Não evita, mas primeiro vamos resumir os últimos acontecimentos e características dos aplicativos que eles estariam “invadindo”.

Veja bem, estamos vendo um grande bafafá porque os radicais que são organizados para cometer atos de violência e atentados contra a democracia ou direitos humanos estão migrando para o Telegram e para o Signal.

O The Verge conta que Telegram says it ‘shut down hundreds of public calls for violence’ in US last week. O The Washington Post alerta que Far-right groups move online conversations from social media to chat apps — and out of view of law enforcement.

Antes de mais nada é necessário avaliar se a onda de migração para o Telegram e o Signal é resultado de fascistas, digo, pessoas paranoicas, digo gente manipulada por terroristas, digo, radicais que promovem fakenews, mensagens de ódio e manifestações violentas contra a democracia e grupos discriminados saindo de redes como o Facebook e o Instagram.

A grande migração, que inclusive derrubou e deixou instável o Signal por quase 24h começou logo em seguida à mensagem do WhatsApp de que quem quisesse continuar na plataforma seria obrigado a aceitar que seus dados fossem compartilhados com o Facebook.

Não foi antes, nem aumentou depois.

É bem provável, e compatível com o perfil dos modernos grupos radicais, que eles tenham criado mais essa fakenews: Somos nós que estamos invadindo os aplicativos de mensagens, nós somos legião.

Ainda assim, de fato o Signal e, principalmente o Telegram, são plataformas mais úteis para radicais com más intenções, afinal o WhatsApp acaba de avisar que registrará com quem cada um de nós troca mensagens e até quem temos em nossas agendas de endereços e nem usam WhatsApp ou Facebook.

No Signal eles tem quase o máximo possível de privacidade, grupos de até mil pessoas (contra 256 no WhatsApp).

No Telegram eles podem ter canais públicos com um número ilimitado de participantes, podem trocar arquivos de até 2GB, tem grupos privados de até 200 mil participantes e chats privados com o mesmo grau de segurança do Signal.

É irônico que o Telegram supostamente seja o preferido já que os grupos privados definitivamente não são tão seguros quanto os do Signal ou mesmo do WhatsApp pois não usam o tipo de criptografia que torna impossível para o próprio Telegram ler as mensagens trocadas. Só os chats entre duas pessoas tem esse grau de segurança.

Mas, enfim, os atuais grupos radicais de direita se caracterizam por paranoia e falta de coerência.

Seria mais lógico irem para o Wickr ou semelhante, mas vamos ao ponto:

É possível evitar que grupos radicais se comuniquem privativamente?

Nós gostaríamos que as pessoas não se encontrassem com outras durante a pandemia e vimos que isso só acontece de fato em países com governos totalitários ou com uma forte cultura comunitária (ou ambos).

Existem coisas boas que não são praticáveis.

Não podemos ter direito à privacidade e ao mesmo tempo a capacidade de impedir a privacidade: grupos continuarão a se reunir online e encontrarão o veículo adequado. Na verdade temos dois tipos de grupos.

  • Células de ódio: são pequenos grupos recrutados em outras redes online ou não e que se coordenam usando qualquer aplicativo de mensagem das centenas existentes;
  • Recrutamento: consiste em espalhar mensagens para o máximo possível de pessoas usando as redes mais populares como Facebook e WhatsApp. A maioria das pessoas recrutadas dessa forma é apenas mantida em estado permanente de medo e alerta para ficarem vulneráveis a fakenews e servirem de massa de manobra para criar a ilusão de legião. São os “robôs minions” que levantam Trending Topics no Twitter e que comparecem a manifestações de rua.

O primeiro caso só pode ser alcançado por trabalho de inteligência e investigação. Se uma plataforma de mensagens deixar de ser segura eles irão para outra.

O segundo caso é menos volátil e me atrevo a supor que, por mais que aconteça uma adoção do Telegram (mais provável que o Signal) eles permanecerão no WhatsApp, afinal todos já estão lá, radicais tendem a ser conservadores, a forma de manipulação dessas massas é justamente pela insegurança e o medo o que os torna resistentes a mudanças de plataforma etc.

Seria ótimo que eles se movessem para grupos privados de 200 mil integrantes ou canais com milhões de inscritos pois isso facilitaria muito a infiltração de investigadores jornalistas ou das polícias, mas provavelmente farão uma marola fora do WhatsApp e voltarão para lá, onde se espalham talvez por milhares de pequenos grupos privados e sempre fora do alcance externo porque a criptografia do WhatsApp não permite nem que o próprio Facebook veja os conteúdos das mensagens.

Então… O que fazer?

O que acontece nas redes privadas só é útil se vaza imediatamente para fora delas.

Não estamos diante das seitas antigas que se coordenavam dentro de templos religiosos planejando isoladamente seus atos de violência e ocasionalmente se oferecendo para servir esse ou aquele interesse político. Estamos diante de uma estratégia que recruta seguidores sem ter que separá-los da sociedade em um espaço físico, eles são confinados em espaços de desinformação e medo e, para isso, eles tem que estar nas mesmas redes de comunicação.

A rota de desinformação WhatsApp, Twitter, Facebook já está bem estabelecida e é natural. Acrescentar Signal e Telegram não será trivial e, suspeito, se mostrará inviável na escala necessária para manter o cativeiro informacional.

No caso do Telegram, Facebook, TikTok e outras redes com conteúdo público deve haver sim pressão e políticas de banimento de comunicações públicas de incitação ao ódio, à violência e de atentados contra a democracia e direitos humanos, mas não é aí que a estratégia de controle se mantém, é nos grupos privados onde as pessoas são influenciadas para replicar a mensagem dos que sequestram suas vozes.

É essencial o trabalho de jornalismo investigativo e inteligência policial.

As redes de comunicação são financiadas por grupos que ficam bem claros pelo teor das campanhas de mentiras, difamação, desinformação e terror que são propagadas. Esse é o caminho para localizá-los, para buscar informantes que foram afastados dos grupos.

Se alguém rouba um bilhão de Euros e não muda seus hábitos de consumo pode conseguir escapar, mas a natureza dos crimes de ódio e manipulação política exigem que a “moeda” do “roubo” seja usada, ou seja, que as pessoas expostas às redes de desinformação e medo ajam contra os seus adversários políticos.

Então deixa rolar?

Não!! Lê de novo!

Onde a comunicação é aberta (canais no Telegram, grupos públicos no Facebook, perfis no Twitter, sites pseudo jornalísticos) é lícito e até vital que tenha fiscalização, denúncias e até ações policiais (caso de sites pseudo jornalísticos) para tipificar os crimes e romper aquele elo usado para multiplicar e amplificar a percepção de poder dos grupos recrutados.

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