Wikileaks: A transparência absoluta é possível? É evitável?

Analisar o chamado (com algum exagero) Cablegate é uma tarefa complexa da qual me esquivei até agora, mas creio que o processo de escrever sobre isso é uma boa forma de explorar suas consequências.

O título já revela a minha opinião: Não é possível impedir vazamentos como os que estão sendo conduzidos pela Wikileaks e isso nos trará grandes problemas. É o mesmo que ocorre com os direitos autorais: teremos problemas econômicos em decorrência da impossibilidade de impedir que as pessoas digitalizem e compartilhem propriedade intelectual.

Vamos por pontos.

Como funciona a Wikileaks?

Mais uma vez a mídia falha na missão de nos informar racionalmente o que está acontecendo e o que vemos é a repetida afirmação de que os 250 mil textos foram publicados indiscriminadamente pela Wikileaks.

Na verdade apenas 960 foram liberados até o momento e quase todos foram previamente publicados em jornais parceiros (The Guardian, the NYT, El Pais, Le Monde, Der Speigel, etc.) que também ajudam no processo de seleção.

É importante destacar que os dados do Wikileaks estão replicados em mais de 500 sites, mas esses repositórios só podem ler os documentos que já foram aprovados. O restante permanece criptografado. (via @DeLuca)

Veja um artigo em Inglês que fala em como funciona a Wikileaks.

A grande mudança é que agora o vazamento de informações não está em poder de um ou outro jornal, ele está disponível apenas aguardando análise e diálogos como esse serão cada vez menos possíveis.

“Não podemos esquecer tudo, seria um atentado à Livre Imprensa, mas fique tranquilo. O seu caso com a atriz XYZ ficará entre nós, e aquela ordem de mandar prender o Fulano de Tal. Nada sairá  no Wahington Post. E por falar nisto, como está indo o pedido de concessão de nosso canal de Televisão, como V.Exma. sabe que iremos diversificar as nossas atividades.” Fonte: Diálogo fictício – Stephen Kanitz

A visão além do alcance

Conforme uma parcela cada vez maior da humanidade passa a se munir de dispositivos digitais e conectados mais oniciente se torna o olho público e até mesmo a mais trivial briga de ciúmes se torna um evento público e eternizado online.

Quase todos nós gostamos de ver o mundo, saber o que acontece na vida dos outros e, principalmente, nos bastidores dos governos e das grandes empresas. É por isso que esse olho de Tandera se tornará cada vez mais onipresente, mesmo sendo muito ruim quando quem é exposto somos nós.

Sempre haverá um irresponsável, um idealista ou alguém lesado que roubará informações críticas de empresas ou governos. Sempre houve. O que muda, e é muito estranho, é a divulgação desses dados sem ganhar dinheiro em troca.

Porque a Wikileaks está fazendo isso?

Melhor ainda, porque uma pessoa entrega a ela informações que poderiam ser vendidas?

Em primeiro lugar talvez porque vender seria crime. Sim, tenho visto esse tipo de princípio moral na geração Y e me parece se estender aos chamados Conectados de todas as gerações.

Em segundo lugar porque só um espião saberia para quem vender as informações, mas todo humano comum pensa algo do tipo “Que canalhas! Olha como eles falam! Vou contar isso para a minha mãe”. Só que o humano conectado quer contar isso para os seus 500 amigos…

Falta apenas uma forma de fazer isso anonimamente. Faltava. Aliás nem faltava, mas não estava ao alcance de qualquer pessoa limitando-se a nerds e hackers.

As razões do Assange não importam aqui. Se ele é herói ou um agente do caos não é importante, o que devemos perguntar é:

Porque quase todos nós queremos que a Wikileaks continue seu trabalho ou, na pior das hipóteses, não conseguimos decidir se o que ela faz está certo ou errado?

Hoje mesmo conversei com um senhor de uns 76 anos que disse ter opinião sobre tudo, menos quatro coisas e o vazamento de informações é uma delas. Ele não é da geração Y! Na melhor das hipóteses é um Conectado, não cheguei a perguntar.

A Wikileaks está fazendo isso, em outras palavras, porque nós queremos fazer isso, nós queremos que ela faça isso. E não nos importamos com as consequências.

Motivation? WikiLeaks’ reported source, Army Pvt. Bradley Manning, having watched Iraqi police abuses, and having read of similar and worse incidents in official messages, reportedly concluded, “I was actively involved in something that I was completely against.” Rather than simply go with the flow, Manning wrote: “I want people to see the truth … because without information you cannot make informed decisions as a public,” Fonte: Daniel Ellsberg

A Wikileaks causará o caos?

Duvido. Ela não. Haverá outros e piores vazamentos de informação nos próximos anos. Eles talvez causem algo que poderemos chamar de caos.

Da mesma forma que as mudanças climáticas estão produzindo caos.

Da mesma forma que a Revolução Industrial causou caos, ou o surgimento do livro impresso, da democracia…

Francamente, o caos do vazamento de informações provavelmente é tão inevitável quanto todos esses foram. E provavelmente a civilização sairá desse período com uma nova organização do poder ou da forma de administrar o poder.

A propósito fui pego de surpresa por esse evento: já sabíamos que a possibilidade de auto-representação podia criar uma hiperdemocracia, mas não vi muitos falando na impossiblidade de guardar segredos… E era tão óbvio.

Francamente, não creio que as nossas instituições (empresas e governos) tem agilidade para se ajustar e criar um modelo administrativo capaz de lidar com o vazamento de segredos. Imagino que veremos enormes esforços para aumentar a segurança. Mas os vazamentos continuarão.

A imprensa pode ser controlada, o olho de Tandera não. E ele tem sede de segredos.

É possível administrar sem segredos?

Em anos prestando consultoria em gestão do conhecimento já estive envolvido em erros. Eles foram mantidos em segredo entre as posições que precisavam tomar as medidas corretivas necessárias e eu. Pelo menos uma vez um segredo vazou para outras posições e a minha resposta foi clara e franca: “sim, erramos e estamos tomando essas medidas para corrigir o erro.”

A questão é que segredos sempre vazaram e a diferença entre o caos e a manutenção da ordem está na resposta firme e coerente da equipe responsável pelo empreendimento e na apresentação de soluções.

Não é possível administrar uma empresa ou governo sem segredos, mas é possível se preparar para administrar com honra os vazamentos que acontecerem. Além disso a própria opinião pública passará a compreender os segredos e identificar nos vazamentos o que é deselegante, mas necessário, e o que, mesmo sendo elegante, constitui um crime contra os direitos civis.

No final das contas o que muda é um maior policiamento do poder, até mesmo um auto-policiamento: haverá de se pensar três vezes mais antes de fazer algo que, se descoberto, será reprovado pela humanidade.

O que vai acontecer agora?

Fazer previsões é o ofício dos insensatos ou dos arrogantes, mas tenho certeza que vão me perguntar isso então me arrisco à insensatez e à arrogância.

A Wikileaks e seu fundador sairão bem dessa, mas eles não são importantes pois a ideia já foi lançada e se eles sumirem outros ocuparão seu lugar: o Olho de Tandera não se fechará.

De um lado governos e empresas investirão em segurança e em controle da Internet, de outro ciberativistas criarão uma Internet pirata se for necessário, mas continuarão garantindo a possibilidade de livre expressão online.

As empresas mais sábias aumentarão seus planos de gerenciamento de crise em caso de vazamento e estabelecerão regras internas de contuda moral e responsável para diminuir a quantidade de material sensível.

Em 2012 estreará o filme Wikileak: O Caso Cablegate

Considerações Finais

Se observarmos os eventos recentes do ponto de vista memético confirma-se o impulso cada vez mais acelerado no sentido de digitalizar e promover o fluxo de todo tipo de informação produzido pela humanidade ou ao redor dela.

É esse impulso que nos alerta para a inevitabilidade de outros e piores vazamentos. Resistir é inútil, adaptar-se é vital.

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2 Comments

  1. O que mais me admira em toda essa situação é a forma com que o governo americano está lidando com o “problema”.
    Eles poderiam assumir os erros e corri-los, como vc
    falou no seu texto, mas preferem uma política de violenta opressão
    ao wikileaks, boicotando o site financeiramente e prendendo o seu criador.

    Isso só fez com que o mundo inteiro voltasse
    os olhos para a wikileaks que, aliás, existe há um bom tempo.
    Mas muita gente sequer sabia do que se tratava.
    Uma prova disso é que mais de 70% dos americanos acham que a wikileaks
    pertence aos mesmos donos da Wikipédia…

    A operação abafa está, na verdade, sendo um carro
    de som. E dos bons.

    Reply
    • Essa é uma das belezas desse novo tempo: os contra-ataques tradicionais só fazem fortalecer o alvo do ataque e somente uma atitude transparente e honesta pode realmente reverter os danos.

      Reply

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