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Campus Party Brasil: Infinitas facetas de uma tribo

Thursday, February 4th, 2010

A evolução segue seu curso regida primeiro pelos genes que, num impulso natural e inconsciente, criam organismos cada mais mais complexos e adequados a perpetuar sua variação, hereditariedade e seleção.

Nossos mares foram um verdadeiro caldo de vida por milhões de anos até que houve a explosão de diversidade que saiu dos mares e se espalhou por toda a Terra.

Desde que os seres criados pelos genes começaram a desenvolver a capacidade de processar informações outro maestro passou a interferir na sinfonia da vida, o Meme.

O fato de termos criado uma civilização, idiomas, livros e diversas tecnologias para permitir que os Memes variem, transmitam hereditariedade e sejam selecionados é uma prova de que há no planeta duas forças conduzindo nossa evolução. E o Meme se tornará a predominante em algum momento.

Hoje temos um novo mar onde a “vida” memética evolui, o mar das tecnologias da Informação e, com a criação da Internet ele começou a transbordar assim como aconteceu com os Genes e eventos como a Campus Party são ricos poços de vida memética onde os seres mais expostos ao seu fluxo de informação se reúnem.

Sei que essa é uma introdução longa e esquisita para o assunto, mas tenho visto tantas espectativas sobre a Campus Party que decidi mostrar como a vejo antes de dizer porque discordo com as afirmações de que ela está vazia de interação ou de consciência.

Vendo do ponto de vista evolutivo um acontecimento como esse não é equivalente a um forum mundial social, mas meramente um espaço neutro onde todo e qualquer Meme tem chance de se reproduzir ou se extinguir.

Por exemplo, antes do Lawrence Lessig falar a favor da cultura Read/Write e contra a cultura Read/Only notei que praticamente todos os campuseiros se distraiam com jogos. Bem, alienação ou sinal de que as ciberpessoas começam a preferir o lazer read/write dos jogos à observação passiva dos filmes e seriados read/only?

A interação entre os campuseiros através do chamado grito de acasalamento (Oooo-Oooo) é uma demonstração de ligações fracas ou de que as tribos isoladas querem buscar símbolos comuns?

Demorei a escrever sobre a Campus Party justamente por perceber que precisarei de muita reflexão e pesquisa para construir uma opinião que respeite essa subcultura que, tenho certeza, será a principal influenciadora dos novos paradigmas.

Durante os 5 dias que participei da festa mal entrei na Internet preferindo me conectar a pessoas e o que vi antes de mais nada foi uma predisposição generalizada em interagir. Depois notei que uma grande parte de quem estava ali era de regiões distantes do país aproveitando para encontrar outros com interesses em comum como é o caso do campeão e o vice campeão mundiais de casemod que moram em cidades pequenas onde certamente não encontram muitos outros casemoders. Ou o caso do pessoal de robótica da Universidade de Guarulhos que colecionam troféus, mas é ali que encontram centenas de novos interessados em robótica.

Vi também que eu não era o único que vagava entre as mesas me expondo aos memes de cada tribo. Talvez as pessoas fossem conduzidas apenas pela curiosidade ou pela possibilidade de lazer (principalmente na área de games), mas estavam ali misturando suas ideias com a dos outros e isso basta para promover a evolução.

Sob uma análise lógica e considerando que os humanos possuem uma consciência autônoma e não uma ainda conduzida por seus instintos pode-se considerar a Campus Party uma triste demonstração de alienação e de falta de mobilização política (e concordo que haveria jeitos de mudar esse quadro), mas os humanos não possuem esse tipo de consciência, pelo menos não na maior parte do tempo e nada nos marca mais do que o que nos dá prazer e é isso que atrai essas ordas de ciberpunks para o pavilhão Imigrantes: o lazer.

Apesar disso e da impressão de que a única coisa comum a todas as tribos era a preferência por se distrair com jogos arrisco afirmar que era uma só tribo com diversas facetas ainda mal lapidadas, mas em franco processo de lapidação ali mesmo naqueles corredores.

Digo que é uma única tribo pois a linguagem é a mesma, os códigos de comportamento são os mesmos e, enquanto ouvi reclamações sobre o caos do forum social, ali francamente, havia um tipo de harmonia ou pelo menos equilíbrio, aliás, maior do que no ano passado.

É claro que não é fácil perceber o que 6 ou 10 mil pessoas estão pensando e posso estar errado, mas isso o tempo dirá.

Raízes da violência: marco dois, a desumanização

Wednesday, January 28th, 2009

De um lado temos o psicopata citado no marco um que não é capaz de empatia e portanto de identificar os outros como pessoas dotadas de sensibilidade.

De outro temos pessoas normais que, influenciadas por estereótipos culturais, “coisificam” outras pessoas tornando-se não muito diferentes do psicopata.

Imagem de Ana Lúcia Fernandes, coelhinha da Abril

Ana Lúcia Fernandes, coelhinha da Abril

Durante a edição de 2009 da Campus Party Brasil, o principal evento de cibercultura do mundo, a modelo Ana Lúcia Fernandes, contratada pela Abril para se caracterizar de coelhinha, foi tratada como objeto por um dos campuzeiros. Ao lado a foto dela logo depois e ainda com os olhos marejados de lágrimas.

Algumas pessoas ainda defenderam o assediador afirmando que a moça merecia o tratamento por se prestar ao papel de coelhina da Playboy.

O processo de desumanização não é muito diferente daquele que inspiram crimes como o assassinato de Sylvia Likens em 1965 em Indiana ou as crueldades que ocorrem nos presídios brasileiros.

Os germes da desumanização estão espalhados pelos mais diversos setores da nossa cutura como as piadas sexistas ou racistas e nas expressões pejorativas com “paraíba”.

Este fenômeno pode ser fruto do nosso despreparo para lidar com uma tribo de quase sete bilhões de humanos? Trata-se de uma limitação irreversível ou que só poderá ser contornada se reestruturarmos nossas cidades para formarmos grupos com no máximo 200 pessoas?

É cedo para das as respostas, mas arrisco algumas possibilidades.

Nossa cultura massificada é construída de forma a nos transformar a todos em objetos que consomem e são consumidos. Essa cultura nos preprara para “coisificar” o próximo e infelizmente a cibercultura pode não ser um antídoto para isso, pode até ser um instrumento para acelear e aprofundar a desumanização.

Carregamos comportamentos instintivos obsoletos que desumanizam a outra tribo para que possamos disputar território com ela sem o remorso de estar matando outro humano. Estará a nossa consciência pronta para falar mais alto que o longo caminho evolutivo que nos trouxe até aqui?

Paradoxalmente não vou citar o uso da comunicação digital como uma forma de tornar os contatos impessoais pois considero que é justamente o contrário: ao manter contato com alguém através do seu blog ou twitter acabamos entrando inevitavelmente em contato com várias das sua facetas o que dificulta a desumanização.

A questão que não há como ignorar é que nossa cultura vem sistematicamente transformando pessoas em objetos e já é hora de não aceitar isso. E por não aceitar não me refiro a condenar a Abril por exemplo por levar coelhinhas (e nenhum coelhinho, afinal 1/3 dos campuseiros eram mulheres), mas a nossa própria aceitação da prática da coisificação.

Campus Party: observando a entropia

Monday, January 19th, 2009

O primeiro dia do Campus Party lembra a atividade febril de um grande circo mágico. Milhares de pessoas vão chegando, se alojando em mesas, barracas (quatro mil) e vagando entre os grupos que se formam.

Nota-se claramente a estonteante diversidade de tribos.

Há os evangelistas do Linux e da cultura opensource, ainda a pouco o Mad Dog passou aqui atrás de mim. Tem os modificadores de gabinetes (case mod), o pessoal dos games, desenvolvedores e curiosos.

É difícil definir um perfil comum aos participantes a não ser que todos tem a tecnologia da informação ou a computação gráfica no centro dos seus interesses e sonhos de consumo.

A Campus Party é um templo da cibercultura e nota-se que vivemos aqueles microssegundos iniciais do big-bang durante os quais ninguém entende que universo está em gestação.

Não há dúvidas de que aqui está nascendo uma nova cultura, mas que cultura será essa?

Espero que seis dias de imersão entre essas pessoas tão ímpares sejam o suficiente para ter uma visão geral dessas tribos.

Campus Party Brasil 2009: construindo a sociedade do conhecimento

Thursday, January 15th, 2009

Na semana que vem ocorre o Campus Party em São Paulo. As inscrições para participar estão esgotadas (mais de 4.800 pessoas), mas ainda é possível visitar a área Batismo Digital.

Fui gentilmente convidado pelo Clube do Hardware para fazer a cobertura do evento junto com a Cláudia Belhassof e este post deve ser reproduzido lá.

É preciso explicar o que é Campus Party.

Em breve sua televisão falará no:

“Evento de tecnologia onde mais de 4 mil internautas e maníacos por tecnologia acampam por uma semana para falar das novidades e tendências”

No entanto isso não explica o que é um evento moderno que reúne pessoas que usam, moldam e planejam a tecnologia e a Internet do futuro próximo.

O Campus Party é um evento sobre sociedade do conhecimento suas ferramentas e elementos culturais (jogos, lugares etc)

A Internet e a cibercultura são a base e a linha de frente das mudanças sociais e culturais que estão transformando a sociedade de consumo em sociedade do conhecimento. As implicações disso não são pequenas…

Por isso me atrevo a dizer que este (o Campus Party) é um dos mais importantes eventos da atualidade.

Para quem olha de fora pode parecer um bando de nerds, mas ali estão sendo experimentados modelos sociais e culturais que nortearão os próximos passos da nossa civilização (essa é uma opinião minha). Para quem olha de dentro é uma reunião de gente interessante falando sobre coisas interessantes.

IMPORTANTE

Haverá uma área somente para Batizado Digital onde pretende-se apresentar essas idéias de redes sociais a quem ainda não entrou nessa onda, e acredite, todos entraremos! E isso não nos tornará virtuais e sim mais reais do que antes. Voltarei a falar nisso em outras ocasiões. Se você estiver em São Paulo na semana que vem não deixe de dar um pulo lá.

Se você é uma pessoa mais curiosa ou se interessa em mergulhar na cibercultura vai gostar de saber que se encontrarão lá gente como:

Esses são alguns nomes conhecidos, mas os nomes menos conhecidos não deixam nada a desejar em relação a eles. Essa é uma das maiores belezas de uma sociedade em rede: todos nós podemos nos destacar. Dê uma olhada na lista de palestras do Campus Party 2009 e você encontrará um monte de gente que vale a pena ouvir.