A resposta rápida é… sim.

No entanto eu não diria precipitadamente que ela é o único ou mesmo o maior risco à sua mente. Tenho que contar que todo mundo quer entrar dentro da sua cabeça e estão se virando para fazer isso.

“Ah! Dane-se! Não tenho nada a esconder”, “Eu não sou ninguém! O que a China, os EUA, a Grande Conspiração Global vão querer de mim?” ou “Cara! Isso tudo é muito complicado e me causa ansiedade! Deixa eu ver minhas dancinhas, dicas de história, receitas e mobilizações socais em paz!”

São coisas que sempre ouço quando vou falar de privacidade, anonimato e na importância de sabermos o que está acontecendo. E tenho bastante experiência nisso! Só nesse blog abordo o assunto pelo menos desde 2009 e tenho outro blog com quase 20 anos onde certamente já falei nisso.

Não precisa ser complicado! Não precisa causar ansiedade!

Mas a gente precisa saber o que está acontecendo. Justamente para não se complicar e para sofrer menos ansiedade.

A mídia logo faz questão de nos apavorar, mas isso é porque ela já viu que dá muito trabalho entrar na nossa cabeça e que tem um caminho muito mais fácil para reter nossa atenção (atenção hoje é dinheiro) que é com o que nos causa medo ou indignação.

Os especialistas também acabam nos assustando porque eles mesmos estão assustados, juro que, geralmente, não é por mal!

É o caso do artigo que o pessoal do ProtonMail escreveu: TikTok and the privacy perils of China’s first international social media platform – Why TIkTok´s ties to China poses asignificant privacy and security risc que me inspirou a escrever este post aqui. A Forbes já fez um artigo baseado nesse do ProtonMail: Is TikTok spying you for China?.

O mais importante é: Não entre em pânico 🙂

Aliás, nem mesmo se deixe tomar pela ansiedade.

A ansiedade quebra o nosso espírito e acabamos fugindo da realidade para não sofrer mais o que, fatalmente, nos leva a sofrer mais. É um ciclo fechado mais angustiante que o de Dark. Você não quer ser Jonas, Ulrich etc.

E na verdade não é preciso se assustar, só é preciso entender.

O que podem espionar de você?

A menos que você seja um Jeff Bezos da vida não estão pessoalmente interessados na sua vida e sim no seu perfil para fazer basicamente duas coisas:

  • Definir que tipo de propaganda te mostrar;
  • Assustar ou revoltar você e outras pessoas com o mesmo perfil para votarem num político ou viés que não está nem um pouco preocupado com você, com o que te assusta ou te revolta… Na verdade em geral eles são justamente o que te ameaça e os que fazem o que te revolta…

Como se defender?

Essa é a melhor parte porque é muito fácil: mais do que não entrar em pânico, procure manter a calma e buscar informação em fontes que não tentem te revoltar ou te indignar pois – e essa é uma revelação polêmica – quem tem o mesmo viés que você também pode estar querendo te influenciar para chegar a conclusões que não são as melhores para você, que respondem melhor às suas necessidades.

Aqui vale um colchete.

[Essa onda toda de pós-verdade e terrorismo informacional causando colapsos cognitivos em geral não é por mal. Talvez 5% tenham mesmo planos perversos que executam conscientemente (são bem fáceis de identificar). A maioria está muito assustada, com razão, com as rápidas mudanças da civilização e acham que sabem o que deve ser feito para salvar a humanidade e recorrem a todo recurso argumentativo que conseguem ver. Assim como a mída, acabam recorrendo a manipulação das emoções, medo, ódio etc. Antes de fechar os colchetes: quem quer salvar a humanidade está errado. Ela acabou. Estamos na Kali Yuga. Uma nova humanidade nascerá mais à frente.]

Se a forma como a informação está chegando até você te causa emoção, seja ansiedade, medo, empolgação, raiva, principalmente empolgação pois o viés de confirmação provavelmente é o nosso maior desafio; pare. Avalie se essa emoção está na forma da transmissão, se ela está criando esse tom entre os dados que passa ou mesmo se o tema te emociona de qualquer forma.

No primeiro caso busque uma fonte que não use o artifício do apelo à emoção. No segundo traga outras pessoas para analisar contigo pois quando temos que nos comunicar com outros aliviamos naturalmente a carga emocional e aumentamos a análise racional. Além disso ideias crescem melhor em grupo.

Pode parecer que estou dizendo algo com “Você que lute! Os governos e instituições não vão ajudar você ou qualquer outra pessoa a lidar com o terrorismo digital”.

Não é isso que estou dizendo e sim que tem muito que a gente pode fazer para se proteger enquanto a democracia e seus dispositivos não conseguem acompanhar o ritmo das mudanças.

Temos esse segunda aventura a viver: participar do desenvolvimento de uma estrutura política, jurídica e jornalística capaz de defender a humanidade dos medos e das articulações que acabam nos tornando prisioneiras de um tipo de matrix que nos utiliza como alimento recondicionado. No jornalismo você pode alimentar a independência dele ecoando seu conteúdo e, mais importante, sendo patrono (os valores costumam começar em meros 5 reais/mês)

Também não é muito difícil e pode seguir junto com a primeira aventura para desenvolver a capacidade de análise tranquila do mundo que vai se transformando ao nosso redor.

Outro colchete! Bem curtinho! [Não precisa ver para onde a humanidade vai, pode deixar essa loucura para loucos como eu! Basta focar no que é importante agora, como os direitos LGBTQI+, feminismo e a dissolução do racismo]

Temos que escolher nossos políticos por suas posições ideológicas sendo que “filho meio viadinho tem que apanhar” não é ideologia, é princípio e dos mais doentios!

Se apenas políticos de um mesmo viés e ideologia te atraem aplique o que falei mais acima sobre viés de confirmação! Chame outras pessoas para conversar! Uma visão mais ampla do mundo te levará a ver razão em todos os “polos” que não são polos na verdade, mas construções lógicas baseadas em diferentes possibilidades dados os fatos ou ângulos da realidade que estamos analisando. Um exemplo: você pode ver um caminho que passa por um capitalismo mais vigiado pelo estado ou por uma estatização de todas as empresas em uma sociedade fortemente aliada à mídia e ao judiciário além de vigilante.

Resumindo: como se defender…

  • Desenvolvendo junto com as pessoas próximas uma abordagem mais racional do fluxo de notícias recebido tomando muito cuidado com o viés de confirmação;
  • Apoiar mídia independente e desenvolver um viés político que entenda que as diferentes visões se complementam. Não é alternância de poder, mas diversidade de visões. Cuidado para não confundir visões com princípios, dogmas, irracionais e doentios.

E o TikTok? Devo sair de lá?

Francamente? Não consigo ver nele riscos significativamente maiores do que os em qualquer outra plataforma, ainda mais considerando que boa parte do seu fluxo de comunicação pode ser rastreado se você não usa uma VPN (sempre indico a Proton).

É muito mais importante você saber se defender dos riscos inerentes a existir online, e mesmo que você não esteja, a maioria das pessoas que você conhece devem estar e isso basta tanto para as características do perfil em que você se encaixa fluirem para a realidade online, quanto para que construções do ciberespaço cheguem a você. Minha sogra de 80 anos é 100% desconectada, mas é atingida pela cibercultura através da TV (sem falar na filha dela e em mim mesmo, mas nota-se influências que não vieram de nós).

Também é importante que participemos de alguma forma do debate público por direitos civis online como privacidade e anonimato, passando pelo controle dos nossos dados e de como podem e como são usados. Essa participação não precisa ser pessoal, claro, são temas bem complexos, mas você pode buscar pessoas que percebe que são especialistas para se alimentar de informação. Escolha as que sabem simplificar o tema como nesse exemplo do canal Peixe Babel no começo da discussão sobre a limitação de dados em pacotes de acesso à Internet: Internet limitada não faz sentido.

Referências

https://www.forbes.com/sites/zakdoffman/2020/07/25/beware-tiktok-really-is-spying-on-you-new-security-report-update-trump-pompeo-china-warning/#6e3cf54e4014

https://new.safernet.org.br/

Imagem: Margaret Keane – 1963

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