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Campus Party Brasil: Infinitas facetas de uma tribo

Thursday, February 4th, 2010

A evolução segue seu curso regida primeiro pelos genes que, num impulso natural e inconsciente, criam organismos cada mais mais complexos e adequados a perpetuar sua variação, hereditariedade e seleção.

Nossos mares foram um verdadeiro caldo de vida por milhões de anos até que houve a explosão de diversidade que saiu dos mares e se espalhou por toda a Terra.

Desde que os seres criados pelos genes começaram a desenvolver a capacidade de processar informações outro maestro passou a interferir na sinfonia da vida, o Meme.

O fato de termos criado uma civilização, idiomas, livros e diversas tecnologias para permitir que os Memes variem, transmitam hereditariedade e sejam selecionados é uma prova de que há no planeta duas forças conduzindo nossa evolução. E o Meme se tornará a predominante em algum momento.

Hoje temos um novo mar onde a “vida” memética evolui, o mar das tecnologias da Informação e, com a criação da Internet ele começou a transbordar assim como aconteceu com os Genes e eventos como a Campus Party são ricos poços de vida memética onde os seres mais expostos ao seu fluxo de informação se reúnem.

Sei que essa é uma introdução longa e esquisita para o assunto, mas tenho visto tantas espectativas sobre a Campus Party que decidi mostrar como a vejo antes de dizer porque discordo com as afirmações de que ela está vazia de interação ou de consciência.

Vendo do ponto de vista evolutivo um acontecimento como esse não é equivalente a um forum mundial social, mas meramente um espaço neutro onde todo e qualquer Meme tem chance de se reproduzir ou se extinguir.

Por exemplo, antes do Lawrence Lessig falar a favor da cultura Read/Write e contra a cultura Read/Only notei que praticamente todos os campuseiros se distraiam com jogos. Bem, alienação ou sinal de que as ciberpessoas começam a preferir o lazer read/write dos jogos à observação passiva dos filmes e seriados read/only?

A interação entre os campuseiros através do chamado grito de acasalamento (Oooo-Oooo) é uma demonstração de ligações fracas ou de que as tribos isoladas querem buscar símbolos comuns?

Demorei a escrever sobre a Campus Party justamente por perceber que precisarei de muita reflexão e pesquisa para construir uma opinião que respeite essa subcultura que, tenho certeza, será a principal influenciadora dos novos paradigmas.

Durante os 5 dias que participei da festa mal entrei na Internet preferindo me conectar a pessoas e o que vi antes de mais nada foi uma predisposição generalizada em interagir. Depois notei que uma grande parte de quem estava ali era de regiões distantes do país aproveitando para encontrar outros com interesses em comum como é o caso do campeão e o vice campeão mundiais de casemod que moram em cidades pequenas onde certamente não encontram muitos outros casemoders. Ou o caso do pessoal de robótica da Universidade de Guarulhos que colecionam troféus, mas é ali que encontram centenas de novos interessados em robótica.

Vi também que eu não era o único que vagava entre as mesas me expondo aos memes de cada tribo. Talvez as pessoas fossem conduzidas apenas pela curiosidade ou pela possibilidade de lazer (principalmente na área de games), mas estavam ali misturando suas ideias com a dos outros e isso basta para promover a evolução.

Sob uma análise lógica e considerando que os humanos possuem uma consciência autônoma e não uma ainda conduzida por seus instintos pode-se considerar a Campus Party uma triste demonstração de alienação e de falta de mobilização política (e concordo que haveria jeitos de mudar esse quadro), mas os humanos não possuem esse tipo de consciência, pelo menos não na maior parte do tempo e nada nos marca mais do que o que nos dá prazer e é isso que atrai essas ordas de ciberpunks para o pavilhão Imigrantes: o lazer.

Apesar disso e da impressão de que a única coisa comum a todas as tribos era a preferência por se distrair com jogos arrisco afirmar que era uma só tribo com diversas facetas ainda mal lapidadas, mas em franco processo de lapidação ali mesmo naqueles corredores.

Digo que é uma única tribo pois a linguagem é a mesma, os códigos de comportamento são os mesmos e, enquanto ouvi reclamações sobre o caos do forum social, ali francamente, havia um tipo de harmonia ou pelo menos equilíbrio, aliás, maior do que no ano passado.

É claro que não é fácil perceber o que 6 ou 10 mil pessoas estão pensando e posso estar errado, mas isso o tempo dirá.

Rio Info e um momento histórico

Thursday, September 17th, 2009

Na semana passada ocorreu a Rio Info 2009 e tive chance de testemunhar mais um momento histórico que pode não ser lembrado quando os humanos do futuro estudarem os primeiros movimentos que marcaram a transição da era industrial para a era cognitiva, mas certamente tem um peso relevante hoje.

Ocorreu no último dia, sexta-feira, a reunião da Cristina De Luca, Marco Dantas, Carlos Nepomuceno, Martha Gabriel, Wagner Santana, Sérgio Amadeu e Gil Giardeli com uma intervenção preciosa de Corinto Meffe (do portal de software livre do governo) que estava na platéia.

Como ainda não achei nenhum GIP (Google Important Person) que tenha resumido as palestras e o debate farei isso e só depois partirei para as minhas próprias reflexões. Isso pode ficar um pouco longo…

Aliás… vou adotar a abordagem oriental e começar com a conclusão:

Porque o debate foi um momento histórico?

Quando você encontra uma revista na banca de jornal onde a matéria de capa anuncia que “Estamos na era do prosumer onde o poder é Seu!” ficamos com a impressão que a Internet (e note que sempre uso Internet como nome próprio) é um meio de comunicação que permite que o consumidor se una para exigir coisas das empresas.

Não há nisso nenhuma mudança qualitativa, é apenas uma nova etapa na defesa do consumidor.

Nunca vi na capa de uma revista a manchet “Estamos na era do pro-cidadão onde o Poder é seu!” e é isso que estamos testemunhando e muito mais.

Durante sua fala o Nepomuceno sublinhou que “não estamos em uma era de mudanças, estamos em uma mudança de eras”. E ele é um dos pensadores mais “pé no chão” que prefere fazer um contraponto à euforia revolucionária.

Esse foi o momento histórico que testemunhamos: um grupo heterogêneo formado por uma gradação que ia do cético ao deslumbrado com a cibercultura. E quando mentes coerentes se reúnem elas não se limitam a reproduzir memes, elas ajudam a criá-los e transformá-los.

O que estamos assistindo não é a mudança de eras impulsionada pela Internet, mas justamente a criação de novos espaços de convivência (a Internet é um deles) e formas de interação provocados por um processo longo de transormação social que se iniciou a séculos (talvez a mais de 10 mil anos, mas não vou abusar da sua boa vontade agora!) e agora aparententemente está chegando a um ponto de ruptura, um tipo de salto quântico (teoria que afirma que não é possível atingir a velocidade da luz, mas pode-se saltar de uma velocidade próxima para outra centenas de vezes maior em um só impulso) entre duas fases da nossa evolução.

Vou deixar para outros que se sintam inspirados a escrever sobre o que foi discutido a respeito de mais valia, o egoismo natural humano preconizado por Adam Smith pois reconheço as limitações do meu discurso :-)

Prefiro observar que mesmo Marco Dantas – que me parece assumir uma postura mais para o extremo cético – apontou o livro Ligações Perigosas de Chordelos de Laclos escrito em 1782 como um sinal do surgimento das redes sociais virtuais.

A busca por cenexão cognitiva realmente não parece ser uma novidade, mas uma necessidade primitiva da nossa espécie que nada poderá impedir e que se potencializa exponencialmente conforme nossas tecnologias crescem exponencialmente impulsionadas por uma consciência em fervilhante processo de modificação.

O que será a partir de agora? Que sociedade, que política, que sistema econômico, que relações humanas, que famílias, que casas, que culturas, que religiões, que alma teremos amanhã?

Do meu ponto de vista inspirado pela teoria dos Memes é bem provável que isso não dependa de nós, que sejamos apenas marionetes manipuladas por um tipo de consciência coletiva que brinca com nossos instintos. No entanto, ao ver um debate como esse tenho uma esperança romântica que a nossa espécie finalmente esteja pronta para assumir as rédeas da nossa própria evolução.

Pelo menos creio que essa postura otimista seja mais útil para construir um futuro tão favorável para nós quanto para os memes e temes (já viu a apresentação da Susan Blackmore no ted.com?).

O que foi dito na Rio Info?

Bem, feita a conclusão vamos às notas que fiz das palestras.

De Luca

Ela tinha 15 minutos para falar, mas demonstrou um invejável poder de síntese ao ser provocativa em menos de nove minutos.

De Luca nos convidou a refletir sobre o público e o privado, a informação versus o conhecimento e destacou que a melhor forma de se “defender” do online é estar lá (a Rio Info é um evento para empresas).

Sem propor respostas ela nos instigou a pensar no efeito manada e se estamos na Rede para engrossar o caldo cultural ou para dividí-lo.

Marco Dantas

Resgatando a lei francesa de 1850 (e poucos) que permitia que os operadores de telégrafo censurassem as comunicações e a privatização das frequências de rádio no início do século passado (para favorecer o surgimento das rádios privadas) ele parecia sugerir que a Internet também pode passar por processo semelhante e creio, a propósito, que ele é a favor disso a pretexto de controlar ou amenizar o caos.

Naturalmente discordo dele quando comenta que a maioria usa a Internet para falar de futebol, novela e mulher e não como uma ágora informacional. Mas concordo que ainda é menos usada para isso do que eu gostaria.

Finalizando ele lançou a pergunta: pirataria, quem ganha e quem perde?

Carlos Nepomuceno

Ele começou observando que a enorme maioria de filósofos e pesquisadores da época não perceberam a importância que o livro teria ou as mudanças que se seguiriam em função dele como a revolução Francesa e a própria materialização da democracia moderna.

Outro ponto importante, tirado da sua experiência como consultor em gestão do conhecimento para grandes empresas está na constatação da dificuldade que algumas tem em compreender a dualidae colaboração X “eulaboração”, mas que é indiscutível que o arranjo colaborativo elimina o trabalho burro e o repetitivo.

Ele já escreveu dois posts inspirados pelo evento:

Martha Gabriel

Artista digital, especialista em SEO e realidade aumentada e dotada de um ritmo cognitivo que lembra o Luli Radfaher ela fez uma das mais estimulantes e surpreendentes palestras do dia.

Indo da realidade até a virtualidade aumentada passando pela existência online ela nos apresentou a um undo onde todas as coisas terão sua representação online através da popularização dos qrcodes e dispositivos de realidade aumentada.

É uma visão que serviu muito bem para mostrar que o dito mundo virtual já está se torando rapidamente em uma extensão real online dos objetos, pessoas e ideias offline (há ideias offline?)

Durante a apresentação ela comentou alguns exemplos que vale listar aqui:

Wagner Santana

Pouca gente trabalha na práticica os sonhos da cibercultura, ele é um dos que age enquanto pensa e nos falou dos desafios e possibilidades das redes sociais no contexto brasileiro.

Espero obter o link para apresentação dele em breve, mas aqui vão umas poucas anotações que fiz:

  • Núcleo de informática aplicada à educação: http://eurydice.nied.unicamp.br
  • 14,5% dos brasileiros tem alguma deficiência que dificulta experimentação visual, auditiva e comunicativa das redes socias online
  • 74% não são plenamente alfabetizados (não são capazes de ler, entender e sumarizar um texto corretamente)
  • 61% nunca acessaram a Internet (esse dado entra em conflito com outros que dizem justamente o contrário)
  • A seção mais usada da rede social criada por eles, a vilanarede.org.br, é a de Ideias (o que demonstra que o Marco Dantas estava equivocado pelo menos nesse caso a respeito do uso dado pela maioria à comunicação online)

Sérgio Amadeu

Sempre empolgado e profundamente engajado ele fez uma apresentação que sintetizou alguns dos pontos principais a favor dos quais ele vem advogando:

  • As redes sociais online são uma realidade em franco avanço e longe de atingir seu ápice
    • A comunidade Discografia no Orkut (fechada por força da lei) só aprovava participantes que tivessem subido ao menos uma música para a Rede e contava com mais de 800 mil, ou seja, 1 em cada 217 brasileiros já enviaram músicas para a Internet
    • Em 2006 33% dos adultos tinham visto vídeos online, em 2009 62%
    • Adultos com perfil em redes sociais online aumentou 4X entre 2005 e 2009
  • O mito da originalidade
    • Crise da intermediação: o proprietário do conhecimento humano é um intermediário imposto artificialmente

É difícil transcrever as ideias do Sérgio em um breve artigo, mas ele tem extensos artigos que você pode encontrar no link que deixei lá em cima no começo do post.

Gil Giardeli

Uma das principais qualidades do Gil é uma profunda fé no gênero humano e em nossa evolução. A apresentação dele, a exemplo de outras que já tive chance de assitir, é um desfile do que há de mais nobre nas ações humanas online.

Assim que achar a apresentação dele colocarei aqui.

Entretenimento e novas tecnologias de comunicação: Derrick de Kerckhove

Monday, September 14th, 2009

No dia 31/08 a ESPM promoveu um debate com Derrick de Kerckohove no teatro Oi Casa Grande, mas só hoje consegui parar para escrever a respeito.

Achei no site da Ana Erthal um vídeo com a íntegra da palestra do Derrick de Kerckhove no Oi Casa Grande então não preciso contar como foi e posso partir para o que me chamou mais a atenção.

Tanto o vídeo produzido pela ESPM (que infelizmente não consigo encontrar online) quanto a própria palestra do Kerckhove mostram a profunda interação moderna com os jogos evidenciando o contraste entre a passividade diante da TV e o envolvimento com um videogame.

É claro que nunca fomos passivos diante da TV e os fãs de Jornada e Guerra nas Estrelas estão ai para provar isso assim como as memórias das nossas brincadeiras de infância quando assumíamos o papel do mocinho ou bandido famoso da época na novela ou seriado.

No entanto o jogo digital, é claro, oferece um novo nível de imersão no mundo virtual o que assusta muita gente.

Tenho dito que o virtual digital é apenas uma nova camada de virtualidade criada conforme nossa mente evolui, mas sempre me faltam argumentos e Derrick, em uma pequena frase, me lembrou de um excelente exemplo: O Engenhoso Fidalgo Dom Quixote de La Mancha.

Para quem não conhece a história Dom Quixote é o alter ego de um humilde fazendeiro que mergulha em sua coleção de livros de cavalaria (cujos códigos de honra se encontravam em pleno declínio na época) tão profundamente que passa a ver a realidade pelas lentes da sua fantasia.

O mundo virtual dos livros (que no entanto já tinha sido real um dia) invade a realidade do engenhoso fidalgo de tal forma que moinhos se convertem em monstros e seu pangaré lhe parece um imponente corcel.

A obra de Cervantes é uma fantasia, claro, mas demonstra perfeitamente que a idéia de criarmos mundos virtuais em nossas mentes que são mais reais que o universo palpável é um impulso humano há séculos.

No entanto, ao contrário da fantasia do fidalgo, os novos mundos virtuais não parecem resgatar os códigos de honra ou qualquer outro louro do passado. Os mundos virtuais modernos parecem totalmente novos.

Mas não são.

O que estamos resgatando é justamente a aldeia.

Talvez nunca mais tenhamos vivido a realidade desde que tivemos algum tipo de consciência pela primeira vez, mas a migração da aldeia para a cidade foi um passo gigante para dentro de espaços virtuais cultivados em nossas mentes e materializados com pedras e barro.

No final nos tornamos estranho uns para os outros, não só entre culturas distantes, mas dentro das nossas próprias cidades.

Agora voltamos a ver o mundo como uma aldeia de pessoas semelhantes e as diferenças culturais cada vez interferem menos em nossa capacidade de desenvolver empatia pelos outros.

E o que tudo isso tem a ver com entretenimento e novas tecnologias de comunicação? Bem… Pouco… muito pouco, lamento. Mas foram essas as reflexões que a palestra e o debate me despertaram. Se achar algum artigo sobre isso coloco aqui, no entanto procurei bastante e acho que ninguém escreveu.

Cultura digital e capitalismo cognitivo 1/14

Wednesday, August 19th, 2009

Hoje comecei a frequentar o curso acima no Pontão Digital da Eco (UFRJ). Serão 14 aulas durante as quais pretende-se explorar justamente a cultura digital e o capitalismo em uma sociedade cada vez mais centrada no conhecimento e em serviços.

Naturalmente que não vejo sentido em fazer notas de aula offline onde ninguém mais pode compartilhar do conhecimento e podemos viver sempre a tola ilusão de que estamos certos e somos brilhantes (afinal só nós mesmos e alguns amigos selecionados temos acesso a isso). Portanto provavelmente farei um post para cada aula. Pelo que vi hoje não faltará material ou provocação.

A Ivana Bentes tem um ritimo de raciocínio e de fala que me agrada muito: rápido e aguçado. A turma definitivamente tem paixão o que, já nessa aula inaugural, rendeu pelo menos uma acalorada discussão.

Para muitos ali o curso será um primeiro mergulho na cultura digital que, a propósito, talvez pudéssemos chamar de protocultura do conhecimento com todos os microorganismos característicos das papas primordiais como a que deu origemà vida na Terra.

De um lado estavam alguns dos seres estranhos que já se sentem cidadãos da cultura digital defendendo a liberdade e o aparente caos da Internet e de outro pessoas mais sensatas preocupadas com a exposição de uma civilização formada por um sistema educacional em crise à cacofonia de informações disponíveis online (e nem se falou em privacidade ou anonimato).

Estou entre os seres estranhos que não sabem como vai funcionar, mas que entende que a Internet é apenas o elemento mais recente de algo que vem acontecendo a muito tempo (Bertold Brecht já falava em rádios abertas similares a um Twitter antes da segunda guerra mundial dica de Marcos Dantas) e cabe a nós descobrir não como conduzir a ambientação das pessoas a essa cultura (ou protocultura), mas como colaborar com elas.

Parece-me que as opiniões hoje se dividiam em dois grupos: um acredita que deve haver algum preparo fora da Internet para lidar com ela e o outro crê que a Internet é justamente o elemento externo ao sistema antigo onde as pessoas podem (e estão) aprendendo a criar conteúdo, desenvolver senso crítico e criar novos valores e ética.

Outra opinião que me pareceu comum a boa parte dos meus amigos de curso é a preocupação com a manipulação das pessoas na Internet o que achei curioso pois é justamente o tema do meu post anterior.

A preocupação é que as pessoas em geral entrariam na Internet principalmente para ver o conteúdo dos mesmos veículos que assitem passivamente offline.

Bem, em primeiro lugar já considero que há uma grande diferença entre consumir a novela da Globo passivamente e assistí-la no Youtube acrescentando comentários que outros podem ver.

Em segundo lugar não estou tão certo de que o conteúdo online mais consumido é a réplica do material offline. Basta ver os vídeos virais que normalmente são produções de anônimos ainda que algumas empresas venham fazendo algumas campanhas virais bem sucedidas.

Um caso emblemático que não posso deixar de citar, primeiro porque estou me sentindo agredido pela Puma no caso do Puma Lift e quero saborear a vingança e em parte porque é mais um exemplo de que os poderes antigos offline se esforçam cada vez mais para tentar cooptar as pessoas comuns deixando bem claro que eles reconhecem o poder dessa massa disforme formada “pelos internautas” (como se houvesse uma fronteira qualitativa entre humano internauta e não internauta).

Ao sair da aula encontrei com a @oonacastro (do Overmundo) que estava prestes a mediar um debate entre o Marcos Dantas (linkado mais acima) e o Diogo Moysés sobre o sistema público de comunicação no Brasil aproveitando o lançamento de um livro sobre o sistema público de comunicação em 12 países (disponivel para download no link).

Foi uma ótima oportunidade saltar direto da protocultura do conhecimento para um debate sobre a tentativa de oferecer à população um instrumento talvez ultrapassado como a TV.

Durante o debate ficou clara a preocupação com a regulamentação das comunicações que, afinal, são todas um serviço público (telefone, rádio, televisão e… Internet).

Acontece que na Internet convivem lado a lado o cidadão comum que a habita como se fosse praça, rua ou sala de estar da sua casa e os velhos poderes (religioso, político e corporativo).

Para Marcos Dantas não podemos aceitar que empresas como a Sky oferecem serviços de comunicação à margem da lei já que não há regulamentação para esse tipo de transmissão. Concordo com ele.

No entanto será que é o governo que nos garantirá essa regulamentação? Vale notar que ele, Marcos Dantas, aparentemente não mergulhou na tal protocultura e portanto não percebe que até o momento o que acontece é que o cidadão comum é vítima online dos ataques dos poderes que deveriam regulamentar as comunicações.

Mesmo sabendo que é uma visão utópica (no sentido de objetivo que só pode ser alcançado depois de uma sequência não definida de etapas) atualmente prefiro acreditar em um modelo novo de democracia onde o próprio cidadão é o orgão regulador e o governo cumpre apenas suas tarefas administrativas sob a vigilância de uma sociedade que tudo vê através dos olhos online que se aglutinam rapidamente aos olhos offline e solitários.

Leituras recomendadas pela Ivana:

P.S.: Já ia esquecendo que lembrei de dois vídeos bem ilustrativos durante a aula da Ivana:

Como manipular pessoas na Internet?

Friday, August 14th, 2009

A pergunta acima foi feita por alguém na platéia de mais uma excelente palestra sobre Redes Sociais do @ninocarvalho esta semana no Planetário e está no título deste post por dois motivos:

  • primeiro porque desconfio que essa pergunta é feita frequentemente por assessores de imprensa e de marketing de várias corporações do século XX quando se sentem seguros sozinhos apenas na companhia do Google.
  • Segundo porque acho que ela sintetiza como se sentem as pessoas que ainda não se dedicaram a tentar entender as mudanças culturais que marcam o início da sociedade do conhecimento

Decidi também responder a pergunta, pois, sim, é possível manipular as pessas na Internet embora não seja barato e as consequências sejam as mais terríveis para a empresa e para o emprego de quem a ajudou a manipular pessoas sem dizer que isso jamais deve ser feito e não só por motivos éticos, coisa que poucas corporações possuem, mas porque serão descobertas.

Esse post não pretende portanto ser um guia para quem quer manipular, mas sim um alerta para nós que somos alvo das manipulações.

As pessoas online são diferentes das offline até mesmo no funcionamento do cérebro, mas ainda são pessoas vítimas dos mesmos instintos e de um sistema límbico que para de se desenvolver antes dos 5 anos transformando-nos a todos em crianças quando nos emocionamos.

Sendo assim a fórmula da manipulação é muito simples:

  1. Assuste a pessoa
  2. Emocione a pessoa
  3. Crie um dispositivo que a mantenha presa aos 90 segundos que duram a reação bioquímica das emoções. Se você falhar nisso a pessoa vai usar o córtex frontal superior para analisar suas emoções, raciocinar e começar a criar um grupo de conceitos capazes de protegê-la da próxima onda dos ítens 1 e 2

Sim, o segredo está no item 3, mas tem gente que usa isso muito bem. Vide Mein Kampf e o filme A Terceira Onda.

Pode-se criar um sistema de retro-alimentação convencendo a pessoa de que ela é portavoz de um poder superior. Pode ser um Deus, a razão no caso de muitos ateus, um líder supremo ou simplesmente uma imagem como a camisa de um time de futebol ou a marca de um refrigerante ou computador.

É claro que isso cria uma sociedade esquisofrenica, mas quem está interessado em manipular mentes está mais próximo das máquinas da Matrix do que de Guy Debord, aliás está no extremo oposto.

Não irei além disso nessa questão. Ficarei no alerta: cuidado com o que fala diretamente ao seu medo, suas emoções e suas crenças, essas são as chaves para capturar sua consciência. Não se trata de não ter medo, emoções ou crenças, mas de aprender a deixar os 90 segundos de reação bioquímica passarem e seu sistema límbico deixar seu córtex frontal superior trabalhar. Para mais informações sobre isso sugiro o excelente livro de Jill Bolte Taylor.

Como disse no início do post a vontade de manipular as pessoas online é uma clara demonstração do que sentem muitas pessoas que ainda não olharam a fundo para a Internet e naturalmente não perceberam que ela é consequência e não causa.

Primeiro vieram mudanças culturais e sociais que temos assistido cada vez mais intensamente desde o fim da segunda guerra mundial quando o fascismo despertou o mais profundo grito de liberdade em reação à sua violenta agressão a ela!

Desde então vimos sindicatos se formarem mais rapidamente, mulheres, negros e outras vítimas de preconceito conquistando direitos iguais, a ficção científica passou a deixar de ver o alienígena como um invasor perigoso para encontrar neles companheiros de jornada no desenvolvimento da consciência. Poderia enumerar por páginas e mais páginas os pequenos e grandes avanços da liberdade em cada uma das áreas das artes e conhecimento humanos, mas creio que dá para pescar a idéia.

O que está acontecendo é que desde que o primeiro humano berrou “AHAYAAA” e os outros entenderam que ele estava dizendo “Agora!!!” desenvolvendo pela primeira vez a fala nossos avanços tem crescido exponencialmente e neste exato momento estamos em um ponto de salto quântico (ideia de que não podemos atingir a velocidade da luz, mas podemos saltar diretamente de uma velocidade próxima a ela para outra centenas de vezes superior).

Quem tem mergulhado no caldeirão da cibercultura tem uma visão do que está acontecendo (tome nota: é entre a geração Net que as a cultura do século XXI está sendo forjada) e quem continua vendo a Internet como mais um meio para se comunicar e atingir clientes tem outra bem diferente, ou na verdade bem igual à visão que marcou os dois últimos séculos.

Quando o primeiro grupo avisa o segundo grupo que tudo está mudando, que é necessário colaborar em vez de notificar, influenciar ou divulgar eles se assustam. Acham que estão diante de revolucionários, mas o primeiro grupo se assemelha mais ao Gandalfo da trilogia Senhor dos Anéis: eles estão avisando o que está a caminho e que o anel do poder será destruído por pessoinhas pequenas e simplórias que se recusam a ser manipuladas.

O inimigo da corporação não é a liberdade de pensamento da humanidade, mas a prisão em que elas, corporações, se trancafiaram e de onde não podem ver que por séculos a humanidade vem contruindo formas que nos possibilitarão agir como uma civilização única apesar das nossas diferenças culturais.