Photo by Bill Fairs on Unsplash

Esse post parte de um episódio nas eleições deste ano (2018 no Brasil) em que um grupo de eleitores do candidato visto como fascista entoava frases de efeito com a melodia de Bella Ciao enquanto hostilizavam pessoas que se colocavam contra o fascismo.


Bella Ciao em francês e em italiano

A melodia, supõe-se, remonta ao século XIX quando plantadoras de arroz a entoavam narrando as péssimas condições de trabalho, moradia e de vida.

Todavia foi na resistência ao Nazi-Fascismo na Itália da Segunda Guerra Mundial que a música recebeu a letra atual, e conhecida agora por causa da série A Casa de Papel.

Aliás, sem conhecer a letra da música e seu significado histórico, perde-se também o entendimento da série em si.

A música fala em resistir e, morrendo na resistência, que sejamos enterrados à sombra de uma bela flor.

O grupo que hostilizava os anti-fascistas obviamente não foi além da observação superficial da série onde provavelmente se inspiraram para usar a Bella Ciao.

Vamos resistir aqui à tentação de generalizar e pré-julgar o grupo, vamos olhar mais de longe para um dos aspectos da sociedade moderna. A cultura das manchetes e o efeito Dunning Kruger.

(esse efeito aí é quando a gente acha que sabe muito de algo que conhecemos pouco ou quando sabemos mesmo muito sobre uma coisa e, por isso mesmo, entendemos que ainda há muito que saber.)

Não se culpe.

Nossos instintos e razão nos dizem que temos que entender o nosso entorno para sobreviver. A sociedade também nos cobra fazer parte dela. Lembra quando todo mundo está vendo uma série e a gente, ou pessoas que conhecemos, se irritam porque todos estão falando daquilo e ela ainda não conhece?

Coisas das sociedades… A cultura, as leis, a política… Tudo nos impele a querer fazer parte a mostrar que conhecemos o território onde vivemos.

Ah! Tem outro efeito que precisamos observar para chegar ao final desse post: viés de confirmação.

Esse é simples, agora que já falei que sentimos que a nossa sobrevivência está ligada a terem alguma confiança de que sabemos o que estamos fazendo. Então nós mesmas nos agarramos a coisas que confirmam o que nós pensamos. Toda pessoa precisa de um pouco de segurança sobre o seu viés… Menos Demian, mas ele é assunto para um post só dele.

Muito bem, com essas três coisas em mente… Espere, creio que não expliquei bem a cultura da manchete. Pode ser uma explicação meio óbvia, mas sempre ajuda repensar as coisas.

A primeira vez que pensei nisso foi assistindo O Homem que Copiava, com Lazaro Ramos. Você já pode saber por que logo nos 5 primeiros minutos: ele aprende o que dá para ler enquanto as cópias saem da fotocopiadora.

Desde o final do seéculo passado, com o advento da Internet (que só eu escrevo como nome próprio porque para mim é um continente como a África ou um planeta como a Terra) logo percebemos que uma das principais habilidades para o século seguinte seria a de filtrar, classificar e controlar a profundidade com que nos aprofundaremos em cada conhecimento conforme um fluxo virtualmente infinito de estímulos procura conquistar um espaço em nossa mente, em nossas horas diárias.

Assim temos essa combinação perigosa:

  • O fluxo de informação não nos dá tempo para nos aprofundar
  • O efeito Dunning-Kruger nos engana fazendo pensar que já entendemos o suficiente
  • O viés de confirmação nos leva a cortar o que poderia nos mostrar que estamos errados e abraçar o que confirma as ideias que formamos apressadamente

Sem profundidade de conhecimento em temas que são centrais como viés político, a estrutura da nossa civilização e a própria natureza do nosso pensamento e suas dissonâncias cognitivas além, claro, da nossa própria história (o que foi a idade média, o que é democracia, o que são direitos humanos e preconceitos estruturais) estamos fadadas a não entender nosso lugar ou das outras pessoas. Teremos dificuldades enormes para encontrar uma sintonia com o viés de outras pessoas e culturas.

Assim a democracia, que vinha buscando uma unidade dentro da diversidade até 2013 aproximadamente, quando vimos o crescimento de fenômenos como o Occupy e os 99% atravessando as fronteiras entre diversas culturas, pode ser dobrada dividindo-se a sociedade em dois grupos antagônicos que, na verdade são um único grupo.

É natural que mais ou menos metade da nossa civilização tenha um viés mais precavido, que nos alerta para os riscos de mudar rápido demais enquanto outra metade é mais audaciosa.

Foi assim que nós, tão frágeis, pudemos escapar da extinção algumas vezes até umas dezenas de milhares de anos quando começamos a nos organizar a caminho de virar a única civilização do planeta.

No entanto precisamos resgatar essa unidade, perceber que a pessoa que nos diz para pular no espaço escuro realmente acha que aquele é o único caminho para sobrevivermos, assim como a que diz que ficar dentro da caverna como sempre é o melhor a fazer.

Claro que essa não é a única ameaça à democracia. Toda organização social é permanentemente testada e pressionada tanto pela própria natureza das sociedades quanto pela tentativa de um grupo ter mais poder que os outros. Lembremo-nos dos governantes deuses do egito, dos reis que se colocavam como representantes divinos e do espírito da população, da era do marketing que vivemos hoje.

Mas já é um bom começo se questionarmos a superficialidade dos nossos conhecimentos e como os propagamos pois, com os pés bem apoiados em uma visão mais coerente do mundo, podemos nos organizar e nos reencontrar em nossos interesses comuns: igualdade social e cultura para que haja paz, transparência dos governos para que não sejamos prejudicados, democracia mais direta…

Enfim, vendo melhor nosso mundo acharemos juntos caminhos para construir uma civilização melhor para todas as pessoas.

Versões de Bella Ciao

Legendado em português
Versão antiga em italiano na voz de 
Giovanna Daffini
Na voz de Tom Waits e direção de Jem Cohen em crítica ao governo Trump

Fontes:

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