As teorias da conspiração sempre existiram, mas as versões modernas tem uma precursora, que foi como um aviso, uma perturbação que antecedia o terremoto: o terraplanismo.

O vídeo ao final traça muito bem os fatores que tornaram um pequeno grupo de pessoas suscetível a ela e depois se estenderam a grupos cada vez maiores atraídos pelo fenômeno moderno da mega teoria da conspiração que absorve todas as outras.

Em outra oportunidade vou tentar traçar uma rota que passa inevitavelmente pela série de vídeos iniciada pelo “documentário” Zeitgeist, certamente ainda disponível no YouTube, mas a questão aqui é outra: entender o apelo das teorias da conspiração para sabermos como ajudar as pessoas a se libertarem delas.

Talvez você se divirta com teorias da conspiração como me divirto com filmes de zumbi ou de fantasia (e com teorias da conspiração também). Isso é divertido, mas só enquanto sabemos que são fantasias.

O vídeo no final do post está lá porque foi a primeira fonte que achei abordando realmente o que torna as pessoas vulneráveis e esses delírios (não é burrice ou ignorância) me permitindo ir diretamente aos pontos de destaque sem ter que demonstrar cada um deles. Você pode ler o post sem ver o vídeo e assistir para ver mais argumentos e algumas referências.

Porque as teorias da conspiração resistem aos fatos?

Simplesmente porque elas não são ideias, elas são crenças como você provavelmente já sabe, no entanto por que surgiu o terraplanismo para confirmar a fé cristã? Como um delírio tão recente se tornou uma crença tão resiliente e porta para “drogas mais pesadas”?

Quanto maior a insegurança, maior o delírio

Por anos tenho falado que estamos diante da maior transição de paradigma, talvez, dos nossos 300 mil anos de história, mas não vi que isso implicaria também na proliferação das teorias da conspiração e convergência delas para um tipo de nave mãe das conspirações

Elas surgem para simplificar a complexidade que nos causa ansiedade e fazem isso criando uma personalidade ou força que rege toda a complexidade. É a mesma origem das crenças, até certo ponto.

O que acontece quando o celular em nossas mãos é incompreensível para nós? A diversidade de gênero nos confunde sobre a nossa própria expressão e orientação de gênero? Os estereótipos deixam de servir e o homem grande e musculoso é um artista sensível e a loirinha frágil é uma guerreira? O conhecimento científico começa a parecer mágica? A diversidade cultural (e religiosa) se impõe a nós pelas teias da Internet? Os papéis das raças, dos gêneros, das classes sociais e das culturas começam a colidir e encontramos negros cientistas, pessoas pobres viajando de avião e tendo acesso à mesma cultura das ricas? Todas essas coisas ao mesmo tempo. O que acontece quando todo o solo onde pisamos parece movediço?

Não se trata de perversidade do privilegiado, trata-se da desestabilização de praticamente todas as bases culturais de fatias da sociedade. Trata-se também da insegurança de fatias da sociedade que conquistam privilégios e sofrem a ansiedade de perdê-los ou mesmo de lidar com eles. – Sei que o que chamamos de privilégios são coisas que todos devíamos ter e os privilegiados são apenas menos desprivilegiados como me ensinou uma amiga, mas esse é assunto para outro post.

Ansiedade é a palavra chave junto com uma perplexidade assustada. Medo, angústia, raiva e rejeição da realidade, desejo de voltar “ao normal”, ao mundo em tons de cinza dos anos 50. É uma fuga psicológica natural.

Cheguei a escrever em 2019:

Pois somente pelo alívio do medo do novo e da aceitação do estado de transformação permanente se abrirá espaço para que as pessoas votem em causas progressistas.

As mil cabeças da hidra que derruba a esquerda

Do Terraplanismo ao Q-Anon

Quando o terraplanismo começou a ganhar adeptos a maioria de nós ria e alguns tentavam mostrar evidências de aquelas ideias eram absurdas, mas isso acabou dando tração ao fenômeno graças ao chamado efeito backfire: quanto mais tentava-se mostrar o erro, mais os mais vulneráveis se convenciam que estavam tentando enganá-los, destruir sua fé, afinal aquele era o melhor argumento que encontraram para se convencer que o mundo tinha uma natureza mágica e então é um mundo simples com uma divindade criadora pronta a proteger fiéis do mundo hostil.

No entanto a existência de Deus não era a única coisa em risco.

A realidade nos convocava a entender a geopolítica, as ciências climáticas, a diversidade cultural (e de gênero), a realidade fluida… Aquilo tudo que já tentei listar mais acima.

Era inevitável que diversas teorias da conspiração começassem a surgir para reduzir a complexidade a “eles”: tem uma pandemia nos obrigando a ficar em casa por causa de um vírus que não consigo entender? Foram “eles”! Estou sem emprego? Foram “eles”.

Cada teoria da conspiração somava um “eles” a um grande “super eles” até chegar (passando pelo Zeitgeist que já tinha plantado essa semente) ao Q-Anon, o Keiser Söze por trás de todas as conspiração da humanidade desde sempre.

Vale lembrar que também é uma teoria da conspiração crer que essa super teoria da conspiração foi criada por “eles”, ou seja, os 1% mais ricos, os capitalistas ou o que seja.

Tentei descrever rapidamente uma sequência que pode ter feito essas teorias da conspiração surgirem naturalmente com um pequeno empurrão aqui ou ali de alguém que se aproveitou da onda ao perceber que se enquadrava no perfil que os seguidores delas procuravam, ou até se ajustaram a esse perfil propositalmente. Em qualquer outro momento da história essas pessoas não passariam de piadas ou seriam até presas em vez de eleitas a altos cargos públicos.

A cura

É inútil tentarmos curar a humanidade. Como se vê é a insegurança e ansiedade diante das intensas transformações que estamos vivendo que criam o ambiente perfeito para o surgimento, propagação e combinação de teorias da conspiração capazes de ameaçar a realidade.

Quem segue essas teorias está se esforçando conscientemente para negar a realidade. O mundo real é seu inimigo, ele está corrompido porque não corresponde às suas expectativas causando ansiedade e insegurança.

Assim como o delírio aconteceu espontaneamente em resposta à perplexidade diante da transição de paradigmas, a cura também será espontânea e está em curso. Podemos ajudar nos aproximando dela, nos alimentando dela, alimentando-a.

A vacina está no crescimento da visão fluida da vida que podemos ver nas pessoas de gênero fluido ou não binário com mais facilidade, mas que também está na quebra de estereótipos, na convergência das causas dos grupos que são alvo de preconceito e estereotipação.

É verdade que, nesse momento, esses grupos estão pulverizados e é comum ver conflitos internos porque a insegurança diante das mudanças de paradigma não são exclusivas de quem tem um viés reacionário e vemos progressistas com receio também se agarrando a suas causas como se fossem problemas exclusivos deles e entrando em atrito com quem tem a mesma causa, mas com alguma diferença sutil. Mesmo que as diferenças sejam grandes é nas semelhanças que devíamos nos encontrar.

A cura está no desenvolvimento da empatia, de encontrar o seu lugar de fala nos problemas que outros estão enfrentando. E todos temos lugar de fala em todos os problemas! Uma pessoa que cresceu com um determinado preconceito sabe como se aproximar de outra semelhante e deve aprender, por empatia, a entender o que passa uma pessoa que é vítima daquele preconceito.

A cura está em aprender que nossas diferenças enriquecem nossa cultura e podem ser ferramentas de transformação e amadurecimento.

A cura está em perceber que a paz não é a ausência de conflito e sim que o conflito é a ausência de paz e devemos buscar a paz em nós começando por olhar para a transformação natural de tudo como justamente o que é: transformação natural. Por mais veloz que seja!

A cura está em, quando tentar deter uma transformação que parece rápida demais, como a redescoberta da sua própria sexualidade, fé ou percepção da realidade, fazê-lo não tentando impedir que aconteça, mas que aconteça no seu ritmo.

A cura está em entender que o ritmo de transformação do mundo e de outras pessoas não são seus para controlar e sim delas e do mundo.

Esse post não tem qualquer papel relevante nessa cura, ele está aqui na esperança de ajudar você que está lendo a encontrar um pouco de paz e tranquilidade diante dos desafios de uma civilização que é como um casulo prestes a eclodir se tornando algo totalmente diferente, mas certamente com beleza à própria maneira.

Photo by Gabriela Tamara Cycman on Unsplash

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