Imagem: Vídeo original no Youtube

Todos nós temos que pensar sobre o que está acontecendo com a confiança, mais do que isso, temos que entender melhor o papel da confiança na formação da civilização, o que é confiança, qual é a sua história e como será a “próxima estrutura da confiança”.

A humanidade passa por uma grade depressão, não no sentido econômico, mas no sentido social, no sentido das nossas perspectivas.

Prepare-se para ler nos parágrafos a seguir que pessimismo não é uma implicação de ser realista, que pessimismo pode ser tão equivocado quanto o otimismo, a propósito, ambos são desvios da realidade por definição: achar que a realidade é pior do que realmente é ou melhor do que realmente é. É necessário preparar seu viés pois a depressão que vivemos conforme nos conscientizamos da falência dos sistemas de confiança nos leva a ser pessimistas.

Pessimismo congela. Otimismo aliena.

Mas antes temos que pensar no que é confiança. A visão da importância da confiança na evolução das espécies e na criação da civilização é relativamente nova e pouco estudada.

Por menor que seja o grupo em que seres vivos se reúnem a confiança é um elemento essencial para a sobrevivência.

Geralmente a confiança é funcionalmente estabelecida, por exemplo, uma árvore pode “confiar” que os animais comerão seus frutos e “plantarão” suas sementes a certa distância. O pássaro que limpa os dentes do hipopótamo confia que ele não fechará a boca (já é um outro estágio de confiança, menos mecânico, percebe?) e um lobo confia que os que estão acordados darão o alerta em caso de perigo em vez de fugir.

Todos esses sistemas de confiança, muito embora alguns sejam comportamentais, são quase imposições evolutivas. Como coçar o nariz quando estamos mentindo.

Chegamos então à humanidade, que desde o começo há cerca de 70 mil anos (existimos há uns 300 mil, mas há boas hipóteses sobre uma grande revolução cognitiva por volta de 70 mil anos), estabeleceu redes de confiança cada vez mais construídas conscientemente em vez de instintivamente.

Esse pode ser o primeiro grande segredo que nos afastou dos outros animais tornando-nos tão ímpares: ao criar estruturas meméticas conscientemente (ao menos parcialmente) escapamos do ciclo orgânico (não precisamos plantar o instinto ao longo de 1000 gerações) e passamos a poder avançar em um ritmo exponencial.

Vamos pular um pouco para Hobes e o Leviatã (citados no vídeo do Siraj abaixo) para não perdermos o foco.

O Leviatã (grosso modo a nação, país, governo, mas também o sistema financeiro, por exemplo) veio substituir o papel da religião que era a rede de confiança anterior, mas se tornou obsoleta conforme o mundo ficava “menor” graças às TIs (Tecnologias da Informação mesmo, não digitais, mas navios, livros e mais tarde telégrafos etc).

É claro que os Leviatãs se tornaram laicos, sei que isso é uma pequena fuga no assunto, mas vale a pena: Com a aproximação das diversas sociedades com seus sistemas de confiança estabelecidos pela cultura geralmente religiosa precisávamos de algo que abraçasse todas as religiões.

Leviatã nos reúne em torno de “direitos e deveres universais” e a confiança se estabelece por um equilíbrio entre a estrutura democrática, dinâmica de mercado (vou evitar de chamar de “leis” do mercado) e o poder da coletividade refletido pela mídia (principalmente jornalística, mas também da cultura de consumo como cinema e literatura).

E é aqui que está a grande crise moderna que nos lança na depressão: a confiança foi quebrada quando os quatro poderes estabeleceram a própria rede de confiança e construindo um tipo de totalitarismo que parece democrático.

Essa é uma crise muito real, muito séria, muito profunda.

No entanto o colapso de um sistema de confiança é, ao mesmo tempo, o catalisador e o solo fértil para o surgimento de outro sistema. Não é mágica, é evolução memética: a insatisfação e a dificuldade do fluxo de conhecimento leva à busca de mais segurança e novos fluxos.

A crise de confiança começa muito antes da Internet e, quando ela surgiu, foi quase imediatamente sequestrada pelo elo mais fraco da civilização: os tais 99% tratados como servos do sistema (não somos bem servos, mas nos sentimos cada vez mais dessa forma).

Em tempo: não se iluda. Se você não “compra” políticos, não tem poder para emitir dinheiro, então você está entre os 99%. Pode ter uma vida confortável, mas é um peão sem liberdade para jogar.

Nossa situação seria realmente desesperadora como mostra o senso comum se não houvesse outro sistema de confiança brotando velozmente.

Na verdade já é possível há algum tempo ver o desenvolvimento dessa nova rede de confiança quando usamos um app para chamar um carro para nos transportar, quando confiamos em pessoas estranhas porque estão online (desde os tempos de BBS e IRC), trabalhamos à distância com pessoas de outros países ou compramos e vendemos online.

No entanto uma nova tecnologia de confiança já vem se desenvolvendo desde 2011 (na verdade 2008, mas para valer desde 2011 com o Ethereum) que tem um poder disruptivo que pode ser inédito em nossa história nesses últimos 70 mil anos.

Surpreendentemente são pouquíssimas as pessoas que encontro que já perceberam a blockchain (hyperledger, Ethereum e outras).

As possibilidades… Na verdade me atrevo a dizer que “as inevitabilidades” que podem ser construídas em torno de blockchains são tão astronômicas que é difícil fazer previsões (Siraj faz algumas no vídeo).

Em vez de apontar coisas que podem ser construídas em torno delas (aliás, praticamente tudo que você vê online deverá ser migrado para uma blockchain nos próximos 5 a 10 anos, do Uber ao Facebook e começando, provavelmente, pelos bancos) vou falar do tecido social na era blockchain.

Uma vez que a disseminação de blockchains permite estabelecer relações de confiança entre quaisquer duas ou mais pessoas veremos um novo patamar de empreendedorismo e liberdade de produção em que qualquer um de nós poderá se tornar produtor de conteúdo enquanto outros serão sócios anônimos que não gostam de produzir, mas podem lucrar patrocinando os produtores de conteúdo mais populares, ou até mesmo pouco populares.

Temos um exemplo similar no vídeo do Siraj: pessoas com energia solar podem vender seu excedente diretamente para outras pessoas sem intermediários. Uma pessoa pode produzir um livro, captar recursos com centenas de outras e dividir o lucro automaticamente de acordo com as parcelas de contribuição.

Na sociedade hiperconectada por blockchains todos poderemos ser corporações e acionistas, mas com um sistema de confiança muito mais seguro que tudo com que já sonhamos.

A mensagem é clara: prepare-se para um salto evolutivo mais disruptivo do que tudo que já vimos ou estudamos na escola.

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