Há uma agitação generalizada com o crescimento acelerado dos aplicativos móveis (iOS e Android principalmente) e um suposto abadono da Web que, por cerca de 15 anos foi percebida pela maioria como se fosse a totalidade da Internet.

A Web está morta! Viva a Internet!

O sussesso estonteante do iPhone, iPod Touch e agora do iPad apontam para uma nova Internet onde é possível ganhar dinheiro com livros, jornais e revistas que nunca conseguiram se tornar economicamente viáveis na era da Web.

Aqui é importante lembrar aos mais jovens que a Web jogou no limbo o resto da Internet (Gopher, Telnet e até o FTP).

Agora gente como Chris Anderson, O’Reilly e Battele, vozes que ajudaram a definir a Internet como é hoje, consideram seriamente que a Web está morrendo e logo será rebaixada ao mesmo status do telegrama.

Não concordo com eles.

Se você é um visitante casual devo avisar: não pense por isso que sou um reacionário apegado à sua querida Web e ao Firefox (ou Chrome ou Safari).

Tenho certeza absoluta que a Internet será irreconhecível para alguém que seja atirado de hoje para 5 anos no futuro, mas o que há por trás da discussão do fim ou não da Web é outra coisa.

Vamos organizar as nossas premissas básicas!

  1. Web: espaço construído sobre padrões abertos onde praticamente qualquer um pode publicar (copiar, remixar, adaptar) qualquer coisa sem análise prévia
  2. Aplicativos móveis: espaço proprietário onde a quem distribui informação tem controle sobre ela

Pode-se dizer que o caráter aberto da Web também acontece em redes peer to peer como os torrents da vida e é verdade. Essa é uma característica bem clara (e comercialmente indesejada) da Internet.

Isso nos leva a uma terceira premissa:

Sendo inviável cobrar por conteúdo e impedir a cópia e remixagem na Web a única fonte viável de renda passa a ser a propaganda

Pronto. Está formado o cenário de uma problema que parece complexo.

Quem produz conhecimento não consegue cobrar por ele. Quem consome não quer pagar.

Transferir o conceito de propaganda para a Web (e timidamente para outras partes da Internet como o webmail e o RSS) parece só ter funcionado para o Google.

Pare agora!

Um dos primeiros equívocos aqui é que não estamos falando do capitalismo e sim do valor do conhecimento online.

As lojas vão muito bem, obrigado. Estão ai o iTunes, a Amazon e recentemente os clubes de descontos (que, convenhamos, é um certo misto de propaganda com comércio).

Então a morte de que estamos falando não é da Web, mas do comércio de conhecimento online, ou seja, jornais, revistas e outras formas de texto.

Isso é importante pois o que boa parte dos analistas está vendo é o fim do próprio modelo de compartilhamento livre de conhecimento.

O que morre é a tentativa da mídia tradicional se apropriar da Web deixando-a livre como a ágora das multidões.

No início a Web foi dominada por corporações que tentavam replicar online o controle que tinham offline, mas a Internet foi criada para ser o domínio da voz da multidão.

Pare novamente por um segundo… Está na hora de lembrar um dos postulados básicos desse blog:

A humanidade pode ser compreendida através da evolução genética que construiu nossos corpos e da evolução memética que construiu nossa consciência.

Assim como nossa evolução genética torna dificílimo raciocinar quando estamos emocionados a evolução memética de certa forma nos obriga a compartilhar ideias, cultura, costumes.

É claro que, como demonstrou brilhantemente Guy Debord em Sociedade do Espetáculo, há sempre o confronto entre duas forças controlando o ritmo da nossa evolução memética: os interesses de um tipo de consciência corporativa e a voz da nossa consciência coletiva.

Os esforços para estabelecer o conceito de freemium (parte do conteúdo é livre e a parte premium é paga) ou interferir na neutralidade da Internet são movimentos para conter a libertinagem do compartilhamento que a consciência coletiva deseja.

Haverá um ponto de equilíbrio em que chegaremos a um acordo (temporário) entre a liberdade e o controle, mas se as premissas básicas que guiam meu raciocínio (memes X genes) estão corretas a Web, seja que forma ela venha a adquirir, continuará existindo e sendo o reino do compartilhamento. Na verdade sua morte para a mídia comercial pode ser justamente um sinal de que a consciência coletiva ganhou mais uma batalha contra o controle.

Pare uma última vez! 😉

Não pense que sou um tecno otimista! O que chamo de consciência coletiva não é mais nossa amiga do que a consciência corporativa!

Assim como as corporações nos trasformaram em pilhas (invocando a boa metáfora do filme Matrix) da sociedade de produção e consumo de átomos a consciência coletiva nos transformará em CPUs que replicam, criam e transformam informação.

Esse provavelmente é nosso caminho evolutivo e cabe a cada um de nós, individualmente, procurar ser senhor do fluxo de informação e não vítima dele.

O parágrafo acima devia encerrar esse post, mas não posso deixar a mídia comercial num canto como se não gostasse dela apesar de odiar muita coisa que ela tem feito para tentar sobreviver na era online.

Seguindo os sinais das premissas que citei acima creio que podemos ver um poderoso renascimento da mídia através de aplicativos móveis se elas souberem fazer duas coisas:

  1. Transformar a “leitura” em uma experimentação do conhecimento, ou seja, se ela for capaz de usar os recursos disponíveis para nos permitir fluir pelo fluxo de texto, imagens, vídeos, sons e animações experimentando seu conteúdo em uma dimensão que não é possível na Web (e não por limitações técnicas, mas pelo estado de consciência que assumimos ao navegar)
  2. CONTEÚDO! Pelos deuses! Melhorem seu conteúdo! Vocês precisam oferecer o que nós não podemos fazer sozinhos. Vocês tem acesso a informações, tempo para analisá-las e treinamento para analisá-las criticamente. Parem de publicar desastradamente sessões como “Deu no Twitter”