A cantora Sia há poucos meses decidiu não mostrar mais seu rosto em apresentações, vídeos ou entrevistas e criou um tipo de símbolo para sua presença: a peruca branca que pode ser usada em qualquer um ou qualquer coisa para representar a presença da artista.

Por enquanto a encarnação mais forte da artista é responsabilidade de Maddie Zigler, primeiro no clipe de Chandelier:

Depois em Elastic Heart:

Sia tem recursos vocais, as músicas são boas e as letras também, mas aqui estou interessado em outros elementos pois os dois clipes e a própria escolha da artista de não mostrar o rosto é uma composição interessante de memes, algo bem mais complexo do que vi em Harlem Shake por exemplo que é basicamente um único meme se transformando ao longo do tempo.

A criança

O primeiro meme que fica evidente é o da criança que não é bem uma criança. Ela é selvagem, sobrenatural, como uma fada (no sentido mais medieval) e remete ao Cuco de Neil Gaiman, a vampira Cláudia de Entrevista com o Vampiro, a personagem da Ellen Page em Hard Candy só para citar algumas.

Também não podemos esquecer que ela é uma representação de uma mulher adulta, a própria Sia.

Não de trata de “adultização” da criança. Ela parece representar melhor a própria ànima feminina: forte, independente.

A coreografia tem um papel importante na construção da personagem, mas falarei dela em seguida

Esse meme além de antigo é uma forte representação da força feminina. Muitas vezes ele desliza para uma certa crueldade feminina como no segundo clipe (Elastic Heart) onde a criança domina e faz troça de um outro arquétipo que nem vou identificar necessariamente como masculino, mas como viril (mulheres também podem ser viris… Talvez mais do que os homens… Mas isso é assunto para outros posts), no entanto esse é um movimento natural enquanto a cultura global se move da crueldade contra o feminino para o equilíbrio: é necessário conflito, ou pelo menos, muitas vezes ele é inevitável.

A propósito de ser antigo é bom lembrar que os contos dos irmãos Grimm já nos traziam várias crianças poderosas, a mais conhecida talvez seja a Maria de João e Maria (de Gretel e Hansel – ela primeiro porque é a protagonista). Também está na capa do álbum House of the Holy do Led Zepelin,ou seja, realmente não é novo, apenas sua leitura e maturidade vão se modificando.

Coreografia

Mesmo quem é leigo em dança contemporânea percebe que há algo diferente nesses clipes, mas não é só neles. Em 2012 tivemos algo similar, ainda que menos elaborado, no clipe Try da Pink:

Sou um leigo apaixonado por dança contemporânea, mas leigo, então fui buscar ajuda nesse tópico com a Leila Meireles que é uma das minhas referências em conhecimentos de dança contemporânea e ela me apontou semelhanças com o trabalho de William Forsythe, ou de Wet Woman (de Mats Ek):

É claro que é um trabalho muito mais forte com uma bailarina adulta que tem bagagem de experiência para imprimir muito mais emoção e significado, no entanto temos que lembrar que clipes são obras pop e o destaque é a música, não a coreografia.

Só que quase o destaque é a coreografia, não é mesmo? Gostaria de ver o resultado sem o apoio do meme da criança-fada.

Existe algo de primitivo nela, inclusive quando vemos os diversos covers notamos que as bailarinas (acho que só encontrei amadoras) tem dificuldade em abandonar princípios de estética e vaidade para imprimir a mesma qualidade de emoção.

Ainda não consegui traduzir em palavras o que vemos na coreografia. Pelo que vi de algumas coisas anteriores de Maddie Ziegler isso foi inserido pelo coreógrafo dos clipes que, se não bebeu da fonte de Willian Forsythe (e duvido), certamente trilha caminhos paralelos.

A importância disso, na minha opinião, está no avanço do uso de uma linguagem coreográfica em clipes de música pop e isso não é pouca coisa.

A linguagem da dança é complexa, costumo dizer que cada espetáculo é como um exercício para aprender um novo idioma e temos meia hora, quarenta minutos, para fazer isso e entender o que estamos assistindo.

Quando isso é inserido com sucesso em uma obra pop temos mais do que uma popularização da dança contemporânea, temos o contato de milhões de pessoas (o primeiro clipe tem mais de 500 milhões de views) com um exercício mental e emocional incomum na cultura pop.

Isso nos aponta para duas coisas: que o consumidor está mudando, aprendendo a consumir “alta arte”… Ok, essa expressão é horrível e a coreografia desses clipes não é “alta arte”, mas conto com a sua perspicácia para entender o que estou querendo dizer. 🙂

Anonimous: mensagem X identidade

Essa foi a primeira coisa que pensei ao começar a analisar esses clipes, na verdade estava correndo enquanto pensava em exemplos como Prince que trocou o nome por um símbolo por um tempo, a personagem de Little Voice, o grupo Kiss, o autor Lemony Snicket de Desventuras em Série e Fynn de Alô, Sr. Deus, aqui é Anna.

Correr nos torna mais espertos, mas pelo jeito não durante a corrida pois só depois que parei lembrei de Daft Punk e Banksy que deveriam ter sido os primeiros!

Cada um desses artistas tem seus motivos para não dar destaque à sua imagem e criar uma identidade que não está ligada à sua aparência. Talvez eu devesse ter contraposto mensagem x imagem, mas preferi usar identidade pois, fatalmente, ao se olhar no espelho o artista sabe que não é ele o famoso e sim seu alter-ego, ou seja, ele ou ela abre mão de algumas vantagens da fama e por isso considerei aqui que ele abre mão da própria identidade.

Esse meme é muito interessante e foi de propósito que chamei de Anonimous pois vejo ligação entre a cultura Anonimous e a supremacia da mensagem sobre a imagem ou identidade.

Isso é muito sutil… Certo, não é tão sutil já que Sia canta ao vivo de costas ou com uma renda escondendo o rosto (o que pode ser ridículo para muita gente) então a dissociação da identidade está bem presente.

Volto a dizer que os motivos dela podem ser péssimos, mas não importam, o que importa é o meme que está sendo alimentado.

Vivemos essa transição.

Hoje mesmo li sobre uma mulher de cinquenta anos que diz não rir há quarenta para não formar rugas… Ela formou, claro… E é um caso extremo, mas o século XX foi bem mais vaidoso que o XXI pode ser.

Uma amiga disse hoje “agora sou um blog”.

Essa é a transição: estamos nos digitalizando e no mundo digital a mensagem é mais importante que o mensageiro.

Até cinquentões como eu cedem a isso quase sem notar. Tenho um blog pessoal com meu nome e esse onde abro mão da minha identidade para ser mais um Meme de Carbono.

De forma sutil o meme da mensagem acima da identidade vai amadurecendo e se fortalecendo na música, na arte, na literatura e até na atuação política.

Um dos maiores problemas que vivemos no momento é a visão egocentrada do mundo: “livro digital não vai dar certo porque gosto de papel”, “Quem vê filme dublado é inferior porque gosto de filme legendado”, “____ é doentio, eu nunca faria isso”.

É natural que nós observemos o mundo à partir das nossas visões e experiências pessoais, mas para entender o mundo temos que ser capazes de deixarmos de sermos nós mesmos e aprender a sermos os outros.

Quando a mensagem (ou meme) é mais forte, mais importante que a identidade, estamos nos preparando para abrir mão da caixa da nossa própria identidade para ver o mundo por diversos pontos de visão em vez de nos apegarmos aos nossos pontos de vista (isso vem de Alô Sr. Deus, aqui é Anna).

Essa dissociação dos nossos pontos de vista é percebida como um tipo de morte (creio que Erich Fromm tem uns textos interessantes sobre isso), mas tem se tornado uma habilidade necessária para reduzir o estresse de lidar com uma infinidade de outros pontos de visão expostos não só em nossas timelines, mas também nos noticiários internacionais.

Observações

Estou dizendo que esses elementos se reúnem em torno do trabalho da Sia, não que eles são responsáveis por seu sucesso ou que ela e sua equipe são geniais por reuní-los. Isso pode acontecer simplesmente pela evolução desses memes. Inclusive a justificativa da artista para esconder o rosto sugere que foi mesmo um acaso (ela diz apenas que não quer ser famosa…)

Sim, eu sei que pode existir “adultização” de Maddie Ziegler, mas não vejo isso no personagem que ela vive, entende? Se a jovem bailarina está sendo mal orientada pelos pais é outro problema.

Esse tipo de radiografia ou dissecação de meme pode parecer academicamente tola, superficial ou afobada, mas vejo como um exercício necessário para reflexões acadêmicas mais profundas.

Adendo: sexualização

Não falei nisso no post por considerar que se trata de outro assunto totalmente diferente: ver pedofilia, sexualização e bestialidade onde não há.

Me parece bem claro que ver uma dessas coisas nesses clipes e letras diz muito mais sobre a nossa própria “pedofilização” ou do caráter psicótico da nossa cultura que retrata a mulher como um objeto que só pode estar envolvido em duas situações: fazendo coisas de mulher ou sendo objeto.

Tratarei disso no futuro, por hora deixo esse artigo que faz uma boa introdução à questão: The only creep thing about Pop’s New Child Star is Us

Crédito da imagem: Just Jared

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