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Enviar por email ou criar um blog?

Monday, March 2nd, 2009

jornalismo_online“Você pode anexar um documento a um email? Então você pode publicar um blog com imagens”

- Mark Briggs

Ao receber por email um apelo, uma informação ou uma denúncia a pior coisa a fazer é repassá-lo para os amigos, mas transformar o assunto em um post pode mudar a sua vida e o mundo de formas surpreendentes.

Recebemos em nossas caixas postais dezenas ou mesmo centenas de mensagens por semana com assuntos que parecem interessantes ou importantes.

Nós absorvemos e repassamos esse enorme volume de informação por achar que seria impossível nos aprofundarmos em cada uma delas no escasso tempo que temos entre o trânsito, o jantar e poucas horas de sono. Além do mais a maioria dessas mensagens não aliviam nosso estresse, muito pelo contrário! É natural o impulso de passar adiante como se fosse uma batata quente.

O que acontece é que praticamente 100% dessas mensagens podem ser descartadas depois de uma busca de 15 segundos no Google: quase todas são falsas ou caducaram.

Pense no seu alívio e no alívio dos seus amigos ao notar que quase 100% da sobrecarga de informação em nossos emails podem ser descartados devolvendo a sua caixa postal o caráter pessoal e o calor humano?

Essa é a primeira grande mudança!

Depois de algum tempo ao ler a primeira linha de uma mensagem você saberá que pode descartá-la. Talvez você escreva um post como esse em seu blog e passe para o seu amigo o link para que ele também possa adotar essa nova cultura!

Se você não perceber de imediato se a notícia é real ou não sugiro seguir esses critérios:

  • A mensagem cita as datas (com ano), nomes das pessoas e lugares?
  • Há uma sugestão de como resolver o problema ou evitá-lo? (sem isso trata-se de terrorismo e não de utilidade pública)
  • Contém link para um site confiável com a notícia original ou onde as pessoas se reúnem para compartilhar informações?

Se a mensagem não passar nesses critérios e você não tiver tempo para pesquisar o melhor a fazer é passar para o remetente o tal link para o seu post similar a esse e apagar a mensagem.

Algumas mensagens serão verdadeiras e ainda não terão caducado e é ai que você terá que decidir:

Envio por email ou publico em um blog?

Se o assunto do email não é pessoal, se é de interesse público, a resposta sempre será: publique em um blog.

Um blog com pouquíssimo acesso recebe atualmente em torno de 600 visitantes únicos por mês. São facilmente mais de 6 mil pessoas por ano. É como se você repassasse seu email para 6 mil pessoas. Todo ano!

Além disso em um blog o texto da mensagem está vivo! Você pode voltar a ele para acrescentar ou corrigir alguma informação.

Você pode estar pensando que não tem tempo para fazer um blog ou que um blog é coisa de criança. Nem um, nem outro.

Se o assunto é realmente importante (e lembre-se que quase 100% do que recebemos por email pode ser descartado) então é porque vale a pena dedicar 15 ou 20 minutos para conhecê-lo melhor e escrever sobre ele. Se não vale esse esforço então não é importante: apague a mensagem e siga em frente!

Saramago (um dos maiores escritores vivos) tem um blog. Creio que isso me poupa te ter que escrever agora um post mostrando que blogs podem ser coisas muito sérias.

Como faço um blog?

Provavelmente todos os programas que você usa no seu computador são mais complexos do que um blog. Você só precisa do primeiro empurrão.

Entre agora em http://wordpress.com ou em http://blogger.com e siga as instruções. Ambos são em Português e provavelmente você estará escrevendo seu primeiro post em 5 ou 10 minutos.

Não é necessário instalar nada em seu computador. Tudo que você precisa estará na tela do seu navegador, seja ele um moderno Firefox ou o velho Internet Explorer que vem em todo Windows.

Você também pode dar uma olhada na tradução para o português feita por Carlos Castilho do livro em PDF Jornalismo 2.0 como sobreviver e prosperar de Mark Briggs (da Uiniversidade do Texas). Ele é voltado a jornalistas que precisam conhecer a Internet, mas serve para todos nós.

Como devo escrever em um blog?

Prepare-se para a segunda grande mudança em sua vida e no mundo…

O blog é seu e você pode escrever o que bem entender, podem ser poemas, crônicas reais ou fictícias, mas se você está escrevendo um blog porque sente que precisa fazer algo quando recebe aquelas mensagens em seu email então você deve escrever posts jornalísticos.

É claro que você não é um jornalista (a menos que você na verdade realmente tenha se formado em jornalismo então fique a vontade para deixar alguma sugestão nos comentários). Eu também não sou. No entanto é possível listar rapidamente alguns dos pontos essenciais que devemos observar ao escrever com aspirações jornalísticas.

  • Primeiro parágrafo: procure dar um resumo da notícia, algo como “Atenção para as bandeiras dos postos de gasolina pois há postos pirata usando símbolos que parecem, mas não são, das grandes distribuidoras”. Esse primeiro parágrafo é chamado de LEAD.
  • Nos parágrafos seguintes procure responder:
    • O quê?
    • Como?
    • Quando?
    • Onde?
    • Porquê?

E se você já tiver o link para um artigo jornalístico apenas dê a sua opinião sobre o assunto e indique o link para o artigo para que os seus leitores possam ir lá se informar.

Escrever online ou mesmo escrever no século XXI (já estamos nele embora muitos não tenham notado) é um pouco diferente.

Algumas coisas que não estão nos manuais de jornalismo:

  • Procure cobrir o que for essencial nos três primeiros parágrafos deixando para se aprofundar nos seguintes: Não se trata de superficialidade na informação, mas da possibilidade de permitir que o leitor decida até onde se aprofundar
  • Use links! Ao citar um artigo do qual você discorda linke-o. Ao citar um nome, link. Comentou um conceito que nem todos conhecem? Link.
  • Não linke tudo, deixe seu leitor desenvolver o hábito da pesquisa. Se você não tem um texto específico a indicar e o tema é vastamente abordado você não precisa linkar.
  • Eu sei que linke-o, linkar, linke e similares são horríveis anglicismos, mas é para voce jamais esquecer de apontar as fontes

Caso você descubra que gostou da coisa de escrever jornalisticamente talvez se interesse nesses textos:

Ah! Muito importante! Além da Internet não ser uma terra sem lei ela é uma séria ameaça para maus profissionais, empresas e políticos corruptos. Eles não querem que você seja livre para falar e podem tentar usar a justiça contra você. Portanto lembre-se de duas regras éticas:

  • Faça o bem! Critique construtivamente, informe, opine, alerte
  • Não faça o mal. Não escreva com o intuito de xingar, agredir, difamar, caluniar ou prejudicar nada nem ninguém

A segunda grande mudança

Argh! Integridade jornalística é um saco!Até hoje nós tivemos que nos conformar em absorver passivamente as notícias e toda produção cultural sem interferir nelas, sem poder opinar além das quatro paredes da nossa sala ou para um restrito grupo de amigos (em uma civilização de 6 bilhões qualquer grupo de amigos é restrito).

Quando repassamos mensagens ou simplesmente as copiamos e colamos em nossos blogs sem fazer uma pesquisa, sem lhes lançar um olhar crítico, estamos mais uma vez nos submetendo a uma estrutura de poder ancestral quando a minoria conduzia a maioria passiva.

Hoje o Google, o Twitter e em menor escala outras redes sociais extendem o nosso antes restrito grupo de contatos quase ilimitadamente.

O Google nos permite encontrar rapidamente o que outras pessoas estão falando sobre o assunto e o mecanismo de busca dele é (quase sempre) suficientemente inteligente para descartar os meros repassadores passivos dos que realmente adicionam valor à notícia.

As redes sociais (principalmente o Twitter) estreitam os seis graus de separação de tal forma que se um homem encontra seu celular na barriga de um bacalhau na Europa ficamos sabendo aqui em questão de horas, muitas vezes minutos (esse caso é real).

A segunda grante mudança em sua vida e no mundo que podem vir do ato aparentemente inocente de substituir a replicação passiva de emails pelo hábito do blog é que você tem o poder da informação em suas mãos e os tempos em que fazia sentido dizer “eles estão escondendo a verdade” estão terminando! E tudo isso porque em vez de repassar uma mensagem você fez uma pesquisa de 15 segundos no Google.

Campus Party: Fábio Malini e ética blogueira

Wednesday, January 21st, 2009

Acabo de assistir o blogueiro e jornalista Fábio Malini falar sobre sua visão a respeito de O que nós, blogueiros, somos.

Li o post inteiro que é enorme e isso por si só já é um fato notável pois o tempo aqui na Campus Party é escasso e os estímulos incontáveis, no entanto o texto é imperdível para quem está interessado em tentar entender para onde estamos caminhando.

A essência do artigo do Malini é que o blog é fruto do rompimento com a estrutura de poder e, nas palavras dele, da ótica do escravo onde uns poucos detem a prerrogativa de donos do conhecimento e o negam à pessoa comum condenando os blogs de diversas formas.

O blog seria o começo de uma nova democracia representativa.

Concordo com tudo isso, mas discordo da visão romântica que ele apresentou onde os blogueiros estariam em busca de uma ética.

Espero que todos que vierem a ler este post ou o post dele apontado mais acima adotem ideais éticos como criticar a informação antes de reproduzí-la, citar as fontes que divergem da sua opinião e aceitem seu papel coadjuvante em uma grande coletividade de idéias que ganham corpo sem que qualquer indivíduo obtenha destaque.

Imagino que em uma blogosfera de blogueiros éticos como os que Malini apresenta não haja celebridades e sim uma infinidade de grupos de amigos por onde transitam ideias (memes) que podem se reproduzir, modificar e crescer entre essas infinitas microesferas de forma que os memes mais aptos se tornem um consenso norteando assim a nossa consciência coletiva.

Pessoalmente creio que analizando os blogueiros individualmente (incluindo eu mesmo provavelmente) o que buscamos não é compartilhar, mas a sensação de que não somos vozes anônimas.

Escrevemos blogs para nos sentirmos alguém e nos alegramos quando somos reconhecidos ou agradados como nas cada vez mais frequentes ações de marketing em mídias sociais digitais.

Muito embora concorde plenamente que a Internet é um instrumento criado por uma nova sociedade do conhecimento que revolucionará nossa civilização como não acontece a talvez cinco mil anos não compartilho da sua visão otimista do indivíduo humano.

Teremos, em minha opinião, uma grande massa de blogueiros repetidores, uma massa igualmente grande de blogueiros que buscam reconhecimento acima da multidão, ou seja, ser o próximo personagem de um Big Brother digital e uma minoria ínfima, talvez 5%, de blogueiros que pensam e seguem idéias como as que ele apresenta no post linkado lá em cima (eu realmente estou querendo que vc o leia).

Isso não é ruim.

Pode ser ruim individualmente pois o blogueiro que lutar para se destacar dentro da massa provavelmente não conseguirá mais do que ser uma microcelebridade que tem a ilusão da fama ou no máximo uma celebridade relâmpago que cai na midia antiga e massificada para logo depois desaparecer para sempre.

Coletivamente o processo de formação de uma sociedade do conhecimento onde as vozes coletivas determinam os rumos da civilização e os antigos detendores do poder se tornam meros atores coadijuvantes está garantido e, sempre gosto de repetir, é inevitável: processos evolutivos são irremediáveis.

Isso, ao meu ver, define a ética blogueira: a ética dos memes. Reproduzir (citando a fonte), transformar (citando a fonte), combinar informações (citando a fonte). E seja reproduzindo, transformando ou combinando sempre seguir a ética do compartilhamento realizado pela citação das fontes. A ética blogueira é comunitária e colaborativa.

No final das contas concordo com o ponto central do discurso de Malini: não podemos admitir que se diga que não há uma ética blogueira.

Vale a pena ler também o artigo da Prill sobre outros olhares sobre a blogosfera brasileira.