E daí?

A primeira coisa a fazer quando se trata de privacidade é responder a pergunta “Por que eu deveria me preocupar? Não tenho nada a esconder!”

O excesso de informação que recebemos o tempo todo acaba concentrando nossa atenção em nós e dificultando nossa percepção de coletividade.

Assim como nós não deveríamos querer a vacina contra o Sars-Cov-2 para poder ir ao bar e sim para que a comunidade atinja uma imunidade de conjunto que salve a vida de quem é mais vulnerável (incluindo pessoas importantes para nós) e alivie a pressão no sistema de saúde para ter lugar para nós caso a gente sofra um acidente ou pegue uma outra doença qualquer, nossa privacidade também é importante para aliviar a pressão do terrorismo informacional que sofremos.

Mas podemos trazer para o espaço individual também.

Sabe quando você se assusta porque nem chegou a falar num produto, só pensou nele, e começa a ver propagandas dele ou mesmo uma pessoa que mantém contato contigo fala nele? É isso que a integração entre WhatsApp, Facebook, Instagram etc faz.

O Facebook concentra os dados para traçar nossos perfis de consumo e até para influenciar nossos desejos e atenções (veja o primeiro vídeo indicado lá embaixo).

Voltando ao âmbito coletivo: empresas que pagam ao Facebook para fazer propagandas podem não ter acesso aos seus detalhes, mas tem todas as ferramentas necessárias para transformar sua tia, seu tio e gente à sua volta em pessoas assustadas e vulneráveis a teorias da conspiração, promessas mágicas, produtos inúteis…

Se o mundo individualista e cheio de morais e visões de mundo delirantes te preocupa você devia se preocupar com a quantidade de dados que o Facebook (e o Google também, mas esse post não é dele) recolhem de você e das pessoas ao redor.

Lembre-se que você muito provavelmente entrega muito mais da sua vida pelo seu programa de mensagens instantâneas do que pelo Facebook ou qualquer outra rede. Nos sentimos em segurança e relaxamos nos nossos filtros.

Entenda o problema

Vou ser muito sincero: provavelmente não consigo ver todos os problemas possíveis desse compartilhamento da mesma forma que a gente muitas vezes não se liga se nos param na rua para uma pesquisa de opinião e perguntam o nome do nosso animal de estimação (técnica é muito usada há primórdios para recolher informações para invadir suas contas online e cometer crimes).

A propósito… Desde 2016 o Facebook já recolhe a maioria desses dados. Ano passado ele deu às pessoas a opção de compartilhá-los ou não. Depois disso todos que instalaram o aplicativo concordaram sem saber em entregar seus dados. Além disso se você trocar de número e vacilar na migração pode acabar criando uma nova conta e… buuum: ele tem direito a recolher seus dados.

São três problemas que já pincelei acima, mas vamos resumir para ficar bem claro:

  • O Facebook consolida a caixa de ferramentas desenvolvida para absorver nosso tempo e, do jeito que ele é programado hoje, isso é feito deixando-nos em constante estado de atenção, seja pela revolta, seja pelo medo e, de vez em quando, com gatinhos fofinhos. Sobre isso recomendo o post O ciberespaço em contraste ao real e relações mediadas por algoritmos;
  • Empresas que pagam para o Facebook por acesso as dados demográficos e de comportamento podem usar essas informações das maneiras mais imprevisíveis para modelar mercados e até comportamentos em massa (vide Privacidade Hackeada na Netflix);
  • Sempre há o risco de vazamento de informação quando uma única empresa tem tantas coisas sobre você. Não se trata do que você tem a esconder (e quase todas as pessoas tem, né?), mas em que tipo de golpe podem te envolver.

Dê uma olhada no que Facebook pegará do WhatsApp (a maioria ele já pega):

  • Seu nome
  • Sua foto
  • Seu IP (identifica onde você está fisicamente e que serviço de conexão está usando)
  • Em que sites você foi partindo do WhatsApp (links recebidos e clicados)
  • Informações da conexão (incluindo seu número de telefone)
  • Números dos seus contatos
  • Operações financeiras feitas pelo aplicativo
  • Identificadores incluindo os específicos para produtos do FB associados ao mesmo dispositivo e conta
  • Nível da bateria
  • Potência do sinal
  • Versão do WhatsApp
  • Rede móvel
  • Operador móvel / ISP (Internet Service Provider)
  • Idioma e fuso horário
  • Informações sobre a operação do dispositivo

O que o Facebook diz que fará com esses dados?

Viabilizar operações comerciais dentro do WhatsApp e integrar a experiência de uso dos seus aplicativos como Messenger, Instagram e o próprio Facebook, mas inclui, claro, propagandas e páginas comerciais. Ah! Tem uma cláusula meio obscura sobre “troca de dados entre o Facebook e o WhatsApp em relação às mensagens com empresas“, seja lá o que isso significa exatamente.

Pode ser verdade. O problema é o que mais pode ser feito com isso como procurei mostrar mais acima.

Mas o WhatsApp tem foco em privacidade, né?

Suas trocas de mensagem continuam sendo privadas, mas já não sei se podemos garantir que isso não mudará.

O WhatsApp foi criado por volta de 2009 com esse objetivo: ser uma plataforma para a troca segura de mensagens entre pessoas.

Em 2014 ele foi comprado pelo Facebook e logo depois um dos criadores lançou o Signal, que tem todos os recursos do WhatsApp e mais alguns sem violar o princípio básico e seguindo um modelo de negócios que valoriza essa posição. Sobre isso dê uma olhada no post sobre Como o Signal ganha dinheiro.

Já em 2016 o Facebook promoveu mudanças nas políticas de privacidade.

Em 2020 o Facebook avisou que passaria a recolher dados do WhatsApp e pediu autorização para fazer isso.

Ainda em 2020 foi excluída da política de privacidade a frase “O respeito pela sua privacidade está em nosso DNA. Desde que iniciamos o WhatsApp nós pretendíamos construir um serviço com um forte conjunto de princípios de privacidade em mente.” (tradução minha)

O princípio de privacidade do WhatsApp está em cheque.

Fontes

Vídeos

Para quem não vê qual é o problema (e para seus parentes idosos do ZapZap):

ADEUS WHATSAPP? ENTENDA OS NOVOS TERMOS DE PRIVACIDADE DO WHATSAPP | BAIXE O TELEGRAM | USE SIGNAL

BBC:

Entenda o que muda nas regras do WhatsApp e por que isso é controverso

Cold Fusion:

WhatsApp Forces Users to Share Data with Facebook

Nerdologia:

Photo by Glen Carrie on Unsplash

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