Archive for the ‘Administração’ Category

Tudo na Terra pertence aos seres vivos, inclusive a Nokia

Monday, January 11th, 2010

O fechamento do blog NokiaBR sob ameaça de processo feita pela Nokia me fez quebrar um pouco a minha linha editoria para somar minha voz aos protestos.

E ainda outro dia eu falei que só faltava sermos processados por falar bem, pois aconteceu.

O que acontece é que as corporações desenvolveram a visão psicopata de que elas podem ter posse sobre o que não lhes pertence: fórmulas de remédio pertencem à humanidade, o carbono no petróleo pertente a todos os seres vivos, marcas pertencem aos consumidores.

Exato, as marcas Nokia, Apple, Globo, Paramount, Nasa, Monsanto não passam de nomes de grupos cuja causa e função são as pessoas que consomem seus produtos e as consequências das suas ações as tornam servas de todos os seres vivos no planeta.

A lei não nos permite, mas o fato é que, nós humanos, temos direito moral de usar as marcas que nos servem como desejarmos desde que não embuídos de interesses escusos.

Nós temos o direito de usar as marcas para criticar suas falhas, sugerir novos rumos e elogiar o que admiramos.

Falta agora as corporações entenderem o fantástico universo de possibilidades diante delas se entenderem isso.

Cultura Digital e Capitalismo Cognitivo: 14/14 Trabalho de Conclusão

Wednesday, December 9th, 2009

O último dia do curso promovido pelo Pontão da Eco da UFRJ é a nossa contribuição de volta para a coletividade: devemos escrever sobre a experiência do nosso grupo ou coletivo em uma das áreas abordadas durante o curso (todas comentadas em outros posts aqui mesmo no blog), a saber:

  1. As Revoluções da Comunicação: Redes, Software Livre, Copyleft
  2. Capitalismo estético e sistema de autonomia/controle
  3. A Filosofia do Software Livre e a crise da Propriedade
  4. Capitalismo Cognitivo e a emergência da Multidão
  5. O Horizonte da Gratuidade e a Cultura Digital
  6. Copyleft, Pirataria e práticas colaborativas
  7. Creative Commons e Novas Formas de Licenciamento
  8. Economia da Cultura
  9. O Fenônemo das Lan Houses
  10. RadioArte e Práticas estéticas
  11. Redes Colaborativas
  12. Cultura Remix e Microfilmes
  13. Web-arte e Webativismo – Midiarte

Descrição do grupo ou coletivo a que pertenço

Faço parte do coletivo informal auto-organizado frequentemente chamado de blogosfera, mas prefiro o termo digitosfera compreendendo que há um conjunto de princípios que tentem a caracterizar blogueiros, habitantes de redes sociais, tuiteiros, jogadores online, interessados em robótica, ativistas online e outros grupos que utilizam intensamente os meios de comunicação digital podendo-se até incluir os internautas de celular.

Minha participação nesse coletivo se deu em duas fases distintas.

A primeira fase foi na era dos BBS (1994) quando participei mais ativamente do BBS Centroin mobilizando-me pelas causas comuns do grupo, já na época envolvendo principalmente a força coletiva das nossas vozes individuais. A segunda fase iniciou-se recentemente (em 2008) quando me aproximei mais da chamada blogosfera (apesar de manter um blog ativo desde 2002).

Ao longo destes 15 anos a maior parte das  pessoas quem quem tenho convivido são o que chamarei de cibernautas por falta de uma palavra melhor e esse é o meu coletivo: pessoas que vivem intensamente os princípios e tendências da cultura digital.

Experiência abordada

Decidi falar sobre o grupo que se formou para organizar as edições do Twestival no Rio de Janeiro e da forma como ele se organiza em uma rede não centralizada a exemplo das redes colaborativas citadas pela Oona Castro e do modelo OpenSource abordado pelo Sérgio Amadeu.

O Twestival é essencialmente um evento social com o objetivo de promover o encontro offline de frequentadores do Twitter.

Nascido na Inglaterra além do caráter social escolhe-se uma instituição (OSCIP) para ajudar através de arrecadação de recursos.

Houve apenas duas edições do evento até o momento.

Na primeira edição ocroreu a formação espontânea do grupo para organizar o evento da seguinte forma:

Um participante da coletividade (@lesilva) soube da iniciativa inglesa e cadastrou nossa cidade entre as que organizariam uma edição local, mas não teve tempo ou condições de mobilizar outras pessoas e muito menos de assumir todo o projeto sozinho. Em virtude disso o projeto ficou parado até que outras pessoas decidiram se unir a ele faltando apenas uma semana para o dia do evento (adotou-se uma data única para todas as cidades nessa edição).

O grupo formado contava com certa de 10 participantes que agiram sem uma coordenação centralizadora utilizando a rede de comunicação do Twitter e uma lista de emails paa evitar o conflito entre as tarefas a que cada um se dedicava.

Subgrupos também se formaram para algumas atividades mais complexas coornenando-se internamente da forma hierárquica tradicional.

Como resultado o evento foi um sucesso e o Rio de Janeiro, além de atrair quase 80 pessoas em um dia de forte temporal (12/02/2009) foi uma das cidades que mais arrecadou recursos para a instituição esolhida (uma que faz poços de água potável na África).

Na segunda edição o grupo já se encontrava mais preparado e organizado e seria de se esperar que houvesse uma mudança para o modelo tradicional o que não aconteceu e além disso houve mais uma modificação no sentido da formação de uma rede não centralizada de trabalho.

Para a imprensa (o evento tem alguma repercussão na mídia tradicional) elegeu-se uma representante (@claudiaruiva, que foi o elemento que mais se engajou em estimular o grupo na primeira edição), mas o funcionamento interno permaneceu o mesmo com uma diferença.

Na segunda edição, tendo pouco mais de um mês para organizar o evento, o restante da coletividade (tuiteiros) se envolveu naturalmente em várias das atividades de organização e promoção do evento a tal ponto que é difícil definir quantos foram os organizadores e muitas vezes pessoas que não estavam na lista de email se confundiram com o restante.

Apesar da organização aparentemente caótica mais uma vez o evento transcorreu normalmente reunindo mais de 80 pessoas e mantendo a faixa de arrecadação do anterior.

Grupos de trabalho em rede descentralizada

Como um grupo sem uma coordenação centralizada pode funcionar adequadamente? Esse é um modelo que pode ser reproduzido ou deve se formar espontaneamente?

Creio que a formação do grupo foi possível por todos estarem profundamente imersos na cultura digital e já estarem acostumados a interagir além da esfera offline com naturalidade. Por exemplo, não usam chats limitados preferindo o Twitter, não escrevem emails preferindo o mesmo Twitter ou blogs para assuntos menos simples e dominam o uso do email e listas de emails.

Quando surgiu a necessidade de cumprir uma infinidade de atividades em um espaço de tempo muito curto a solução da auto-organização surgiu naturalmente sem necessidade de planejamento.

Creio que grupos semelhantes se formarão naturalmente sempre que houver necessidade semelhante envolvendo pessoas digitais (novamente por falta de palavra melhor).

Assim como fazer uma consulta rápida ao Google pelo celular é um ato corriqueiro para nós a construção de um grupo auto-coordenado também pode ser um impulso natural de cibernautas ou pessoas fortemente inseridas na cultura digital.

O proceso de organização é praticamente instintivo se utilizando das ferramentas de comunicação digital sem esforço como se fossem fala ou o gesto.

Esses grupos se comunicam tão naturalmente entre os meios (principalmente voz, telefone, sms, chat, Twitter e email) que a coordenação central se torna desnecessária visto que eles sabem onde e o que cada um está providenciando a cada momento. É como um bem integrado time de jogadores de volei que sabem pelos gestos, posições e expresão uns dos outros como eles vão receber a bola e para quem vão mandá-la.

Essa é uma forma de organização que se tornará padrão entre grupos fortemente imersos na cultura digital? Não creio, mas me parece que é um modelo eficaz quando há muito para fazer em pouco tempo ou se trata de uma atividade que diz respeito a uma coletividade que deve ser inserida no processo de criação, decisão e execução.

Pontos fortes

Aplicado totalmente o modelo garantiria a decisão coletiva de cada etapa do processo de organização levando ao extremo a idéia de que duas cabeças pensam melhor que uma sugerindo que todas as cabeças pensam melhor que algumas.

Pela experiência como parte do grupo outro ponto forte muito importante é o mesmo que encontramos em redes descentralizadas como a própria Internet e a comunidade Opensource: a falha de um nó não compromete o conjunto.

Quando um elemento ou subgrupo percebe que não tem condições de cumprir a tarefa que lhe foi atribuida ele compartilha essa informação pela rede e logo outros se juntam ou assumem a tarefa. Um exemplo prático no grupo em questão foi em vários momentos quando foi necessário pegar material em um lugar e transferir para outro (como camisas do evento ou prêmios para serem distribuídos entre quem fazia doações para a instituição beneficiada): a informação era passada pela rede sendo assumida por algum nó que avisava “ok, estou perto e posso fazer isso”. Algumas vezes o primeiro nó falhou, mas logo passava a informação para a rede e alguém se prontificava.

Falhas

Há falhas para o modelo em si e falhas da sua implementação nas duas edições do evento que tomei como base.

As falhas na implementação em foco foram principalmente no sentido de não compartilhar totalmente a organização, decisão e execução com a coletividade o que se justifica na primeira edição pela falta de tempo, mas não na segunda.

Em parte a falha se dá justamente porque o aranjo em rede descentralizada não foi planejado, mas um movimento natural do grupo em questão que, em última análise, foram criados em uma cultura de redes centralizadas.

Se por um lado houve o impulso inconsciente de se organizarem dessa forma havia também o impulso consciente de manter o controle. Sendo assim o lugar do evento, a instituição a ser favorecida, a estampa da camisa criada para o evento, o fornecedor das camisas e diversas outras decisões foram tomadas pelo grupo que se mantinha coeso através da lista de emails (foram quase 3 mil mensagens trocadas em menos de um mês).

Essa falha pode ser vista como qualidade se observarmos do ponto de vista que um controle central para certas decisões pode ser necessário para evitar o caos ou a demora exagerada em certas tomadas de decisão embora valha destacar aqui que, na necessidade de uma decisão rápida todos os organizadores tinham autonomia (conferida tacitamente) para agir de acordo com seu próprio discernimento.

Isso destaca outro ponto, pelo menos em organizações de eventos, há uma necessidade grande de confiança. Não é sensato por exemplo jogar em uma rede totalmente aberta que alguém precisa pegar a mala com 3 mil Reais em arrecadação para a instituição beneficiada. Um certo grau de confiança entre os organizadores é necessário e essa é uma falha que podemos apontar no modelo em si e não na implementação.

Por outro lado é fácil pensar em várias atividades em qualquer tipo de empreendimento onde não é necessário um grau de confiança maior bastando a certeza da identificação da pessoa graças a avatares e uma presença online notável em redes sociais e blogs que deixem claro que a pessoa tem mais a perder ao prejudicar sua imagem do que ao tirar qualquer vantagem.

Desdobramentos prováveis para o futuro

Em março de 2010 haverá uma nova edição do Twestival (cujo objetivo será arrecadar recursos para uma instituição que investe na educação em países do terceiro mundo) e será interessante observar como o grupo se desenvolverá.

A suposição é que algumas das deficiências anteriores serão reduzidas e mais decisões serão feitas coletivamente fora do grupo central que deve se caracterizar cada vez mais como um grupo executivo e coautor das decisões estratégicas.

Para isso talvez sejam usados sistemas de enquete online e o gWave que começa a mostrar alguma vocação para esse tipo de organização, mas as ferramentas não importam e sim o impulso coletivista no sentido de formações de redes descentralizadas.

Nas próximas edições, conforme as presenças online se tornem mais consistentes (mesmo com avatares que não revelam adequadamente os rostos os laços tendem a se estreitar graças à intensificação dos encontros online e offline) é muito provável que vejamos uma fronteira menos definida entre o grupo executivo e todos os envolvidos no evento.

Se deixará de haver um grupo que se mantém mais coeso através de uma lista de emails mais consisa acho improvável, mas a cultura digital tem o histórico de nos surpreender e na verdade creio que ess modelo será ao menos testado inconscientemente ou mesmo poderá vir a se impor naturalmente.

Considerações finais

Partindo do caso relatado podemos supor que outros grupos se organizarão da mesma forma e que a influência das novas organizações em redes não hierárquicas se estendem além do universo do desenvolvimento de software ou da cultura digital mostrando-se como uma alternativa aos grupos de trabalho hierárquicos usados em todas as organizações.

É o caso de se pensar até onde e em que ambientes esses modelos organizacionais podem se mostrar mais eficientes que os atuais.

Devemos repensar a forma de integração dos departamentos de uma empresa entendendo que seus departamentos estão começando a se integrar na forma de redes distribuídas e não hierarquizadas como já sugeriu Carlos Nepomuceno?

No processo de adotar esses novos arranjos devemos estar atentos para os casos onde eles não se aplicam ou onde um modelo híbrido se mostraria mais adequado.

Além disso está claro que uma parte essencial do preparo para participar dessas redes está no trânsito natural entre as redes de suporte digital visto que é necessário ser capaz de desenvolver empatia, julgar o caráter, qualidades e deficiências do outro mesmo com pouco ou nenhum contato presencial.

Caso esses arranjos em redes descentralizadas sejam um movimento natural os nossos jovens os implementarão sem grandes esforços, mas o que dizer do período de transição e o que podemos fazer para que ele seja mais suave e com menos percalços?

Como esses arranjos organizacionais serão apropriados pelo meio acadêmico?

Há muitas perguntas a fazer, mas creio que as respostas começam na busca consciente de uma inclusão social online indo além da ideia de inclusão digital.

É a capacidade de transitar pelas redes online como se fossem espaços físicos (parques, salas de estar, cozinhas, praças e bares) que nos preparam para participar de grupos auto-organizados sem um centro hierárquico pois é nessas redes que desenvolvemos as abilidades sociais para interagir na ausencia da expresão física e inflexão de voz e aprendemos a nos comunicar digitalmente (seria melhor dizer online) com a mesma naturalidade que fazemos pessoalmente (offline).

Cultura digital e capitalismo cognitivo 8/14: Economia da Cultura

Sunday, October 18th, 2009

Para saber do que esse post trata veja o primeiro da série que estou escrevendo sobre o curso de Capitalismo Cognitivo do Pontão Eco da UFRJ.

A palestrante foi a Oona Castro do Overmundo, uma das pessoas mais antenadas que encontrei quando se trata da economia alternativa baseada no que pode ser entendido como pirataria.

O objetivo era mostrar um modelo comercial alternativo partindo do exemplo do Tecnobrega de Belém e levantar algumas questões a respeito da pirataria.

Assim que a apresentação estiver no Slideshare coloco-a aqui.

Creio que as características centrais do Tecnobrega são

  • O modelo tradicional do gargalo das distribuidoras, altos custos dos jabas e a falta de atenção a setores muito segmentados era inviável para o movimento iniciado em 2002
  • Contratos de exclusividade comuns na industria fonográfica não é interessante para eles
  • A principal fonte de renda das bandas vem dos shows

Resumindo assim parece-me que o modelo de negócios do Tecnobrega seria melhor também para todos os outros setores da cultura, mas algo impede que o modelo seja largamente adotado.

Durante as entrevistas feitas em 2006 a Oona percebeu dois padrões de comportamento que me parecem dignos de destaque:

  • Apesar de não aceitar os contratos de exclusividade as bandas se sentem privilegiadas ao serem procuradas pelas distribuidoras, é um sinal de status e de sucesso
  • O discurso anti-pirataria está inserido entre eles apesar dela ser sua rede de distribuição

É bem provável que esses dois fatores sejam justamente o que impede a disseminação do modelo por outras regiões e talvez ele só tenha surgido lá em virtude de dificuldades (como o preconceito endêmico contra as regiões Norte e Nordeste) que os impedia o acesso ao filão das distribuidoras.

Inseridos em uma sociedade do espetáculo a promessa (ainda que ilusória) de ser alçado à fama internacional continua convencendo a maioria das iniciativas culturais a se enquadrar no esquema da indústria cultural. Bom exemplo é o “Faça você mesmo” que resumidamente transferia para as novas bandas o trabalho de prospecção de revelações, mas o objetivo ainda era atingir as grandes gravadoras e distribuidoras.

Além disso, como parte de um capitalismo monetário de consumo (em contraposição a um suposto capitalismo cognitivo) é natural que em algum momento o papel do camelô pirata seja visto como um desvio de vendas que poderiam ser revertidas para a banda.

Afinal de contas o Tecnobrega, assim como – desconfio -  a maioria das experimentações, não é um movimento revolucionário ou mesmo de protesto ideológico, é apenas o resultado da busca por um modelo de negócios que funcione visto que o atual não é viável para eles.

Uma breve gênese do combate à pirataria

Me chamou a atenção foi saber que a maior parte dos recursos para combater a pirataria não vem do governo, mas da própria indústria da propriedade intelectual e, apesar disso o confronto se estende às políticas internacionais quando um governo usa de sanções comercias para pressionar o outro a combater a pirataria em seu território.

É um tema que merece aprofundamento.

Notas de aula

  • Legal commons e Social Commons (Ronaldo Lemos) – Inglês
  • É comum atribuir o relacionamento da pirataria com o crime organizado ao livro Ilícito de Moisés Nain
  • O artigo 184 do código penal tipifica o crime de pirataria
  • As estimativas de prejuízos provocados estão inchados, por exemplo, pela idéia equivocada que a pessoa que compra um DVD de 10 Reais teria comprado o de 60 se não tivesse essa opção.

A reforma de Lutero e o século XXI

Friday, October 2nd, 2009

Quando Martinho Lutero fixou suas 95 teses na porta de uma igreja convidando os letrados a discutí-las poucos notaram, mas provavelmente estava dada a partida em uma série de mudanças que marcaria o fim de uma estrutura social, política e econômica que já durava séculos e o início da democracia, do capitalismo e da atual sociedade.

O Manifesto Cluetrain também com 95 teses é um novo marco? Estamos vivendo uma nova transição entre eras similar à dos tempos de Lutero (1514)?

A chamada cibercultura com seus princípios hacker nos apresenta um manifesto de apenas três teses tão poderoso quanto o de Lutero?

Essa é a tese que conheci nas palavras do Carlos Nepomuceno sobre a Reforma do Consumo e me sinto inclinado a adotar.

Resumindo Lutero

Filho de um mineiro que trabalhou duro para subir na vida (algo novo na época: subir na vida) Lutero teve formação em direito quando conheceu os humanistas da época (também algo novo). Depois que um raio caiu perto dele matando um amigo ele se volta para Deus, mas a fé cristã observada pela sua ótica influenciada pelo estudo de direito, do humanismo e do exemplo do seu pai fez dele um tipo de observador externo.

Além do pai de Lutero outro empreendedores já criavam uma economia (e cultura) à margem da nobreza e do poder religioso do Vaticano.

Por último temos a prensa de Guttenberg criada 50 anos antes, mas duvido que o poder de propagação de idéias em papel e tinta fosse de alguma utilidade se não houvesse apoio da latência (para usar a mesma terminologia do Nepomuceno) crescente tanto do cidadão comum que já sentia os ventos da liberdade quanto dos empreendedores.

A época de Lutero, por esse ponto de vista, reunia:

  1. Esgotamento do paradigma social, cultural e “espiritual” vigente
  2. “Caminhos econômicos” novos
  3. Nova tecnologia de comunicação

Arrisco supor que, de cima para baixo, cada ítem tornou o seguinte possível.

Como um paradigma se esgota?

Se os tempos de Lutero aconteceram porque as pessoas não aceitavam mais a religião e as hierarquias da época devemos nos perguntar porque isso aconteceu.

Sociedades são móbiles que se mantém em equilíbrio graças à existência de uma cultura padrão, comum à maioria dos indivíduos daquela sociedade e regulada por leis somente porque sempre há os transgressores.

Do ponto de vista adotado nesse blog as culturas são arranjos informacionais que, a exemplo dos genes, se multiplicam, transmitem suas características e sofrem mutações.

Informações e culturas inevitavelmente crescem em complexidade da mesma forma que os organismos vivos.

Conforme nossa arte, ciência e filosofia crescem em complexidade também muda a nossa cultura: a consciência está ligada ao conhecimento.

Conforme o conhecimento humano amadurece também amadurecem as sociedades.

Por amadurecimento não quero dizer aprimoramento moral, mas apenas ajuste à nova forma de comprender o nosso mundo e universo.

Para citar um exemplo recente temos a teoria da relatividade de Einstein que tem pouco ou nada a ver com a relatividade da moral, mas parece ter sido uma das influências nessa mudança de paradigma.

Uma cultura (e seus paradigmas) então se torna obsoleta conforme a consciência coletiva se desenvolve.

Desdobramentos da reforma de Lutero

Mesmo que não tenha sido a origem das transformações que se seguiram as 95 teses de Lutero e sua tradução da Bíblia para o Alemão são, no mínimo, o marco divisor ou estopim.

Depois que o poder central da época, o Vaticano, foi partido dando espaço aos protestantes, calvinistas e outros que se seguiram era inevitável que outros setores do poder fossem questionados e outros intermediários fossem postos em cheque: Se não precisamos do padre para falar com Deus porque precisamos do Imperador para tomar decisões que nos dizem respeito?

O que está acontecendo agora?

  1. Teoria das cordas, teoria M, psicologia evolutiva, decodificação do genoma humano, o poder da atração (desculpem, mas acho que essa pseudociência merece estar aqui): estamos passando por um salto científico similar ao dos tempos de Lutero
  2. Livros como Wikinomics, O que a Google faria e Free mostram que a alucinação hacker de um capitalismo cognitivo está se tornando real: as empresas mais influentes do planeta e que mais crescem seguem paradigmas simplesmente opostos ao das antigas onde o compartilhamento e não o segredo é a alma do negócio
  3. Um celular já custou 7 mil Reais, uma linha fixa já custou 7 mil reais na era dos produtos, agora são gratuitos pois a economia é de serviços e todas as tecnologias de comunicação antigas são velozmente rebaixadas ao status de papiros ou pinturas rupestres diante da avassaladora velocidade das novas tecnologias de informação e comunicação

Alguém discorda que vivemos exatamente o que ocorreu no tempo de Lutero?

A história se repete?

Na década passada a IBM, um dos maiores gigantes da economia de produtos, se transformou em uma empresa de serviços. Outras tem seguido o mesmo caminho e as que se recusam não parecem estar indo muito bem. Será que elas serão capazes de mudar para continuar existindo na próxima era?

O Vaticano ainda existe… Algumas empresas modernas (bem poucas é verdade) tem quase mil anos.

Desconfio que ainda não vimos nem a ponta do iceberg das mudanças que estão a caminho e o momento que vivemos é como se um grande volume de água se acumulasse do outro lado da barreira e não fosse possível impedir que ela rompesse restando a quem estiver atento procurar subir para terrenos mais altos ou preparar seus barcos…

O que provoca as mudanças?

Tudo nesse post (e nesso blog) está nos territórios da suposição e os parágrafos a seguir provavelmente vão às raias do delírio afinal essa é uma pergunta que talvez simplesmente não possa ser respondida: a mente (e cérebro) é capaz equacionar as variáveis que a fazem funcionar?

Cientes deste abuso da minha parte aqui vai a suposição. Pelo menos é simples.

Cultura é um fenômeno da informação e da necessidade que nossas mentes (ou cérebros) tem de aplicar sua criatividade sobre ela (a informação) para transmití-la e modificá-la.

Esse impulso nos leva a criar meios tecnológicos, sociais, culturais e jurídicos que garantam que a transmissão e modificação possam ocorrer cada vez mais livremente.

Em contrapartida há os velhos instintos regidos pelos genes que nos impelem a lutar pela sobrevivência e supremacia do nosso corpo acumulando fêmeas, comida, a melhor caverna ou a posse do fogo.

Conclusão

Vou copiar a conclusão do Carlos Nepomuceno:

Estamos vivendo uma mudança de eras tecnológicas e sociais. Resta saber se também caminhamos para uma nova era da consciência.

Não há dúvida que, se o acesso à Internet se espalhar como o livro de espalou no século XVI e se surgirem autores e obras como surgiram nos séculos seguintes estaremos diante de uma profunda mudança de eras que mudará radicalmente nossas formas de governo, nossa economia e praticamente todos os setores da civilização humana.

Compreender como e porque isso está acontecendo é útil para todos nós, mas é questão de vida ou morte para as chamadas pessoas jurídicas que afinal de contas, são seres que só existem dentro da cultura para a qual foram construídos.

Os memes de carbono, nós, os humanos, existimos independentemente da cultura em que vivemos (mesmo que a vida possa se tornar muito difícil como temos visto).

Referências

Livros na era digital

Sunday, April 19th, 2009

Essa semana um amigo meu que é escritor e considera a Internet um tipo de balaio de má literatura me pediu para escrever um artigo respondendo:

Livros na era digital. Quem ganha, quem perde e como estar no primeiro grupo

Será uma tarefa complicada pois ele me pediu fatos e não opiniões, mas ainda é cedo para dispormos de fatos seguros e eu sempre fui uma pessoa de opiniões muito mais do que de fatos pois gosto de olhar para os futuros prováveis ou desejáveis.

Decidi dar a minha opinião e fazer as minhas previsões antes de pesquisar mais a fundo os dados sobre como está o livro nestes primeiros momentos da era da cibercultura onde todo conhecimento se propaga livremente.

  1. Livro é papel com tinta ou são palavras esculpidas contando histórias, transmitindo conhecimento e transforando nossa forma de ver o mundo? O que está em jogo é o fim do livro de papel, não do livro
  2. No futuro próximo apenas livros especiais serão impressos, aqueles cuja arte ou profundidade pedem também a interação lúdica do toque das páginas, do olhar apreciativo da sua lombada na estante
  3. Os leitores (como o Kindle) estarão conectados à Internet e carregarão dezenas ou mesmo centenas de livros que poderemos ler e compartilhar a todo momento com nossos amigos offline e online
  4. Poderemos interagir com nossos livros criando versões alternativas, novos finais e até novos começos para eles. As fanfics já são vastas encubadoras de futuros autores
  5. Alguns desprezam os escritores online como aqueles que não foram capazes de atrair a atenção dos editores e portanto não possuem qualidade, mas essas pessoas desconhecem a meritocracia do Page Rank e da memética das redes sociais que qualificam os bons autores separando-os dos medianos
  6. Assim como a eugenia era uma ação pueril frente à ditadura dos genes que ditam nossa reprodução sem limites estamos também presos aos designios dos Memes que desejam que absolutamente todos possam produzir cultura e conhecimento: a proliferação de escritores e outros artistas fora dos corredores eugênicos da indústria cultural é inevitável
  7. O segredo do sustento do escritor do futuro que deseja viver apenas do que escreve (vários blogueiros já fazem isso com sucesso) está no desenvolvimento de uma nova moral onde pagaremos espontaneamente pelos trabalhos que gostamos pois teremos certeza que é o artista, e não uma empresa, que estará recebendo nosso dinheiro.
  8. As editoras e livros de papel já não são mais uma forma eficiente para levar os livros até o leitor e isso manterá na obscuridade vários bons autores que se submeterem ao modelo antigo enquanto autores medíocres alcançarão grande sucesso graças a sua difusão online (isso já acontece)

Então vamos lá…

Livros na era digital. Quem ganha, quem perde e como estar no primeiro grupo

O quadro atual

Neste momento o espaço virtual vem sendo usado para vender livros de papel.

Podemos visitar páginas especiais de cada lançamento, ler online o primeiro capítulo, seguir editoras no Twitter (@oleitorvoraz da Ediouro) ou mesmo fazer buscas em  livros 100% digitalizados no Google.

No entanto a maioria das editoras e autores faz o possivel para restringir o acesso ao conteúdo dos seus livros o que se nota em uma busca rápida no Google Books: a maioria dos livros tem somente pequenos trechos liberados para leitura online.

À margem dos mercados editoriais surgem blogueiros escritores ou escritores blogueiros que, vez por outra, acabam sendo descobertos pelo mercado editorial e promovidos ao status de escritores de verdade. Boa parte desse mercado é composto por jovens que escrevem fanfics.

No momento a leitura de livros em telas não é tão confortável quanto em papel.

Nos desktops e notebooks o brilho incomoda os olhos e em celulares e PDAs o tamanho das telas dificulta a leitura.

Além disso o processo de digitalização dos livros é mais complexo e demorado do que o processo para músicas e filmes e isso restringe a pirataria de livros aos que chamam mais atenção do público.

Quem ganha

Darwin nos deu essa resposta e Richard Dawkins nos ajudou a perceber que ela também vale para a cultura: o venceder é aquele que se adapta.

O problema nesse momento é perceber realmente como o mundo está mudando.

A Internet mudou o mundo ou foi nossa cultura que mudou e por isso criou a Internet? Ou seja, estamos diante de uma moda que vem de fora para dentro ou de um movimento interno que promove a transição entre paradigmas?

Vamos supor o pior (ou melhor) quadro: os livros de papel e tinta desaparecem totalmente. Quem ganha?

Livros digitais podem ser copiados e pirateados com mais facilidade então ganha quem não tem dinheiro para obter livros ou é desonesto e não deseja pagar pelo que consome.

Livros digitais não tem peso então ganham os estudantes que não terão que carregar vários tijolos de papel para as escolas ou faculdades.

Também são os alunos e estudantes que ganham com a facilidade de busca de conteúdo.

Livros digitais tem margens infinitas. Os leitores poderão fazer vastos comentários sobre o que estão lendo e até compartilhar seus comentários com outros leitores, conhecidos ou não. A leitura de um livro não precisará mais ser um ato solitário e poderemos encontrar outros fãs do que estamos lendo como nunca antes foi possível.

Ganham as editoras que se adaptarem e deixarem de vender papel e tinta passando a interagir com aspirantes a escritores e leitores

Quem perde

Livros de papel proporcionam uma leitura com início, meio e fim. Há toda uma relação lúdica no manuseio do papel então perde-se a liturgia da leitura e da manipulação respeitosa do conhecimento, mas isso é uma opinião e este deve ser um artigo objetivo com fatos e não opiniões.

Falemos então em dinheiro.

Issso depende do futuro:

  • Os livros digitais jamais existirão: quem se atirar nesse mercado investirá tempo e dinheiro que jamais dará retorno
  • Os livros digitais se tornam comuns apenas em certos nichos: perde quem não for capaz de identificar esses nichos
  • Os livros digitais se tornam o padrão do mercado: perdem as empresas que trabalham no mercado atual e não se adapatarem

Um bom exemplo de futuro provável está no mercado de músicas e de filmes.

Enquanto a maior parte da indústria insiste em vender CDs, DVDs e Blu-rays a Apple montou sua loja para vender músicas e filmes digitais. Já faz algum tempo que se tornou a maior loja dos EUA.

É possível também que as editoras passem a privilegiar os autores que obtiverem sucesso na meritocracia online passando a ignorar a intuição e bom senso dos seus editores.

Caso isso aconteça bons autores terão dificuldade de encontrar público se não forem capazes de usar a Internet para se fazer conhecer já que as editoras estarão concentradas somente nos livros que já sabem que serão sucessos de vendas.

Como estar entre os ganhadores

Haverá vencedores fazendo livros de papel e tinta, haverá vencedores fazendo livros de bits. O segredo está compreender a nova cultura.

Quem comprará livros de papel? Quem comprará livros digitais? Qual é a forma correta de chegar a esses compradores? Que títulos cada um deles buscará?

As respostas a essas perguntas valem bilhões de dólares pois são a diferença entre a falência e o sucesso.

Leitura recomendada