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Cultura digital e Capitalismo Cognitivo: Mídias Colaborativas e Cultura do Remix (11 e 12/14)

Wednesday, November 18th, 2009

Mais uma vez sou obrigado a condensar uma aula em duas por não ter conseguido escrever antes.

No entanto tenho mandado as notas de aula para o Posterous logo depois de cada aula e você pode vê-las aqui:

Mídias Colaborativas e Web 2.0

Acho interessante que todos tenham esquecido que Web 2.0 era a terminologia para sites com que podíamos interagir. O que vemos hoje deveria ser chamado de web 6.0 ou até mais, entretanto isso é apenas uma observação inutilmente preciosista.

Vimos interessantíssimos estudos de caso sobre comunidades colaborativas como o Overmundo, o Dig e o Slashdot e me parece tolice negar que estamos caminhando rapidamente para uma sociedade colaborativa, no entanto me parece que há um deslumbramento romântico em relação aos estímulos que nos levam a colaborar.

Além disso, durante o debate ficou bem claro, ainda há uma ideia de antítese entre corporações e humanos.

Já disse várias vezes que vejo as corporações como um tipo de consciência coletiva que segue sua própria agenda e que ela não leva em consideração as necessidades humanas e sim as leis de produção, consumo e crescimento de mercado.

Apesar disso o caminho da conciliação (responsabilidade social, empresas OSCIP) me parece ser a escolha da nossa espécie nesse momento.

Sendo assim, sugerir que a Google (ou pelo menos o Goolge) fosse um orgão público ou do governo soa como uma certa ingenuidade.

Dessa aula tirei de mais importante a sensação de que estamos desenvolvendo redes colaborativas cada vez mais completas e independentes.

Cultura do Remix e microfilmes

Os convidados para essa aula foram Vitor, Júlia e Aline do grupo de pesquisa de Mídia Arte da Ivana Bentes.

Vitor fez uma bela recapitularização de como viemos do Dadaísmo à cibercultura passado pelo pós-modernismo e nos trouxe exemplos interesssantes de mashups, redublagens (como O Destino de Miguel) e outras intervenções.

Da sua fala destaco a importância que ele deu à liberdade que a cultura do remix tem de assumir uma linguagem mais próxima a linguagem comum não só usando um vocabulário mais livre como colocando em questão coisas que seriam barradas nos filtros de moral e ética das TVs e rádios (por exemplo).

Observei que talvez, mais do que um reflexo de uma economia globalizada que procura transrormar todos os nichos em mercado a cultura do remix pode ser fruto do nosso impulso natural de criar um espaço livre para reproduzir, copiar, transformar e combinar nossas culturas confirmando as suposições da memética.

Me ocorreu também que, quando o pós-modernismo passou a transformar a cultura pop em arte esse foi um passo para tirar a arte dos corredores restritos dos eruditos fazendo da voz popular a voz da nossa arte.

Se a exposição do Vitor foi uma ilustração do caminho que nos trouxe aqui a Júlia se atreveu a fazer algumas suposições a respeito dos desdobramentos da cultura do remix e em suas manifestações de crítica social, política e econômica.

É inevitável inserir aqui o remix do famoso comercial da Apple de 1984 que ilustra perfeitamente esse ponto.

A capacidade de intervir quase sem limites na produção cultural é mais um passo além do pós-modernismo onde a realidade cotidiana do humano comum era transformada em arte, agora o próprio cidadão comum pode transoformar essas obras criando novos símbolos, significados e interpretações.

Ficou para o final o alerta de que, apesar desses espaços colaborativos tenho sido apropriados inicialmente pelo cidadão comum para se reunir e protestar, as corporações já estão ocupando o mesmo ambiente procurando confundir-se com o humano comum humanizando-se e adotando personalidades que as aproximem do cidadão.

Links

  • http://www.thiagocorrea.com/
  • https://www.adbusters.org/
  • http://mediasana.org/

Como seria a economia em uma cultura cognitiva?

Tuesday, October 13th, 2009

Estava deixando as ideias interagirem com as de outras pessoas e com elas mesmas e amadurecerem antes de publicá-las, mas fui deixar um comentário no post O futuro da mídia. Mas que mídia? do Fábio Carvalho e percebi que elas (as ideias) queriam ser libertadas logo da prisão da minha mente, então aqui vai o que escrevi lá para ver no que dá…

Na sexta passada, na palestra do Nepô na ESPM, lancei pela primeira vez o começo de umas idéias que estão germinando na minha cabeça (e certamente em muitas outras).

Vou tentar fazer esse comentário pequeno, mas esto me aproveitando para alimentar um pouco mais as reflexões ;-)

Fala-se muito da revolução social e econômica que estaríamos vivendo, mas o que vejo é uma aliança entre consumidores que usam seu poder recém conquistado para se tornarem os líderes tácitos da mesma cultura do consumo de sempre.

Isso mudará e ai sim começará a revolução…

Vai mudar pois estou convencido que a transformação da nossa civilização de uma economia do produto para uma centrada no conhecimento é imposição dos impulsos meméticos, ou seja: nossa mente tem necessidade de analizar dados, processar informação e gerar conhecimento.

Esse impulso nos impele a criar um ambiente cada vez mais propício a essa coleta, processamento, geração e fluxo…

Sim, de nada adianta tudo isso se não houver um fluxo livre de dados, informação e processos cognitivos.

Agora que expliquei de onde tirei a conclusão aqui vai ela:

Quase toda produção humana será de dados, informação e o processo que leva ao conhecimento. A economia que existir será regulada por isso como um dia foi pelo ouro.

O fluxo de tudo isso será livre e irrestrito.

A qualidade do que não é livre e irrestrito será exponencialmente superior à do que é restrito.

A pergunta para a qual não tenho resposta ou não me atrevo a dar por ser muito utópica é: o que será do dinheiro?

Você está pensando que “não se atrever a dar por ser muito utópico” não combina comigo?

Tem razão ;-)

Porque o capitalismo tem que ter dinheiro? Porque o valor deve ser definido por oferta X procura (como fica quando a oferta é infinita?).

O que antevejo utopicamente é um período de transição durante o qual os consumidores desenvolverão uma ética segundo a qual eles pagarão por dados, informação etc de acordo com seu valor percebido, ou seja, aquilo salvou minha vida então darei todo dinheiro que tinha guardado; foi apenas uma curiosidade interessante? Pago uns 3 dinheiros.

Após essa transição desconfio que o dinheiro perderá seu papel central na economia e assistiremos algum tipo de sistema de trocas como já faço com a minha locadora onde não pago para alugar filmes e eles não pagam pela consultoria em presença online…

E olha que eu me esforcei para fazer uma resposta pequena ;-)

Cultura digital e capitalismo cognitivo 5/14: Economia da Gratuidade

Wednesday, September 16th, 2009

Aula com Thiago Novaes.

Texto de apoio: Inventar a Gratuidade

Como me faltou tempo para ler o texto antes de assistir a apresentação das ideias do Thiago decidi que vou comentar a aula antes de ler o material acima e a extensa bibliografia sugerida por ele durante a exposição.

O que ele nos apresentou foi um trabalho em andamento, uma reflexão sobre os conceitos de mercadoria e dádiva ou eu diria, bem comercializável e bem comum.

Ninguém cobra pela luz do sol, pela… … Bem houve um tempo em que não se cobrava pelos recursos naturais que existiam em abundância como a água, o ar, o nosso código genético, nossa cultura e outros recursos que existiam sem que alguém tivesse que trabalhar para produzí-los.

Sim, eu sei que cultura não acontece sem trabalho, mas tenho a tendência de contestar isso, e creio que o Thiago Novaes também.

Conforme Thiado a dádiva contrapõe  a reciprocidade, a memória, a história, as relações sociais e a representação pessoal à funcionalidade técnica e de relação entre coisas da mercadoria.

Bem, nesse caso a Apple está ai para nos lembrar que não existem mercadorias… Ou pelo menos que as coisas que são mercadorias não são capazes de acumular valor suficiente para sustentar uma sociedade de consumo, mas essa é uma opinião minha que entra bem em conflito com a do Thiago.

Se os principais produtos de consumo são experimentados como dádivas (iPhone, Macs, iPods, BMWs) eles não podem ser gratuitos como nos sugere o bom senso (e os movimentos modernos da cibercultura assim como a necesidade de livre reprodução e modificação dos memes) sem que a economia se modifique totalmente dando fim ao capital, ou há outro cenário possível que não estou vendo?

No momento aposto mais em uma nova ética onde as mercadorias serão distribuídas livremente e o usuário pagará o valor que ele crê que ela tem, mas essa é uma cultura muito difícil de imaginar em bens materiais.

Temos que lembrar que o preço artificialmente alto é um dos fatores culturais que valorizam uma mercadoria e, sinceramente, não vejo uma tendência das marcas perderem seu poder no imaginário humano apesar de imaginar que a exigência de qualidade também cresça. Os Sony Vaios são um exemplo similar aos Macs no mundo PC.

Voltando à aula…

Creio que para buscar uma ligação da produção humana com as dádivas o Thiago parte de uma premissa muito feliz: a reprodução assistida.

Se hoje podemos comprar óvulos ou semen, se podemos alugar barrigas para criar nossos filhos e chega-se a extremos como o do Michael Jackson que supostamente teria alugado uma barriga para gerar um filho com o sémen do Macaulin Calkin que seria dele então a relação de herança genética está sendo superada pela de herança memética que no caso o Thiago chamou de experiência (acho impressionante que ninguém fale em memética mesmo quando a pesquisa se enquadra tão bem no conceito! Talvez o míope seja eu e a teoria toda seja uma tolice! Hehehehe!).

Quando enxergamos o DNA como bem comun e passamos a entender que podemos ser majoritariamente definidos pela experiência então muito mais do que as leis terão que ser mudadas. Em uma extrapolação do raciocínio (se acompanhei bem) todo o conceito de propriedade e valor precisa ser colocado em cheque.

Parece-me que para Thiago Neves a produção cognitiva (mas lembro que o design e outros valores que se agregam às mercadorias também são produções cognitivas) não pode pertencer a ninguém, ou melhor, tem que pertencer a todos e assim ser livremente distribuída e, nesse caso, o copyleft seria o modelo perfeito e futuro que devemos almejar, mas não consegui perceber como seria resolvido o problema do capital.

Durante toda a aula falou-se muito na questão da produção de dinheiro para pagar as necessidades básicas (comida, moradia, saúde, lazer), mas já começo a me questionar por quanto tempo o capital girará em torno do dinheiro. Só não consigo pensar em uma “moeda” de troca que substitua.

No entanto, do ponto de vista de unidades de informação (memes) que precisam de um meio onde possam ser criadas, reproduzidas e modificadas livremente entendo que seja necessário que os humanos não precisem gastar tempo criativo com besteiras como “ganhar 100 dinheiros para comer hoje”

Algumas frases que anotei:

  • Temos a centralidade da técnica no contemporâneo
  • A pessoa é um conceito centras no pensamento do Thiago
  • DNA é informação, é bem comum
  • De acordo com o Intelectual Property Watch 70% do nosso código genético foi patenteado (como???)
  • Somos definidos pela experiência (citou Gattaca, o melhor filme de ficção da década de 90)
  • A pessoa tem filiação materna e social
  • Comparação da alma exterior em relação ao tótem indígena e a troca de arquivos online
  • Estamos testemunhando um avanço exponencial da produção da consciência
  • A lei brasileira compara a produção da consciência a bens imóveis
  • A linha de produção aliena subjetivamente enquanto o trabalhador não tem visão do conjunto e objetivamente quando ele não tem como obter o produto final
  • O robô ou ciborgue, preparado para para executar todo trabalho para o qual foi desenvolvido não é o modelo ideal e sim o mais aberto a mudanças (lembrei do projeto Oxygen do MIT)
  • Nota minha: a obsolescência programada pode ser criada pela necessidade memética de modificação
  • Copyright é a naturalização das idéias (e nasceu em função de Mozart)
  • Em 1850 surgiram os editoriais de jornais cujo objetivo era criar uma opinião pública domesticando a opinião popular. Com o advento da comunicação global e principalmente a Internet vê-se um resurgimento da opinião popular (uso as palavras pública e popular com sentido óbvio, mas não sei se está no sentido acadêmico correto).

Bibliografia

Me lembrem de catar os links.. Agora tenho que ir a um aniversário…

  • Entre a dádiva e a mercadoria – Marcel Mauss
  • Hightech Gift Economy: Richard Barbrook
  • Futuros Imaginários, das máquinas pensantes à aldeia global – idem
  • Uma ética para a civilização tecnológica – Hans Jonas
  • O Gênero da Dádiva – Marilyn Strathern
  • Do modo de existência dos objetos técnicos – Simondon 1958
  • Nova Monadologia – Jean-Clet Martin
  • Sociologia de um gênio – Elias, Norbert
  • A subversão do princípio da publicidade – Habermas (Thiago considera essencial)
  • Profanações – Giorgio Agamben (dica de @luiza_alguma_coisa)