algo novo). Depois que um raio caiu perto dele matando um amigo ele se volta para Deus, mas a fé cristã observada pela sua ótica influenciada pelo estudo de direito, do humanismo e do exemplo do seu pai fez dele um tipo de observador externo.

Além do pai de Lutero outro empreendedores já criavam uma economia (e cultura) à margem da nobreza e do poder religioso do Vaticano.

Por último temos a prensa de Guttenberg criada 50 anos antes, mas duvido que o poder de propagação de idéias em papel e tinta fosse de alguma utilidade se não houvesse apoio da latência (para usar a mesma terminologia do Nepomuceno) crescente tanto do cidadão comum que já sentia os ventos da liberdade quanto dos empreendedores.

A época de Lutero, por esse ponto de vista, reunia:

  1. Esgotamento do paradigma social, cultural e “espiritual” vigente
  2. “Caminhos econômicos” novos
  3. Nova tecnologia de comunicação

Arrisco supor que, de cima para baixo, cada ítem tornou o seguinte possível.

Como um paradigma se esgota?

Se os tempos de Lutero aconteceram porque as pessoas não aceitavam mais a religião e as hierarquias da época devemos nos perguntar porque isso aconteceu.

Sociedades são móbiles que se mantém em equilíbrio graças à existência de uma cultura padrão, comum à maioria dos indivíduos daquela sociedade e regulada por leis somente porque sempre há os transgressores.

Do ponto de vista adotado nesse blog as culturas são arranjos informacionais que, a exemplo dos genes, se multiplicam, transmitem suas características e sofrem mutações.

Informações e culturas inevitavelmente crescem em complexidade da mesma forma que os organismos vivos.

Conforme nossa arte, ciência e filosofia crescem em complexidade também muda a nossa cultura: a consciência está ligada ao conhecimento.

Conforme o conhecimento humano amadurece também amadurecem as sociedades.

Por amadurecimento não quero dizer aprimoramento moral, mas apenas ajuste à nova forma de comprender o nosso mundo e universo.

Para citar um exemplo recente temos a teoria da relatividade de Einstein que tem pouco ou nada a ver com a relatividade da moral, mas parece ter sido uma das influências nessa mudança de paradigma.

Uma cultura (e seus paradigmas) então se torna obsoleta conforme a consciência coletiva se desenvolve.

Desdobramentos da reforma de Lutero

Mesmo que não tenha sido a origem das transformações que se seguiram as 95 teses de Lutero e sua tradução da Bíblia para o Alemão são, no mínimo, o marco divisor ou estopim.

Depois que o poder central da época, o Vaticano, foi partido dando espaço aos protestantes, calvinistas e outros que se seguiram era inevitável que outros setores do poder fossem questionados e outros intermediários fossem postos em cheque: Se não precisamos do padre para falar com Deus porque precisamos do Imperador para tomar decisões que nos dizem respeito?

O que está acontecendo agora?

  1. Teoria das cordas, teoria M, psicologia evolutiva, decodificação do genoma humano, o poder da atração (desculpem, mas acho que essa pseudociência merece estar aqui): estamos passando por um salto científico similar ao dos tempos de Lutero
  2. Livros como Wikinomics, O que a Google faria e Free mostram que a alucinação hacker de um capitalismo cognitivo está se tornando real: as empresas mais influentes do planeta e que mais crescem seguem paradigmas simplesmente opostos ao das antigas onde o compartilhamento e não o segredo é a alma do negócio
  3. Um celular já custou 7 mil Reais, uma linha fixa já custou 7 mil reais na era dos produtos, agora são gratuitos pois a economia é de serviços e todas as tecnologias de comunicação antigas são velozmente rebaixadas ao status de papiros ou pinturas rupestres diante da avassaladora velocidade das novas tecnologias de informação e comunicação

Alguém discorda que vivemos exatamente o que ocorreu no tempo de Lutero?

A história se repete?

Na década passada a IBM, um dos maiores gigantes da economia de produtos, se transformou em uma empresa de serviços. Outras tem seguido o mesmo caminho e as que se recusam não parecem estar indo muito bem. Será que elas serão capazes de mudar para continuar existindo na próxima era?

O Vaticano ainda existe… Algumas empresas modernas (bem poucas é verdade) tem quase mil anos.

Desconfio que ainda não vimos nem a ponta do iceberg das mudanças que estão a caminho e o momento que vivemos é como se um grande volume de água se acumulasse do outro lado da barreira e não fosse possível impedir que ela rompesse restando a quem estiver atento procurar subir para terrenos mais altos ou preparar seus barcos…

O que provoca as mudanças?

Tudo nesse post (e nesso blog) está nos territórios da suposição e os parágrafos a seguir provavelmente vão às raias do delírio afinal essa é uma pergunta que talvez simplesmente não possa ser respondida: a mente (e cérebro) é capaz equacionar as variáveis que a fazem funcionar?

Cientes deste abuso da minha parte aqui vai a suposição. Pelo menos é simples.

Cultura é um fenômeno da informação e da necessidade que nossas mentes (ou cérebros) tem de aplicar sua criatividade sobre ela (a informação) para transmití-la e modificá-la.

Esse impulso nos leva a criar meios tecnológicos, sociais, culturais e jurídicos que garantam que a transmissão e modificação possam ocorrer cada vez mais livremente.

Em contrapartida há os velhos instintos regidos pelos genes que nos impelem a lutar pela sobrevivência e supremacia do nosso corpo acumulando fêmeas, comida, a melhor caverna ou a posse do fogo.

Conclusão

Vou copiar a conclusão do Carlos Nepomuceno:

Estamos vivendo uma mudança de eras tecnológicas e sociais. Resta saber se também caminhamos para uma nova era da consciência.

Não há dúvida que, se o acesso à Internet se espalhar como o livro de espalou no século XVI e se surgirem autores e obras como surgiram nos séculos seguintes estaremos diante de uma profunda mudança de eras que mudará radicalmente nossas formas de governo, nossa economia e praticamente todos os setores da civilização humana.

Compreender como e porque isso está acontecendo é útil para todos nós, mas é questão de vida ou morte para as chamadas pessoas jurídicas que afinal de contas, são seres que só existem dentro da cultura para a qual foram construídos.

Os memes de carbono, nós, os humanos, existimos independentemente da cultura em que vivemos (mesmo que a vida possa se tornar muito difícil como temos visto).

Referências

Rio Info e um momento histórico

Thursday, September 17th, 2009

Na semana passada ocorreu a Rio Info 2009 e tive chance de testemunhar mais um momento histórico que pode não ser lembrado quando os humanos do futuro estudarem os primeiros movimentos que marcaram a transição da era industrial para a era cognitiva, mas certamente tem um peso relevante hoje.

Ocorreu no último dia, sexta-feira, a reunião da Cristina De Luca, Marco Dantas, Carlos Nepomuceno, Martha Gabriel, Wagner Santana, Sérgio Amadeu e Gil Giardeli com uma intervenção preciosa de Corinto Meffe (do portal de software livre do governo) que estava na platéia.

Como ainda não achei nenhum GIP (Google Important Person) que tenha resumido as palestras e o debate farei isso e só depois partirei para as minhas próprias reflexões. Isso pode ficar um pouco longo…

Aliás… vou adotar a abordagem oriental e começar com a conclusão:

Porque o debate foi um momento histórico?

Quando você encontra uma revista na banca de jornal onde a matéria de capa anuncia que “Estamos na era do prosumer onde o poder é Seu!” ficamos com a impressão que a Internet (e note que sempre uso Internet como nome próprio) é um meio de comunicação que permite que o consumidor se una para exigir coisas das empresas.

Não há nisso nenhuma mudança qualitativa, é apenas uma nova etapa na defesa do consumidor.

Nunca vi na capa de uma revista a manchet “Estamos na era do pro-cidadão onde o Poder é seu!” e é isso que estamos testemunhando e muito mais.

Durante sua fala o Nepomuceno sublinhou que “não estamos em uma era de mudanças, estamos em uma mudança de eras”. E ele é um dos pensadores mais “pé no chão” que prefere fazer um contraponto à euforia revolucionária.

Esse foi o momento histórico que testemunhamos: um grupo heterogêneo formado por uma gradação que ia do cético ao deslumbrado com a cibercultura. E quando mentes coerentes se reúnem elas não se limitam a reproduzir memes, elas ajudam a criá-los e transformá-los.

O que estamos assistindo não é a mudança de eras impulsionada pela Internet, mas justamente a criação de novos espaços de convivência (a Internet é um deles) e formas de interação provocados por um processo longo de transormação social que se iniciou a séculos (talvez a mais de 10 mil anos, mas não vou abusar da sua boa vontade agora!) e agora aparententemente está chegando a um ponto de ruptura, um tipo de salto quântico (teoria que afirma que não é possível atingir a velocidade da luz, mas pode-se saltar de uma velocidade próxima para outra centenas de vezes maior em um só impulso) entre duas fases da nossa evolução.

Vou deixar para outros que se sintam inspirados a escrever sobre o que foi discutido a respeito de mais valia, o egoismo natural humano preconizado por Adam Smith pois reconheço as limitações do meu discurso :-)

Prefiro observar que mesmo Marco Dantas – que me parece assumir uma postura mais para o extremo cético – apontou o livro Ligações Perigosas de Chordelos de Laclos escrito em 1782 como um sinal do surgimento das redes sociais virtuais.

A busca por cenexão cognitiva realmente não parece ser uma novidade, mas uma necessidade primitiva da nossa espécie que nada poderá impedir e que se potencializa exponencialmente conforme nossas tecnologias crescem exponencialmente impulsionadas por uma consciência em fervilhante processo de modificação.

O que será a partir de agora? Que sociedade, que política, que sistema econômico, que relações humanas, que famílias, que casas, que culturas, que religiões, que alma teremos amanhã?

Do meu ponto de vista inspirado pela teoria dos Memes é bem provável que isso não dependa de nós, que sejamos apenas marionetes manipuladas por um tipo de consciência coletiva que brinca com nossos instintos. No entanto, ao ver um debate como esse tenho uma esperança romântica que a nossa espécie finalmente esteja pronta para assumir as rédeas da nossa própria evolução.

Pelo menos creio que essa postura otimista seja mais útil para construir um futuro tão favorável para nós quanto para os memes e temes (já viu a apresentação da Susan Blackmore no ted.com?).

O que foi dito na Rio Info?

Bem, feita a conclusão vamos às notas que fiz das palestras.

De Luca

Ela tinha 15 minutos para falar, mas demonstrou um invejável poder de síntese ao ser provocativa em menos de nove minutos.

De Luca nos convidou a refletir sobre o público e o privado, a informação versus o conhecimento e destacou que a melhor forma de se “defender” do online é estar lá (a Rio Info é um evento para empresas).

Sem propor respostas ela nos instigou a pensar no efeito manada e se estamos na Rede para engrossar o caldo cultural ou para dividí-lo.

Marco Dantas

Resgatando a lei francesa de 1850 (e poucos) que permitia que os operadores de telégrafo censurassem as comunicações e a privatização das frequências de rádio no início do século passado (para favorecer o surgimento das rádios privadas) ele parecia sugerir que a Internet também pode passar por processo semelhante e creio, a propósito, que ele é a favor disso a pretexto de controlar ou amenizar o caos.

Naturalmente discordo dele quando comenta que a maioria usa a Internet para falar de futebol, novela e mulher e não como uma ágora informacional. Mas concordo que ainda é menos usada para isso do que eu gostaria.

Finalizando ele lançou a pergunta: pirataria, quem ganha e quem perde?

Carlos Nepomuceno

Ele começou observando que a enorme maioria de filósofos e pesquisadores da época não perceberam a importância que o livro teria ou as mudanças que se seguiriam em função dele como a revolução Francesa e a própria materialização da democracia moderna.

Outro ponto importante, tirado da sua experiência como consultor em gestão do conhecimento para grandes empresas está na constatação da dificuldade que algumas tem em compreender a dualidae colaboração X “eulaboração”, mas que é indiscutível que o arranjo colaborativo elimina o trabalho burro e o repetitivo.

Ele já escreveu dois posts inspirados pelo evento:

Martha Gabriel

Artista digital, especialista em SEO e realidade aumentada e dotada de um ritmo cognitivo que lembra o Luli Radfaher ela fez uma das mais estimulantes e surpreendentes palestras do dia.

Indo da realidade até a virtualidade aumentada passando pela existência online ela nos apresentou a um undo onde todas as coisas terão sua representação online através da popularização dos qrcodes e dispositivos de realidade aumentada.

É uma visão que serviu muito bem para mostrar que o dito mundo virtual já está se torando rapidamente em uma extensão real online dos objetos, pessoas e ideias offline (há ideias offline?)

Durante a apresentação ela comentou alguns exemplos que vale listar aqui:

Wagner Santana

Pouca gente trabalha na práticica os sonhos da cibercultura, ele é um dos que age enquanto pensa e nos falou dos desafios e possibilidades das redes sociais no contexto brasileiro.

Espero obter o link para apresentação dele em breve, mas aqui vão umas poucas anotações que fiz:

  • Núcleo de informática aplicada à educação: http://eurydice.nied.unicamp.br
  • 14,5% dos brasileiros tem alguma deficiência que dificulta experimentação visual, auditiva e comunicativa das redes socias online
  • 74% não são plenamente alfabetizados (não são capazes de ler, entender e sumarizar um texto corretamente)
  • 61% nunca acessaram a Internet (esse dado entra em conflito com outros que dizem justamente o contrário)
  • A seção mais usada da rede social criada por eles, a vilanarede.org.br, é a de Ideias (o que demonstra que o Marco Dantas estava equivocado pelo menos nesse caso a respeito do uso dado pela maioria à comunicação online)

Sérgio Amadeu

Sempre empolgado e profundamente engajado ele fez uma apresentação que sintetizou alguns dos pontos principais a favor dos quais ele vem advogando:

  • As redes sociais online são uma realidade em franco avanço e longe de atingir seu ápice
    • A comunidade Discografia no Orkut (fechada por força da lei) só aprovava participantes que tivessem subido ao menos uma música para a Rede e contava com mais de 800 mil, ou seja, 1 em cada 217 brasileiros já enviaram músicas para a Internet
    • Em 2006 33% dos adultos tinham visto vídeos online, em 2009 62%
    • Adultos com perfil em redes sociais online aumentou 4X entre 2005 e 2009
  • O mito da originalidade
    • Crise da intermediação: o proprietário do conhecimento humano é um intermediário imposto artificialmente

É difícil transcrever as ideias do Sérgio em um breve artigo, mas ele tem extensos artigos que você pode encontrar no link que deixei lá em cima no começo do post.

Gil Giardeli

Uma das principais qualidades do Gil é uma profunda fé no gênero humano e em nossa evolução. A apresentação dele, a exemplo de outras que já tive chance de assitir, é um desfile do que há de mais nobre nas ações humanas online.

Assim que achar a apresentação dele colocarei aqui.

Dança Contemporânea: O Que nos Move – Cia Laso

Thursday, September 3rd, 2009

Fazia tempo que não assistia um espetáculo de dança contemporânea, apesar de ser a forma de arte que mais amo depois da literatura.

Arte é uma metalinguagem que nos permite enxergar o que queremos ver ou aquilo em que estamos pensando.

Justamente por isso saí do espetáculo sem conversar com ninguém e vim pela rua repassando mentalmente cada movimento, frase e sentimento para me certificar se eu estava vendo o que queria e não o que o Carlos Laerte (coreógrafo) e o resto da Cia pretendiam passar.

O espetáculo de quase 1h começa com uma moça vestida de urbanidade, movimentando-se com uma aleatoriedade que surpreende (e uma consciência corporal fora de série à propósito) enquanto um vídeo mostra cenas urbanas.

À partir desse ponto o que vi foi o abandono gradativo das roupagens culturais que nos levam a viver em realidades virtuais, afinal a cultura, qualquer cultura, é uma realidade inventada por nossa consciência (ou pelos memes) e somente na pele, fronteira entre dentro e fora do nosso corpo, está nossa roupa real.

E o que nos move? Quando os bailarinos no palco encontram a harmonia dos movimentos?

O som durante a maior parte do espetáculo não é ritmado de forma clara e quando a música impõe uma batida marcante ela não é o suficiente para explicar o que nos move.

Somente no final, no encontro do ritmo no outro é que, finalmente, encontramos harmonia entre os seis bailarinos.

Como disse, posso estar enxergando apenas o que quero ver, afinal há uma infinidade de situações e relações que são representadas pelas coreografias, mas a espinha dorsal que vejo nesse belo espetáculo da Laso é a mesma que venho tentando explorar nos últimos tempos:

Não é nossa cultura que nos define, cada cultura tem seu tempo, sua posição geográfica. O que nos define é uma consciência comum que se manifesta através da diversidade de culturas que criamos.

O que nos move não é a fome, o medo, o poder ou o amor, o que nos move é o outro.

Se as mudanças que temos chamado de cibercultura são na verdade um movimento muito mais vasto realizado por toda cultura humana e a cibercultura é apenas um reflexo ou até protocultura do tipo de sociedade a que nos dirigimos é natural que aquilo que consideramos cultura digital esteja presente em todas as manifestações humanas, afinal a cultura digital não seria a causa da nova cultura, mas apenas uma região de experimentação onde os princípios da nova cultura são colocados à prova.

Bem, está faltando dizer que, embora não seja um espetáculo feito para quem nunca viu dança contemporânea, além de ser esteticamente belo e estimular áreas de prazer intelectual que muitas vezes estão adormecidas, há alguns textos recitados por uma das bailarinas que ajuda a juntar as pontas mesmo para os neófitos (e não incomoda quem se sente “iniciado”).

Como manipular pessoas na Internet?

Friday, August 14th, 2009

A pergunta acima foi feita por alguém na platéia de mais uma excelente palestra sobre Redes Sociais do @ninocarvalho esta semana no Planetário e está no título deste post por dois motivos:

  • primeiro porque desconfio que essa pergunta é feita frequentemente por assessores de imprensa e de marketing de várias corporações do século XX quando se sentem seguros sozinhos apenas na companhia do Google.
  • Segundo porque acho que ela sintetiza como se sentem as pessoas que ainda não se dedicaram a tentar entender as mudanças culturais que marcam o início da sociedade do conhecimento

Decidi também responder a pergunta, pois, sim, é possível manipular as pessas na Internet embora não seja barato e as consequências sejam as mais terríveis para a empresa e para o emprego de quem a ajudou a manipular pessoas sem dizer que isso jamais deve ser feito e não só por motivos éticos, coisa que poucas corporações possuem, mas porque serão descobertas.

Esse post não pretende portanto ser um guia para quem quer manipular, mas sim um alerta para nós que somos alvo das manipulações.

As pessoas online são diferentes das offline até mesmo no funcionamento do cérebro, mas ainda são pessoas vítimas dos mesmos instintos e de um sistema límbico que para de se desenvolver antes dos 5 anos transformando-nos a todos em crianças quando nos emocionamos.

Sendo assim a fórmula da manipulação é muito simples:

  1. Assuste a pessoa
  2. Emocione a pessoa
  3. Crie um dispositivo que a mantenha presa aos 90 segundos que duram a reação bioquímica das emoções. Se você falhar nisso a pessoa vai usar o córtex frontal superior para analisar suas emoções, raciocinar e começar a criar um grupo de conceitos capazes de protegê-la da próxima onda dos ítens 1 e 2

Sim, o segredo está no item 3, mas tem gente que usa isso muito bem. Vide Mein Kampf e o filme A Terceira Onda.

Pode-se criar um sistema de retro-alimentação convencendo a pessoa de que ela é portavoz de um poder superior. Pode ser um Deus, a razão no caso de muitos ateus, um líder supremo ou simplesmente uma imagem como a camisa de um time de futebol ou a marca de um refrigerante ou computador.

É claro que isso cria uma sociedade esquisofrenica, mas quem está interessado em manipular mentes está mais próximo das máquinas da Matrix do que de Guy Debord, aliás está no extremo oposto.

Não irei além disso nessa questão. Ficarei no alerta: cuidado com o que fala diretamente ao seu medo, suas emoções e suas crenças, essas são as chaves para capturar sua consciência. Não se trata de não ter medo, emoções ou crenças, mas de aprender a deixar os 90 segundos de reação bioquímica passarem e seu sistema límbico deixar seu córtex frontal superior trabalhar. Para mais informações sobre isso sugiro o excelente livro de Jill Bolte Taylor.

Como disse no início do post a vontade de manipular as pessoas online é uma clara demonstração do que sentem muitas pessoas que ainda não olharam a fundo para a Internet e naturalmente não perceberam que ela é consequência e não causa.

Primeiro vieram mudanças culturais e sociais que temos assistido cada vez mais intensamente desde o fim da segunda guerra mundial quando o fascismo despertou o mais profundo grito de liberdade em reação à sua violenta agressão a ela!

Desde então vimos sindicatos se formarem mais rapidamente, mulheres, negros e outras vítimas de preconceito conquistando direitos iguais, a ficção científica passou a deixar de ver o alienígena como um invasor perigoso para encontrar neles companheiros de jornada no desenvolvimento da consciência. Poderia enumerar por páginas e mais páginas os pequenos e grandes avanços da liberdade em cada uma das áreas das artes e conhecimento humanos, mas creio que dá para pescar a idéia.

O que está acontecendo é que desde que o primeiro humano berrou “AHAYAAA” e os outros entenderam que ele estava dizendo “Agora!!!” desenvolvendo pela primeira vez a fala nossos avanços tem crescido exponencialmente e neste exato momento estamos em um ponto de salto quântico (ideia de que não podemos atingir a velocidade da luz, mas podemos saltar diretamente de uma velocidade próxima a ela para outra centenas de vezes superior).

Quem tem mergulhado no caldeirão da cibercultura tem uma visão do que está acontecendo (tome nota: é entre a geração Net que as a cultura do século XXI está sendo forjada) e quem continua vendo a Internet como mais um meio para se comunicar e atingir clientes tem outra bem diferente, ou na verdade bem igual à visão que marcou os dois últimos séculos.

Quando o primeiro grupo avisa o segundo grupo que tudo está mudando, que é necessário colaborar em vez de notificar, influenciar ou divulgar eles se assustam. Acham que estão diante de revolucionários, mas o primeiro grupo se assemelha mais ao Gandalfo da trilogia Senhor dos Anéis: eles estão avisando o que está a caminho e que o anel do poder será destruído por pessoinhas pequenas e simplórias que se recusam a ser manipuladas.

O inimigo da corporação não é a liberdade de pensamento da humanidade, mas a prisão em que elas, corporações, se trancafiaram e de onde não podem ver que por séculos a humanidade vem contruindo formas que nos possibilitarão agir como uma civilização única apesar das nossas diferenças culturais.