Ontem participei de um bate papo com pessoas que trabalham para uma empresa de mídia de massa para falar de coisas que já andei dizendo aqui, mas vale a pena comentar pois as ideias estão sempre se transformando.

Só para contextualizar (pode pular essa parte chata indo direto para o comece aqui)

A estrutura foi simples: dois convidados mais ou menos uma hora para cada um falar um pouco da sua experiência e opiniões sobre a sociedade hiperconectada.

O primeiro a falar foi o autor de uns dos melhores blogs que conheço, uma honra estar ao lado dele e ver como um blog pode ser usado como uma plataforma de construção profissional quando você é qualificado e sabe se dedicar a isso.

O segundo fui eu, que definitivamente não invisto nos meus blogs como deveria e, na verdade, sempre preferi estar nos bastidores.

Comece aqui…

Enquanto me preparava me perguntava o que alguém que estuda a nossa natureza a partir da suposição de que somos o resultado da interação entre a evolução do corpo ditada pelos genes e da consciência ditada pelos memes, esse conceito tão escorregadio.

Cheguei ao papo com três slides no Keynote, 6 milhões de anos de evolução na cabeça e o desafio de colocar isso numa forma que fosse útil.

Por que as pessoas odeiam a mídia de massa?

Foi a primeira coisa que me propus a responder assim que terminei de dizer “Olá, eu sou…”

Se obervamos nossa consciência do ponto de vista evolutivo pode parecer uma boa ideia dizer que ela precisa de uma forma de alcançar a todos, de um lugar onde todos se reúnam para ver nossas ideias.

Usei um lago nas savanas africanas como metáfora…

Lago onde animais buscam águaEsse era um dos três slides 🙂

A mídia de massa tem esse papel unificador, sem ela os vizinhos são estranhos, com ela temos assuntos em comum.

Quando éramos pequenas tribos de poucas centenas de pessoas era muito fácil nos identificarmos, mas há pelo menos 3 séculos cada uma das nossas tribos é composta por dezenas de milhares de pessoas e todos os bilhões (na verdade há 300 anos mal era um bilhão) de pessoas no planeta hoje tem grande impacto uns sobre os outros:

Nós precisamos ser uma tribo, nos perceber como parte de uma tribo. Sem a mídia de massa isso não é possível.

Só que o lago não é uma boa metáfora pois é muito mais do território dos genes que dos memes e mídia vive da produção, replicação e transformação de cultura.

Então usei o segundo slide…

Imagem de um símio liderando outros para uma batalha… E falei nos dos nossos primos, os bonobos.

Se vasculharmos nossa árvore genealógica até uns 6 milhões de anos encontraremos um casal de símios cujos filhos são parentes tanto nossos quanto dos bonobos modernos… E hoje sabemos que nossos comportamentos são surpreendentemente parecidos. Basta assistir Monkeynomics (isso eu não citei ontem.. oops)

Tanto entre os bonobos quanto entre nós uma das grandes vantagens competitivas é estar perto dos líderes do grupo, dos mais populares e é literalmente isso, os mais populares.

Mas então, se as pessoas querem estar com os mais populares, querem beber do lago onde todos os outros bebem por que odeiam o lago e os populares?

“Ora, porque a mídia de massa trabalha para os inimigos” muitos dirão.

Há  uma coisa que muita gente não sabe porque é difícil ter essa visão no meio da enxurrada moderna de dados: quando sai um artigo num jornal, um filme no cinema ou um seriado na TV a mesma matéria ou cena inspira críticas inflamadas de quase todos os grupos concorrentes possíveis.

Explicando melhor: se falam de rodeios de touros reclamam tanto que é contra rodeio quanto que é a favor… Quem é a favor diz que a cena ou artigo é contra, quem é contra diz que a cena ou artigo é a favor.

Isso é mais comum do que a maioria imagina.

Então o que está acontecendo?

A Raposa e as Uvas

Depois de centenas de anos sem voz (a maioria deles, convenhamos, sem condições de sequer sonhar com a possibilidade de ter voz) a gente quer falar e ser ouvido.

Nós queremos ser o lago.

Nós queremos que os líderes repitam nossas palavras.

Mas também queremos obedecer nossas necessidades genéticas: prazer. E criar ideias, cultura atrapalha bastante os prazeres simples (e, admita, maiores) da vida.

Então o que faz nossa mente? Ela se preenche com a ideia (incorreta) que democracia tem a ver com direitos individuais (quando tem a ver com direitos coletivos), cria a Internet, as redes sociais e reclama quando a mídia de massa faz errado sendo que errado é não falar como “EU” gostaria.

Somos raposas que não alcançam as uvas e dizem que estão verdes… Mais ainda, dizemos que estão contaminadas.

E a mídia de massa está contaminada?

Esse é um daqueles momentos cognitivamente difíceis… Nossas emoções transformam nossa razão em cacos. Eu mesmo sou um outsider, um desajustado que acha ridículo 90% do que se vê na mídia de massa e acha que se EU fosse o redator do Planeta a humanidae viveria uma era de ouro… Dificilmente pois eu falaria a quem pensa como eu, a mídia de massa deixaria de ter o seu papel de nos unir através de cultura em comum e haveria o caos.

Isso quer dizer que, se a mídia de massa quer ser de massa (e ela quer para ter mais audiência e assim produzir mais lucros) ela precisa ser capaz de ouvir a mediocracia, de apresentar o que agrade a 60, 70, se possível 90% das pessoas 90% do tempo.

A mídia de massa não pode se dar ao luxo de ser contaminada. Ela tem um mestre maior do que partidarismos políticos ou corporativos que se chama mercado.

Não digo aqui que o mercado é sábio e nos proverá uma mídia de massa positiva. Vixxx!!! Longe disso! Mediocracias são tão burras ou inteligentes quanto a maiora das pessoas.

Mais uma coisa que eu não disse…

… Aliás até pega mal, devia ter dito, mas algum deles vai ler isso agora e replicar por lá…

A mídia de massa precisa se contaminar com uma coisa: com as pessoas de amanhã que precisam ser mais cultas, mais humanas, mais críticas e independentes que as de hoje que, acredite, são mais cultas, humas e críticas que as de ontem, ou você acha que estaríamos com os problemas de hoje de as pessoas de ontem não tivessem se alienado para o que estava acontecendo?

Caso alguém leia esse post (tenho uma audiência ínfima) provavelmente me chamarão de ingênuo, no mínimo.

A questão é que já vimos outras mídias de massa entrarem em colapso por substimar a capacidade das pessoas de se tornarem cada vez mais críticas e livres. O exemplo mais conhecido é a indústria de música, mas cinema, séries e livros seguem o mesmo caminho e houve muitos outros, remember remember the 5th of… Ops, esse é outro, mas a Terra já foi regida por Deuses… E nós os destronamos. Faraós, imperadores e reis…

O momento da mídia é o de perceber qual será a próxima demanda da humanidade. Que possibilidades a sociedade hiperconectada tem e que demandas elas atenderão com isso?

Só não devemos cair no mito da imutabilidade. Tudo muda.

E o terceiro slide?

Tinha escrito o seguinte lá:

  • Trolls?
  • Fanatismo
  • Baixa auto estima
  • Egocentrismo

Na boa? A essa altura faço apenas uma vaga ideia do que eu pretendia falar em cada um desses tópicos 😀

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