Rascunho mega-tosco, não leia ainda, é basicamente uma listagem de tópicos.

A todo momento esbarro em uma opinião, um estudo ou um artigo buscando as razões do fracasso da esquerda em 2018: deixou de falar com as bases, pautas identitárias sequestradas (ótimo artigo no Intercept – também no clipping), o PT alimentou o ódio à esquerda, a Globo golpista e muitos outros.

Linkei somente o artigo do Intercept porque o sequestro das causas identitárias é pouco discutido e considero que é um bom ponto de partida para finalmente falar do corpo do dragão de mil cabeças (eu sei que Yamata no Orochi, que ilustra o post, “só” tinha oito).

Sim, porque felizmente todos os monstros que assolam o mundo hoje tem um só corpo.

NÃO PARE DE LER AGORA! Hahahahahaha!

Esse corpo não é nenhuma teoria da conspiração divertida, mas irreal, sobre um grupo de pessoas que controlam o mundo.

O corpo do dragão é um fenômeno civilizatório coletivo composto, sim, por famílias, pessoas e instituições que tem poder, mas também pelo resultado coletivo dos milhares de caminhos que nossa vozes seguem, do fanático religioso até o ateu fanático passando pela moça simpática que vendia canetas na rua outro dia quando eu passava apressado.

Rascunho:

Desde 2011 já havia quem mostrasse que os movimentos de empoderamento da sociedade civil (Occupy, indignados) “fortaleciam” a direita, mas por que isso? Ora, por que tudo está mudando ao mesmo tempo e quem não está assustado, mesmo que tenha viés progressistas, é porque não está prestando atenção, então é fácil uma pessoa razoável pensar “pera, aí já foi demais” e até ficar suscetível a acreditar em alertas falsos de destruição da estrutura social.

Então vemos agora setores da esquerda assumindo um discurso conservador, talvez pelo mesmo motivo que o PT agiu como agiu: achar que esse é o preço para se elegerem. Estão errados.

Mas se o caminho progressista assusta até quem é progressista levando essas pessoas a votar em discursos conservadores o que resta ao progressismo? As causas identitárias devem ser abandonadas? Claro que não.

Um caminho é investir persistentemente na representatividade, na naturalização da diversidade e, mais ainda, da visão fluida da natureza humana (citar momentos interessantes como a falta de possessividade do amor em Carnival Row). Pois somente pelo alívio do medo do novo e do estado de transformação permanente se abrirá espaço para que as pessoas votem em causas progressistas.

Mas isso demora. Décadas. Pelo menos já está em curso há mais de 10 anos mais intensamente.

O que fazer enquanto a sociedade não absorve a natureza anti-estereotípica e fluida da humanidade?

Ah! Isso quer dizer que o dragão morrerá? Claro que não! Outros corpos surgirão com outras cabeças, minha aposta é no monstro da outra humanidade: a inteligência artificial.

Então, o que fazer já?

Bom… O meu forte é ver 15 anos ou mais à frente, mas vou tentar uma ideia enquanto não consulto minha amiga que vê o futuro até uns 10 anos.

O post que escrevi no dia seguinte dá uma visão minha do que podemos fazer agora: Apesar de você, existe cura para o Brasil? (como se organizar).

A amiga respondeu lembrando de Galeano que diz que “A história não diz adeus, e sim até logo” em ciclos que se repetem em um ritmo cada vez mais acelerado tanto de destruição quanto de evolução. Rápido demais para a gente “entender, aplicar, evitar, aprender”.

Essa velocidade é inclusive um desafio para a formação da nossa identidade que acaba difusa no meio dessa velocidade.

Gostei da comparação que ela faz com o tubarão que, confundido pela turbulência, não sabe se está mordendo o pé do surfista ou um peixe (não sei se acontece de fato, mas sei que tubarões são boas pessoas e normalmente não mordem gente). O cafajeste aproveita essa confusão para manipular e confundir. É uma bela explicação para a ascensão dos políticos que sofrem de narcisismo patológico.

Então ela lembra que as comparações com o período pré-nazismo falham no ponto da dimensão da crise econômica na Alemanha da época e da atual, mas que é o bastante para gerar a insegurança que cria espaço para viradas radicais como a do Brasil, de 8 a 80 (realmente uma das mais intensas no mundo nos últimos anos).

Nessas bases ela vê no porvir medidas hell on high water, ou seja, medidas a todo custo, ou talvez “a sociedade se mobilizará como der”.

O artigo The Neo-Nazi Murder Haunting Germany (guardei também no clipping) serve tanto de exemplo para a “mobilização do jeito que der” quanto para o radicalismo que se coloca contra.

As reflexões dela se dirigiram então para Sêneca no século I DC:

“Your anger is a kind of madness, because you set a high price on worthless things.”

Sêneca – Lithub

E esse vídeo nos lembrando que há outros modelos além do atual e que podemos (estamos criando eu diria) criar outros no futuro próximo. Aliás o vídeo sugere até uma estratégia:

Todd May: Foucault and the care of the self

Resumindo (e interpretando)

Esse material todo é importante para que você possa formar sua própria visão e enfraquecer suas convicções (é, estamos precisando enfraquecer convicções e nos questionar mais do que questionamos os outros) e desenvolver sua própria transformação.

Me chamou especialmente a atenção a frase do Sêneca que entendo como “não gaste energia com a destruição do que te causa raiva, mas com a construção do que te mostra horizontes”.

No entanto é claro que estou sendo influenciado pela minha própria visão, que já escrevi no post pouco acima.

Enfim, espero manter aqui um espaço em transformação que ofereça reflexões e inspirações para a ação.

Imagem: Yamata no Orochi via Caçadores de Lendas.

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