Imagem: promocional Disney

Antes de começar: esse post terá spoiler. Mas avisarei para você parar de ler, ok?

Star Wars O Despertar da Força é diferente em vários aspectos e talvez o primeiro seja que a própria sinopse já seria um certo spoiler. O filme será mais interessante para você sem saber até o protagonista e quais são os desafios enfrentados. Você entenderá por que mais à frente. Nos spoilers.

Começo portanto apenas dizendo que é, como as duas outras trilogias, um tipo de jornada do herói.

Na primeira tivemos Luke seguindo à risca as etapas mitológicas. Um conto de fadas praticamente. O herói é um escolhido, o salvador. A fórmula está em 9 de cada 10 mega sucessos. De Neo a Harry Potter passando por Frodo e Cinderela.

Na segunda vemos o herói que falha ao se entregar ao orgulho e falta de empatia que o leva a ser egoísta focando-se apenas em seus interesses.  Infelizmente essa jornada perdeu a força ao dividir espaço com as tramas palacianas de Palpatine que, como muitos governos modernos, alimenta os dois lados de conflitos tramando para enfraquecer os direitos democráticos (um aspecto, aliás, bem interessante da trilogia de origens).

Já em O Despertar da Força (calma, ainda não são os spoilers) podemos esperar uma terceira jornada do herói, mais incomum e mais original que a da trilogia clássica pois estamos diante de um novo ciclo.

É possível encontrar pontos para criticar no filme (falarei deles no meu blog sobre cultura), mas diante da importância da jornada do herói são falhas irrelevantes.

Para ser uma grande trilogia como a clássica ela terá que refletir o espírito e os problemas do nosso tempo. Não no sentido de ser ecológico ou político (o que a destituiria de simbolismo), mas da nossa relação com os outros, com o mundo e com nós mesmos.

Provavelmente esse é um dos pontos chave que tornaram obras como a trilogia clássica e Senhor dos Anéis imortais. São ritos de passagem mitológicos integrados aos seus tempos.

Temos que lembrar que essas obras imortais (acrescente aí Paraíso Perdido e boa parte da obra de Shakespeare) não se limitam a se identificar com a sociedade de um século, elas também ajudam a moldá-las.

Para resumir o que se pode dizer sobre O Despertar da Força sem cair nos spoilers:

O filme é bem dirigido, pode ter alguns momentos um pouco corridos ao se esforçar para equilibrar a apresentação de vários novos personagens, referências aos filmes anteriores, boas cenas de ação, várias pontas soltas para serem exploradas em outros filmes e construções transmídia e a trama central que introduz a nova história que nos será apresentada.

As falhas no entanto são vastamente superadas pela força dos personagens que são apresentados, pelas atuações, realismo e ritmo das cenas de ação e, principalmente, impacto da história central.

Fiz um vídeo comentando nos primeiros 5 minutos o que há de bom no filme. Os 15 minutos seguintes tem spoilers e são parecidos com esse post (bem mais resumidos que aqui).

Agora vem os spoilers

Olhe para mim! Não olhe para baixo! Feche a aba! Feche o nevegador! Desligue o computador! Feche a tela se for notebook!

Vamos começar pela sinopse.

O Despertar da Força é a história da jornada mítica de Rey. As demais cenas são basicamente para contextualizar essa jornada. Simples assim.

Bem, para isso ou para fazer referências aos outros filmes, e nos oferecer ação para nos divertir e levar bastante gente ao cinema.

É claro que Finn, ao que tudo indica, também fará essa jornada, mas ela deve ficar para o próximo episódio (em 2017).

Antes de continuar temos que lembrar o que falei logo acima, que filmes são, antes de mais nada, para produzir lucro, para levar o máximo possível de pessoas ao cinema (e comprar coisinhas associadas), mas toda produção cultural se encaixa de alguma forma em sua época. Seja acidental ou propositadamente.

A cultura que vemos representada em O Despertar da Força pode parecer distópica inicialmente, mas socialmente é uma utopia sem estereótipos de gênero, ou pelo menos com estereótipos muito mais sutis que os que temos afastado nas últimas décadas.

Ninguém se surpreende com uma mulher despertando para a força, não mais do que se ela fosse um homem. Ninguém despreza a capacidade de Finn por ser negro. Ou seja, os personagens não formam opiniões pré-concebidas de acordo com gênero ou etnia.

Nos primeiros 9 minutos ainda temos um breve ensaio de estereótipo masculino com Finn pretendendo salvar Rey, apenas para ter que fugir dela logo em seguida. A cena parece servir para deixar claro quem é o herói do filme desde o início.

Os primeiros personagens a surgir, no entanto, são Kylo Ren e Poe Dameron para contextualizar a entrada de Rey na trama, mas essas aparições já definem bem algumas das qualidades centrais dos dois como a empatia e rejeição à violência de Finn e o humor ácido e heróico de Poe, que lembra o de Han Solo.

Kylo Ren é apresentado como um tipo de sith extremamente poderoso que, estranhamente, vai se enfraquecendo conforme Rey desperta.

É possível que o diretor tenha perdido a mão, mas do ponto de vista simbólico é muito interessante e acontece em várias obras mitológicas (mas é a primeira vez em Star Wars).

O mal em Darth Vader era poderoso, já Kylo é fraco. Tem medo do lado luminoso da Força e parece se aproximar do lado negro na esperança de se sentir forte.

É uma ótima representação de como vemos hoje tanto o troll que faz bulling quanto o terrorista que leva populações inteiras ao caos.

Outro ponto interessante é que, muito embora Rey pareça inabalável em sua boa natureza (demonstrando empatia e responsabilidade desde as primeira cenas) os personagens são menos maniqueístas.

Vamos claramente em Kylo Ren uma pessoa que está ferida, desestruturada. Não é uma versão má da Rey, é uma versão fraca. O que fica muito claro no primeiro confronto de influência mental em que ela se equipara a ele.

O desenvolvimento rápido da Rey no domínio da Força pode ser outra falha, mas também pode ser o reflexo consciente ou involuntário da ideia de que empatia, o equilíbrio e a razão superam facilmente o mal. Aliás o mal pode até ser percebido como o destino dos fracos que não conseguem desenvolver esses atributos. Uma coisa é certa, Kylo Ren não é um personagem forte. Ele é mimado, emocionalmente descontrolado e sua força vai parecendo uma grande farsa conforme o filme avança, mas desconfio que boa parte das pessoas pensará apenas “Rey é foda”. Foi aliás o que já ouvi de alguns adolescentes.

Apesar de extremamente poderosa o papel da Rey é totalmente coadjuvante na resolução do problema e essa é outra qualidade importante do filme.

Não é ela que desativa os escudos, não é ela que destrói o Starkiller. A propósito, não há um herói individual.

Enquanto no episódio IV bastaria o Luke para resolver toda a trama, em O Despertar da Força vemos o trabalho em equipe vencer os obstáculos (coisa que a trilogia de origens não conseguiu fazer eficientemente) refletindo o espírito que temos visto tomando as ruas de vários países em torno de diversas causas indo desde as escolas ocupadas em São Paulo até as mobilizações na França quando dos atentados terroristas.

Personagens mal utilizados

Maz Kanata, General Hux e Phasma são três personagens claramente importantes que aparecem pouco ou praticamente nada no filme.

Achei necessários destacá-los (poderia pegar vários outros) porque notei que um bom número de pessoas lamenta que esses e outros personagens “passaram batidos”, mas é necessário lembrar:

  1. A trama é sobre a jornada de Rey. O episódio IV era sobre destruir a Estrela da Morte, mas agora o ponto central é a jornada pessoal da protagonista e ignorar isso reduz o filme a “algo divertido”
  2. A Disney comprou a franquia para fazer MUITO dinheiro e nos oferecerá tanto mais material nos outros filmes da trilogia quanto em filmes intermediários, games, desenhos etc.

O ponto importante aqui é: não tire o foco da Rey. O filme é sobre ela.

Quem é a Rey?

Como a estrutura de O Despertar da Força é praticamente uma refilmagem de Uma Nova Esperança muita gente cai no erro de considerar que o filme não é criativo, no entanto as semelhanças se resumem à estrutura como já venho demonstrando acima. Tanto que toda a ação nesse filme é tratada como pano de fundo para a Rey (e para o Finn em algumas cenas).

A jornada da Rey é muito diferente daquela do Luke. Ela não é infantil. Não é indefesa. Ela não hesita em enfrentar os problemas que cruzam seu caminho dizendo que “não são meu problema”.

Rey é a essência do herói. Ela sequer deseja ser uma heroína. Ela simplesmente não foge de responsabilidades.

Os pais e história anterior da Rey são mistérios que vamos adorar ver revelados, mas não precisamos deles para saber quem ela é.

Rey somos nós diante de um mundo que precisa cada vez mais da nossa participação para se levantar do caos dos séculos passados, mesmo que nosso papel não seja (raramente será) determinante para mudar as coisas.

Cada um de nós é uma peça de um móbile que precisa encontrar equilíbrio e essa talvez seja a qualidade mais importante desse filme.

Um outro ponto importante é a forma como surge o humor na história. Ele quase nunca é vazio e quase sempre é um tipo de resposta de coragem diante do perigo. Ainda nos nove minutos iniciais vemos Paul Dameron demonstrando isso ao ser capturado por Kylo Ren.

Até o século passado era comum nos sentirmos impotentes diante do perigo e incapazes de ver oportunidades de superação onde há obstáculos.

Claro que, como eu disse, estou apresentando aqui significados que as pessoas podem tirar desse filme até mesmo inconscientemente. Muitos outros significados surgirão, é o que ocorre quando uma obra consegue ser simbólica.

A Dúvida em O Despertar da Força

Tanto Rey quanto Finn tem grandes dúvidas quanto a aceitar a jornada que se apresenta para eles, mas são duas jornadas diferentes.

A jornada de Rey é para o seu passado e seu futuro, para abraçar ou não o destino de ser uma Jedi. Destino que ela não deseja, talvez por querer apenas ser alguém comum, mas atenção, alguém comum e não uma mulher comum. Ela quer, aparentemente, se reunir a sua família e ser uma pessoa como todas as outras.

Já Finn deseja escapar das guerras e nesse filme já precisa tomar a decisão “Vou para os confins da galáxia para ser uma pessoa comum ou vou ajudar a salvar minha amiga?”. É bem provável que ele ainda volte ao plano inicial no episódio VIII.

Um parênteses divertido: mais uma vez a princesa se salva sozinha como no começo do filme e no episódio IV. Mulheres independentes em Star Wars desde 1977.

Muito embora o foco desse episódio favoreça claramente o arco de história da Rey é o Finn que enfrenta o maior dilema. É ele que está a um passo de se afastar de tudo e decide aceitar a jornada que o destino lhe apresenta.

Esse caminho só será trilhado pela Rey no próximo episódio e isso parece bem claro na cena final do filme quando vemos apenas em suas expressões ao entregar o sabre de luz para o Luke o prenúncio das decisões que ela deverá tomar.

Fonte: material promocional Disney

Fonte: material promocional Disney

Spoilers tradicionais

Uma vez que não consigo considerar que os acontecimentos do filme são seu ponto central e sim a história de Rey e de Finn, mal vejo importância em saber que Kylo Ren é Ben Solo, filho de Han Solo com Leia Organa, que há uma nova “estrela da morte” ou que Han Solo morre.

É claro que, a cada revelação dessas, eu e minha esposa nos apertávamos e entreolhávamos no cinema com olhos arregalados. São surpresas impactantes, é claro, mas pense na importância delas para a história.

O único spoiler realmente importante é justamente o maior. A morte de Han Solo.

Me parece inútil especular o que realmente aconteceu ali. Ben assumiu a identidade Kylo Ren para se aproximar de Snoke e destruí-lo matando o pai para convencer o Líder Supremo que está pronto para seguir seu treinamento? Ele é o resultado de um jovem desprezado pelos pais e aliciado por um perverso (coisa na verdade bem comum) que realmente matou seu pai junto com o que restava dele mesmo para finalmente se entregar ao lado negro da força?

Seja como for aquela é uma cena importante e bem marcada pela atuação tanto de Harryson Ford quanto de Adam Driver.

Links

Sobre falhas

“R2D2 desperta magicamente”, “A Phasma não serve para nada”, “Passaram 35 anos do episódio VI, como o filho de Han e Leia pode ser tão novo?”

Talvez eu fale nelas no meu blog sobre cultura, mas aqui no Meme creio que a questão é: por que estão tão preocupados com esses detalhes?

Obviamente não posso responder pelas pessoas, então deixo mais hipóteses do que respostas.

Talvez algumas pessoas tenham dificuldade em aceitar uma dupla de heróis formada por uma mulher e um negro.

Pode ser que essas pessoas tenham ido ver um filme de ação e entretenimento e encontraram uma história que, ainda que inconscientemente, perturba e essa perturbação acaba levando a racionalizações equivocadas.

Talvez a trama se afaste demais do zeitgeist do século passado sem encontrar o que essas pessoas estão vivendo agora (ou elas podem continuar lá).

Seja como for é muito difícil falar em falhas sem ver o restante da história e observar como essas questões se resolverão.

Vejo sim, várias pontas mal explicadas, mas não me afobarei declarando que são falhas. Mesmo que sejam eu digo que os personagens já me proporcionam tanto deleite que não me importo com esses detalhes.

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