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Descolagem #4: Narrativa Transmídia

Sunday, August 23rd, 2009

Ontem teve lugar na Nave Oi a quarta edição do Descolagem que nos trouxe três especialistas (Maurício Mota, Geoffrey Long e Mark Warshaw) na arte de contar histórias através de várias mídias indo dos quadrinhos ao cinema, do videogame ao livro sem esquecer do mais novo domínio da sociedade do conhecimento, a Internet onde personagens ganham blogs ou contas no Twitter e empresas fictícias tem sites corporativos.

Geoffrey Long, Beto Largman, Mark Warshaw e Maurício Mota

Geoffrey Long, Beto Largman, Mark Warshaw e Maurício Mota (foto de Victor Pencak)

Tenho certeza que vários blogs terão resumos excelentes como o da Maffalda e o da Patrícia Haddad (sugiro a @prill: Descolagem 1 e Descolagem 2) além dos vídeos serem disponibilizados no canal do Descolagem no Videolog, portanto vou me concentrar em comentar os dois ou três pontos que mais me chamaram a atenção e destacar um tuíte ou outro que me instigaram.

O que mais me impressionou foi a ideia de que cultura contemporânea parece muito mais disposta a consumir histórias com lacunas do que as anteriores.

As lacunas já eram uma característica de várias histórias imortais como Senhor dos Anéis e Guerra nas Estrelas, afinal quem era Tom Bombadil, como funcionava a força e quem era Boba Feet? Essas lacunas estavam lá para serem discutidas pelos fãs e permitir a criação de todo um universo expandido em torno daquela obra de ficção.

No entanto, desde Matrix e depois em Lost (passando por Alias também de JJ Abrahams) o que temos visto são tramas onde a cada resposta somos apresentados a vários outros mistérios.

Desconfio que isso seja um movimento inerente à cultura do conhecimento: nossa mente anseia por oportunidades para exercitar a criatividade.

Pensando assim talvez seja uma tolice supor que Harry Potter seja o herdeiro de Guerra nas Estrelas como chegaram a sugerir durante o Descolagem apesar de todo seu sucesso (explicável ao meu ver pela semelhança com Cinderela, também presente em Matrix) e de uma grande quantidade de fanfics criadas para o universo HP.

A propósito, não posso deixar de lembrar de Joseph Campbell e o Poder do Mito: a capacidade de preencher o imaginário mítico ou onírico pode ser uma qualidade essencial para criar uma história imortal. Algum dia cometerei a imprudência de listar que pulsões míticas devem causar impressão ao imaginário da sociedade do conhecimento.

Voltando às narrativas transmídia todos pareceram unânimes a respeito de um nome: A Cultura da Convergência de Henry Jenkins (coloquei o link para comprar o livro no fim do post).

É dele a afirmação de que são as pessoas e não as tecnologias que convergem e essa é uma virada de paradigma de 180 graus na ideia que que tudo convergiria para computadores.

Vou forçar um pouco o sentido e propor que a convergência da criação de histórias e universos de histórias deve incluir a audiência que também executará o papel de co-autora de formas que ainda não podemos prever, mas desconfio que será uma evolução das fanfics.

Tweets interessantes:

#descolagem – Em resumo, como diz o Maurício, contar histórias em múltiplas plataformas de mídia é ver a marca como conteúdo. @deluca

#descolagem as novas gerações olharão para um filme sem conteúdo adicional e se perguntarão “é só isso mesmo?” @s1mone

Vale ver:

  • Twitaround para iPhone – realidade aumentada que mostra onde tweets estão sendo escritos
  • Dr. Horrible: seriado musical produzido por Joss Whedon (de Buffy) em sua casa com amigos durante a greve de roteiristas nos EUA
  • Imagine This TV: Projeto de TV opensource e show de realidade (reality show) cuja missão é trazer benefícios para a comuniade escolhida

Bibliografia

O Poder do Mito de Joseph Campbell

O Poder do Mito de Joseph Campbell

Capa do livro Cultura da Convergência de Henry Jenkins

Cultura da Convergência

#Descolagem

Saturday, November 22nd, 2008

Se você não faz idéia do que aquele “#” está fazendo no título desse post dê uma lida no que escrevi sobre Microblogging.

Acabo de chegar do evento Descolagem na Nave Oi.

O Descolagem é um evento mensal que segue mais ou menos a mesma proposta do ted.com: idéias que merecem ser multiplicadas, geralmente sobre as fronteiras do nosso conhecimento.

O tema dessa edição foi a escola do futuro.

Você encontra a cobertura ao vivo em texto no blog da @Maffalda.

No palco apresentando idéias tivemos a Patrícia Konder, o Paulo Blikstein e o Radfahrer que se apresentaram nessa ordem. Além deles teve o som do pessoal da Lens Kraftone que faz música com o Wii.

Na platéia um fervilhante debate simultâneo que mais da metade da audiência talvez nem tenha percebido que aconteceu e certamente não aproveitou.

Calculo que, das 200 pessoas não mais que 100 delas estavam comentando e acompanhando pelo Twitter, o restante eram professores, muitas vezes assustados como um que se levantou para perguntar sobre o fim da sua profissão agora que o aluno pode obter informação sem ele e do fim do toque já que nos comunicamos virtualmente pela Internet… Ele não leu a história do Gronk e da Gronka: nós humanos sempre nos comunicamos virtualmente! Mais à frente o Luli comentaria que Platão não gostava de livros pois as pessoas não se comunicariam mais e não produziriam conhecimento. Ridículo, mas não mais ridículo do que o medo da Internet.

Outro medo que me pareceu bem comum entre a platéia de @turistas (como chamo as pessoas que ainda não enxergam a Internet como uma rede de idéias e de pessoas) é a transformação da sociedade pela tecnologia! Gente! Leiam Pierre Levy! Ou o meu post sobre Cloverfield, tanto faz! Nós criamos essas tecnologias porque algo nos impulsiona a expandir as nossas capacidades de comunicação, integração e interação! Ou seja, foi a sociedade que mudou e criou as redes sociais digitais como o Twitter e os Blogs!

Ouvir a palestra da Susan Blackmore no Ted também ajudaria a esses professores desconectados que precisam urgentemente entender as transformações que estão ocorrendo ao redor.

A palestra da Patrícia foi conceitual, um brainstorm sobre a escola do futuro que teria brilhado se o debate online tivesse feito parte do processo, mas suscitou insights como a meta-aprendizagem ser parte do papel do novo professor e de como lidar com o fluxo avassalador de informação ou que a nova escola será totalmente diferente, não por ter paredes diferentes ou computadores em cada mesa, mas talvez por não ter sala, lugar no espaço ou no tempo.

A princípio odiei a segunda palestra (do Paulo Blinkstein) que era sobre pensamento computacional, as que não tocou nesse tema. Talvez ele tenha achado que as mentes ali eram lentas para os conhecimentos febris de Stanford e se limitou a dar exemplos práticos de trabalhos que ele faz que foram perfeitamente descritos pela @S1mone: Livro do escoteiro mirim na sala de aula!

No final das contas a palestra dele me deu a sensação de estar em um escafandro dentro de um ipotético mar de mercúrio em IO em vez da nave da Oi!

Felizmente o @Lebravo me chamou a atenção do cara ser o único ali que realmente colocava em prática algo que aponta rumos para o futuro e vamos combinar que o trabalho do cara é fantástico! Ele leva experimentos de robótica para alunos carentes até em Angola! Gente que se deslumbra com o conhecimento e a tecnologia e se tornam, como prova o email de um ex-aluno que ele mostrou, engenheiros de fato.

Também fiquei com uma má impressão do Paulo pois ele fez uma afirmação totalmente @turista: O pesquisador que quer sequenciar o genoma do tomate não entra no Google para ver se alguém já fez isso para copiar e colar, ele vai e produz.

Deu a impressão de que acredita que a Rede é uma massa de conhecimento antigo mofando… Ele definitivamente deveria ter aproveitado o tempo nos EUA para ir ao TED!

O pesquisador que não vai à Rede antes e durante sua pesquisa vai trabalhar sozinho e descobrir, desconsolado, ao publicar seu trabalho que um grupo de 389 pesquisadores espalhados pelo mundo trabalhando colaborativamente via Internet não só sequenciaram o genona do tomate como o adaptaram para ser plantado em Marte! Mais à frente o Luli falaria sobre o OpenSource…

Depois do Paulo teve música. Muito legal, dê page up ai e vá lá no Myspace dos caras!

A essa altura eu estava twittando obcessivamente! Lá pelo meio do evento cheguei a levantar a voz e perguntar “Só pode fazer pergunta ou pode opinar?”. Eu queria contar para aqueles 100 excluídos na platéia o que estava acontecendo! Que enquanto os caras falavam lá na frente expondo suas idéias (memes, estudem isso POR FAVOR) elas eram imediatamente reproduzidas, transformadas e entravam na ciranda de seleção natural (ou informacional) fazendo que o evento acontecesse multidimensionalmente!

Não deu para falar e por isso cheguei aqui tão “pilhado” para escrever esse longo post antes de sair para o #BOD (Bloggers on Dance).

Foi então que entrou o Luli Radfahrer, um sujeito famoso na blogosfera que no entando, tive a impressão, era um anônimo para boa parte das pessoas na platéia. Tenho que admitir que, como nunca tinha visto uma palestra dele, não entendia muito bem sua fama. Ah! Mais ai ele começou a falar tudo que eu e outros tantos estávamos berrando no Twitter sem sermos ouvidos. E falava na nossa velocidade, umas 10 vezes mais veloz que a Patrícia e umas 500 que o Paulo. Não só nos acordou como nos deu voz! O Beto Largman tinha razão em insistir pela presença dele!

Pena que a essa altura uns 10% dos @turistas tinham saído, perderam uma palestra que teriam que valeria 1000 Reais e foi grátis.

No final das contas creio que o @Lebravo disse bem: juntar as três palestras torna o evento absolutamente memorável.

Não dá para resumir tudo em uma palavra, mas eu me atrevo a dizer que um conceito permeou as três palestras, um que sempre defendo:

A escola do futuro se trata de consciência, senso crítico.

E já que falei tanto no debate silencioso online aqui vão alguns comentários:

  • Rafaelfilos: e o questão ñ é linguagem do debate, mas o ponto dele. o Blikstein foi brilhante na liguagem e no trato da temática
  • Claudiaruiva (assistiu online): Ok, educação do futuro é critério, é senso crítico. Mas o que temos no Brasil é o oposto, vide sistema de cotas.
  • Alescar: discordo do Luli, qto ao professor. Não é fácil o prof mudar uma instituição enraizada….
  • Alescar: apenas com a dica do Luli sobre o pai, descobri o nome do prof no Google..rs … :) Prof. Celso Antunes, quase 200 livros!
  • Deluca: “Idéias nascem a partir do diálogo, da troca”. Quase sempre das discordâncias, da argumentação.

Teria mais umas 50 dignas de nota, mas a idéia é dar uma noção de como uma palestra acontece no mundo real moderno e o que é uma desconferencia: quem só viu as palestras não teve acesso a muito mais do que 10% das informações e conhecimentos gerados à partir e ao redor delas!

Atualizando um dia depois…

Lendo a cobertura da Maffalda percebi que caí na armadilha do preconeito. Como o Paulo Blikstein se apresentou dentro de um estereótipo que transmite (ao menos para mim) idéias cimentadas e retrógradas, acabei pré-julgando e não vi algumas coisas boas que ele disse.

Além disso ele explicou sim o que é pensamento computacional: raciocinar fora das fórmulas encontrando soluções alternativas e criativas para problemas que antes só podíamos resolver com decorebas mecânicas. Nesse sentido tenho que retirar a minha crítica lá em cima sobre o pesquisador que não vai ao Google… Mas reafirmo que não se pode, em momento algum, esquecer de citar o poder colaborativo e integrador da Internet.

Outras repercussões