Considerações iniciais
É óbvio, né? Os anos não mudam as coisas, nós as fazemos diferentes, ou não. Se nós não mudamos teremos apenas um novo ano e não um ano novo, no entanto, mudar é um estresse… ou não?
Mudar o mundo é estressante e acho que ninguém deveria carregar esse peso (minha mensagem pessoal de fim de ano), mas mudar como fazemos as coisas pode ser libertador, pode trazer tranquilidade, determinação, esperança, novos horizontes e até sentido para a vida.
Vou falar sobre como caminhar na Internet (navegadores) e em como lidar com o fluxo de estímulos e informações: como agentes ativos ou passivos. Fique comigo, vais ser suave!
Esses dias vi a Vivi Maurey falando na ideia, que ela viu na Naruhodo (e acho lindo como as coisas se conectam na Grande Internet), de que tristeza é a arquiteta das mudanças cognitivas e vou acrescentar que a insatisfação é a catalizadora das mudanças de hábitos.
E é isso, sabe? Em vez da gente tentar suportar a tristeza, ou aceitar a insatisfação, em muitos casos, podemos usá-las para ver o que podemos mudar para sermos mais felizes, ou ao menos nos sentirmos melhor.
Não vou ignorar que o mundo tá bem complicado para muita gente (inclusive para mim) por diverso motivos, no entanto, por mais que o mundo esteja complicado, a gente sempre pode fazer coisas para melhorar as nossas histórias individuais.
Mas se falei sobre tudo isso no meu blog pessoal, por que estou fazendo um post aqui no meu site sobre Cibercultura?
Ora! Porque mudar a nossa relação com a civilização cibernética é simples, rápido e tem o potencial de melhorar muito a nossa vida para melhor! E até ajudar a melhorar o Mundo também, quase sem perceber..
Mudando pequenas atitudoes e as ferramentas que usamos online podemos:
- Nos proteger do cansaço programado pela sociedade do consumo de estímulos infinitos e de vigilância;
- Ter mais liberdade, mais controle da nossa narrativa pessoal, mais autonomia digital, além de usar as tecnologias ao nosso favor em vez de sermos usadas por elas.
Então esse post é um post da categoria “De xingar” em que falo de software, mas, atenção, porque o grande segredo da tranquilidade não é dominar ferramentas, saber onde clicar, e sim o que fazer com elas para sermos mais felizes e termos mais tranquilidade!
O que fazer com o navegador Web e quais usar?
Tenho falado bastante em Grande e pequena Internet e o navegador web pode ser a nossa porta para a Internet sem as barreiras dos algoritmos, muito além dos Facebooks e buscadores da vida.
Um navegador como o Firefox vai te garantir, antes de mais nada, muito mais privacidade do que os que vem com os sistemas. Continuo recomendando usá-lo e é o meu navegador principal. O pessoal mais purista tá incomodado, e concordo, mas continua sendo o navegador mais indicado para 99% das pessoas!
Com alguns plugins ele pode abrir caminhos para uma Internet muito mais rica que a monotemática pequena Internet.
Uma extensão como o Feedbro te permite reunir todos os sites que você gosta de ler em um só lugar e separados por categorias de acordo com o seu gosto. Eu divido em jornais, amigues (blogs), ciência, etc.
Também uso a extensão Unhook para limpar as distrações do YouTube (também dá para seguir os canais que você gosta no YouTube com o Feedbro).
Já com a Simple Tab Group eu separo o que estou fazendo em grupos de abas, como trabalho, lazer, social (onde ficam as abas para o Fediverso, que é o futuro da Internet Social), etc.
Faça do seu navegador uma janela para as coisas que te interessam e não um balcão por onde te empurram estímulos
Roneyb jan/2026
E tem também os “perfis”, que nos permitem separar totalmente as sessões do navegador. Por exemplo, você pode ter um perfil pessoal, com suas extensões, histórico de navegação, preferências, barras de favoritos, etc. e outro, totalmente separado para o trabalho, ou talvez para cada cliente que você tem que atender. A ideia é a mesma: reduzir distrações, preservar seu espaço pessoal! Esse recurso é recente nativamente no Firefox.
Mas o Firefox é como uma base para o futuro. Assim como o Chrome. Todos os demais navegadores usam a tecnologia básica de um ou outro, sendo que os navegadores que focam em segurança e privacidade, geralmente, usam a tecnologia do Firefox.
Os navegadores derivados desses dois oferecem mais recursos, facilidade de uso, possibilidades de personalização do que eles. Vou sugerir alguns, mas destacando só os dois mais interessantes.
Vivaldi
Ele é da família Chrome e considero uma evolução do Opera, que propôs a visão de que o navegador deveria ter uma interface flexível que desse o máximo de liberdade para a pessoa deixá-lo do jeito que fosse mais confortável para ela e, além disso, também reunisse tudo que fosse necessário para navegar pela Internet.
No entanto, o Vivaldi vai além propondo colocar as pessoas acima de tudo, mantendo o navegador livre das regras de mercado em que, se é grátis, o produto somos nós.
Por exemplo, ele foi um dos primeiros navegadores a declarar que não incluirá recursos de IA generativa em seu núcleo e a missão deles é “Acabar com o domínio que os gigantes da tecnologia têm na web”. Vale a pena passar na Home do Vivaldi e ver os princípios e os recursos que ele oferece.
À primeira vista pode parecer muita coisa para aprender, mas você pode começar simples, usando do mesmo jeito que usa o seu navegador atual e, aos poucos, ir expandindo seus horizontes. A minha sugestão é começar pelo “Feeds” que fica na barra vertical à esquerda e permite reunir todos os sites que te interessam em um mesmo lugar. Isso, sozinho, pode mudar sua relação com a Grande Internet.
Talvez você se pergunte por que estou indicando primeiro um navegador Chrome, afinal o Firefox não é mais seguro? Sim, mas a grande maioria das pessoas usa o Chrome e a transição para o Vivaldi é mais suave por conta disso, você pode usar as mesmas extensões para Chrome que já usa hoje, por exemplo. Além disso, a segurança não é o nosso maior problema, afinal ela é praticamente zero ou mesmo negativa nas mídias sociais e muita gente continua por lá. Antes da segurança e da privacidade vem a liberdade! E acredito na capacidade do Vivaldi tornar o código Chromium mais seguro e privativo.
Zen Browser
É um navegador da família do Firefox que segue pelo mesmo caminho do Vivaldi propondo “Wellcome to a calmer Internet”, “Bem-vindos a uma Internet mais calma”.
Ele ainda está em versão beta, mas uso bastante e é bem estável.
Naturalmente não tem tantos recursos quanto o Vivaldi, mas está no caminho e é bom termos um navegador com a mesma proposta de personalização e redução de distrações, com base no Firefox.
Ele, inclusive, é bem mais eficiente no quesito “redução de distrações” que o Vivaldi ao permitir tirar quase todos os elementos da tela.
Ele também permite organizar as abas em áreas de trabalho, apesar de não ter ainda o recurso de múltiplos perfis como o Firefox raiz e o Vivaldi.
Outros navegadores
Diversidade é uma característica da Grande Internet e existe facilmente uma dúzia de bons navegadores baseados no Chrome ou no Firefox que estão evoluindo e sendo mantidos com consistência, como Librewolf, Waterfox, Brave (tenho críticas), Mullvad e muitos outros, mas decidi sugerir só duas ferramentas em cada sessão para não criar mais um fluxo de hiper-estimulação, né? Muito embora eu tenha indicado três: Firefox, Vivaldi, Zen Browser.
Organize o fluxo: Faça anotações
Esse tópico só não é o primeiro porque nos convida para uma jornada continuada de desenvolvimento de hábitos enquanto a troca de um navegador e abrir os olhos para a Grande Internet pode ser feito em poucos dias, até mesmo em horas.
Repensar a forma como nos relacionamos com o fluxo infinito e algorítmico de estímulos e informações certamentamente é a coisa mais importante que podemos fazer agora para encontrar a tranquilidade, liberdade, esperança e sentido que comentei lá no começo.
A mudança de hábito pode ser tão simples como se fazer três perguntas:
- Isso é algo que vale a pena guardar?
- Será que já não vi o suficiente disso?
- Esses estímulos estão me fazendo bem?
Penso que a forma de se perguntar essas coisas é diferente se estamos navegando na pequena ou na Grande Internet.
Pequena Internet: Os algoritmos são programados para nos prender nos seus “jardins murados” e nos oferecem uma enchurrada do que mais prende a nossa atenção a cada momento com uma tendência ao que nos envolve pela emoção. Nesse caso conhecer os nossos sentimentos enquanto nos expomos aos estímulos tem um peso especial assim como o tempo que dedicamos a essas plataformas.
Grande Internet: Ela é literalmente ilimitada em conteúdo de qualidade e profundidade (desde que prestemos atenção às fontes) e aqui o desafio é medir até onde vamos nos aprofundar ou nos “espalhar”, além disso, a Grande Internet é interconectada e de um post, um verbete, uma notícia somos levados a cada vez mais temas paralelos. Ela não tem algoritmos, mas a nossa sede de conhecimento pode ser viciante. Nesse caso me ajuda muito pensar “vale a pena guardar isso?”.
As três perguntas podem ser diferentes para você, mas pense em mantê-las simples.
Guia prático para anotações
É prático mesmo: Faça anotações! Faça do seu jeito!
Pode ser em um documento de texto onde você coloca links e comentários, pode ser numa sessão “Gotas” como tenho aqui no Meme, pode usar hastags para ajudar a localizar as coisas (recomendo), podem ser notas no aplicativo de notas do seu celular.
O importante é criar o hábito de avaliar o que estamos vendo e guardar ou não. Com o tempo vamos naturalmente dedicando menos tempo ao que é volátil e que acaba nos dando ansiedade por ver que gastamos horas sem saber bem no quê.
Você pode até fazer as anotações em papel! Por que não? Só acho que é melhor anotar a data para juntar o que você escrever no bloco com os links que você guardou no dia.
Claro que fazer isso sem método acaba sendo apenas um grande caos, mas felizmente existem dezenas de ferramentas ótimas (e centenas nem tanto) que tornam esse hábito leve, libertador e tranquilizador. Vou indicar duas.
Zttlr
É um aplicativo de anotaçõs FOSS (free Open Source Software) e o que essa categoria de aplicativos faz é impressionante! Principalmente no quesito facilidade de uso.
Sugiro pensar previamente em uma estrutura de notas, pastas, sabe? Como Trabalho, Pessoal, Pesquisa. Mas não precisa, você pode simplesemente abrir o programa e começar a escrever a primeira nota.
Você pode usar como espaço de armazenamento algum na nuvem da sua escolha, como o Dropbox ou qualquer outro que você use.
Criar títulos, subtítulos, negrito, tachado, itálico, links etc pode ser feito direto no teclado usando um código universal chamado Markdown, ou seja, coloca entre dois asteríscos fica em negrito, Coloca uma # na frente é Título 1, duas, Título 2. Isso simplifica MUITO o fluxo da anotação! Experimente!
Essa categoria de aplicativos faz muita coisa com pouco esforço, com quase zero curva da aprendizagem.
Obsidian
O que falei sobre o Zttlr vale para ele também.
É gratuito, mas não é FOSS, todavia é o que eu uso porque me acostumei com ele antes de conhecer o Zttlr e também porque simpatizo com o modelo de negócios, que se sustenta fazendo um sistema tão robusto que a gente tem vontade de pagar para ajudar a manter o produto.
Tem alguns recursos que o Zettlr não tem, mas o Zttlr também tem nativamente alguns recursos que exigem plugin no Obsidian.
Escolhi essas duas ferramentas porque ambas podem ser usadas de imediato depois de instalar, sem ter que aprender praticamente nada, e aos poucos ir construindo seu castelo ou mesmo reino de anotações. Só depende dos seus desejos.
Eu uso para praticamente tudo: tenho uma “home” onde aparecem as minhas tarefas do dia, dos próximos sete dias, vencidas etc. além de links para algumas notas como projetos em andamento.
Outras mudanças de hábito
Quando comecei esse post pretendia fazer um grande guia de mudança de hábitos cibernéticos, mas percebi algumas coisas:
- Seria mais uma sobrecarga;
- Mudar como navegamos o ciberspaço e como lidamos com o fluxo de estímulos já é 90% do que nos libertará;
- Duas coisas de cada vez me parece muito mais adequado do que tentar mudar tudo de uma vez só;
- A propósito, mudar como lidamos com os estímulos e informações, a sessão “Faça anotações”, já é 80% do caminho para uma vida mais confiante, suave e enriquecedora na sociedade cibernética.
- Falar de tudo ia dar um livro (que já estou escrevendo, tenha paciência)
Então vou colocar aqui apenas alguns spoilers ou sugestões porque, para algumas pessoas, eles podem ser mais urgentes.
Assuma controle do seu email
Ter um email seguro e que não usa os seus dados para mapear e influenciar os seus interesses e o de pessoas similares a você talvez seja o passo mais fácil e importante a caminho da autonomia digital. Posso sugerir três opções que tem versões gratuitas satisfatórias: Proton, Tuta, Zoho.
Produtividade
Prefiro manter meus aplicativos de edição de textos, planilhas, apresentações localmente no meu computador e salvar os arquivos em uma nuvem segura, mas vou indicar também soluções online porque há situações em que são necessárias.
Vou até simplificar e indicar apenas duas ferramentas, uma de cada tipo.
No computador você pode usar o LibreOffice, que tem editor de textos, planilhas, apresentação, desenho e até um banco de dados e tem versões para Windows, Mac e Linux, te dando a liberdade de migrar de sistema operacional quando bem entender. A propósito só uso Windows se não tiver outro jeito, meu sistema principal é Mac e os notebooks rodam Linux, que considero a melhor opção para muita gente.
Para trabalhar online ao mesmo tempo, com outras pessoas, como no Google Workspace, indico o Cryptpad, que tem a vantagem de, se você conhecer uma pessoa um pouco nerd, poder ser instalado no seu próprio domínio. Eu poderia ter, por exemplo, o escritorio.memedecarbono.com.br rodando Cryptpad, eu teria o meu próprio Google Workspace privativo. Mas não tenho essa necessidade, ainda.
Uma rede social de verdade
Na minha opinião, junto com a habilidade de controlar o fluxo de estímulos e informações que citei lá em cima, libertar as redes sociais dos algoritmos e das empresas que as transformam em mídias sociais, será uma das duas maiores conquistas dessa primeira metade de século!
O Fediverso, que já linkei mais para cima e que abordei em muitos artigos na sessão “Redes Sociais” é o caminho que tem chamado mais atenção, mas é uma de muitas experiências e talvez a solução acabe sendo outra. Micro-redes sociais privativas feitas usando aplicativos de mensagens como o Signal (como já temos feito), por exemplo.
Uma reflexão importante: será que redes sociais online são uma imposição moderna? Apesar de estar nelas desde 1992 (na era dos BBS) penso francamente que as redes sociais de verdade devem ter interseção com o contato offline. Se o ponto é ter voz coletiva online penso que redes de blogs e fortalecer as mídias livres como jornais e podcasts (veja alguns em “Recomendo“) pode ser muito mais eficaz.
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Foto de Suzanne D. Williams na Unsplash


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