Tudo na Terra pertence aos seres vivos, inclusive a Nokia

January 11th, 2010

O fechamento do blog NokiaBR sob ameaça de processo feita pela Nokia me fez quebrar um pouco a minha linha editoria para somar minha voz aos protestos.

E ainda outro dia eu falei que só faltava sermos processados por falar bem, pois aconteceu.

O que acontece é que as corporações desenvolveram a visão psicopata de que elas podem ter posse sobre o que não lhes pertence: fórmulas de remédio pertencem à humanidade, o carbono no petróleo pertente a todos os seres vivos, marcas pertencem aos consumidores.

Exato, as marcas Nokia, Apple, Globo, Paramount, Nasa, Monsanto não passam de nomes de grupos cuja causa e função são as pessoas que consomem seus produtos e as consequências das suas ações as tornam servas de todos os seres vivos no planeta.

A lei não nos permite, mas o fato é que, nós humanos, temos direito moral de usar as marcas que nos servem como desejarmos desde que não embuídos de interesses escusos.

Nós temos o direito de usar as marcas para criticar suas falhas, sugerir novos rumos e elogiar o que admiramos.

Falta agora as corporações entenderem o fantástico universo de possibilidades diante delas se entenderem isso.

À diretora Eulália Maria Wanderley de Lima

January 8th, 2010

Essa mensagem é um apelo ao diálogo, ao bom senso e à liberdade de expressão.

É certo que a resposta correta a um ato público de difamação é o processo em busca de indenização moral (como se nossa honra pudesse se comprada, mas esse é um tema que pertence ao século XX e aqui eatamos diante de princípios para o século XXI).

A difamação a que me refiro é o comentário deixado no blog liberdade.blogueisso.com que culminou na condenação do blogueiro Emílio Moreno a pagar uma indenização de 5,5 mil Reais (após negociar o valor inicial de 16 mil).

Sou um observador externo, um cidadão como qualquer outro que só soube desse caso pelos ecos na mídia no boca a boca.

Tudo que pude saber do caso já que a agressão à senhora foi retirada do ar após solicitação legal, que criticaram sua atuação em uma briga entre alunos em sua instituição, que seus advogados a instruiram a abrir processo indenizatório e que a senhora não pode ir nas 4 primeiras audiências indo apenas na primeira em que o acusado não pode ir.

É claro que a decisão da justiça foi acertada e o comentário foi difamatório, mas quando as coisas acontecem online estamos lidando com uma nova cultuta emergente onde a sociedade se sente no dever de participar coletivamente das questões que envolvem a expressão de opiniões.

Caso a senhora tivesse mantido o comentário ofensivo e demonstrado que ele era improcedente a coletividade se colocaria ao seu lado, mas como a agressão não está mais disponível e portanto também o seu direito de resposta resta ao público julgar por suposição e comparação.

A comparação já se coloca contra a senhora pois, muito embora se diga que a Internet é uma terra sem lei, o que vemos mais frequentemente é justo o contrário: há inúmeros casos de políticos que censuram blogs e jornais, estabelecimentos ruins que procuram calar clientes insatisfeitos e pessoas que se aproveitam da indústria da indenização.

Estou certo que a senhora não está junto de nenhum desses grupos, mas por analogia muitos pensarão o contrário como se nota nos comentários no artigo do G1. Alguns provavelmente mais agressivos que o comentário original que inspirou o processo contra o Emílio Moreno. Outros sugerem que a senhora teria faltado propositalmente às audiências aguardando que o réu faltasse sem justificativa. Enfim, o processo envolto em dúvidas tem um poder difamatório muito maior do que o comentário que foi retirado do ar.

O segundo critério que ficará por conta da imaginação pública é: qual era o teor do comentário condenando sua atuação na briga? Continha difamação? Injúria? Calúnia? E se não era calúnia e o que está acontecendo realmente é que estão tentando encobrir um sério desvio de conduta da senhora?

As pessoas pensarão coisas assim e a melhor forma de impedir isso seria a publicação da ofensa acompanhada da decisão da justiça e do apoio dos seus alunos e outras pessoas que respeitam seu trabalho e personalidade.

No entanto não é justo dar tanto prestígio a alguém que não teve honra e fez a crítica anonimamente se aproveitando do blog alheio.

Aqui entra meu apelo que visa o melhor para todas as partes: A justiça já deixou claro que a ofensa à senhora foi indevida e ilegal, a senhora já obteve justiça e agora tem chance de mostrar que esse era seu único interesse abrindo mão da indenização ou permitindo que ela seja doada a uma instituição de caridade.

Isso apagaria todas as dúvidas sobre a questão e ainda nos deixaria a chance de transformar o incidente em uma oportunidade para beneficiar uma instituição que, sugiro, seria escolhida em votação online por moradores de Fortaleza.

Porque vender música na Internet ainda não funciona?

December 25th, 2009

O Christian Bleffe tuitou o post Aqui, já num era para a Internet tá funcionando? e o meu comentário ficou tão grande que tive que transformar em post. Lá vai…

Bem, na minha opinião a nossa civilização decidiu que a Rede é um instrumento para permitir que o conhecimento e a cultura fluam livremtente, é um lance que tem a ver com um papo maluco de memética, mas o fato é que a grana não está no centro dos nossos esforços coletivos online, muito pelo contrário: vamos na direção de tornar tudo grátis.

E como fica o leitinho das crianças ou o jantar com a pessoa amada? Como paga?

Esse é o desafio de quem produz coisas que podem ser digitalizadas (livros, músicas, vídeos etc): descobrir como ser pago pelo que circula online.

Durante a transição para viver dessas coisas intangíveis só mesmo com uma solução híbrida: recebendo grana por livros, CDs, DVDs e do que foi compartilhado online. Uma hora o online vai passar o offline e quem soube fazer a transição vai se dar bem. Espero que ninguém realmente bom fique na rua da amargura por não saber entrar online…

A minha aposta vai para o exemplo dos bares de Alcântara (mas poderiam ser de qq outra cidade satélite) onde dezenas de trabalhadores famintos pedem centenas de refrigerantes e pasteis chineses e pagam só no final dizendo ao caixa direitinho o que consumiram: as pessoas são honestas quando acreditam em quem lhe oferece o produto. Pelo menos a maioria delas são ou os bares fechariam as portas.

A Internet é assim: a galera sai baixando música, escuta, gosta ou não gosta e só precisa desenvolver o princípio ético de ir ao caixa para pagar o que gostou, mas onde é o caixa? Quantos artistas divulgam formas de pagamento em seus sites?

Quanto a cauda longa ela serve para duas coisas.

A primeira é para os trabalhos artísticos tão bons que são capazes de revolucionar a arte, mas que ficavam relegados ao esquecimento porque não agradavam as massas. Agora eles podem alcançar um punhado de pessoas que vão criar coisas em cima daquilo até que algumas partes cheguem ao chamado mainstream. Esse pessoal só precisa aprender a existir na Internet como costumo dizer.

A segunda funcão da cauda longa é corrigir aqueles “errinhos” das gravadoras e produtoras que costumam ignorar justamente as obras que vão se tornar os maiores sucessos de massa de todos os tempos. Lembro melhor dos exemplos em cinema e literatura como Guerra nas Estrelas, Harry Potter e Peter Rabbit de Miss Potter, mas talvez quase todas as grandes obras tenham sofrido para serem aceitas pelos produtores e agora elas podem buscar reconhcimento primeiro online a exemplo do movimento musical “Faça vc mesmo”.

Hummm… A cauda longa também serve para artista ruim que jamais venderia para o público ou viveria do seu trabalho, mas consegue pelo menos uns trocados para pagar o condomínio graças a fãs de mau gosto que pagam por seus trabalhos ;-)

Falei, falei e falei, mas como fica o dindin via Internet?

Sinceramente, acho que tudo passa pela construção de um relacionamento de confiança com os ouvintes e pela criação de formas deles pagarem pelo que gostarem, mas cada caso é um caso, cada um terá que desenvolver sua própria “fórmula”.

Só uma coisa é certa: quem achar primeiro os caminhos para as pessoas online os recompensarem por sua arte vai se dar muito bem pois haverá muito mais grana (se é que já não há) online que offline.

Cultura Digital e Capitalismo Cognitivo: 14/14 Trabalho de Conclusão

December 9th, 2009

O último dia do curso promovido pelo Pontão da Eco da UFRJ é a nossa contribuição de volta para a coletividade: devemos escrever sobre a experiência do nosso grupo ou coletivo em uma das áreas abordadas durante o curso (todas comentadas em outros posts aqui mesmo no blog), a saber:

  1. As Revoluções da Comunicação: Redes, Software Livre, Copyleft
  2. Capitalismo estético e sistema de autonomia/controle
  3. A Filosofia do Software Livre e a crise da Propriedade
  4. Capitalismo Cognitivo e a emergência da Multidão
  5. O Horizonte da Gratuidade e a Cultura Digital
  6. Copyleft, Pirataria e práticas colaborativas
  7. Creative Commons e Novas Formas de Licenciamento
  8. Economia da Cultura
  9. O Fenônemo das Lan Houses
  10. RadioArte e Práticas estéticas
  11. Redes Colaborativas
  12. Cultura Remix e Microfilmes
  13. Web-arte e Webativismo – Midiarte

Descrição do grupo ou coletivo a que pertenço

Faço parte do coletivo informal auto-organizado frequentemente chamado de blogosfera, mas prefiro o termo digitosfera compreendendo que há um conjunto de princípios que tentem a caracterizar blogueiros, habitantes de redes sociais, tuiteiros, jogadores online, interessados em robótica, ativistas online e outros grupos que utilizam intensamente os meios de comunicação digital podendo-se até incluir os internautas de celular.

Minha participação nesse coletivo se deu em duas fases distintas.

A primeira fase foi na era dos BBS (1994) quando participei mais ativamente do BBS Centroin mobilizando-me pelas causas comuns do grupo, já na época envolvendo principalmente a força coletiva das nossas vozes individuais. A segunda fase iniciou-se recentemente (em 2008) quando me aproximei mais da chamada blogosfera (apesar de manter um blog ativo desde 2002).

Ao longo destes 15 anos a maior parte das  pessoas quem quem tenho convivido são o que chamarei de cibernautas por falta de uma palavra melhor e esse é o meu coletivo: pessoas que vivem intensamente os princípios e tendências da cultura digital.

Experiência abordada

Decidi falar sobre o grupo que se formou para organizar as edições do Twestival no Rio de Janeiro e da forma como ele se organiza em uma rede não centralizada a exemplo das redes colaborativas citadas pela Oona Castro e do modelo OpenSource abordado pelo Sérgio Amadeu.

O Twestival é essencialmente um evento social com o objetivo de promover o encontro offline de frequentadores do Twitter.

Nascido na Inglaterra além do caráter social escolhe-se uma instituição (OSCIP) para ajudar através de arrecadação de recursos.

Houve apenas duas edições do evento até o momento.

Na primeira edição ocroreu a formação espontânea do grupo para organizar o evento da seguinte forma:

Um participante da coletividade (@lesilva) soube da iniciativa inglesa e cadastrou nossa cidade entre as que organizariam uma edição local, mas não teve tempo ou condições de mobilizar outras pessoas e muito menos de assumir todo o projeto sozinho. Em virtude disso o projeto ficou parado até que outras pessoas decidiram se unir a ele faltando apenas uma semana para o dia do evento (adotou-se uma data única para todas as cidades nessa edição).

O grupo formado contava com certa de 10 participantes que agiram sem uma coordenação centralizadora utilizando a rede de comunicação do Twitter e uma lista de emails paa evitar o conflito entre as tarefas a que cada um se dedicava.

Subgrupos também se formaram para algumas atividades mais complexas coornenando-se internamente da forma hierárquica tradicional.

Como resultado o evento foi um sucesso e o Rio de Janeiro, além de atrair quase 80 pessoas em um dia de forte temporal (12/02/2009) foi uma das cidades que mais arrecadou recursos para a instituição esolhida (uma que faz poços de água potável na África).

Na segunda edição o grupo já se encontrava mais preparado e organizado e seria de se esperar que houvesse uma mudança para o modelo tradicional o que não aconteceu e além disso houve mais uma modificação no sentido da formação de uma rede não centralizada de trabalho.

Para a imprensa (o evento tem alguma repercussão na mídia tradicional) elegeu-se uma representante (@claudiaruiva, que foi o elemento que mais se engajou em estimular o grupo na primeira edição), mas o funcionamento interno permaneceu o mesmo com uma diferença.

Na segunda edição, tendo pouco mais de um mês para organizar o evento, o restante da coletividade (tuiteiros) se envolveu naturalmente em várias das atividades de organização e promoção do evento a tal ponto que é difícil definir quantos foram os organizadores e muitas vezes pessoas que não estavam na lista de email se confundiram com o restante.

Apesar da organização aparentemente caótica mais uma vez o evento transcorreu normalmente reunindo mais de 80 pessoas e mantendo a faixa de arrecadação do anterior.

Grupos de trabalho em rede descentralizada

Como um grupo sem uma coordenação centralizada pode funcionar adequadamente? Esse é um modelo que pode ser reproduzido ou deve se formar espontaneamente?

Creio que a formação do grupo foi possível por todos estarem profundamente imersos na cultura digital e já estarem acostumados a interagir além da esfera offline com naturalidade. Por exemplo, não usam chats limitados preferindo o Twitter, não escrevem emails preferindo o mesmo Twitter ou blogs para assuntos menos simples e dominam o uso do email e listas de emails.

Quando surgiu a necessidade de cumprir uma infinidade de atividades em um espaço de tempo muito curto a solução da auto-organização surgiu naturalmente sem necessidade de planejamento.

Creio que grupos semelhantes se formarão naturalmente sempre que houver necessidade semelhante envolvendo pessoas digitais (novamente por falta de palavra melhor).

Assim como fazer uma consulta rápida ao Google pelo celular é um ato corriqueiro para nós a construção de um grupo auto-coordenado também pode ser um impulso natural de cibernautas ou pessoas fortemente inseridas na cultura digital.

O proceso de organização é praticamente instintivo se utilizando das ferramentas de comunicação digital sem esforço como se fossem fala ou o gesto.

Esses grupos se comunicam tão naturalmente entre os meios (principalmente voz, telefone, sms, chat, Twitter e email) que a coordenação central se torna desnecessária visto que eles sabem onde e o que cada um está providenciando a cada momento. É como um bem integrado time de jogadores de volei que sabem pelos gestos, posições e expresão uns dos outros como eles vão receber a bola e para quem vão mandá-la.

Essa é uma forma de organização que se tornará padrão entre grupos fortemente imersos na cultura digital? Não creio, mas me parece que é um modelo eficaz quando há muito para fazer em pouco tempo ou se trata de uma atividade que diz respeito a uma coletividade que deve ser inserida no processo de criação, decisão e execução.

Pontos fortes

Aplicado totalmente o modelo garantiria a decisão coletiva de cada etapa do processo de organização levando ao extremo a idéia de que duas cabeças pensam melhor que uma sugerindo que todas as cabeças pensam melhor que algumas.

Pela experiência como parte do grupo outro ponto forte muito importante é o mesmo que encontramos em redes descentralizadas como a própria Internet e a comunidade Opensource: a falha de um nó não compromete o conjunto.

Quando um elemento ou subgrupo percebe que não tem condições de cumprir a tarefa que lhe foi atribuida ele compartilha essa informação pela rede e logo outros se juntam ou assumem a tarefa. Um exemplo prático no grupo em questão foi em vários momentos quando foi necessário pegar material em um lugar e transferir para outro (como camisas do evento ou prêmios para serem distribuídos entre quem fazia doações para a instituição beneficiada): a informação era passada pela rede sendo assumida por algum nó que avisava “ok, estou perto e posso fazer isso”. Algumas vezes o primeiro nó falhou, mas logo passava a informação para a rede e alguém se prontificava.

Falhas

Há falhas para o modelo em si e falhas da sua implementação nas duas edições do evento que tomei como base.

As falhas na implementação em foco foram principalmente no sentido de não compartilhar totalmente a organização, decisão e execução com a coletividade o que se justifica na primeira edição pela falta de tempo, mas não na segunda.

Em parte a falha se dá justamente porque o aranjo em rede descentralizada não foi planejado, mas um movimento natural do grupo em questão que, em última análise, foram criados em uma cultura de redes centralizadas.

Se por um lado houve o impulso inconsciente de se organizarem dessa forma havia também o impulso consciente de manter o controle. Sendo assim o lugar do evento, a instituição a ser favorecida, a estampa da camisa criada para o evento, o fornecedor das camisas e diversas outras decisões foram tomadas pelo grupo que se mantinha coeso através da lista de emails (foram quase 3 mil mensagens trocadas em menos de um mês).

Essa falha pode ser vista como qualidade se observarmos do ponto de vista que um controle central para certas decisões pode ser necessário para evitar o caos ou a demora exagerada em certas tomadas de decisão embora valha destacar aqui que, na necessidade de uma decisão rápida todos os organizadores tinham autonomia (conferida tacitamente) para agir de acordo com seu próprio discernimento.

Isso destaca outro ponto, pelo menos em organizações de eventos, há uma necessidade grande de confiança. Não é sensato por exemplo jogar em uma rede totalmente aberta que alguém precisa pegar a mala com 3 mil Reais em arrecadação para a instituição beneficiada. Um certo grau de confiança entre os organizadores é necessário e essa é uma falha que podemos apontar no modelo em si e não na implementação.

Por outro lado é fácil pensar em várias atividades em qualquer tipo de empreendimento onde não é necessário um grau de confiança maior bastando a certeza da identificação da pessoa graças a avatares e uma presença online notável em redes sociais e blogs que deixem claro que a pessoa tem mais a perder ao prejudicar sua imagem do que ao tirar qualquer vantagem.

Desdobramentos prováveis para o futuro

Em março de 2010 haverá uma nova edição do Twestival (cujo objetivo será arrecadar recursos para uma instituição que investe na educação em países do terceiro mundo) e será interessante observar como o grupo se desenvolverá.

A suposição é que algumas das deficiências anteriores serão reduzidas e mais decisões serão feitas coletivamente fora do grupo central que deve se caracterizar cada vez mais como um grupo executivo e coautor das decisões estratégicas.

Para isso talvez sejam usados sistemas de enquete online e o gWave que começa a mostrar alguma vocação para esse tipo de organização, mas as ferramentas não importam e sim o impulso coletivista no sentido de formações de redes descentralizadas.

Nas próximas edições, conforme as presenças online se tornem mais consistentes (mesmo com avatares que não revelam adequadamente os rostos os laços tendem a se estreitar graças à intensificação dos encontros online e offline) é muito provável que vejamos uma fronteira menos definida entre o grupo executivo e todos os envolvidos no evento.

Se deixará de haver um grupo que se mantém mais coeso através de uma lista de emails mais consisa acho improvável, mas a cultura digital tem o histórico de nos surpreender e na verdade creio que ess modelo será ao menos testado inconscientemente ou mesmo poderá vir a se impor naturalmente.

Considerações finais

Partindo do caso relatado podemos supor que outros grupos se organizarão da mesma forma e que a influência das novas organizações em redes não hierárquicas se estendem além do universo do desenvolvimento de software ou da cultura digital mostrando-se como uma alternativa aos grupos de trabalho hierárquicos usados em todas as organizações.

É o caso de se pensar até onde e em que ambientes esses modelos organizacionais podem se mostrar mais eficientes que os atuais.

Devemos repensar a forma de integração dos departamentos de uma empresa entendendo que seus departamentos estão começando a se integrar na forma de redes distribuídas e não hierarquizadas como já sugeriu Carlos Nepomuceno?

No processo de adotar esses novos arranjos devemos estar atentos para os casos onde eles não se aplicam ou onde um modelo híbrido se mostraria mais adequado.

Além disso está claro que uma parte essencial do preparo para participar dessas redes está no trânsito natural entre as redes de suporte digital visto que é necessário ser capaz de desenvolver empatia, julgar o caráter, qualidades e deficiências do outro mesmo com pouco ou nenhum contato presencial.

Caso esses arranjos em redes descentralizadas sejam um movimento natural os nossos jovens os implementarão sem grandes esforços, mas o que dizer do período de transição e o que podemos fazer para que ele seja mais suave e com menos percalços?

Como esses arranjos organizacionais serão apropriados pelo meio acadêmico?

Há muitas perguntas a fazer, mas creio que as respostas começam na busca consciente de uma inclusão social online indo além da ideia de inclusão digital.

É a capacidade de transitar pelas redes online como se fossem espaços físicos (parques, salas de estar, cozinhas, praças e bares) que nos preparam para participar de grupos auto-organizados sem um centro hierárquico pois é nessas redes que desenvolvemos as abilidades sociais para interagir na ausencia da expresão física e inflexão de voz e aprendemos a nos comunicar digitalmente (seria melhor dizer online) com a mesma naturalidade que fazemos pessoalmente (offline).

Cultura Digital e Capitalismo Cognitivo: Webarte 13/14

December 7th, 2009

Chegamos à ultima aula do curso do Potão Eco da UFRJ. O próximo post será o trabalho de conclusão que cada participante deve fazer.

As minhas notas de aula estão no Posterous e vou me empenhar em compartilhar as ideias que tive durante e depois da aula.

Trata-se de uma tarefa complexa para mim pois não sou uma pessoa culta no que diz respeito a manifestações como pintura e fotografia, manifestações artísticas que, se compreendi corretamente, se aproxima mais da arte digital e da webarte.

A vocação da Webarte

Se estamos diante de uma mudança tão intensa que só ocorreu mais duas vezes (quando desenvolvemos a fala e depois a escrita) então é de se esperar também mudanças substanciais na forma, no processo e na manifestação artística.

No passado a arte era um processo mais íntimo que envolvia o artista, sua tela e, no máximo, seu cliente. Além disso o suporte para a obra era uma tela, uma peça a ser esculpida ou um fotolito. Posteriormente toda arte é relida, multiplicada, reinterpretada e remixada pela população, mas o processo de criação produzia obras universais graças à sensibilidade do artista e não à participação coletiva na criação.

Tudo isso parece mudar (aliás já na arte cinética e outras manifestações do século XX) com a arte digital fortemente caracterizada pela hipertextualidade, metalinguagem, vários suportes interligados, imaterialidade, reprodutibilizade infinita e interatividade. Isso sem falar que as possibilidades de remixagem coletiva conferem uma vida própria à arte digital.

Enquanto a arte analógica assume novas interpretações de acordo com o estado de consciência ou humor do observador, mas se mantém estática e inalterada, a obra digital tem a capacidade de realmente se transformar a cada vez que o observador interage com ela sendo não só interpretada de acordo com seu estado de espírito, mas talvez fazendo o caminho inverso modificando-o.

Pode ser um raciocínio de caminh tortuoso, mas talvez, muito além de questionar os valores e desafios de uma sociedade marcada pelo fluxo e criação de informação, a arte digital e a webarte sejam uma forma de alimentar a retroalimentação da cultura coletiva condizindo nossa espécie a novos valores que venham se contrapor ao individualismo da era industrial.

Webativismo

Onde há arte há ativismo, onde há poder há manipulação dos meios de comunicação.

Nossa civilização, amordaçada pela aliança entre o poder e a mídia encontra na Internet um ambiente para exercer a liberdade de expressão (e por isso tanta perseguição e demonização da Internet e cidadãos cibernéticos).

Assim como um dia um estudante chinês pode confrontar tanques na praça da Paz Celestial protegido pelas lentes da mídia televisiva agora essas imagens se reproduzem online e nos permitem desenvolver empatia pela moça desarmada que enfrenta a mira das metralhadoras para impedir o que considera um ataque injusto.

O ativismo online é mais lembrado quando testemunhamos políticos censurando jornais e jornalistas ou processos oportunistas de maus profissionais contra blogueiros (pois não temos o direito de opinar online quando nos vemos mal atendidos).

O webativismo, ou eu diria, o ativismo moderno parece mais atento às causas universais, à consciência de que estamos em um mesmo planeta e somos um mesmo povo.

A campanha do Obama reflete bem isso inclusive em seu discurso em Berlim:

O fato é que, se as novas tecnologias de comunicação (onde a Internet ocupa um lugar especial demonstrando-se praticamente como uma realidade online paralela ou até englobando a offline) não dão ao indivíduo mais voz do que dão aos atuais controladores da mídia, mas certamente dão esse poder à voz coletiva.

Esse é um ponto mal compreendido.

Acredita-se que a Internet dá poder ao indivíduo, mas ela dá poder à coletividade.

Se a sua necessidade individual encontra eco na coletividade nem a união das maiores agências de mídia poderão suplantar sua voz ecoada pela coletividade.

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