A reforma de Lutero e o século XXI

Quando Martinho Lutero fixou suas 95 teses na porta de uma igreja convidando os letrados a discutí-las poucos notaram, mas provavelmente estava dada a partida em uma série de mudanças que marcaria o fim de uma estrutura social, política e econômica que já durava séculos e o início da democracia, do capitalismo e da atual sociedade.

O Manifesto Cluetrain também com 95 teses é um novo marco? Estamos vivendo uma nova transição entre eras similar à dos tempos de Lutero (1514)?

A chamada cibercultura com seus princípios hacker nos apresenta um manifesto de apenas três teses tão poderoso quanto o de Lutero?

Essa é a tese que conheci nas palavras do Carlos Nepomuceno sobre a Reforma do Consumo e me sinto inclinado a adotar.

Resumindo Lutero

Filho de um mineiro que trabalhou duro para subir na vida (algo novo na época: subir na vida) Lutero teve formação em direito quando conheceu os humanistas da época (também algo novo). Depois que um raio caiu perto dele matando um amigo ele se volta para Deus, mas a fé cristã observada pela sua ótica influenciada pelo estudo de direito, do humanismo e do exemplo do seu pai fez dele um tipo de observador externo.

Além do pai de Lutero outro empreendedores já criavam uma economia (e cultura) à margem da nobreza e do poder religioso do Vaticano.

Por último temos a prensa de Guttenberg criada 50 anos antes, mas duvido que o poder de propagação de idéias em papel e tinta fosse de alguma utilidade se não houvesse apoio da latência (para usar a mesma terminologia do Nepomuceno) crescente tanto do cidadão comum que já sentia os ventos da liberdade quanto dos empreendedores.

A época de Lutero, por esse ponto de vista, reunia:

  1. Esgotamento do paradigma social, cultural e “espiritual” vigente
  2. “Caminhos econômicos” novos
  3. Nova tecnologia de comunicação

Arrisco supor que, de cima para baixo, cada ítem tornou o seguinte possível.

Como um paradigma se esgota?

Se os tempos de Lutero aconteceram porque as pessoas não aceitavam mais a religião e as hierarquias da época devemos nos perguntar porque isso aconteceu.

Sociedades são móbiles que se mantém em equilíbrio graças à existência de uma cultura padrão, comum à maioria dos indivíduos daquela sociedade e regulada por leis somente porque sempre há os transgressores.

Do ponto de vista adotado nesse blog as culturas são arranjos informacionais que, a exemplo dos genes, se multiplicam, transmitem suas características e sofrem mutações.

Informações e culturas inevitavelmente crescem em complexidade da mesma forma que os organismos vivos.

Conforme nossa arte, ciência e filosofia crescem em complexidade também muda a nossa cultura: a consciência está ligada ao conhecimento.

Conforme o conhecimento humano amadurece também amadurecem as sociedades.

Por amadurecimento não quero dizer aprimoramento moral, mas apenas ajuste à nova forma de comprender o nosso mundo e universo.

Para citar um exemplo recente temos a teoria da relatividade de Einstein que tem pouco ou nada a ver com a relatividade da moral, mas parece ter sido uma das influências nessa mudança de paradigma.

Uma cultura (e seus paradigmas) então se torna obsoleta conforme a consciência coletiva se desenvolve.

Desdobramentos da reforma de Lutero

Mesmo que não tenha sido a origem das transformações que se seguiram as 95 teses de Lutero e sua tradução da Bíblia para o Alemão são, no mínimo, o marco divisor ou estopim.

Depois que o poder central da época, o Vaticano, foi partido dando espaço aos protestantes, calvinistas e outros que se seguiram era inevitável que outros setores do poder fossem questionados e outros intermediários fossem postos em cheque: Se não precisamos do padre para falar com Deus porque precisamos do Imperador para tomar decisões que nos dizem respeito?

O que está acontecendo agora?

  1. Teoria das cordas, teoria M, psicologia evolutiva, decodificação do genoma humano, o poder da atração (desculpem, mas acho que essa pseudociência merece estar aqui): estamos passando por um salto científico similar ao dos tempos de Lutero
  2. Livros como Wikinomics, O que a Google faria e Free mostram que a alucinação hacker de um capitalismo cognitivo está se tornando real: as empresas mais influentes do planeta e que mais crescem seguem paradigmas simplesmente opostos ao das antigas onde o compartilhamento e não o segredo é a alma do negócio
  3. Um celular já custou 7 mil Reais, uma linha fixa já custou 7 mil reais na era dos produtos, agora são gratuitos pois a economia é de serviços e todas as tecnologias de comunicação antigas são velozmente rebaixadas ao status de papiros ou pinturas rupestres diante da avassaladora velocidade das novas tecnologias de informação e comunicação

Alguém discorda que vivemos exatamente o que ocorreu no tempo de Lutero?

A história se repete?

Na década passada a IBM, um dos maiores gigantes da economia de produtos, se transformou em uma empresa de serviços. Outras tem seguido o mesmo caminho e as que se recusam não parecem estar indo muito bem. Será que elas serão capazes de mudar para continuar existindo na próxima era?

O Vaticano ainda existe… Algumas empresas modernas (bem poucas é verdade) tem quase mil anos.

Desconfio que ainda não vimos nem a ponta do iceberg das mudanças que estão a caminho e o momento que vivemos é como se um grande volume de água se acumulasse do outro lado da barreira e não fosse possível impedir que ela rompesse restando a quem estiver atento procurar subir para terrenos mais altos ou preparar seus barcos…

O que provoca as mudanças?

Tudo nesse post (e nesso blog) está nos territórios da suposição e os parágrafos a seguir provavelmente vão às raias do delírio afinal essa é uma pergunta que talvez simplesmente não possa ser respondida: a mente (e cérebro) é capaz equacionar as variáveis que a fazem funcionar?

Cientes deste abuso da minha parte aqui vai a suposição. Pelo menos é simples.

Cultura é um fenômeno da informação e da necessidade que nossas mentes (ou cérebros) tem de aplicar sua criatividade sobre ela (a informação) para transmití-la e modificá-la.

Esse impulso nos leva a criar meios tecnológicos, sociais, culturais e jurídicos que garantam que a transmissão e modificação possam ocorrer cada vez mais livremente.

Em contrapartida há os velhos instintos regidos pelos genes que nos impelem a lutar pela sobrevivência e supremacia do nosso corpo acumulando fêmeas, comida, a melhor caverna ou a posse do fogo.

Conclusão

Vou copiar a conclusão do Carlos Nepomuceno:

Estamos vivendo uma mudança de eras tecnológicas e sociais. Resta saber se também caminhamos para uma nova era da consciência.

Não há dúvida que, se o acesso à Internet se espalhar como o livro de espalou no século XVI e se surgirem autores e obras como surgiram nos séculos seguintes estaremos diante de uma profunda mudança de eras que mudará radicalmente nossas formas de governo, nossa economia e praticamente todos os setores da civilização humana.

Compreender como e porque isso está acontecendo é útil para todos nós, mas é questão de vida ou morte para as chamadas pessoas jurídicas que afinal de contas, são seres que só existem dentro da cultura para a qual foram construídos.

Os memes de carbono, nós, os humanos, existimos independentemente da cultura em que vivemos (mesmo que a vida possa se tornar muito difícil como temos visto).

Referências

Comments

  1. Roney,

    reflexões interessantes.

    Me detenho em:

    “Sociedades são móbiles que se mantém em equilíbrio graças à existência de uma cultura padrão, comum à maioria dos indivíduos daquela sociedade e regulada por leis somente porque sempre há os transgressores.”

    Acredito que, na verdade, vivemos diversas culturas em conflito, que com mais ou menos, força se tornam mais ou menos ativas.

    E temos pessoas que seguem estas culturas ou se deixam levar por ela.

    Estou lendo Gramsci que diz que só podemos atuar em sociedade se tivermos a visão da história do pensamento do ser humano, que é histórica.

    E podermos nos situar nos diferentes patamares e criarmos, entre tantos, a nossa própria, quebrando a dominação e a incapacidade de perceber o que nos “doutrinaram”.

    Assim, mais do que ver algo monolítico ou hegemônico, hoje caminho com a ideia de que há conflitos em curso.

    Quais são eles?

    Não sei todos, mas é nessa luta de conceitos que a sociedade navega e se afoga, dependendo da fase da lua. ;)

    Concordas?

    abraços,

    Nepô.

    1. Roney says:

      Concordo plenamente. Supor uma cultura padrao e uma simplificaçao que nao faz nenhums entido logico.

      Sua visao de diversas culturas coexistentes certamente esta mais proxima da realidade.

      E como um caldo de memes (ou informaçoes, ou comportamentos) que servem para pressionar as mudanças.

      No entanto deve haver algum elemento de ligaçao que mantem o equilibrio por algum tempo ate que o conflito se torna intenso demais exigindo um novo elemento de ligaçao.

      Preciso ler Gramsci…

  2. Rayane says:

    eu na verdade não ia ler. mais como hj eu tenho prova de hist. eu to estudando e achei interessante esse texto sobre a reforma de lutero