O jornal Extra decidiu criar uma editoria de guerra para cobrir o estado no Rio de Janeiro.

Isso é muito sério e não concordo.

Há anos venho criticando a classificação da violência no Brasil como situação de guerra.

No artigo acima o jornal recorre ao dicionário, no entanto o que deve nos guiar ao escolher as palavras é a percepção pública delas e guerra é uma situação que não se resolve senão pela violência, uma situação em que há duas ou mais frentes estanques, sem condições de diálogo, de busca de solução diplomática ou política.

E solução política é o caso no Brasil. O próprio jornal chega a visualizar isso:

Temos consciência de que o discurso de guerra, quando desvirtuado, serve para encobrir a truculência da polícia que atira primeiro e pergunta depois. Mas defendemos a guerra baseada na inteligência, no combate à corrupção policial, e que tenha como alvo não a população civil, mas o poder econômico das máfias e de todas as suas articulações.

Inteligência e combate à corrupção policial para desmontar o poder econômico (e acrescento político, o poder político é central e todos sabemos) das máfias e todas as suas articulações não é uma situação de guerra. Não se resolve pelo poder das armas, da repressão e sim da investigação, da transparência jornalística, política, econômica.

O meme, a mensagem, que se propagará com a criação de editorias de guerra não é o da investigação das conexões políticas e econômicas que sustentam a criminalidade no Brasil e sim o da Paz Romana que é o que já vimos ser aplicado periodicamente sem qualquer sucesso real.

Aliás “máfias e todas as suas articulações” é uma forma muito vaga de se referir ao que provavelmente está nas bases da violência urbana em nosso país.

Se vamos assumir uma posição de coragem não será criando uma editoria de guerra.

Sim, é importante usar a palavra correta para entender cada quadro que estamos estudando, a palavra ou palavras que colocam em contexto histórico e cultural.

Desde a década de 90 fala-se que vivemos uma transição de paradigma, mas continuamos subestimando o que isso significa. Há muito mais de 500 anos não temos uma mudança de paradigma tão intensa em minha opinião, mas muitos gostam de comparar o que vivemos agora com o surgimento do livro impresso, mas ainda assim devemos ter a mente muito mais aberta do que temos tido.

O que precisamos é de uma editoria de “revelação das conexões escusas entre poder público, econômico e crime organizado” por falta de palavra/palavras melhores (alguma suegestão?).

O que não precisamos é de palavras que obscureçam o problema da corrupção e “de todas as suas articulações”. O Extra nos faz um desserviço.

O que precisamos da mídia é que ela tenha a coragem de lançar luz sobre tudo que já vem sendo observado pela inteligência coletiva mais marcadamente desde 2013 (e antes ainda no occupy de 2011).

Máfia de van, máfia de transporte público, máfia de táxi, máfia das obras dos Jogos Olímpicos, máfia da Carne, máfia do agronegócio, máfia dos bancos, máfia de especulação imobiliária… Ah! E máfia das drogas também, até dá para nos esquecermos.

Talvez esse seja um bom nome para uma editoria no Brasil: Editoria da Máfia político-corporativa.

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