Estava lendo um artigo sobre o Twitter que foi publicado hoje na revista Época e fui percebendo mais uma vez como poucos analistas entendem a Internet e a cultura do século XXI fortemente influenciada pela cibercultura.

Na matéria fala-se na perda de privacidade, da capacidade de estar sozinho e na sobrecarga de informações como se fossem indesijáveis e impostas de cima para baixo. Não são.

É claro que estamos em um período de transição (creio que o maior nos últimos 5 mil anos) e há um desequilíbrio e caos associado a isso.

Realmente muita gente se expõe demais na rede, se sente obrigada a absorver ou repassar dados e informações, mas isso é parte do período de adaptação.

Privacidade

A ameaça a nossa privacidade não está no Orkut,  Facebook, Twitter ou qualquer outro serviço onde decidimos o que vamos publicar. Isso é tão óbvio que me recuso a comentar, são lugares onde decidimos o que publicar.

Existem ameaças a nossa privacidade online sim, principalmente quando governos e outros antigos monopólios da informação tentam implantar uma vigilância suspeita sobre todos que se conectam à rede. Leia o alerta geral do Sérgio Amadeu, mande email para os deputados da sua região e assinem a petição contra a lei Azeredo.

Tim Berners-Lee, o cara que criou a Web há 20 anos, nos fala em outro tipo de risco para a privacidade.

De um lado é bom que certas informações da nossa vida privada estejam online como a nossa posição física e nossa agenda pois isso permitirá a criação de sistemas que tornarão mais fácil e eficiente marcar uma consulta médica ou um almoço com os amigos. No entanto é necessários desenvolver formas seguras de manter essas informações e definir quem e como pode usá-las.

Este é um problema a ser resolvido nos próximos 5 anos.

Neste exato momento a questão da privacidade se resume a doi pontos:

  • Aprender o que e como desejamos compartilhar
  • Ficarmos atentos às tentativas de cercear nossa liberdade de expressão como a lei Azeredo.

Sobrecarga de informação

Esse não é um problema criado pela Internet ou pela cibercultura, na verdade elas são ferramentas para solucioná-lo.

A origem da sobrecarga de informação está na migração da economia de produção de átomos (tomando emprestada a expressão usada no livro What Would Google Do de Jeff Jarvis) para a economia de serviços que produz justamente informação e conhecimento a partir de uma chuva de dados. E provavelmente foi a necessidade de criar uma sociedade do conhecimento que nos fez criar os computadores desde o início e não o contrário.

Já que este post começou com um artigo sobre o Twitter falemos nele.

No Twitter você escolhe quem quer seguir. Você deliberadamente observa o que cada pessoa fala e decide receber em seu celular, laptop, netbook ou desktop tudo que ela fala.

Seu twitter será um fluxo constante de notícias, trivialidades, ciência, filosofia, dicas de saúde ou lista de coisas a fazer para se divertir, tudo depende de quem você decidir seguir.

Twitter é filtro de informação.

Ao abrir a revista Caras voce fica sabendo que aquela atriz que não tem qualquer ligação com sua vida pintou as unhas! Ao abrir o Twitter você fica sabendo que seu amigo gostou daquele restaurante onde você nunca foi ou que um grupo de amigos vai ao cinema daqui a pouco.

Onde está a informação relevante e a irrelevante?

Enquanto isso a cibercultura é o caldeirão onde as pessoas desenvolvem novas formas de ler e aprender a filtrar o que importa e não importa.

Aprender a lidar com a sobrecarga de informação é uma das qualidades que o humano do século XXI terá que dominar para poder atuar em uma economia de serviços, informações, conhecimento e sabedoria (conceito bem defendido por Carlos Nepomuceno).

Solidão

Estar só é bom?

É necessário que nossa companhia seja boa para nós mesmos e a capacidade de estar feliz apenas com as próprias memórias e pensamentos é realmente importante, mas isso não é “oportunidade de estar sozinho”. Ontem mesmo estive em um aniversário onde decidi ficar sozinho me alegrando com a alegria geral por alguns minutos.

Quando falam em oportuniade de estar só talvez estejam falando realmente em ter um tempo pessoal como se fala na Inglaterra. Isso não é impedido pela Rede. Basta desconectar. Mesmo que esteja em meio a uma multidão.

Quanto à solidão…

Internet, Twitter e outras redes sociais não impedem a solidão. Sempre estivemos sós mesmo em meio à multidão pois podíamos ver seus rostos, ouvir suas vozes, mas suas consciências poderiam estar fechadas para nós.

Ao ter os blogs e páginas pessoais das pessoas em redes sociais temos oportunidade de compartilhar e conhecer facetas que antes ficavam ocultas por anos.

Não faz muito tempo uma amiga (@viva_) comentou que as amizades offline com pessoas online são mais profundas. Ela está certíssima.

O relacionamento offline está limitado pelo tempo. A comunicação por voz é muito mais lenta do que a feita por meio escrito.

A maior parte do nosso registro online é escrito ou fotográfico o que permite um fluxo muito mais veloz de absorção e quando nos encontramos pessoalmente podemos aproveitar muito melhor a comunicação oral pois já conhecemos boa parte das opiniões um do outro.

A internet veio diluir a síndrome da solidão instituída pelo império da televisão e da grande mídia.

A Internet é a solução dos males da humanidade?

Os livros foram a solução dos males da humanidade? A democracia foi? A religiãofoi? A mídia foi?

A cada passo produzimos soluções e novos problemas. Novas culturas e tecnologias são criadas para resolver problemas, mas naturalmente inserem outros.

Lidar com os problemas da Internet e da cibercultura não será fácil. Muitos de nós já estão sob profundo estresse ou mesmo riscos mais concretos por ter tido sua privacidade exposta, mas provavelmente trata-se de um caminho inevitável e teremos que aprender a lidar com ele procurando maximizar suas qualidades e minimizar seus desafios.

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