Ok, memesfera e digitosfera são invenções minhas, mas estamos todos divididos entre os deslumbrados e os assustados com o que chamamos de cibercultura e suas esferas que insistem em continuar aparecendo.

A crença geral é que as tecnologias de comunicação estão mudando nossa cultura ao eliminar distâncias e fronteiras e portanto o século XXI seria o século da cibercultura.

Estaríamos diante de uma era imersa na influência da tecnologia, seríamos os primeiros avós de V’Ger (alguém se lembra do planeta das máquinas do primeiro Star Trek do cinema?), os precursores da Geração de Proteus (Demon Seed – 1977)? ou nada disso?

A idéia de twitosfera, cibercultura e outras esferas são uma ilusão do nosso deslumbramento inicial como nos mostra brilhantemente o Carlos Nepomuceno? Provavelmente sim.

Justamente na década de 70 Pierre Levy abria seu Cibercultura afirmando que a tecnologia não muda a humanidade e sim que ela, a humanidade, cria tecnologias para acompanhar sua necessidade de mudança.

E as mudanças são inegáveis, e são em sua maioria para melhor.

Uma das maiores mudanças é o resgate das nossas vozes individuais antes sufocadas pelos cartéis da comunicação, mas essa é apenas uma das mais recentes depois dos sindicatos e dos direitos dos consumidores.

No âmbito social passamos a ter mais liberdade religiosa, política, sexual (uma forma ainda preconceituosa para a liberdade de amar independente de gênero, cor…) e vimos surgir uma sociedade muito mais realista do que as anteriores (Pleasantville – A Vida em Preto e Branco, alguém viu?).

Temos chamado a nova cultura de cibercultura, mas isso é uma injustiça com a luta dos sindicalistas associações de moradores e consumidores que à altura da década de 70 deram início à maioria dos movimentos que nos trouxeram onde estamos hoje, e isso só para citar alguns. Não podemos nos esquecer das sufragistas nos EUA muito antes do movimento feminista tomar corpo ainda no início do século XX.

É curioso notar que não se falava em esferas antes do século XX. Não houve caravelaesfera, telefonesfera ou correiosfera e nem mesmo ICQesfera, chatesfera ou Orkutesfera.

É bem provável que a referência a esferas seja um esforço inconsciente dos conectados para se diferenciar dos menos conectados, uma tentativa de sequestrar os créditos pela transoformação da humanidade. Isso é injusto, impreciso, mas compreensível, o que não significa que o Nepomuceno não esteja certíssimo em apontar seus riscos.

Não há cibercultura, há uma cultura humana em transformação e alguns mais apressados que abraçam todo movimento de mudança apressadamente.

Os ciberculturais de hoje em 50 anos certamente serão o que são os hippies agora: ou estarão integrados a uma sociedade sem esferas tecnológicas ou serão curiosas imagens anacrônicas parecidas com seguidores de algum culto estranho.

Por enquanto pode ser cedo para nos preocuparmos com isso e os ciberculturais tem seu papel (eu mesmo provavelmente sou um deles), mas tudo se move em alta velocidade e pode ser que 5 anos e não 50 bastem para nos transformar em figuras estranhas.

Dessas reflexões todas o que eu tiro de importante é..

O que estamos assistindo não é uma transformação tecnológica das sociedades humanas, o que estamos testemunhando e criando (mesmo quem não usa TV, Internet, celular ou DVD) é uma cultura mais humanista e racional onde o que nos divide e nos afasta é rejeitado e o desejo de criar uma sociedade global mais justa e comunitária é um dos nossos principais objetivos.

Além do mais já está na hora de nos livrarmos da miséria em nosso planeta para nos concentrarmos e garantir a sobrevivência dos nossos genes e memes: a Terra[bb] é um pequeno planeta onde muita coisa pode acontecer para nos exterminar enquanto nos preocupamos com o preço do petróleo ou a exploração da água para fazer refrigerante.

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