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Essa é uma análise dos diversos componentes meméticos ou estereótipos que acabaram sendo agregados em torno de Bolsonaro e o levaram à eleição. É semelhante ao que já fiz ao analisar o Harlem Shake e a Sia/Maddie.

Até um ano praticamente ninguém achava possível a eleição de Bolsonaro, que sempre ocupou o papel de bufão da política, um tipo de Tiririca com menos méritos já que este, ao menos foi capaz de se destacar como palhaço em uma época em que ninguém mais se destacava nesse ofício.

Isso gerou perplexidade. Como isso pode ter acontecido? E estou entre os perplexos que vinham justificando seu erro recorrendo, por exemplo, à suposição de que, se ele tivesse participado de debates seria desmascarado. Talvez não e vamos ver por quê.

No entanto antes precisamos reconhecer que os fatores que tornaram essa eleição são uma das coisas inéditas nesse evento: são muito mais complexos.

Tem a tecla que venho repetindo desde 2011, a insatisfação com a democracia representativa e o desejo de uma democracia mais direta que leva a uma ascensão de políticos “não políticos”. E nesse ponto teve algo importante que falhei em ver: Bolsonaro se comunica por WhatsApp e Facebook, diretamente com seus eleitores, criando uma percepção de que ele está entre eles, que é como eles. Mas isso não é o suficiente para entender Bolsonaro.

O elitismo dos políticos e expoentes da esquerda também é apontado num momento falhando em instruir o povo (o que é claramente elitismo) noutro se mantendo afastada do povo ao se manter congelada na esquerda do passado.

A sedução do discurso fascista adotado por Bolsonaro também é usada frequentemente para justificar o fenômeno a ponto de alguns dizerem que “a maioria dos brasileiros é ‘desse jeito’ mesmo, preconceituosos, conservadores, fascistas”. Essa é, em minha opinião, uma das piores explicações muito embora seja mais um estereótipo anexado a Bolsonaro que funciona principalmente pelo fator “resistência a mudanças de paradigmas”.

Essa resistência é um fator que já venho apontando, mas sem dar a devida importância no seu papel nesse caso.

A humanidade passa por uma das maiores transições de paradigma da sua história. A estrutura de comunicação se inverte e as massas passam a ter papel na formação da voz pública ao lado ou até acima da mídia organizada. A classificação do mundo por estereótipos está obsoleta e vemos os ditos tempos fluidos. Não são apenas os gêneros que se tornam fluidos, os nossos papéis sociais e profissionais também mudam intensamente. Nem mesmo nossa própria percepção de nós mesmas está garantida e somos chamadas a decidir que tipo de pessoas somos de acordo com escalas e características praticamente infinitas. Falei nisso há dois anos, tem até azul e rosa no vídeo.

Em termos práticos isso nos leva a negar o que nos perturba e nos voltar para o que é familiar, mesmo que seja meio desagradável como aquele tio que faz piadas sexuais com nossas filhas ou desconcerta a família com seus preconceitos. Pelo menos é algo conhecido.

É nesse sentido que Eliane Brum declara que Bolsonaro é a chegada ao poder do homem mediano, mas o artigo vai bem além disso. Vale a pena ler. Guardei também no meu clipping.

Essa chegada é importante por empoderar essa parcela da população, assim como a chegada de Lula ao poder deu ânimo à população para buscar novos patamares de estudo e empreendedorismo. E esse empoderamento do preconceito, do conservadorismo, dos “meninos do fundo da sala que não conseguiam acompanhar as aulas e faziam chacota de todos” é a grande preocupação de que fala em resistência ao governo, mas isso é assunto para outro post.

Vamos recapitular os estereótipos que se agregaram em torno de Bolsonaro:

  • A promessa de uma política sem politicagem e mais direta
  • A simplicidade que não humilha o eleitor com um academicismo elitista
  • O herói fascista que se apresenta como o líder do “nós contra eles”
  • O perfil conhecido em um mundo em que tudo está ficando diferente, até nós mesmas

Vamos ver mais alguns ainda.

“PT não” também reúne um conjunto de estereótipos que está parcialmente descrito acima, mas temos que pescar mais dois.

O primeiro que vou pegar é o que associa o PT à ascensão do povo para os mesmos espaços dos que se consideram ricos (tenho sugerido que só se considere diferente do povo quem literalmente compra políticos). Trata-se do meme “eu valho porque posso estar em lugares onde a maioria não pode estar”. Como exemplo posso citar o desconforto causado em 2017 pelos rolezinhos em shopping centers ou as reclamações online contra o povo tendo acesso a viagens de avião.

Além desse há quem tenha entregue ao PT suas expectativas de mudanças radicais no Brasil bem semelhantes às que esperam agora os eleitores de Bolsonaro: paz, desenvolvimento, ordem. Só que o viés de esquerda esperava que isso fosse viabilizado com igualdade social, reforma agrária, reforma na educação e principalmente uma nova política. Muitas dessas coisas não vieram ou vieram parcialmente criando uma grande insatisfação a ponto de levar alguns a apostar no inimigo (ou que assim se diz) do PT. Esse grupo chegou a inspirar frases de efeito como “não é porque Yoda pisou na bola que vou para o lado do Palpatine”.

Ainda acredito que a maior parte dos eleitores do Bolsonaro foram seduzidas por outro estereótipo que se agregou a ele, o da pessoa sincera (que é confundido com pessoa honesta) e sem papas na língua que faria o óbvio que é colocar as coisas em ordem. Esses são os eleitores que não tem tempo para ou hábito de ler sobre política, ir a fundo no perfil e equipe de cada político, não teve acesso aos questionamentos modernos sobre financiamento privado de campanha etc. São pessoas de boa índole que julgam as outras da mesma forma, que consideram que, se o político disse que é temente ao Deus delas, então deve ser mesmo. Se diz que só quer impedir que se confunda liberdade com libertinagem deve ser verdade.

No entanto é claro que isso não esgota as imagens que são vistas quando se olha para Bolsonaro. Para isso eu teria que ser capaz de listar toda a diversidade humana e nem cheguei a me aventurar pelos estereótipos que fizeram alguns negros, mulheres e pobres a votar nele, em parte por entender que é um lugar de fala que não domino o básico necessário para interpretar e também por respeito.

Entender como uma pessoa absolutamente despreparada, que não representa a média dos brasileiros, que por suas declarações deixa caro que não defenderá as necessidades nem da média e muito menos das minorias e com uma equipe política similar pode ser eleita obviamente é importante, mas mais importante que entender agora é perceber que esse certamente será um processo de compreensão gradativo que nos dirá muito sobre nós mesmos, nossas famílias, vizinhos e próximos.

Correr para uma ou outra explicação é deduzir a riqueza da diversidade humana, é se entregar a preconceitos e elitismos que nos cegam, que nos dividem e polarizam.

De uma coisa todos podemos ter certeza: 98% de nós temos os mesmos objetivos, ou seja, ser ouvidos, respeitados e ter acesso aos recursos essenciais da civilização (inclui educação, cultura e perspectiva de crescimento).

Uma parte das ferramentas para chegar a isso está na humildade e na democracia. Democracia para todos apresentarmos nossas visões de como atingir essas metas e humildade para escutar com sinceridade os argumentos e fatos apresentados pelos outros decidindo não pelo que nossa convicção diz que é o melhor, mas o que se mostra como mais razoável.

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