Sim. É ruim e não deveríamos estar permitindo isso, mas vamos demonstrar isso, certo?
O que é verificação de identidade e para o quê serve?
Chegamos ao consenso de que as mídias sociais (rede social é outra história) são nocivas para crianças e adolescentes, logo temos que mantê-los afastados delas. Aqui caberia nos perguntarmos se adultos tem como se proteger dos danos das mídias sociais com seus potenciais para o vício e influência negativa, mas é assunto para outro momento.
O problema é: como manter as crianças fora das mídias sociais. Também poderíamos conversar sobre a necessidade dos jovens se conectarem por redes sociais (não mídias sociais), mas também é assunto para outro momento.
Rapidamente se propôs exigir que as pessoas comprovem que são adultas enviando dados biométricos, ou seja, capturas digitais da geometria do próprio rosto, documentos (incluindo o código NFC do passaporte, por exemplo) e mais meia dúzia de informações pessoais (link 1).
Curiosamente uma das propostas não é impedir o cadastro de crianças, mas identificar quem é criança para então moderar o conteúdo que elas recebem. Mais curiosamente ainda é que o Discord, uma das plataformas mais usadas por crianças e mais perigosas, é um dos proponentes da ideia e até já revelou que está iniciando o processo. Resta saber como eles vão moderar, se já não conseguem moderar agora, mas, novamente, não é assunto para esse post.
Me desculpem tantos assuntos que não são para esse post, mas acho importante apontar para as bifurcações desse tema, pois são uma parte muito grande do problema.
Resumindo: A verificação de identidade consiste em ceder um monte de informações nossas para uma plataforma comercial para proteger as crianças. É muito discutível se a medida terá algum efeito protetivo prático.
Qual é o problema de dar nossos dados para a Meta?
Err… Como se a Meta (Instagram, Facebook, WhatsApp e Threads) e seu dono fossem violentamente benignos, mas talvez isso não seja de conhecimento geral, então o link 2 no final do post fala do cerco da Europa contra bigtechs que violam privacidade e diversas outras leis. A Meta está lá por ser uma das que mais nos desrespeita.
Mas, tudo bem. Provavelmente não é para a Meta que você vai passar os seus dados biométricos, é para a Persona. A mesma usada pelo Linkedin e pelo Discord. É uma empresa com ligações com o Palantir, um software espião. Além disso, ela compartilha dados com empresas de IA (Anthorpic, OpenAI, X) para treinar LLMs com seus dados.
Parece muito pior. E é. (link 1).
Mas vamos supor que essa festa toda com os nossos dados é segura, que eles realmente apagam tudo logo depois de confirmar a nossa identidade (ou em seis meses, ou se o governo não mandar reter). Será 100% garantido que não acontecerão vazamentos de dados? Spoiler: não. Inclusive a empresa acaba de passar por um problema de segurança recente (link 3).
Mesmo que não aconteça vazamento. Com quem a Persona compartilha nossos dados? Com que finalidades? Que dados ela coleta (quase 270 de acordo com o link 3)?
Talvez o mais importante seja: nós não sabemos que empresa é essa, que interesses e modelos de negócio ela tem.
Tá, mas e quando vazarem os nossos dados que empresas como essa coletam?
O alerta mais púrpura (para deixar fãs de Doctor Who felizes), ou seja, mais sério é: se perdemos uma senha, basta fazer outra, mas e se perdemos os dados biométricos do nosso rosto? Nós não podemos trocar de rosto. Sem falar nos outros 268 dados que elas coletam.
Mas, então, como proteger as crianças?
Também não é assunto para esse post, mas é sério demais para não comentar aqui!
Mas, antes, note que não existe uma forte pressão ou lobby das grandes corporações digitais contra a imposição de identificar os bilhões de pessoas cadastradas em suas plataformas.
Não é porque elas aceitam passivamente alguma lei, afinal reagem com violência quando tentam aumentar os direitos a privacidade e segurança em suas plataformas alegando que é contra a liberdade de expressão ou algo assim, apesar de restringirem frequentemente a liberdade de expressão de forma silenciosa e até ostensiva.
É possível que a identificação biométrica e outros dados coletados sejam muito interessantes para aumentar o poder informacional que elas já tem.
Mas vamos à proteção das crianças.
Identificar quem não é criança representa um grande risco para os identificados, mas não protege as crianças.
Algoritmos bem feitos poderiam proteger um pouco as crianças, mas não parece haver esforço sincero nesse sentido e algoritmos não conseguem oferecer a segurança necessária.
A grande e desagradável verdade é que essa proteção é difícil. Provavelmente será necessário um esforço conjunto que inclui regulamentação e responsabilização das mídias sociais, campanhas de conscientização das crianças e das suas famílias, debates sobre o papel das mídias sociais e, mais uma vez, regulamentação do que podem e não podem fazer, obrigatoriedade de revelar os algoritmos, responsabilização pelos anúncios veiculados e muitos etc.
Pessoalmente acredito que temos que discutir muito seriamente o próprio conceito de mídia social, que hoje não tem praticamente nada em comum com o de redes sociais. Restringir mídias sociais está mais para restringir propaganda de cigarro do que em restringir os direitos de socialização das pessoas.
Em resumo
- A verificação de identidade coloca os adultos em risco sem garantir proteção para adolescentes
- Mesmo que os dados não vazem, é muito obscuro como as empresas verificadoras usarão os dados que recolhem
- Proteger as crianças de fato é um problema complexo que deve exigir várias áreas de atuação:
- Responsabilização de mídias sociais (principalmente corporativas algorítmicas)
- Regulamentação de mídias sociais (idem)
- Programas de conscientização para famílias
- Programas de conscientização no sistema de ensino
- (Na minha opinião) Discutir muito seriamente o que são redes sociais e mídias sociais, avaliando até que ponto mídias sociais são aceitáveis


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