Ninguém tem dúvida ao classificar como fenômeno histórico a criação da prensa de Guttemberg, as leis de Hamurabi ou a revolução industrial. No entanto quais são os eventos recentes que vamos estudar nos próximos séculos?

Lendo o artigo do Cristiano Web sobre o livro A Cabeça de Steve Jobs (deve ter no Submarino ou na Cultura) percebi pela primeira vez que os computadores pessoais e a TI já deixaram de ser curiosidades de nerds para se tornarem parte essencial das contibuições da nossa era para o mundo do futuro.

No começo eles eram vistos como um tipo de aspirador de pó: algo que nos ajudaria a fazer as mesmas coisas de sempre, só que mais rápido e com menos esforço.

Passei os últimos 15 anos como consultor em gestão do conhecimento e os últimos dois anos como consultor em presença online tentando desfazer esse equívoco: tudo é diferente quando usamos computadores ou a tecnologia da informação.

Cada uma das duas afirmações acima merecem uma série de posts específicos para ela, aqui vou dizer apenas que a Tecnologia da Informação muda completamente a estrutura do diálogo permitindo conversas de muitos-para-muitos de uma forma possível apenas na telepatia da ficção científica e que gerenciar dados e informações com computadores permite o surgimento de uma economia baseada em serviços.

No dia-a-dia vemos pequenos sinais da invasão da cibercultura: luminárias semelhantes aos primeiros iMacs, cópias do coverflow (recurso do MacOS mais morderno) ou das propagandas da Apple. É impressionante a quantidade de elementos da cultura pop que passaram pelas mãos de Steve Jobs…

No entanto não é somente isso! As mudanças impulsionadas pela cibercultura vão muito além.

Até poucos séculos a economia humana girava em torno de produtos manufaturados e então veio a revolução industrial que encerrou definitivamente o feudalismo e deu início à explosão do capitalismo.

Hoje vivemos no meio de uma nova revolução.

IBM significa International Business Machines e foi a empresa das MACHINES até o fim da década de 70, mas o crescimento da computação pessoal a atingiu de forma profunda e irreversível. Ela estava falindo.

Em 1993 Lou Gerstner assumiu a posição de SEO da IBM e a transformou em BUSINESS centrando todos os negócios e investimentos na venda de serviços. Sem ele a empresa teria falido.

Gerstner foi mais um visionário ao perceber antes da maioria que a nova economia é uma economia de serviços onde hardware (a parte do computador que você chuta) e software (a parte que você xinga) são commodities baratas ou mesmo gratuitas.

Tenho dito que a sociedade do conhecimento ainda não existe, mas praticamente todas as ferramentas necessárias já estão ai. O interesse econômico também existe então trata-se de questão de tempo até que a era da industrialização se junte a da manufatura.

É claro que o produto industrializado não sumirá, mas ele já não é mais o centro da economia ou está muito próximo de deixar de ser.

Tudo isso está acontecendo em primeiro lugar porque nossa cultura mudou. Já não vemos mais o conhecimento, as informações ou as diferenças como víamos antes. Antes da revolução da TI houve uma virada cultural em que passamos a crer que todos os humanos tem direitos iguais e que os conhecimentos (no sentido de tecnologias) essenciais devem estar ao alcance de todos. Essa é a máxima do pensamento hacker e uma das bases da cibercultura.

Para atender a essa mudança cultural possível nós desenvolvemos a computação, a Tecnologia da Informação e movimentos opensource (que tem desdobramentos na medicina, genética e indústria cultural).

Note que falar do momento que estamos vivendo para responder o que temos feito que será marco histórico não é tarefa simples pois tudo muda na transição entre eras e quem não presta atenção nas mudanças simplesmente deixa de existir.

Estamos passando essa semana e na próxima pelo chamado spectrial, ou seja, o processo contra o The Pirate Bay, o maior site de compartilhamento de torrents (usados para compartilhar arquivos entre computadores incluindo seriados e DVDs) do mundo.

É uma luta sem esperança de vitória para os acusadores: eles podem vencer o processo e centenas de outros sites e alternativas serão usados para compartilhar arquivos ou eles podem perder e abrir precedentes para a legalização da troca de arquivos.

O que acontece é que os meios de produção e distribuição ficaram tão baratos que não há como convencer o cidadão comum que ele deve pagar 70% ou mais do que gostaria de dar ao seu artista favorito para uma empresa que não fez nada que ele mesmo não poderia fazer em casa.

Em suma o que estamos vendo é a consolidação da filosofia hacker como parte da cultura padrão.

O nerd se torna a pessoa moderna e o não nerd passa rapidamente a ser visto como um esquisito fora do seu tempo com dificuldades de socialização.

Isso não é muito sério em indivíduos, mas será mortal para as corporações que insistirem em não se integrar aos novos tempos.

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