Ana Erthal (uma das pessoas que mais admiro quando se trata de entender a comunicação humana) escreveu um artigo interessante comparando os jogos sociais online a jogos de tiro em primeira pessoa.

Vale a pena passar lá e olhar o comentário que deixei pois creio que não voltarei a abordar algumas coisas aqui que citei lá.

Tenho uma visão um pouco diferente e acho que vale a pena desenvolver aqui.

Lembrei de Ayn Rand que via, como poucos, as relações humanas como um tipo de jogo que deveria ser dominado pela razão e vazio de sentimentos.

Antes acho necessário definir “jogo” e o meio onde ele ocorre..

Existe o jogo da disputa de poder, influência, reputação e atenção. Prefiro chamar isso somente de disputa. Pode ser bem encaixado na teoria dos jogos de Nash (aquele do filme Mente Brilhante)

Nos últimos 20 anos ao falar em jogo, no entanto, pensamos mais em Pac Man e World of Warcraft do que em disputas. Esses jogos se caracterizam principalmente por nos proporcionar um tipo de satisfação interna que vem da superação de obstáculos ou realização de tarefas difíceis. Sugiro a leitura de Reality is Broken da Jane McGonigal.

Provavelmente podemos usar jogo no sentido de disputa para descrever as interações sociais, mas há diversos momentos e grupos onde o jogo social se assemelha mais ao exercício colaborativo do segundo tipo de jogo.

Numa visão mais realista do mundo, infelizmente, muitas interações sociais são mesmo disputas de poder, reputação, atenção, visibilidade. Principalmente online.

Principalmente online?

O que podemos dizer da comparação entre os meios online e offline para interação humana.

Certamente todos temos exemplos próximos de interações offline que se resumem a disputas e são mais virtuais que outras que ocorrem em espaços online.

A propósito também é útil definir melhor o termo virtual na forma como é usado.

Uma interação em um ambiente virtual é chamada de virtual o que pode dar a impressão de que se trata de uma interação irreal. É comum lermos afirmações como “vocês levam a Internet muito a sério”. Provavelmente isso se dá em virtude de uma associação inconsciente a “meio virtual” a interação virtual.

Isso é um erro. Em todas as pontas das interações temos, óbvio, pessoas reais com sentimentos reais.

O que se dá no meio virtual é uma oportunidade de criar máscaras mais distantes das nossas possibilidades físicas (vide o ótimo filme Catfish), mas os mitomaníacos que constroem suas fantasias sabendo que terão que submetê-las à provação offline em geral nos enganam por mais tempo e mais profundamente.

Seja como for os problemas das interações online não são criados nesse meio ou inerentes a ele, são problemas da sociedade e da espécie humana que assumem roupagens ligeiramente diferentes ao mudar de meio.

Os amores líquidos nas boates, no trabalho, na academia de ginástica, no Facebook, na escola podem ter suas origens em uma sociedade obcecada com a privacidade e individualidade, mas se desejamos tratar esses problemas devemos perceber que eles com certeza não são produzidos por mais uma camada de virtualidade no relacionamento humano.

Sim, mais uma camada, pois temos a língua, a cultura, costumes familiares e toda sorte de códigos que criam camadas de virtualidade em nossas interações.

Se não é o meio que determina a nossa disputa social transformado nossas interações em jogos de tiro em primeira pessoa onde estará a origem disso que parece tão indesajado?

É bem possível que a psicologia evolutiva tenha as pistas certas nos estudos da vantagem competitiva da colaboração. Tem um artigo bom na Scientific American desse mês sobre isso.

São identificados cinco dispositivos que tornam a colaboração uma vantagem evolutiva: proteger seus parentes, proteger seus vizinhos criando um ambiente mais seguro para você mesmo, colaboração recíproca (te ajudo e vc me ajuda), colaboração anônima (você ajuda e alguém te ajudará) e colaboração por reputação (vc anda com os mais influentes e se torna mais influente).

Nós humanos somos muito bons nas duas últimas e a colaboração por reputação com certeza é a que mais se favorece do espaço online.

É natural que vejamos um fogo cruzado de disputa para ter o privilégio de estar ao lado do gorila alfa que, muitas vezes, perceberá que estar no caldo das redes sociais online, muito acessível, não é favorável para sua própria reputação.

Parece seguro afirmar que os produtores de conhecimento, os mais aptos a serem pontos focais da atenção memética, devem ter uma presença mais forte em blogs do que em redes sociais onde, além de tudo, nossa normalidade fica claramente exposta ou ameaçada.

 

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