No sábado passado tive a oportunidade de compor a banca que destacou três projetos dentre vinte finalistas do Primeiro CDI Mobilidade.

Basicamente o projeto tem por objetivo:

“Ensinar jovens de 13 a 29 anos, moradores de comunidades de baixa renda a utilizar tecnologias móveis para resolver problemas sociais e transformar a realidade local.”

No entanto eu diria que ele faz melhor que isso.

Ao ensinar como criar aplicativos móveis desmitifica-se o desenvolvimento de software, que parece algo inalcançável para o cidadão comum e implanta-se a semente do protagonismo na produção de formas de conteúdo mais complexas. Aliás um app muitas vezes é uma ferramenta que permite que outros possam produzir conteúdo.

Completa-se assim um ciclo de capacitação do grupo que pode se reunir em torno e através de apps desenvolvidos por outros do mesmo grupo social ou geográfico.

Existe um forte mito da inferioridade das camadas periféricas da sociedade que acaba sendo absorvido por suas vítimas. Perceber que são capazes de criar instrumentos (seja o funk/rap, seja sistemas de TI) para alimentar os seus valores é um poderoso antídoto.

Vi nas expressões dos jovens finalistas a importância que eles davam para os problemas ou valores que tinham a abordar.

  • Violência doméstica;
  • Bons hábitos alimentares;
  • Escola e Estudo;
  • Conscientização política;
  • Acessibilidade;
  • Atividades lúdicas indo da pipa a games;
  • Gamificação para pessoas em tratamentos difíceis
  • Problema do lixo
  • Auto-estima: maquiagem, estilo;
  • Cultura pop: músicos, bandas, atores, atrizes

Eram vinte finalistas, mas pude ler o resumo de duzentos da fase anterior e tenho alguns comentários sobre as mudanças culturais que os principais temas podem indicar.

À primeira vista podemos ver como futilidade a preocupação com aparência e o interesse em cultura pop (anime, atores, bandas famosas, games), no entanto esses eram privilégios das “pessoas de bem”.

É claro que não estou sugerindo que os brasileiros das periferias não são pessoas de bem (e por isso as aspas), e sim que há um preconceito arraigado em nossa sociedade que a divide entre quem consome (cultura pop, beleza, games…) e quem supostamente não consome e portanto tem menos valor.

Talvez a inserção de mais camadas na cultura de consumo seja uma das transformações mais importantes no caminho para construir uma sociedade mais justa, ainda que possamos criticar o consumismo e o culto à imagem que, convenhamos, é um problema que transcende classes sociais, culturais e econômicas e teremos que resolver em outras instâncias.

Nesse sentido talvez a premiação do app Pipas (que mostra lugares seguros e perigosos para soltar pipa além de dar instruções de segurança, como fazer pipa etc.) tenha sido uma das mais importantes do evento, inclusive por ser projeto de um dos participantes mais jovens (treze anos) recompensando-se assim a participação das crianças e a valorização de atividades lúdicas antigas desses grupos que fazem parte da sua identidade, mas correm o risco de se perder enquanto eles abraçam a cultura pop.

Também foram premiados um sistema de acessibilidade que é como um Waze para pedestres com dificuldades de locomoção e um app para crianças passando por quimioterapia.

É bem interessante notar que praticamente todos os projetos inseriam alguma forma de rede social online.

Os dois que mais gostei, por exemplo, envolviam escola. Um mostrava potencial para construir gameficação em torno da solução de dificuldades no aprendizado de uma matéria e o outro pretendia espelhar a escola no ciberespaço. Espero que eles entendam que sua não premiação não está ligada à inferioridade das suas ideias, mas sim a outros fatores como maior ou menor facilidade de desenvolvimento, e usem a experiência para triplicar seus esforços na construção dos seus projetos.

Da mesma forma espero que os premiados não entendam que chegaram ao fim da jornada e também tripliquem suas energias.

Esse é o caminho de todo projeto: ideia, barreiras, barreiras, barreiras, persistência, barreiras, barreiras, construção.

Essa mensagem seria minha única sugestão para melhorar novas edições do evento: ajudar os jovens a descobrirem que as melhores ideias raramente são identificadas com facilidade, sejam projetos sociais, aplicativos, livros, filmes… Basta lembrar que Guerra nas Estrelas e Harry Potter foram desprezados por quase todos a quem foram apresentados em busca de apoio.

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