O texto a seguir foi um comentário de Priscila Pedrosa Prisco no Facebook. Achei que toca em vários pontos importantes que gostaria de comentar, mas lá as coisas acabam se perdendo no excesso de informações e… Bem, o Facebook não tem a meta de ser um tipo de curadoria de conteúdo e sim um vórtex de atenção, não é mesmo? Então copio e comento aqui. O espaço é aberto para comentários ainda que comentar em blogs já não seja um hábito como na década passada.

Um dos principais aborrecimentos que tenho ao tratar do tema da minha pesquisa sobre trabalho de plataforma com sociólogos e (fucking) juristas é a noção que a maioria tem de tratar o ciberespaço em contraste com o real ou, ainda pior, achar que as relações virtuais mediadas são manipuladas por algoritmos.
Essas noções atrapalham muito a discussão acadêmica, porque a hipótese de que as relações virtuais não são reais ou que a manipulação dos algorítmos nos transforma a todos em robôs manipulados já inibe o aprofundamento do tema.
Todas as relações sociais no ciberespaço embora sejam, de alguma forma, determinadas por algoritmos e ainda que sejam digitalmente intermediadas por plataformas (como essa mesmo pela qual você me lê) elas são nada mais que práticas sociais que ganham contorno no ciberespaço.
Essas práticas sociais cotidianas, chamadas por alguns autores de “cultura intensiva” (Lash, 2010), aparecem online em forma de textos, imagens, representações, interações, práticas, são elas que geram dados. Isto pressupõe que o comportamento dos usuários de uma plataforma é um comportamento ativo. Dito de outra forma, é o protagonismo do usuário que produz o seu próprio conteúdo. Resultado é que uma forma intensiva de conhecimento chega em tempo real, incessantemente.
Este fluxo de conhecimento e insights gushes somado a complexidade dos dados precisa ser simplificada para permitir uma rápida utilidade que dê conta da lacuna entre captação e análise de dados. É neste momento que essas fábricas imateriais (plataformas) encerram esta lacuna como uma aceleração das práticas de trabalho suas e de outras organizações, que podem então reagir de forma ágil e instantânea a essas percepções, este é basicamente o imaginário analítico de dados que faz o BigData, como retórica que permite a expansão dos processos conduzidos por dados de avaliação, julgamento e tomada de decisão,

Priscila Pedrosa Prisco no Facebook

Os dois pontos centrais são a percepção de que a realidade online não é real e que os algoritmos das plataformas (como o próprio Facebook além do Google, Spotify, Flipboard…) nos automatizam. Bem, vou deixar os algoritmos um pouco mais para frente.

Costumo dizer que realidade é se embolar com os amigos no chão de terra e correr atrás da gazela para o jantar e o restante é construção virtual materializada como relações familiares e sociais modernas e as próprias construções e cidades onde acontecem.

Claro que cada ambiente em que vivemos estabelece regras (que são algoritmos não digitais, mas vai guardando isso) diferentes.

Online é mais fácil despersonificar o interlocutor, nos sentimos protegidos por um aparente anonimato etc. Isso produz interações e tipos sociais característicos como a versão internauta do Pateta motorista: fora do carro ele é uma pessoa comum, dentro do carro, ou na Internet, é um monstro odiador.

Cena de Goofy freeway troubles (1965)

Note-se que o fenômeno de “haterização” não é exclusivo da Internet e muito menos recente. De certa forma O Homem Invisível, de H.G. Wells, escrito em 1897 já é um registro do que acontece conosco quando temos dificuldade em ver e ser vistos.

Podem ser algoritmos antigos: se estamos interagindo pessoalmente é da nossa tribo ainda que não gostemos da pessoa. Se a interação é à distância trata-se de outra tribo que deve ser tratada no mínimo com cautela.

Mas estou me estendendo em detalhes.

O grande quadro, quando você vive online há mais de 20 anos é que, como qualquer outro ambiente, as regras de relacionamento são boas e são ruins. Tímidos podem socializar mais, pessoas fora dos padrões estéticos impostos podem se relacionar sem sofrer preconceito e a falta de interação direta pode nos levar a desenvolver a empatia.

Seja como for apenas o meio é virtual, assim como um restaurante é apenas um virtual mais sólido. As pessoas naturalmente são reais e as interações, mesmo quando carecem de empatia, são reais.

A insistência em ver a realidade online como uma construção virtual e logo falsa é um grande e persistente erro. Aliás insisto em grafar Internet como nome próprio para deixar claro que a vejo como um lugar, um continente como a África. Enquanto políticos e juristas insistirem e ver a Internet como outra coisa teremos problemas para definir como lidar com ela.

Já vou chegar nos algoritmos…

O protagonismo dos usuários produzem seu próprio conteúdo…

Sim… Sim… Mais ou menos 😉

Ah! Aqui entram os algoritmos!

Podemos considerar que toda relação humana é regida por algoritmos e todos eles são desenvolvidos em função dos humanos e humanas.

No entanto, como o nome desse blog sugere, tendo a crer que o protagonismo nas relações humanas não é da nossa consciência, mas da nossa cultura que nos usa para se perpetuar assim como os genes não estariam programados para a nossa sobrevivência e sim para a própria, o que explicaria por exemplo, o auto-sacrifício que ocorre em vários animais para preservar a tribo.

Pensando assim não somos muito diferentes para os nossos “instintos cognitivos” do que somos para os interesses do vórtex de atenção conhecido como Facebook ou o de dados coletivos como o Google ou a Netflix.

E somos muito bons em nos deixar conduzir por esses algoritmos.

Mlodinow observa em seu De Primatas a Astronautas que a transição do nomadismo para a agricultura não foi para o nosso maior interesse, que passamos a viver menos confortavelmente. Talvez o tenhamos feito porque reunindo-nos em acampamentos, cidades, reinos, civilização criemos um ambiente mais propício para o nosso maior impulso, o de produzir, reproduzir e transformar informação.

Somos, por essa ótica, máquinas meméticas.

Essas máquinas no entanto também são genéticas, de carbono. Isso determina certos impulsos como uma certa obsessão com o que nos assusta já que o que nos deslumbra pode ser visto mais tarde e o que nos assusta pode encerrar nossa capacidade de nos deslumbrarmos junto com as nossas vidas 😉

Entram os algoritmos dessa simbiose estranha humana-máquina-capitalismo-consumo.

Tenho aqui uma ótima análise do algoritmo do maior vórtex de atenção da atualidade (hummm… Talvez já seja a Netflix…), o Facebook:

The Anti Facebook – Siraj Raval

Aliás já fazem seis meses. Devia dar uma reassistida antes de compartilhar, mas creio que lembro os pontos relevantes para esse “breve” comentário 😉

Na verdade concordo com a Priscila e acho importante deixar isso claro logo porque ainda que os algoritmos que regem nossas relações não seja sempre favoráveis aos nossos desejos conscientes eles são feitos em função dos nossos desejos e instintos, então o protagonismo é nosso sim.

A questão é o grau de consciência que temos dos rumos que estamos decidindo tomar. O grau de protagonismo consciente que estamos assumindo. O grau de “foda-se para onde vou, quero só me distrair com esse fluxo ininterrupto de séries ou essa TL infinita”.

Ah! Sabia que tinha algo a comentar antes dos algoritmos: a TL infinita.

Sem uma IA capaz de aprender o que desejamos ver seria impossível administrar o fluxo de informação que vem não só dos nossos contatos, mas também de outras fontes como a Netflix ou o Flipboard (por isso os citei).

Claro que vária coisas chamam a nossa atenção e as classes de coisas que nos atraem mudam de acordo com o que estamos recebendo.

Uma amiga fez um experimento social com a mãe que tinha desenvolvido um perfil a caminho da extrema direita: ela a desinscreveu de todas as páginas do FB com viés de direita ou anti-esquerda e a inscreveu em páginas com viés de esquerda moderado. Em pouco tempo ela estava falando em feminismo, empoderamento e diversidade e os amigos em sua TL correspondiam ao novo viés.

Então o protagonismo é nosso, mas a decisão não é autônoma… Esse é um cuidado a tomar.

Assuma o controle do seu protagonismo.

Share This

Compartilhe!

Mande para suas redes sociais