Imagens: Marina Silva (DCM), Lula (Wallpaper222), FHC (Último Segundo)

Manuel Castells é um dos cientistas sociais que melhor entendeu, na minha opinião, a onda de mobilizações sociais que são um tipo de ponta do iceberg das mudanças geopolíticas, culturais e representativas em nossa civilização.

Em entrevista recente ele falou em uma aliança entre Marina Silva, Lula e FHC para promover uma reforma política vasta e profunda o suficiente em nosso país.

Fica a dúvida se ele considera isso possível ou se  gostaria que fosse possível já que os três teriam realmente representatividade (política e memética) para reunir tanto a classe política quanto as diferentes tribos sociais.

A reforma política profunda é uma imposição desse século e está sendo discutida ou experimentada em praticamente todos os países, mas há dois obstáculos para que possamos discuti-las.

Obstáculo 1: O mito do controle absoluto

Esse corta nossa visão logo nos primeiros passos pois obstrui as lentes que poderíamos usar para analisar o quadro que estamos assistindo.

Por razões que não dá para esmiuçar nesse espaço há um senso comum de que os meios de comunicação, corporações e classes políticas tem instrumentos quase perfeitos de vigilância e manipulação de massas (sendo que nunca achamos que estamos entre as massas manipuladas).

É óbvio que há vigilância e todo tipo de ação para nos influenciar, entretanto o controle que vem daí obviamente está longe de ser absoluto. Basta observarmos que antigas corporações (e os indivíduos e famílias que as controlam) caem todo o tempo e outras surgem conforme as estruturas de poder vão se deslocando, por exemplo, da produção de bens físicos para a produção de bens digitais.

Enquanto olhamos perplexos e conformados para o controle absoluto deixamos de perceber como e o que influencia os movimentos da nossa civilização.

Obstáculo 2: A complexidade do sistema

Tem aquela piada do pai explicando ao filho o funcionamento de um país comparando com a família e a empregada.

É bem mais complexo que isso.

Naturalmente que o governo administra, que corporações tem grande influência (mesmo que os financiamentos de campanha corporativos venham a ser proibidos), que a mídia assume tanto um viés quanto alianças e que o poder da população é pequeno, mesmo com o avanço da Internet, afinal ele é sim influenciado (não manipulado, mas certamente influenciado) pelo marketing, mídia etc.

No entanto as corporações vendem para a população, a mídia tem laços com os anunciantes, mas precisa atingir os consumidores, a Internet dá um poder imprevisível a ideias e ideais que podem surgir de qualquer parte.

Anote isso, é importante: a Internet dá um poder imprevisível a ideias e ideais… Não a indivíduos.

Tentando simplificar…

Já tivemos e temos novamente um quadro de mudanças de forças de produção e de poder.

Nesse momento a produção de energia fóssil ocupa um ponto bem próximo do centro de equilíbrio desse móbile. Bem próximo a ela temos a indústria de armamentos e, provavelmente, um tipo de Dark Web do sistema econômico formada pelo crime.

Temos que pensar um pouco melhor no crime. Não estamos falando em quem rouba armas do exército e a vende para o crime organizado, nem mesmo temos que olhar para o crime organizado e sim para um gigantesco oceano de recursos intimamente ligados a grandes corporações, poderes religiosos, redes de corrupção. Chega a haver estimativas de trilhões circulando nessa economia paralela e ela participa do móbile junto com mídia, governos e corporações.

Felizmente o crime tem pouco a perder e muita flexibilidade para se ajustar conforme a economia se move do fóssil para o elétron (movimento que deve ser inevitável por questões econômicas e de sobrevivência da vida no planeta).

Restam os poderes que não podem ou não sabem como mudar suas bases.

É como a indústria que vende discos de vinyl e não percebe que precisa passar a vender CDs e depois arquivos digitais.

Algumas empresas conseguem fazer essa transição (a Nokia fez algumas vezes, vejamos se fará de novo) e outras não.

As empresas de energia fóssil, agronegócios e transporte entre outras não tem ido bem nessa transição preferindo usar seu poder para tentar retardar as mudanças e é aí, na minha opinião, que reside o maior obstáculo para reformas políticas.

Então como seria a reforma desses três?

Até aqui pode parecer que estou com os que enxergam um controle absoluto e discordo do Castells tanto sobre a possibilidade de uma aliança Marina, Lula, FHC quanto sobre sua possibilidade de sucesso.

Na verdade não.

Cada peça desse móbile está buscando caminhos para sobreviver. Uns tentam impedir as mudanças, outros se antecipar a elas, alguns procuram alimentá-las (caso de empresas como o Google).

Politicamente falando os indivíduos podem se encaixar em um viés “esquerda” ou “direita”, mas o sistema já não funciona de acordo com essa dicotomia há muito tempo e isso vem se tornando cada vez mais claro, que a sociedade pode se dividir em torno de um viés que pode ser rotulado como “direita” ou “esquerda”, mas que o governo deve aprender a falar com os dois e, principalmente, governar de acordo com outro viés que não está na escala esquerda-centro-direita.

Políticos e partidos que quiserem fazer parte da próxima estrutura política terão que saber fazer essa transição e realmente há sinais de que as três personalidades destacadas por Castells percebem isso, mas será que eles se uniriam? Será que nós, coletivamente, aceitaríamos? As pessoas, com viés “direita”/”esquerda” aceitariam alianças que parecem tão heterogêneas?

Minha hipótese é de que haverá sim uma aliança política entre os vieses “esquerda”, “direita” e um tipo de esquerda messiânica representados por cada um desses personagens. Ela pode acontecer em indivíduos (pode ser o caso do primeiro ministro recentemente eleito no Canadá) ou em alianças políticas entre pessoas que desfrutam de forte reputação entre camadas importantes da sociedade.

Eles podem realmente desejar e ter o poder para promover a reforma política necessária, seja por sobrevivência própria, seja pelo crescimento de corporações adaptadas às novas bases econômicas.

Suposição extra: Quando a Tesla se levantar como um grande ator no cenário global as reformas políticas se sucederão rapidamente.

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