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À diretora Eulália Maria Wanderley de Lima

Friday, January 8th, 2010

Essa mensagem é um apelo ao diálogo, ao bom senso e à liberdade de expressão.

É certo que a resposta correta a um ato público de difamação é o processo em busca de indenização moral (como se nossa honra pudesse se comprada, mas esse é um tema que pertence ao século XX e aqui eatamos diante de princípios para o século XXI).

A difamação a que me refiro é o comentário deixado no blog liberdade.blogueisso.com que culminou na condenação do blogueiro Emílio Moreno a pagar uma indenização de 5,5 mil Reais (após negociar o valor inicial de 16 mil).

Sou um observador externo, um cidadão como qualquer outro que só soube desse caso pelos ecos na mídia no boca a boca.

Tudo que pude saber do caso já que a agressão à senhora foi retirada do ar após solicitação legal, que criticaram sua atuação em uma briga entre alunos em sua instituição, que seus advogados a instruiram a abrir processo indenizatório e que a senhora não pode ir nas 4 primeiras audiências indo apenas na primeira em que o acusado não pode ir.

É claro que a decisão da justiça foi acertada e o comentário foi difamatório, mas quando as coisas acontecem online estamos lidando com uma nova cultuta emergente onde a sociedade se sente no dever de participar coletivamente das questões que envolvem a expressão de opiniões.

Caso a senhora tivesse mantido o comentário ofensivo e demonstrado que ele era improcedente a coletividade se colocaria ao seu lado, mas como a agressão não está mais disponível e portanto também o seu direito de resposta resta ao público julgar por suposição e comparação.

A comparação já se coloca contra a senhora pois, muito embora se diga que a Internet é uma terra sem lei, o que vemos mais frequentemente é justo o contrário: há inúmeros casos de políticos que censuram blogs e jornais, estabelecimentos ruins que procuram calar clientes insatisfeitos e pessoas que se aproveitam da indústria da indenização.

Estou certo que a senhora não está junto de nenhum desses grupos, mas por analogia muitos pensarão o contrário como se nota nos comentários no artigo do G1. Alguns provavelmente mais agressivos que o comentário original que inspirou o processo contra o Emílio Moreno. Outros sugerem que a senhora teria faltado propositalmente às audiências aguardando que o réu faltasse sem justificativa. Enfim, o processo envolto em dúvidas tem um poder difamatório muito maior do que o comentário que foi retirado do ar.

O segundo critério que ficará por conta da imaginação pública é: qual era o teor do comentário condenando sua atuação na briga? Continha difamação? Injúria? Calúnia? E se não era calúnia e o que está acontecendo realmente é que estão tentando encobrir um sério desvio de conduta da senhora?

As pessoas pensarão coisas assim e a melhor forma de impedir isso seria a publicação da ofensa acompanhada da decisão da justiça e do apoio dos seus alunos e outras pessoas que respeitam seu trabalho e personalidade.

No entanto não é justo dar tanto prestígio a alguém que não teve honra e fez a crítica anonimamente se aproveitando do blog alheio.

Aqui entra meu apelo que visa o melhor para todas as partes: A justiça já deixou claro que a ofensa à senhora foi indevida e ilegal, a senhora já obteve justiça e agora tem chance de mostrar que esse era seu único interesse abrindo mão da indenização ou permitindo que ela seja doada a uma instituição de caridade.

Isso apagaria todas as dúvidas sobre a questão e ainda nos deixaria a chance de transformar o incidente em uma oportunidade para beneficiar uma instituição que, sugiro, seria escolhida em votação online por moradores de Fortaleza.

Internet e direitos do consumidor

Saturday, December 5th, 2009

A lei, através de códigos como o do Consumidor, nos garante o direito de reclamar quando nos sentimos mal atendidos, no entanto, se para muitos de nós a Internet é um espaço de convivência como qualquer outro, para a justiça talvez ela não seja.

A questão é saber se um dia teremos o direito de comentar com nossos amigos online o que achamos errado ou se esse recurso nos será negado e teremos que nos restringir ao boca-a-boca pessoalmente ou por telefone.

Creio que para a maioria das pessoas que usam a Internet (cerca de 70 milhões de brasileiros) ela é um espaço para exercer o direito de opinar, vedado, claro, o anonimato, a calúnia, a injúria ou a difamação.

Essa semana tive o privilégio de estar bem perto do centro de uma manifestação coletiva de que a liberdade de expressão é um desejo geral.

Em 2006 minha esposa escreveu em seu blog que não gostou do atendimento de um médico (esse link é para o post original no Internet Archive), caso que já comentei esse ano no post A Invisibilidade Corrompe.

A justiça considerou que não temos o direito de comentar online quando não gostamos de um atendimento e a condenou a pagar quase três mil Reais ao médico.

Na segunda feira passada saiu a sentença final e ela comentou com os amigos:

Demorou, mas saiu a sentença q me obriga a pagar R$2.940,00 de danos morais por ter criticado um médico no blog…

Link para o post original

Afinal de contas, se no passado nos comunicávamos com os amigos por voz ou carta, hoje usamos email, chat, blogs e Twitter.

O que ocorreu em seguida me parece muito significativo.

Dois amigos, @Lebravo e @S1mone (que conhecemos no ciberespaço) resolveram organizar uma Vakinha.com para nos ajudar a pagar a indenização e em pouco mais de 24h já foi arrecadado mais de 70% do valor e há pagamentos esperando confirmação que ultrapassarão os 100% ( valor excedente será doado a uma instituição de caridade e gostaria que o médico fizesse o mesmo com a sua parte).

Mais significativo do que isso são os números de pessoas que se solidarizaram com o caso e leram o post (preservado automaticamente pelo Internet Archive): mais de 8 mil no site da Vakinha e um número maior difícil de medir devido à repercussão no Twitter e em blogs.

A @claudiamello pode ser uma pessoa amada e respeitada por seus amigos, mas creio que a mobilização se deu com tamanha intensidade porque o desejo de poder expressar nossa opinião online não é um capricho, mas uma necessidade praticamente visceral, talvez sem saber tenhamos criado a Internet justamente para que o cidadão comum possa se liberdar das restrições das formas antigas de comunicação.

Ao meu ver esse caso, ao lado de muitos outros (vou adicioná-los ao fim desse artigo) são o grito de uma população que busca a maturidade da democracia e não aceita mais que as leis sejam usadas para proteger o erro e punir o acerto.

Nós estamos profundamente comovidos com o carinho a ajuda que recebemos para superar esse obstáculo e entendemos que, em respeito a todos, temos a responsabilidade de não nos calar e fazer por outros o que fizeram por nós.

O primeiro passo é nos mobilizarmos coletivamente pela criação de um marco civil na Internet brasileira que nos garanta nossos direitos para que nunca mais um cidadão seja punido por exercer o seu direito democrático ou de consumidor.

Links

Note-se que na maioria dos casos não há dúvida que o blog foi calado para privar a população em geral de informações a que ela tem direito.

Combate aos torrents ou “como dar um tiro no pé”

Friday, November 27th, 2009

Acho impressionante a miopia da indústria de entretenimento que insiste em chamar seus clientes de ladrões.

Parece um caso de ganância suicida que as impede de perceber que são empresas de venda de cultura e não de resina e metal dos CDs e DVDs.

Na percepção popular se o pirata consegue ter lucro vendendo a dez Reais (e as próprias distribuidoras adotam preços similares um ano depois do lançamento) então os preços de 40 e até 60 Reais só podem significar uma coisa: estamos sendo roubados! E ladrão que rouba de ladrão…

Está claro para uma vasta quantidade de pessoas que ao dificultar o acesso a torrents e outras formas de baixar conteúdo a migração não será para os caríssimos CDs e DVDs oficiais e sim para os piratas da esquina, que a propósito não são reprimidos pela polícia.

A mensagem para o cidadão comum é clara: Nós queremos seu dinheiro e não confiamos em você.

Que tipo de empatia o cliente pode desenvolver por uma indústria assim?

Nada acontecerá com o mundo em 2012 apesar das profecias maias, entretanto temo pelo futuro da indústria de entretenimento se ela não abandonar a ganância e não olhar para os seus clientes.

Há dois grandes grupos de pessoas que baixam seriados, filmes e músicas da Rede:

  • Quem não tem dinheiro para pagar os preços exorbitantes
  • Quem jamais compraria aquilo, mas quer dar uma olhada para conhecer

Existe um terceiro grupo bem pequeno, mas que pode aumentar com a perseguição contra o ato lícito dos dois grupos acima: o chamado pirata.

Já que 2012 está ai e a moda é fazer profecias vou arriscar algumas.

Em 2011 surgirá uma produtora cultural que estampará com grande destaque o seguinte na sua tela de entrada:

Somos uma empresa que faz arte e cultura e não um monstro sedento por capital. Baixe livremente toda nossa produção e pague quanto achar justo, se achar justo: Nossa arte tem apenas um proprietário, a Humanidade

O lugar comum dirá que ela irá à falência pois ninguém pagará, afinal todos são ladrões.

Bem…

Essas pessoas nunca foram a Alcântara no estado do Rio de Janeiro.

Alcântara é um bairro do município de São Gonçalo, uma daquelas regiões que os moradores das cidades mais famosas insitem em chamar de periferia ou cidade satélite ignorando como essas regiões muitas vezes são bastante desenvolvidas comercialmente.

Lá existem diversos bares onde multidões esfomeadas pedem seus refrigerantes e pastéis chineses até se fartarem e depois pagam a conta.

Sim, as pessoas comem quase sem controle do estabelecimento e depois informam direitinho quanto consumiram. Elas não saem de fininho sem pagar.

Esse fenômeno não é exclusividade de zonas injustamente consideradas pobres e inferiores. É comum também nas regiões ricas consideradas, e me atrevo a dizer que também injustamente, como individualistas e corruptas.

A enorme maioria das pessoas trata com respeito e honestidade quem as trata com respeito e honestidade. Se não fosse assim os bares de Alcântara teriam falido há muito tempo.

Essa é a lição que a indústria precisa perceber ao custo da sua sobrevivência. Os inimigos não são as pessoas que gostam da sua produção e a consomem sem pagar, o inimigo é sua ganância que a faz falhar na hora de se colocar ao lado do seu cliente e colaborador.

Temos um bom exemplo dessa falha na trilogia Senhor dos Anéis.

Sou um fã apaixonado. Li os livros pela primeira vez em uma semana quando tinha 11 anos. Depois disso já reli umas quatro vezes. Quando o último filme entrou em cartaz passei 12 horas dentro do cinema revendo as versões extendidas dos dois primeiros e depois o terceiro. Quando O Retorno do Rei terminou eu estava em prantos… Os olhos ainda enchem de lágrimas enquanto escrevo… O cinema ficou vazio enquanto eu chorava e uma funcionária limpava o chão sob meus pés.

Sim, Senhor dos Anéis me marcou profundamente!

Mas demorei muitos anos para comprar a trilogia em DVD.

Esperei ansiosamente pelo lançamento da versão extendida dos três filmes no Brasil, mas a Warner decidiu que o meu dinheiro e de todos os outros ardorosos fãs brasileiros de Tolkien (alguns bem mais ardorosos que eu, acredite) não lhe interessa.

Até hoje não vi a versão extendida do último filme e só tenho os DVDs nacionais porque vieram de brinde em outra compra.

É claro que eu posso importar o pacote com as versões extendidas, mas há também a questão das áreas…

Para nos obrigar a comprar a mesma obra duas vezes ou mais os DVDs comprados em uma área só funcionam naquela área. Se você é de outro país precisa se satisfazer com o que eles decidirem (ou não) te vender.

A propósito meu DVD é desbloqueado o que não duvido que seja mais alguma forma de crime, afinal que direito tenho eu de ser fã de animes japoneses?

Em todo caso, se a Warner não quer meu dinheiro será que devo dá-lo a ela importando os filmes? Ou deveria (coisa que nunca fiz por incrível que pareça) baixar as versões extendidas da obra que tanto influenciou minha infância e até hoje me emociona?

Seja qual for a resposta há uma certeza: a indústria de entretenimento não é nossa amiga, ela não trabalha para nós e sim contra nós. No lugar de nos conquistar com sua transparência e senso de coletividade ela nos ameaça com leis e espiões ávidos por nos extorquir dinheiro ou nos punir por gostar tanto de uma obra que cometemos o pecado supremo de escrever uma fantasia inspirada nela, uma fanfic, mas isso merece outro post inteiro do tamanho desse.

Campus Party: Levante sua voz

Saturday, January 24th, 2009

Há momentos em que é preciso berrar…

A Campus Party não é o maior evento de tecnologia da atualidade (embora seja isso também), ela é a encubadora de uma nova cultura que clama antes de mais nada por democracia e liberdade de expressão.

Internet e cibercultura se tratam de interlocução, de pessoas comuns que podem exercer sua cidadania de forma direta.

Ontem assistimos aqui a um debate sobre o projeto de lei dos cibercrimes, também conhecido como projeto Azeredo pois este senador tem se mobilizado para aprovar o projeto que tramita há 12 anos.

Este com certeza foi o momento mais importante da Campus Party 2009 pois o projeto é um ataque direto ao principal instrumento da democracia participativa e direta que nasce agora no início do século XXI.

Até ontem nossa voz só era ouvida por nossos amigos mais próximos. Quando víamos uma notícia ou uma decisão política eramos apenas espectadores sem possibilidade de interferência, de interlocução.

Agora, neste exato momento, se você vê algo importante a compartilhar você PODE. Você sempre poderá pois não há como impor censura prévia na Internet, mas…

… Caso o projeto de lei de cibercrimes seja aprovado você terá medo de se expressar.

A liberdade de expressão apoiada pela Internet é uma grande ameaça a uma estrutura de poder estabelecida entre mídia, governos e corporações.

O poder estabelecido está acostumado a comunicar e não a interagir com seu ouvinte, mas nós queremos ser interlocutores do nosso tempo.

A pressa em aprovar a criminalização dos cibercrimes não vem de um apelo popular, mas dos interesses do poder estabelecido que defende uma forma de democracia que não é mais suficiente.

Estamos vivendo a transição da democracia representativa para a democracia participativa ou hiperdemocracia como alguns tem chamado.

O clamor popular é que nós desejamos ser ouvidos! Nós queremos produzir nossas próprias notícias e vídeos.

O que já vemos hoje são pessoas comuns sendo processadas por políticos, empresas e oportunistas por terem OPINADO online. Depois da aprovação das novas leis esses processos não serão mais processos civis, serão processos criminais. A mera cópia de uma música poderá ser punida com pena de 1 a 3 anos de prisão.

As leis são criadas e modificadas de acordo com o desenvolvimento da moral, elas não podem jamais ser usadas como uma forma de impedir esse desenvolvimento. Está na hora de estabelecer leis civis garantindo os nossos direitos e limites de cidadania online e não de criar dispositivos penais que limitem nossos direitos.

O projeto de leis contra os cibercrimes é absolutamente incapaz de impedir ou mesmo desestimular o crime online, ele só será eficaz contra o cidadão comum que usa a Internet para exprimir suas opiniões.

Até mesmo um adolescente é capaz de instalar uma rede TOR em seu computador e navegar absolutamente incognito na Internet ficando além do alcance dos braços da lei que se não foi criada para isso propositalmente na prática só poderá ser usada para desestimular a prática da democracia.

Duvido que os palestrantes que defenderam o projeto de lei estejam agindo de má fé, mas agem sem compreender plenamente a tecnologia moderna e menos ainda as transformações sociais e culturais que hoje são chamadas de cibercultura.

É necessário limpar tanto o discurso que defende a criação das medidas repressoras quanto os que mostram suas falhas então aqui vou eu.

A favor da lei de cibercrimes

  • No Brasil não há crime se não há lei que o defina então hoje não é crime clonar cartões, roubar senhas, criar e disseminar virus por exemplo
  • Hoje tribunais de justiça gastam uma fortuna em dispositivos de segurança para proteger milhões de processos armazenados em seus computadores (argumento falho pois esses gastos não deixarão de ser necessários ou alguém deixa o carro aberto na rua pq há uma lei que criminaliza o roubo de carro?)
  • Há um grande custo para a sociedade em decorrência da quantidade de crimes online e por isso temos que correr para definir leis para reprimir esses crimes mesmo ao custo de não definir os marcos regulatórios cíveis antes que seria o curso normal da criação de uma nova lei.
  • Vários países já assinaram a convenção de Budapeste (bem similar a este projeto de lei)

Entre os slides apresentados durante a defesa do projeto apareceram rapidamente algumas imagens de adolescentes e pessoas aparentemente comuns ao redor de computadores: eram imagens ilustrativas dos criminosos.

Contra a lei de cibercrimes

De acordo com Ronaldo Lemos,  mestre em Direito pela Universidade de Harvard, doutor em Direito pela Universidade de São Paulo e Diretor do Projeto Creative Commons no Brasil.

  • A convenção de Budapeste é duramente criticada tendo sido adotada apenas por países de primeiro mundo que já estabeleceram de forma madura os marcos cíveis necessários. Mesmo assim os Estados Unidos por exemplo só assinaram a convenção em 2007 e depois de cortar 11 itens e além disso, após a posse de Barak Obama imediatamente houve um movimento de afastamento destas leis consideradas repressoras.
  • O Brasil não participou da criação da convenção de Budapeste e é política do nosso país não assinar convenções que não foram criadas com a sua participação
  • Essas leis corroem nosso poder de inovação pelo medo de sair diretamente da legalidade para condição de criminoso ao fazer algo que, no texto vago e impreciso do projeto de lei, pode ser considerado crime.
  • O mesmo juiz que julga sequestros e outros crimes teria que julgar, por exemplo, o crime de reclamar em um fórum do mau atendimento de um prestador de serviços ou empresa.
  • A pena para o crime de copiar as músicas de um iPod para um computador será de 1 a 3 anos de prisão
  • Por último, mas não menos importante, caberá ao Estado pagar pelas ações de crime online. (a percepção de alguns internautas no Twitter era de que essas leis acabarão sendo usadas por empresas para processar cidadãos às custas do nosso governo para defender a sua propriedade intelectual)

De acordo com Sérgio Amadeu da Silveira (sociólogo e Doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo)

  • Crime cibernético é restringir a liberdade de expressão
  • Internet não é mídia como jornal, TV ou rádio, ela é um espaço de exercício democrático
  • O texto da lei é tão vago que até mesmo papel e caneta podem ser considerados um meio de transmissão ilegal de dados
  • O DRM viola os nossos direitos conquistados no código de defesa do consumidor e que temos que ter, por exemplo, o direito de transferir as músicas que compramos para o nosso computador ou iPod
  • Nos EUA 18 mil adolescentes foram processados por trocar músicas
  • Mostrou uma menina com pouco mais de 10 anos que foi processada nos EUA por escrever uma fanfic inspirada nos personagens de Harry Potter
  • Com a nova lei será crime criar fanfics também no Brasil e nossas mentes criativas terão medo de criar
  • Mostrou um roteador mesh, uma tecnologia que pode criar um ambiente mais democrático de acesso à Internet e que se tornaria crime
  • Apresentou o TOR, que permite anonimidade na Internet, que tem sido usado por organizações democráticas para combater ditaduras que restringem a liberdade de expressão.
  • Nos lembrou que os criminosos terão sempre recursos como o TOR que lhes garantirá invisibilidade e que a única vítima caso essas leis sejam aprovadas será o cidadão comum

Conclusão

Mesmo aqui na Campus Party 2009, onde se reúnem mais de 6 mil que estão entre as mais atendas à cibercultura muitos não fazem idéia de que esta lei está tramitando no congresso.

Pode-se dizer que os internautas não são uma massa politizada, que na verdade estão mais interessados em baixar filmes, músicas, seriados e jogar online. É verdade.

No entanto não é ncecessário ser politizado para fazer parte do processo que está moldando uma nova forma de cultura. Ela é forjada naturalmente conforme a sociedade se movimenta. Rosa Parks, quando sentou no ônibus para brancos talvez não tenha pensado em política, ela simplesmente estava em uma cultura onde o racismo já começava a não fazer sentido.

Da mesma forma hoje não faz mais sentido que nós, cidadãos comuns, não possamos nos apropriar da nossa própria voz.

Links

A invisibilidade corrompe…

Saturday, January 3rd, 2009

Situação um: O filho de 3 meses de uma amiga estava com fortes cólicas. Ela o levou ao médico que decretou a necessidade de uma cirurgia urgente. Desorientados os pais aceitaram, mas enquanto se deslocavam de carro de um lugar para outro conseguiram se acalmar, buscaram uma segunda opinião e depois uma terceira, todas indicando que a criança tinha apenas cólicas o que se constatou verdadeiro. Não havia qualquer necessidade de cirurgia. A mãe acredita que o médico estava interessado no faturamento da cirurgia.

Situação 2: Uma amiga passa um ano se tratando de alergia em uma certa clínica com um certo médico sem qualquer avanço sensível. Finalmente ela decide ir a uma outra médica que imediatamente percebe que a alergia está ligada ao tipo de esmalte que ela usava.

Situação 3: Depois de vários meses tratando de uma perfuração do tímpano na mesma clínica do caso acima finalmente a paciente decide procurar outro médico que depois de detalhado exame determina que ela nunca teve tímpanos perfurados, receita o remédio correto e a cura em poucos dias.

Situação 4: O rapaz faz um exame de sangue de rotina e fica sabendo que tem Aids. O médico determina que se faça um novo exame só para confirmar. Dá a notícia com a frieza de quem fala de uma verruga. Ao pedir o novo exame o rapaz pergunta à enfermeira se é comum o exame dar falso positivo “Ih! Aqui nunca deu!”. Quando volta para saber o resultado que acaba de sair é informado que somente o médico pode abrir o envelope e que o médico saiu de férias. Por mais de uma semana ele teve aids. Avisou a família e as mulheres com quem teve relações. Perdeu seis quilos por tensão nervosa até que o médico voltou e informou que tinha sido um falso positivo.

Estas são histórias reais que aconteceram com conhecidos meus, mas os nomes dos médicos e clínicas acima não podem ser citados. Eles estão protegidos pela lei.

Sob o pretexto de injúria e difamação o protesto de quem é vítima de um tratamento médico indiferente ou até incompetente pode ser processado e provavelmente perderá como ocorreu no quinto caso onde a paciente reclamou em seu blog com o post que reproduzo na íntegra mais abaixo.

É importante notar que o processo todo se baseou em injúria e difamação e não em calúnia, ou seja, o relato é considerado preciso e real.

A punição da blogueira foi calcada no princípio de que ela não tem o direito de reclamar online de um mau atendimento, mas essa fronteira é muito tenue! Se você não pode reclamar online é melhor não reclamar em nenhum lugar, afinal se você comenta com alguém numa mesa de bar essa pessoa pode, por exemplo, lembrar que um amigo irá na clínica dos casos 2 e 3 no dia seguinte e lhe enviar um rápido email pelo celular. Pronto! Caiu na Internet e logo o nome da clínica e do médico estará circulando silenciosamente por milhares de caixas postais.

A justiça está sendo usada como um manto de invisibilidade que protege maus profissionais assim como o Um Anel de Tolkien protegia e corrompia quem o usasse: a invisibilidade corrompe mais do que o poder.

Todo ser humano deve ter direito de reclamar quando se sentir mal atendido, deve ter o direito de alertar os outros (e não só os amigos) de riscos que eles correm.

A Internet é parte de uma nova cultura, a propósito, ao meu ver ela é o principal fruto de uma nova cultura que leva a democracia e os nossos direitos a novos patamares.

Um mundo onde todos tem possibilidade de se expressar assusta e a reação normal é a demonização da mudança, mas não podemos permitir que o medo da liberdade de expressão e da democracia transforme nossas leis em um instrumento de proteção para o que está errado.

Concluindo…

A mídia tradicional tem recursos e advogados para defender seus direitos, mas os cidadãos ficam acuados sem possibilidade de defesa caso não disponham de recursos o que, infelizmente, é comum. O caso do post reproduzido a seguir é justamente esse: a blogueira perdeu pois não podia pagar os custos para recorrer contra a decisão em primeira instância.

Para evitar que outras pessoas tenham o mesmo problema poderia ser criada uma associação dedicada à defesa da liberdade de expressão com recursos para custear a defesa da liberdade de expressão.

O quinto caso: O post

No domingo passado eu comecei a ter febre e dor no corpo. Na segunda-feira, a febre chegou a 38,9 e fui ao pronto-socorro. A médica me deu alguns remédios (antiinflamatório, anti-histamínico e vitamina C) e me disse para procurar um otorrino caso eu não melhorasse até quarta-feira.

Eu melhorei da febre, mas, com a obra, a garganta inflamou um pouco e ontem de manhã eu estava sem voz, com o nariz totalmente congestionado e, conseqüentemente, com dor de cabeça e sem respirar direito. Como tenho tendência crônica a ter problemas de garganta e sinusite, achei que era melhor dar um pulo no otorrino. Afinal, pago o plano de saúde e devo usá-lo para não jogar dinheiro fora, certo? A esta altura do campeonato, não sei…

O diálogo a seguir aconteceu ontem de manhã, na clínica XXXXXXXXX, que fica na XXXXXX de XXXXXX. O médico era o dr. XXXXXXXXXXX (CRM-RJ XXXXXXX-? – dígito ilegível).

Entrei sem voz no consultório e sussurrei: “Bom dia”.

Médico: “Nossa, você está sem voz! Desde quando está assim?”

Eu: “Hoje de manhã.”

Meu marido disse: “Eu vim de intérprete.” (risinhos gerais)

Ele pegou uma espátula e deu uma olhada (durante aproximadamente 3 segundos) na garganta e concluiu, em tom definitivo: “Ah, é só uma inflamaçãozinha na garganta. É normal nessa época do ano. Tem diabetes ou hipertensão?”
Respondi que não e ele se sentou na mesinha para receitar os remédios. Eu, sem acreditar no que estava acontecendo, virei para o meu marido e fiz gestos, pedindo para ele explicar a situação. meu marido começou:

“Olha, ela teve febre alta na segunda.”

Médico: “Hum-hum.” (Sem levantar o olhar do papel.)

Meu marido: “Ela está com o nariz muito congestionado.”

Médico: “Teve dor de cabeça?”

Meu marido: “Ela disse que está com dor de cabeça desde hoje de manhã.”

Médico: “Hum-hum.” (Com o mesmo desdém.)

Fiz gestos para o meu marido mostrar a ele a receita que recebi na segunda.

Meu marido: “Olha, ela está tomando estes remédios.”

Médico: “Hum-hum. A gente vai fazer um pouco diferente, viu? Você vai tomar Decadron durante 5 dias e depois vai passar para a Loratadina (que eu já estava tomando) durante 10 dias. À noite, vai pingar dois jatos de Flixose antes de dormir. Se tiver dor de cabeça, pode tomar um Tylenol.”

Eu, desesperada, pedi ao meu marido para dizer que eu costumo usar Nasofelin à noite.

Meu marido explicou e o médico disse: “Tudo bem, mas agora você vai usar este. Não vou dar antibiótico por enquanto. Vamos evitar.”

Eu, com cara de abismada, olhei para o meu marido, que disse para o médico: “Olha, ela já esteve no hospital na segunda e a médica disse que, se não melhorasse, era para vir aqui e que era melhor entrar no antibiótico.”

Médico: “É, se tiver febre de novo, você volta aqui e a gente vê o antibiótico.”

Eu, desesperada: “Mas eu não posso parar de trabalhar.”

Médico: “Tá certo. Se piorar, você volta.”

Com isso, quase nos botou porta afora.

Esse diálogo/consulta durou menos de 5 minutos. NÃO ESTOU EXAGERANDO! O médico não quis saber NADA além da “inflamaçãozinha” na garganta suposta por ele. Simplesmente não fez anamnese, então não sabe:

- que tenho tendência crônica a sinusite, laringite e faringite;

- que não tenho amígdalas;

- que eu estava suando frio;

- quais eram meus sinais vitais (pressão arterial e batimentos cardíacos, no mínimo);

- que eu não estava respirando direito.

SURREAL! Como é que o cara me receita um corticóide assim, sem me examinar, sem saber meu histórico médico??? Fiquei muito chocada. Os efeitos colaterais dos corticóides são BEM piores que os efeitos de tomar antibiótico por uma semana.
Resultado: comprei uma caixa de amoxicilina e comecei a tomar por minha conta e risco.

Minha conclusão, depois de algumas desventuras semelhantes, é que médico bom no Rio de Janeiro é uma raridade! De memória, eu salvaria o dr. XXXXXXXXX (excelente ortopedista) e a dr. XXXXXXXX (excelente ginecologista).