E tudo isso resumidamente e de um jeito que todos possam entender. É uma tarefa desafiadora, mas tenho pensado nela há semanas e acho que já dá!

Vou recomendar alguns vídeos que acho que cobrem tudo que vou dizer e entram em alguns detalhes técnicos que serão necessários para quem se aprofundar.

A primeiras coisas a saber são: Por que criptomoedas são importantes e por que blockchain é importante. Mais adiante vou explicar o que essas coisas são e o que não são, certo? Tem muita confusão em torno dessas coisas e também vou explicar por que existe essa confusão! Vamos com calma!

Primeiro, por que criptomoedas são importantes.

Os dinheiros a que estamos acostumados não tem ido muito bem e há quem aponte que isso acontece por causa de falhas estruturais deles que não podem ser corrigidas e seriam basicamente que eles não são regulamentados por leis de mercado e sim pelos interesses políticos de governos e pela especulação bancária. O canal Cold Fusion tem um vídeo bem claro apresentando essa visão: Who controls all of our money?

Podemos discordar em alguns pontos, mas de fato, as moedas (que atualmente são todas fiduciárias) são vulneráveis demais a manipulações do mercado em que poucas pessoas tem poder para causar grandes impactos.

Já as criptomoedas são lastreadas por projeto. O bitcoin, por exemplo, está atrelado a uma oferta máxima de 21 milhões de unidades (pouco mais que isso) que devem ser atingidas na próxima década.

Com isso elas se apresentam como uma moeda influenciada apenas pelas leis do mercado: aumenta de valor quando muitos querem comprar, diminui de valor quando muitos querem vender.

Aqui vale um parênteses (Como o volume de bitcoins e de outras moedas ainda é baixo elas podem apresentar grandes variações de valor em curto prazo, mas a médio e longo prazo é difícil enxergar algo que impeça suas escaladas de valor. Por isso, por enquanto, são investimentos de alto risco).

A importância das criptomoedas está, portanto, na construção de uma base mais estável para o próximo capitalismo (sim, outro parênteses, se você não gosta do capitalismo lamento dizer que não vejo como outro sistema se instalar nesse século).

Se hoje avaliamos as criptomoedas em relação a moedas convencionais, gradativamente elas devem se apoiar umas sobre as outras e, talvez até, as moedas atuais passem a ver lastreadas por criptomoedas (chegaremos aí).

Mas moedas são apenas um tipo de tapete do capitalismo, o chão são as instituições que regulamentam as coisas, certo? Bancos, governos, cartórios e outros. São basicamente instituições que administram o registro de operações.

Entra as blockchains.

Por que blockchains são importantes.

As criptomoedas só são possíveis porque a misteriosa pessoa Satoshi Nakamoto (que pode ser um grupo de pessoas) inventou uma tecnologia de chutar (um software) capaz de se espalhar pela Internet e registrar operações com criptomoedas de forma segura, tão segura que nunca foi hackeada.

Ora! Se uma blockchain registra operações com tanta segurança, então por que não registrar outras operações além de trocas de dinheiro entre pessoas? Foi o que surgiu em 2011 com o Ethereum e mais tarde com a Hyperledger.

Na prática o que elas criam é uma estrutura que pode registrar não apenas qualquer tipo de documento indo de registros de transferência de propriedade até identidades pessoais, mas também códigos de programas que possibilitam criar aplicativos e até empresas que se distribuem pela Internet.

Bem, agora imagino que tenha complicado, né? Pois vou falar a seguir por que é complicado entender o que essas coisas realmente são e como funcionam, mas antes vou resumir o efeito das blockchains:

Elas tem o potencial de criar um novo tipo de estrutura de confiança. Hoje confiamos em instituições, digo, confiávamos, certo? São poucas as em que ainda podemos confiar. Com blockchains criam-se redes gigantescas de confiança em outros usuários da rede e mantenedores do sistema, a maioria anônimos. Já falei nisso no post A História da Confiança e o Novo Paradigma que escrevi aproveitando o vídeo The trust that binds, do Siraj Raval. Vou inserir abaixo:

E por que é tão difícil entender essas coisas?

Tenho falado ultimamente que parece que nos esquecemos daquela história de mudança de paradigma que tanto se falava na última década do século passado e no começo desse, como se tivesse acabado quando, vou mostrar mais uma vez a seguir, mal começou. De quebra ficará claro porque criptomoedas e blockchain são tão esquisitas para nós (assim como IA e IoT, mas vamos segurar isso para outros posts).

Em três primeiros momentos, os que nos fizeram falar em “quebra de paradigma”, vimos a Internet se tornar um território social com a propagação de blogs que mexeu principalmente com o paradigma da mídia jornalística, depois vieram as redes sociais que atingiram o marketing (entre 2004 e 2011) seguido de um breve período de disruptura política quando as redes sociais foram usadas pela sociedade para se organizar espontaneamente em movimentos populares.

Esses três primeiros momentos atingiram estruturas do paradigma anterior: mídia, marketing (e RP), mobilização política. Agora estamos diante de uma estrutura do próximo paradigma estendendo-se sobre o paradigma anterior.

É como a virada da humanidade nômade caçadora e coletora para a humanidade urbana agrícola comercial: É novo demais e não temos as ferramentas cognitivas para lidar com os desdobramentos.

Falei nisso mais a fundo com as duas pessoas que apoiam o Ecossistema Meme de Carbono (hehehe), mas aqui creio que isso vai ter que bastar, terá post mais detalhado no futuro, ok?

A questão é que vejo tanto as criptomoedas quanto asblockchains como características do próximo paradigma da civilização que não podem ser evitados, mas ainda são muito difíceis de entender pois não se comparam a nada que já existe. No entanto isso não impediu uma enorme quantidade de pessoas que usam o que já existe na Internet e que lhes parece igualmente estranho e incompreensível.

Como funcionam as blockchains?

Vamos começar pela base onde se apoiam as criptomoedas pois, como eu disse, elas podem ser as bases para uma infinidade de outras coisas.

Há meses converso sobre isso e percebi que muita gente, se esforçando para comparar as blockchains com algo que já existe acabam em um ciclo vicioso pensando:

  • Isso é uma pirâmide;
  • Não tem nada regulamentando;
  • É usado para o crime porque é anônimo;

Sugiro que você esqueça tudo que já ouviu sobre blockchains, certo? Mais abaixo vou colocar um vídeo que vai mais a fundo na explicação que darei a seguir.

Vamos traduzir blockchain como cadeia de blocos conectados de tal forma que é impossível arrancar um bloco da cadeia e colocar outro. Isso nunca foi feito e realmente temos bons motivos para considerar que é impossível. São blocos de adamantium (o metal indestrutível do escudo do Capitão América e das garras do Wolverine).

Eles são assim porque cada bloco se conecta ao anterior e ao próximo por um código que é dificílimo de calcular. É tão difícil que há milhares de computadores (na verdade o equivalente a milhões) concorrendo para fazer esses cálculos e raramente um deles consegue resolver mais de um bloco em sequência, ou seja, a cada momento quem conecta um bloco no bloco seguinte é um computador diferente. É isso que torna impossível um grupo de pessoas com alguns computadores poderosos inserir um bloco de informações adulterado na cadeia de blocos e, muito menos, trocar um bloco no meio dela.

A metáfora mais próxima que eu vi é com um grupo de conhecidos jogando poker.

A cada rodada, como um não confia no outro, todos anotam os pontos em seus blocos, comparam uns com os outros, se um dos jogadores adulterou o bloco os outros percebem, o fazem jogar a folha dele fora e anexam a folha de um dos outros.

No início de cada folha eles colocam um código complexo que a une à folha anterior e, no pé da folha, um outro código calculado em função do conteúdo dela, é como um dígito verificador, só que muito mais complexo.

Todos eles tem cópias próprias da pilha de folhas e podem verificar a integridade da pilha no centro da mesa a qualquer momento e, para trocar uma folha lá no meio, o fraudador teria que recalcular os códigos de todas as folhas subsequentes e seria impossível ele fazer esses cálculos mais rápido do que a velocidade com que a pilha cresce.

Eu sei que essa metáfora também é confusa, mas se você quiser uma visão bem detalhada, mas ainda em linguagem humana (hehehe) veja o vídeo Ever Wonder How Bitcoin Actually Work? abaixo:

É a explicação mais clara que vi até hoje.

Ah! Um pequeno detalhe importante: toda blockchain é pública. No caso de uma que cria uma moeda você pode não saber quem é a pessoa dona de uma determinada “conta” (nesse universo contas são chamadas de carteiras, wallets), mas é possível observar todas as carteiras do sistema e a movimentação de dinheiro entre elas. Esse é um dos motivos de, ainda que se use bitcoins para movimentar dinheiro ilegal, as criptomoedas serem na verdade menos suscetíveis a fraude que as moedas antigas. Mas isso é assunto para outro momento.

Mas isso é a blockchain de uma criptomoeda. E as blockchains mais genéricas como a Ethereum e a Hyperledger?

Se ligue porque elas provavelmente serão as responsáveis pela transformação das criptomoedas em moedas de uso comum.

O que fazem as blockchains genéricas?

Antes de mais nada: não vi outras pessoas se referirem a Ethereum, Hyperledger e similares como genéricas, mas creio que é uma forma clara de defini-las.

Elas são criadas para registrar praticamente qualquer coisa.

E desta vez dá para fazer uma comparação com o mundo real!

Imagine que você crie uma empresa e registre em um cartório o que ela faz, como faz e as regras para as pessoas serem sócias dela.

Sua empresa pode ser, por exemplo, um serviço de transporte como o Uber ou 99Táxi. Então quem quiser fazer parte da empresa pode depositar um valor X em sua conta para que ela se capitalize sabendo com segurança que receberá uma parcela N de todo lucro que a empresa fizer pois está descrito no contrato e o cartório se encarrega de garantir que tudo seja feito conforme definido no contrato.

Opa! Mas cartórios não fazem isso e, se fizerem, ninguém vai confiar neles para receber e transferir dinheiro.

É aqui que acaba a metáfora.

Em uma blockchain genérica todas as informações da empresa está registrada em um bloco da cadeia e parte dessa informação são códigos de programação que garantem, por exemplo, que todo N dinheiro (no caso um criptodinheiro) que entrar no sistema será distribuído por quem tem “ações” (chamadas de tokens nesse universo) da empresa.

É o conceito original de corporação levado ao extremo, ou seja, realmente qualquer pessoa pode investir na criação de um novo negócio, mas não depende de uma bolsa de valores para mediar as operações que ocorrem automaticamente.

O vídeo Ethereum Explained (também de Siraj Raval) dá uma visão bem vasta, e um tanto técnica, de como isso funciona:

Está certo, está certo… Acho que fui longe demais agora e posso estar dando um nó na maioria das pessoas que chegou até aqui. Vamos simplificar!

As blockchains genéricas tornam possível jogar programas na Nuvem que são distribuídos por toda a Internet e contém todas as normas para rodarem em nossos computadores, receber e distribuir pagamentos de forma que, sem uma empresa centralizadora que seja dona do programa, um motorista pode atender uma chamada, receber seu pagamento em criptomoeda e o percentual das pessoas que ajudaram monetariamente a desenvolver a empresa recebem suas partes.

Se ficou claro agora, então você deve ter percebido que, quanto mais serviços existirem em blockchains maior será o fluxo de moedas antigas para criptomoedas.

O exemplo do serviço de motorista é real. Também há serviços que redistribuem energia elétrica, por exemplo. Há imobiliárias na Europa que aceitam pagamento em bitcoin para comprar uma casa…

Em um dado momento, em vez de converter criptomoedas em moedas para pagar as contas, passaremos a trocar moedas em criptomoedas para pagar nossas contas e esse será o ponto de virada que transformará as criptomoedas do que são hoje (um tipo de jogo financeiro especulativo bem intenso) em um sistema financeiro de fato.

E o que você faz agora?

A grande pergunta provavelmente é: Quando devo comprar bitcoins para ser uma pessoa rica em dois anos?

NÃO! Nada disso! Por tudo que escrevemos até agora deve ter ficado claro que, muito embora seja possível ganhar bastante dinheiro durante a transição para criptomoedas, essa é apenas a ponta do iceberg.

Você deve sim ir se acostumando pelo menos com o bitcoin, que deve se tornar um tipo de lastro das criptomoedas, com o Ether, que é a criptomoeda do Ethereum e com os Tokens, que são as “ações” de projetos criados no Ethereum.

Caso você decida investir em criptomoedas cole em pessoas e fontes capazes de avisar de grandes riscos com alguma antecedência, o que é uma tarefa complexa já que, como deve ter ficado claro também no post, muita gente e instituições espernearão contra as duas tecnologias borg (resistir a elas é inútil, não resisti à referência).

Fora isso é bom ter um punhado de moedas digitais, se acostumar a manusear uma carteira, guardar seu dinheiro digital com segurança e, mais ainda, entender essa história de blockchains genéricas (anote aí para googlar: contratos inteligentes Ethereum).

Porque perder essa onda de mudanças não será como ter que chamar o neto para operar o videocassete ou o filho para entrar no app do banco no celular.

Ela será mais como ficar em uma caverna sem fogo enquanto os outros estarão viajando para Marte.

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