Há muito tempo vemos críticas à comunicação superficial na Internet.

  • Blogs: são rascunhos de ideias, usam parágrafos curtos e não passam de uma página
  • Twitter: Mensagens curtas e pueris sobre acontecimentos pessoais irrelevantes
  • Whatsapp e SMS: Recados rápidos individuais ou para pequenos grupos
  • Hubs Sociais(1) (G+, Facebook etc.): Ativismo de sofá, egolatria, notícias falsas

Simplificações como essas sempre me incomodaram, mas não cheguei a comentá-las adequadamente por dificuldade em encontrar uma linha de ligação e diferenciação entre os diversos ambientes.

O artigo Texto curto é arte de preguiçoso? da Sônia Bertocchi finalmente me deu o elo que faltava para começar a abordar essas diferenças.

Sônia nos lembra que diversos autores declararam que escrever um bom texto é cortar palavras. De Hemingway a Leminsk passando por Tchekhov vemos advertências para cortar excesso, mas o que me chamou a atenção foi uma frase de Fabrício Carpinejar:

“Pelo contrário. O preguiçoso cria textos longos e não volta a eles, não edita.”

Tendo em mente isso, nossa experiência e dados estatísticos vamos descrever novamente as formas de expressão em cada tipo de rede.

Hubs Sociais

Essas redes genéricas pretendem ser pontos para reunir todos os nossos contatos e conteúdos que publicamos ou que nos interessam.

Para atingir esse objetivo elas, entre outras coisas, facilitam ao máximo o compartilhamento de conteúdo e evitam limitar o usuário.

Do seu celular ou computador é possível digitar seus textos livremente. Inclusive não existe a “facilidade” de formatar o texto. Veja bem que essa facilidade abriria espaço para a reflexão “uso negrito ou umas letras coloridas aqui?”.

O objetivo dessas redes é estimular o fluxo contínuo de conteúdo.

É claro que, para não afastarem seus frequentadores por causa do fluxo exagerado de informação elas acabam implementando algum tipo de filtro (IA no Facebook e círculos controlados pelo usuário no G+). Esse, no entanto, é tema para outro artigo.

O resultado nessas redes são textos mais soltos, com pouca reflexão e frequentes acidentes sociais quando algum amigo de amigo tem um comportamento infeliz em nossos artigos e isso explica um pouco do que tem levado algumas pessoas a saírem ou reduzirem sua presença no FB por exemplo.

Provavelmente os textos trocados nessas redes estão entre os mais mal cuidados. É claro que isso não quer dizer que não tenha textos muito elaborados lá, como de blogs.

Blogs

À primeira vista eles podem parecer similares ao caso anterior, mas há uma grande diferença: nos FBs e G+ da vida nós temos a sensação ou… melhor dizendo, nós escrevemos tendo em mente que estamos nos dirigindo a conhecidos, a pessoas dentro do nosso círculo de amizades. Aliás esse pode ser outro tópico para um artigo sobre esse tipo de rede.

O importante aqui é que lá estamos à vontade, no blog não.

Ao escrever um artigo como esse que você está lendo nós temos que pensar que pessoas totalmente estranhas chegarão a ele, pessoas que não fazem ideia do objetivo desse blog, do perfil do autor.

A escrita em blog está mais para o artigo jornalístico, para a crônica ou para o artigo científico do que para o diálogo e, mesmo nas excessões, o autor deve se preocupar com o fato de que receberá os chamados “paraquedistas”.

Claro que um texto em blog pode ser horrível, mas provavelmente será melhor que o mesmo texto do mesmo autor em uma rede social.

Também é claro que poucas vezes um blog abriga os resultados finais de artigos científicos, crônicas ou matérias jornalísticas: blogs são espaços pessoais frequentemente usados para rascunhar ideias. Esse post mesmo é assim.

Some-se a isso a necessidade de localizar imagens, formatar o texto, inserir links e fica óbvio que o texto em blog será bem trabalhado.

Mesmo assim não há tanta preocupação em ser sintético. Bem, ok, há a preocupação de escrever parágrafos curtos e dar um bom espaço entre eles além de tentar não escrever artigos muito extensos (esse já se ferrou, coitado) pois o tempo é curto e, se o autor quiser uma chance de pegar a atenção do paraquedista, ele deve ter essas preocupações. Entretanto ele não é obrigado a sintetizar.

Twitter e Whatsapp

Ok, esses dois provavelmente deviam ser tópicos separados, vamos ver como fica no desenvolvimento…

O Twitter tem a limitação de 180 letras por mensagens enquanto o Whatsapp tem a limitação da falta de conforto ao escrever no celular (mesmo com o melhor dos swipes).

Em consequência essas são as redes que mais exigem poder de síntese.

Obviamente a mensagem pode ser apaixonada, espontânea e precipitada como “Quebrou o carro! #comofas?”

Entretanto, mesmo assim houve a síntese de “Gente! Quebrou o carro da escola de samba! As pessoas não conseguem passar rapidamente por ele, vai abrir um buraco no desfile! E agora? Como se resolve isso?”

A síntese pode parecer ruim, mas ela cria textos que devem ser completados pelo leitor. É como a diferença entre ver um filme e ler o livro. No Twitter, mais do que no Whatsapp, a comunicação se dá pela intensa troca de referenciais culturais o que estimula a contrução de códigos como #corrão #oam #wtf #lol.

Não se trata de comunicação pobre, muito pelo contrário.

Quando o diálogo é em torno de assuntos menos triviais esse tipo de rede acaba estimulando um pensamento mais científico ou menos parcial pois é necessário retirar todos os fatos irrelevantes deixando apenas a essência da comunicação (lembrando que não é bem aceito escrever e-pios com continuação. A ideia deve se completar a cada 180 caracteres).

No Whatsapp há uma diferença substancial: Twitter é aberto e Whatsapp é comunicação pessoal entre prequenos grupos de amigos, via de regra, se encontram pessoalmente.

Ainda sobre o Whatsapp é interessante ver esse infográfico sobre mil dias de mensagens entre um casal de namorados.

Conclusão

Essas diferenças nas formas de expressão em cada tipo de rede com certeza tem um papel importante em explicar porque uma não elimina a outra. Trata-se de espaços muito diferentes na sua forma de apropriação pelo autor em virtude da própria natureza do tratamento dos textos e da sua visibilidade.

Um ponto que considero sempre importante destacar é que, por pior que seja a qualidade da comunicação nesses ambientes, com erros crassos de português, esses meios, deve ser óbvio, utilizam a palavra escrita e naturalmente a resgatam do ostracismo que viveram nas décadas finais do século passado. Os interlocutores podem utilizar dialetos escritos estranhos e assustadores, mas usam a língua escrita. E não falo isso no sentido de “pelo menos estão escrevendo” como se tentasse achar uma qualidade nessa comunicação tosca, mas isso também é assunto para outro artigo. 🙂

Outra abordagem

O linguista John McWhorter fala no TED observa as diferenças entre linguagem falada e escrita e apresenta de forma encantadora o desenvolvimento de novos dialetos falados/escritos.

Notas

(1) Usei Social Hub na falta de uma expressão melhor para definir uma rede social que tenha duas características principais: elas são usadas para replicar conteúdo de outras redes mais especializadas (fotos, vídeos, artigos) e para concentrar todos os contatos. Além disso elas não limitam o tamanho dos textos.

Imagem do cabeçalho – Getting Loquacious – Leiam. É um post interessante.

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