Imagem: Gravura de Flamarion – 1888 (detalhe)

E por que não?
(mas no final vou dar vários experimentos que você pode fazer para descobrir a verdade)

Ora, só faria sentido falar sobre isso se realmente pudéssemos considerar que realmente há muita gente com dificuldades para entender que ela, a Terra, é esférica, um geóide se preferir.

Me parece todavia que podemos considerar que praticamente a totalidade dos terraplanistas se dividem em dois grupos:

  • Trolls que acham que estão convencendo alguém que a Terra é plana
  • Trolls que fingem que acreditam para se divertir vendo gente séria perdendo tempo para mostrar que a Terra é esférica

Eu não ficaria surpreso que apenas umas 5 mil pessoas no mundo inteiro realmente não conseguissem perceber que nosso planeta (bem, e todos os outros corpos suficientemente grandes no Espaço) é esférico.

Então porque estou falando nisso?

Bem, em primeiro lugar para que possamos nos colocar entre os trolls que rirão dos milhões de trolls dos dois grupos que acham que estão prejudicando alguém quando estão apenas prejudicando uns aos outros.

Afinal as pessoas com boas intenções dedicando tempo e criatividade para explicar que a Terra não é plana costuma gostar de criar explicações e sentir que está ajudando. Elas estão felizes ainda que, talvez, um pouco assustadas com as dificuldades dos que não entendem.

Em segundo lugar temos dois tópicos bons para explorar aproveitando esse que talvez seja um dos maiores boatos (hoax) dos últimos anos.

Vamos começar com a perplexidade diante de um cosmos que não funciona do jeito que nossa mente acha que faz sentido.

Pela maior parte da nossa história fomos caçadores coletores que vagavam nus ou seminus com paus e pedras contando apenas com os instintos desenvolvidos ao longo de milhões de anos de evolução. Não era importante saber por que uma pedra caía ou que o Sol não vinha do leste para o oeste. O que fazia diferença entre viver e morrer era saber a que distância podíamos lançar uma pedra e que o Sol pareceria se mover para o oeste por tempo suficiente para voltarmos para nossa tribo antes de anoitecer.

Muito antes de desenvolvermos os conhecimentos para explicar as coisas nós inventamos mitos, lendas, que dessem algum sentido para o que acontecia à volta e o mundo era reconfortante quando nos satisfazíamos com Thor, o deus que lançava os raios.

Pode parecer que já era para todos nós entendermos o que produz um raio, mas você já viu um elétron? Para a maioria de nós não há qualquer diferença prática se os raios são produzidos por deuses ou por fenômenos elétricos.

E é mais fácil aceitar a explicação mitológica.

Então chegamos ao século XXI e nos deparamos com conhecimentos que são tão contra-intuitivos que – se você não é uma pessoa meio esquisita e preocupada com realidades totalmente inúteis para o seu dia-a-dia – se tornam assustadores.

Essa perplexidade pode estar na raiz da rejeição à realidade, pois é isso que estamos vendo: se o método científico nos mostra como as coisas realmente funcionam e se elas não funcionam de formas que fazem sentido para a nossa “razão instintiva” passamos a negar não só o conhecimento científico, mas a realidade. Como a pessoa homofóbica que se recusa a ver que a homossexualidade é comum em centenas de animais que nunca entraram em contato conosco e que o comportamento anti-natural é a homofobia, que até agora só é encontrada em humanos.

Isso nos leva ao segundo ponto, que até já comentei aqui outras vezes: nosso sistema de ensino tem falhado em nos mostrar que a ciência não é um conjunto de conhecimentos semelhante ao conjunto de “coisas que fazem sentido” desde que nos entendemos por gente.

Nós humanos temos o conhecimento empírico como todos os outros animais um pouco mais espertinhos (na verdade provavelmente podemos dizer que mesmo os seres vivos mais “burrinhos” tem um conhecimento empírico equivalente ao nosso) e temos um conhecimento desenvolvido por eras através de estratégias de teste e adaptação. Esse outro conhecimento é o que construímos com o pensamento científico.

Na escola ainda nos ensinam os resultados da ciência em vez de nos ensinar o processo da ciência e isso nos confunde: A ciência nos mostrou por meios misteriosos e incompreensíveis que o Sol é uma gigantesca esfera de gás e teríamos que aceitar isso porque, com oito anos, somos burros demais para entender a explicação.

Pode até ser, no entanto é terrível que nossos sistemas de ensino não consigam sequer mostrar que o conhecimento que alcançamos pela abordagem científica não é dogmático e nem se sustenta apenas em nossa convicção de que aquilo está correto, mas sim em testes que garantam que aquela explicação não depende de forma alguma das nossas crenças e, se não pode ser verificado, não é objeto de estudo científico.

Sei que tem muita gente que cede ao medo da complexidade dos jeitos como testamos coisas invisíveis (que acontecem dentro de átomos por exemplo) ou não observáveis diretamente (como dinossauros evoluindo para virar galinhas) e dá ouvidos à voz do medo que diz que essas coisas não podem ser estudadas, então teríamos autorização para imaginar qualquer explicação e aceitá-la como verdade dogmática, mas não vou mergulhar nisso dessa vez.

Vamos apenas fazer as pazes com a realidade e com a humildade de aceitar que não sabemos.

Se você não está trabalhando em um projeto para levar uma sonda robô a Plutão e suas atividades não envolvem a gravidade de nenhum jeito que não seja prático, então você pode simplesmente abstrair o funcionamento dela ou mesmo as fórmulas de balística.

Uma vez, em uma conversa sobre a origem da vida, a minha interlocutora escreveu irritada que “prrrrrecisavaaaaaaaaa” saber como a vida surgiu e, na falta de outra resposta decidiu que _________ (preencha com o mito da sua preferência).

Por que temos que ter essa arrogância? Ou de onde vem tanta insegurança que sentimos necessidade de entender o Universo nos mínimos detalhes?

Pode ser pela necessidade de crer que existe algum tipo de divindade. Já vi gente afirmando que não pode aceitar a Terra esférica pois, nesse caso, Deus não existiria! Será que o medo da pessoa não é porque ela decidiu reduzir Deus à sua capacidade de entendê-lo, não aceita que Deus seja um mistério, precisa ser maior que Deus?

Essa é apenas uma hipótese, no entanto estou convencido de que estamos diante de um tipo de fobia da realidade semelhante à fobia de baratas ou de aves que substitui a nossa insegurança no mundo nos levando a necessitar de um piso sólido, ainda que ilusório, e nos deixa apavoradas diante do que não entendemos.

Vamos nos acalmar, certo? Talvez a matéria não passe de uma ilusão, no entanto essa ilusão continuará sendo real para nós para sempre, o chão não se tornará intangível sobre nossos pés, o ar não se transformará em água magicamente.

Ah! Prometi dizer como descobrir se a Terra é esférica ou não. Vamos lá!

  1. Ache um lugar onde o Sol se ponha no horizonte (a faixa reta onde o chão encontra o céu) e assista o pôr do sol sentado ou sentada no chão. Assim que ele sumir se levante imediatamente e você verá que ele ainda não terá se posto. Uma variação é deixar uma pessoa alguns metros acima de você (numa árvore por exemplo) e avisar quando o Sol se puser para você;
  2. Vá a um lago, rio ou mar grande o bastante para sumir depois do horizonte e observe barcos vindo em sua direção. Você pode fotografar com o celular e fazer zoom para ver claramente o que está acontecendo;
  3. Se a Terra for plana cercada por uma muralha de gelo certamente você poderá ver essa muralha com um bom binóculo ou, na pior das hipóteses, uma luneta;
  4. Se você puder ir para uma região sem luzes e com uma boa câmera fotografe as estrelas no horizonte a leste e a oeste em uma noite, na noite seguinte faça o mesmo alguns km mais para leste ou para oeste, na terceira noite volte para o primeiro lugar e repita as fotos. Compare as posições das estrelas;
  5. Variação da anterior: tire uma foto das estrelas na mesma direção toda noite por alguns meses e veja que elas giram de leste para oeste, assim como o Sol, e nenhuma gira nas bordas indo de leste para o norte ou sul como aconteceria se a Terra fosse um disco e girasse;
  6. Outra variação ainda com estrelas: faça a experiência anterior em duas latitudes bem diferentes, por exemplo, 22 graus sul e 22 graus norte e compare. Você pode fazer isso em parceria com outra pessoa para tirar as fotos na mesma hora;
  7. Volte no item 2: ache um rio ou lago tão largo que não dê para ver a outra margem, mas não tanto que você continue não vendo a outra margem se subir em um prédio alto ou em um morro. Uma variação disso é que teria que ser possível ver a Europa olhando para o nordeste à partir da costa nordeste do Brasil, por exemplo se a Terra fosse plana;
  8. Pegue um avião que atravesse o polo sul (tem rotas comerciais que fazem isso);
  9. Esse dá trabalho: Forme um triângulo andando 10 mil km para um lado, virando 90 graus, andando mais 10 mil km, virando novamente 90 graus e andando os 10 mil km finais para fechar o triângulo. Você estará no ponto de partida. Isso só acontece se estivermos andando sobre algo esférico;
  10. Um fácil! Combine com outra pessoa para medir o tamanho da sombra do do  Sol no mesmo horário na mesma longitude, mas em latitudes diferentes e faça a trigonometria básica de segundo… digo, de ensino fundamental, sou dos tempos de segundo grau;
  11. Veja a roda de circunavegação de Fernão de Magalhães;
  12. Busque uma montanha com mais de 600 metros de altura (como o Corcovado no Rio de Janeiro) e observe muito atentamente o horizonte. A essa altura já é possível perceber a curvatura do horizonte;
  13. Separe 162 mil reais e compre uma passagem no cruzeiro de volta ao mundo da MSC (119 dias)

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