Rio Info e um momento histórico

Na semana passada ocorreu a Rio Info 2009 e tive chance de testemunhar mais um momento histórico que pode não ser lembrado quando os humanos do futuro estudarem os primeiros movimentos que marcaram a transição da era industrial para a era cognitiva, mas certamente tem um peso relevante hoje.

Ocorreu no último dia, sexta-feira, a reunião da Cristina De Luca, Marco Dantas, Carlos Nepomuceno, Martha Gabriel, Wagner Santana, Sérgio Amadeu e Gil Giardeli com uma intervenção preciosa de Corinto Meffe (do portal de software livre do governo) que estava na platéia.

Como ainda não achei nenhum GIP (Google Important Person) que tenha resumido as palestras e o debate farei isso e só depois partirei para as minhas próprias reflexões. Isso pode ficar um pouco longo…

Aliás… vou adotar a abordagem oriental e começar com a conclusão:

Porque o debate foi um momento histórico?

Quando você encontra uma revista na banca de jornal onde a matéria de capa anuncia que “Estamos na era do prosumer onde o poder é Seu!” ficamos com a impressão que a Internet (e note que sempre uso Internet como nome próprio) é um meio de comunicação que permite que o consumidor se una para exigir coisas das empresas.

Não há nisso nenhuma mudança qualitativa, é apenas uma nova etapa na defesa do consumidor.

Nunca vi na capa de uma revista a manchet “Estamos na era do pro-cidadão onde o Poder é seu!” e é isso que estamos testemunhando e muito mais.

Durante sua fala o Nepomuceno sublinhou que “não estamos em uma era de mudanças, estamos em uma mudança de eras”. E ele é um dos pensadores mais “pé no chão” que prefere fazer um contraponto à euforia revolucionária.

Esse foi o momento histórico que testemunhamos: um grupo heterogêneo formado por uma gradação que ia do cético ao deslumbrado com a cibercultura. E quando mentes coerentes se reúnem elas não se limitam a reproduzir memes, elas ajudam a criá-los e transformá-los.

O que estamos assistindo não é a mudança de eras impulsionada pela Internet, mas justamente a criação de novos espaços de convivência (a Internet é um deles) e formas de interação provocados por um processo longo de transormação social que se iniciou a séculos (talvez a mais de 10 mil anos, mas não vou abusar da sua boa vontade agora!) e agora aparententemente está chegando a um ponto de ruptura, um tipo de salto quântico (teoria que afirma que não é possível atingir a velocidade da luz, mas pode-se saltar de uma velocidade próxima para outra centenas de vezes maior em um só impulso) entre duas fases da nossa evolução.

Vou deixar para outros que se sintam inspirados a escrever sobre o que foi discutido a respeito de mais valia, o egoismo natural humano preconizado por Adam Smith pois reconheço as limitações do meu discurso :-)

Prefiro observar que mesmo Marco Dantas – que me parece assumir uma postura mais para o extremo cético – apontou o livro Ligações Perigosas de Chordelos de Laclos escrito em 1782 como um sinal do surgimento das redes sociais virtuais.

A busca por cenexão cognitiva realmente não parece ser uma novidade, mas uma necessidade primitiva da nossa espécie que nada poderá impedir e que se potencializa exponencialmente conforme nossas tecnologias crescem exponencialmente impulsionadas por uma consciência em fervilhante processo de modificação.

O que será a partir de agora? Que sociedade, que política, que sistema econômico, que relações humanas, que famílias, que casas, que culturas, que religiões, que alma teremos amanhã?

Do meu ponto de vista inspirado pela teoria dos Memes é bem provável que isso não dependa de nós, que sejamos apenas marionetes manipuladas por um tipo de consciência coletiva que brinca com nossos instintos. No entanto, ao ver um debate como esse tenho uma esperança romântica que a nossa espécie finalmente esteja pronta para assumir as rédeas da nossa própria evolução.

Pelo menos creio que essa postura otimista seja mais útil para construir um futuro tão favorável para nós quanto para os memes e temes (já viu a apresentação da Susan Blackmore no ted.com?).

O que foi dito na Rio Info?

Bem, feita a conclusão vamos às notas que fiz das palestras.

De Luca

Ela tinha 15 minutos para falar, mas demonstrou um invejável poder de síntese ao ser provocativa em menos de nove minutos.

De Luca nos convidou a refletir sobre o público e o privado, a informação versus o conhecimento e destacou que a melhor forma de se “defender” do online é estar lá (a Rio Info é um evento para empresas).

Sem propor respostas ela nos instigou a pensar no efeito manada e se estamos na Rede para engrossar o caldo cultural ou para dividí-lo.

Marco Dantas

Resgatando a lei francesa de 1850 (e poucos) que permitia que os operadores de telégrafo censurassem as comunicações e a privatização das frequências de rádio no início do século passado (para favorecer o surgimento das rádios privadas) ele parecia sugerir que a Internet também pode passar por processo semelhante e creio, a propósito, que ele é a favor disso a pretexto de controlar ou amenizar o caos.

Naturalmente discordo dele quando comenta que a maioria usa a Internet para falar de futebol, novela e mulher e não como uma ágora informacional. Mas concordo que ainda é menos usada para isso do que eu gostaria.

Finalizando ele lançou a pergunta: pirataria, quem ganha e quem perde?

Carlos Nepomuceno

Ele começou observando que a enorme maioria de filósofos e pesquisadores da época não perceberam a importância que o livro teria ou as mudanças que se seguiriam em função dele como a revolução Francesa e a própria materialização da democracia moderna.

Outro ponto importante, tirado da sua experiência como consultor em gestão do conhecimento para grandes empresas está na constatação da dificuldade que algumas tem em compreender a dualidae colaboração X “eulaboração”, mas que é indiscutível que o arranjo colaborativo elimina o trabalho burro e o repetitivo.

Ele já escreveu dois posts inspirados pelo evento:

Martha Gabriel

Artista digital, especialista em SEO e realidade aumentada e dotada de um ritmo cognitivo que lembra o Luli Radfaher ela fez uma das mais estimulantes e surpreendentes palestras do dia.

Indo da realidade até a virtualidade aumentada passando pela existência online ela nos apresentou a um undo onde todas as coisas terão sua representação online através da popularização dos qrcodes e dispositivos de realidade aumentada.

É uma visão que serviu muito bem para mostrar que o dito mundo virtual já está se torando rapidamente em uma extensão real online dos objetos, pessoas e ideias offline (há ideias offline?)

Durante a apresentação ela comentou alguns exemplos que vale listar aqui:

Wagner Santana

Pouca gente trabalha na práticica os sonhos da cibercultura, ele é um dos que age enquanto pensa e nos falou dos desafios e possibilidades das redes sociais no contexto brasileiro.

Espero obter o link para apresentação dele em breve, mas aqui vão umas poucas anotações que fiz:

  • Núcleo de informática aplicada à educação: http://eurydice.nied.unicamp.br
  • 14,5% dos brasileiros tem alguma deficiência que dificulta experimentação visual, auditiva e comunicativa das redes socias online
  • 74% não são plenamente alfabetizados (não são capazes de ler, entender e sumarizar um texto corretamente)
  • 61% nunca acessaram a Internet (esse dado entra em conflito com outros que dizem justamente o contrário)
  • A seção mais usada da rede social criada por eles, a vilanarede.org.br, é a de Ideias (o que demonstra que o Marco Dantas estava equivocado pelo menos nesse caso a respeito do uso dado pela maioria à comunicação online)

Sérgio Amadeu

Sempre empolgado e profundamente engajado ele fez uma apresentação que sintetizou alguns dos pontos principais a favor dos quais ele vem advogando:

  • As redes sociais online são uma realidade em franco avanço e longe de atingir seu ápice
    • A comunidade Discografia no Orkut (fechada por força da lei) só aprovava participantes que tivessem subido ao menos uma música para a Rede e contava com mais de 800 mil, ou seja, 1 em cada 217 brasileiros já enviaram músicas para a Internet
    • Em 2006 33% dos adultos tinham visto vídeos online, em 2009 62%
    • Adultos com perfil em redes sociais online aumentou 4X entre 2005 e 2009
  • O mito da originalidade
    • Crise da intermediação: o proprietário do conhecimento humano é um intermediário imposto artificialmente

É difícil transcrever as ideias do Sérgio em um breve artigo, mas ele tem extensos artigos que você pode encontrar no link que deixei lá em cima no começo do post.

Gil Giardeli

Uma das principais qualidades do Gil é uma profunda fé no gênero humano e em nossa evolução. A apresentação dele, a exemplo de outras que já tive chance de assitir, é um desfile do que há de mais nobre nas ações humanas online.

Assim que achar a apresentação dele colocarei aqui.

Comments

  1. Roney,

    grande resumo, realmente você registrou o momento.

    Concordo que foi algo importante e me marcou profundamente, pois me fez definir alguns rumos entre as estradas a seguir na estrada estreita entre os tecnofócios e os tecnotimistas.

    Essa visão otimista x cética, no fundo, pode até ganhar um tom falso, pois se trata, no fundo, de compreender o fenômeno em toda a sua dimensão e avaliar como o ser humano se alterou ao longo das rupturas informacionais.

    E só então se posicionar na seara de opções e lutas que temos pela frente com a Web e se decidir se vai entrar ou sair da briga.

    Teorias gerais e conceitos, antes de mergulhar fundo na prática, ou as duas coisas, entra e sai, entra e sai.

    Quando você diz:

    “O que será a partir de agora? Que sociedade, que política, que sistema econômico, que relações humanas, que famílias, que casas, que culturas, que religiões, que alma teremos amanhã?”

    Certamente, temos muitas mudanças e algumas definições importantes no campo político-institucional-tecnológico, no qual principalmente o Amadeu e o Gil estão inseridos, que são fundamentais.

    Do ponto de vista filosófico, entretanto, o tamanho da mudança humana é um ponto à parte…e vale tb aprofundar que é o que fica como sugestão.

    + debates como este com gente que tem a dizer e está aí no caldeirão da rede, tentando que a gente fale mais do que modens.

    Grato pelo relato, colaborou e muito.

    abraços

    Nepô.

  2. [...] This post was mentioned on Twitter by cnepomuceno. cnepomuceno said: Debate de redes sociais na Rio Info, Roney faz resumo e comentários: http://migre.me/7c5h @DeLuca, @samadeu @gilgiardelli @marthagabriel [...]

  3. Caro Roney, parabéns sobre o resumo!

    Bom, vou direto ao ponto. Concordo com o Nepomuceno quando disse: “não estamos em uma era de mudanças, estamos em uma mudança de eras”. Quando o ouvi dizer isto, me lembrei da seguinte colocação de Castells: “Uma transformação tecnológica de dimensões históricas está ocorrendo [guiado pela] integração de vários modos de comunicação em uma rede interativa.”

    Ainda, sobre as questões envolvendo otimismo x ceticismo, temos um sistema que deverá ser cada vez mais adaptado às nossas necessidades, nos mais diversos âmbitos. Assim, creio (e espero) que, com a participação de pessoas com as mais diversas opiniões em relação à Internet (também com caixa alta), da forma como aconteceu na mesa, consigamos atingir um equilíbrio no mínimo interessante.

    Sobre a palestra de Martha Gabriel, impossível não se lembrar do questionamento do filme Matrix: “What is real?”. Se tudo que percebemos é composto de impulsos elétricos, uma interceptação, usando a metáfora da comunicação por fios, nos faria “perceber” outra realidade. Também me fez lembrar uma colocação de Castells: “toda realidade é percebida de maneira virtual”.

    Por fim, obrigado pelo “age enquanto pensa”! Creio que temos desafios muito grandes no contexto brasileiro e que podem ser considerados em vários outros contextos. Minha apresentação foi baseada no artigo disponível em http://www.sbc.org.br/bibliotecadigital/download.php?paper=1315
    A apresentação pode ser obitda em http://www.plasticdesign.eti.br/drupal/node/35

    Sobre os números que comentei, as referências são Censo 2000, Instituto Paulo Montenegro e CTIC.br. O dado que comentou entrar em conflito com outros está em: http://www.cetic.br/usuarios/tic/2008-total-brasil/rel-int-01.htm.

    Não vou entrar no mérito do conflito que mencionou. Explico: normalmente, não gosto de usar números, pois pode soar no mínimo contraditório falar de inclusão e se basear em porcentagens em vez de considerar as diferenças. Minha ideia foi convidar todos a pensarem na inclusão. Como disse a professora M. Tereza E. Mantoan”Só se pode excluir quando for para incluir” (http://www.unicamp.br/unicamp/en/divulgacao/2009/08/19/tereza-mantoan-fala-sobre-inclusao-na-escola-em-cafe-filosofico).

    Esses números, no meu ponto de vista, são importantes, pois representam um snapshot do nosso contexto, mas não podemos perder de vista que eles representam algo que é muito dinâmico e muito cheio de possíveis contextos de uso. Assim, mesmo alguém que esteja fora da união das porcentagens que comentei, pode sofrer, em algum contexto de uso, com algo que não seguiu design inclusivo e não considerou diferenças.

    Bom, vou ficar por aqui, pois já escrevi coisa demais para um comentário.

    Até mais,
    Vagner Santana