Imagem: detalhe de foto de Dawid Malecki

Por continuado aqui quero dizer “Devíamos fazer reciclagem do ensino fundamental para adultos a cada N anos?”

Tenho 50 anos. Quando fiz o ensino fundamental pensávamos que havia várias espécies de Homo Sapiens, uma que se desenvolveu na Europa, outra na África, mais uma nas Américas, outra na Ásia e talvez mais uma na Austrália, agora já não lembro.

Hoje sabemos que há somente uma raça Homo Sapiens surgida na África há 200 mil anos e que se espalhou pelo mundo nos últimos 100 mil anos.

Quem precisa saber disso para fazer uma planilha eletrônica, projetar uma engrenagem para uma máquina ou fazer uma cirurgia?

Ninguém, claro. Desde que sejamos apenas isso: máquinas que executam trabalhos e jamais pessoas que votam em políticos, que alimentam ideias que definirão os rumos da humanidade, não tenham filhos, filhas, sobrinhos, sobrinhas que terão que lidar com estereótipos de gênero, classe, etnia e cultura em oposição à crescente consciência da fluidez de todas essas características (o que é bom).

Pois é. O entendimento fundamental é essencial e a realidade é fluida há… Bem, sempre foi, não é? Nem mesmo a gravidade é uma constante agora que podemos detectar ondas gravitacionais.

Se a questão dos preconceitos que são alimentados pela ignorância das nossas origens e semelhanças não bastassem como argumento temos ainda as decisões que temos que tomar sobre energia, organismos transgênicos, agrotóxicos, aquecimento global, organização política e econômica da civilização.

Uma parte da história da civilização é o caminho do retorno à participação de cada indivíduo nos rumos da tribo, só que agora deliberamos por toda a espécie.

Se não nos mantivermos atualizados sobre o que temos descoberto sobre o Cosmos, a Terra, nossos irmãos (a vida na Terra) e nós mesmos acabamos sendo incapazes de ser cidadãos integrais. Ficamos perplexos de uma forma negativa, aquela perplexidade não só da impotência, mas de fazer parte de um mundo que não faz sentido.

Vemos recorrentemente as pessoas tratarem o conhecimento desenvolvido pela ciência como se fosse anti-natural, estranho, parte de outra realidade quando, é claro, nossa percepção instintiva da realidade é que não se desenvolveu para compreender sociedades com bilhões de indivíduos, sistemas econômicos, ecossistemas globais. Nossos instintos nos dizem, quando muito, se vai chover em alguns dias.

A primeira providência para isso talvez seja levar a todos os métodos de abordagem da realidade usados pela arte, filosofia e ciência já no ensino fundamental, oferecendo ferramentas para usarmos ao longo da vida para desenvolvermos e atualizarmos o nosso entendimento da realidade à nossa volta.

Outra medida é construir uma cultura de aprendizado fundamental permanente.

É difícil levar adultos de volta à escola, mas temos outras ferramentas hoje. Celulares, tablets, computadores e TV podem ser instrumentos importantes.

Mais difícil ainda é construir uma cultura que seja capaz de lidar com a fluidez da realidade. Talvez a necessidade de entender o mundo como algo estável e imutável (há estações, mas elas se repetem em ciclos) seja um impulso natural, mas essa é uma realidade que já não nos é concedida. As estações podem continuar cumprindo seus ciclos, mas todo o mais se impõe a nós como corpos fluidos e mutáveis.

Esse talvez seja o primeiro passo a tomar no sentido de uma estrutura de ensino onde os conhecimentos fundamentais sejam vistos como temporários e mutáveis.

Nada nos impede de oferecer aos adultos chances de ajustar e reaprender o que receberam como certo nos tempos de colégio, mas é nas novas gerações que devemos depositar nossas esperanças de uma civilização mais adaptável, mais fluida.

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