O ato abominável que tirou a vida de 12 pessoas em Paris leva a humanidade a pensar mais uma vez em que tipo de monstruosidade as religiões estão se tornando.

Alguns dirão que elas sempre foram instrumento de segregação e ódio, que são fruto de uma falha evolutiva.

O argumento da falha evolutiva inclusive é usado com frequência por Richard Dawkins, um dos principais geneticistas modernos.

Apesar disso me atrevo a defender que não existem “falhas evolutivas”. Se o meme se mantém é porque ele cumpre uma função (o mesmo vale para gens, claro).

O fogo das emoções em que nos encontramos agora é péssimo tanto para escrever racionalmente, quanto para ler com bom senso. Talvez o mais sábio fosse escrever esse artigo em alguns dias, no entanto é importante que nós aprendamos a lidar com as nossas emoções usando-as como guias, mas sem perder a habilidade do pensamento lógico.

O que aconteceu?

O fato é que não se sabe. Os assassinos podem ser parte de um grupo, duas pessoas perturbadas e sem qualquer ligação com qualquer crença ou ideologia, podem ser qualquer coisa.

O que aconteceu é que aparentemente duas pessoas entraram na redação do jornal francês Charlie Hebdo e violaram tudo que qualquer religião, lei humana ou bom senso defendem em essência.

Eles foram motivados por pensamentos religiosos distorcidos ou decidiram se passar por pessoas motivadas por “mutações mortais no coração da religiosidade” como sugeriu Salman Rushdie.

E é isso que discutirei:

  • Por que a religiosidade e as religiões são tão facilmente usadas para violar a ética e a moral?
  • O que nos leva a aceitar rapidamente que um ato hediondo foi praticado por razões religiosas?

Mesmo que se demonstre mais tarde que os criminosos não se enquadram nesse perfil o problema persiste afinal temos visto diariamente a religiosidade usada para justificar desde a violência contra a mulher até a homofobia passando pela pedofilia, pelo racismo e perseguição religiosa.

O Joio e o Trigo…

Talvez esse seja o ponto chave se queremos encontrar uma solução para a escalada da violência religiosa: como separar o que é religião e o que é perversão da religião?

Ainda que a maioria dos livros e tradições religiosas tenham trechos de intensa violência e princípios morais que hoje são inaceitáveis (como o direito de escravizar o descendente de alguém que nos deve dinheiro) todas as principais religiões se voltaram para a paz, reflexão, melhoria pessoal através do arrependimento por nossos atos que prejudicam os outros… Bem, é desnecessário listar. Praticamente todo religioso moderno está bem consciente, mesmo os que fazem orações egoístas.

Então por quê, quando pessoas ou grupos usam os símbolos ou textos de uma religião para justificar o que essas religiões condenam, não declaramos imediatamente que o ato foi contrário às vontades de Deus e que o grupo ou pessoas serão enviados ao inferno e suas vítimas serão acolhidas nos braços divinos?

Isso me lembra que frequentemente alguém, sabendo da minha paixão pela ciência e filosofia, vem satirizar o que acha que são falhas delas, mas quase sempre se referem a distorções da ciência ou da filosofia. Eles falam de coisas que usam imagens, conhecimentos ou estruturas oriundas dessas áreas do conhecimento, mas na verdade são um tipo de crença.

Nessas situações me alegro por poder explicar o que é ciência e filosofia e entendo a sátira como uma aliada na denúncia da perversão dos ramos do conhecimento que me agradam tanto.

Raramente isso acontece com as religiões.

Ao ridicularizarmos, ou mesmo criticarmos, um desvio da religião o religioso em geral se sente ofendido.

O inimigo não é a pessoa que ignora nossas religiões e as confunde com as deturpações que as usam para justificar ódio, preconceito, tirania etc.

O inimigo também não é a pessoa ou grupo que conhece muito bem as nossas religiões e atacam as corrupções religiosas que as transformam em instrumentos de ódio.

Eles são aliados. Deveriam ser aliados pelo menos pois refletem ou denunciam o verdadeiro inimigo: os que se apropriam das crenças e religiões para fazer o mal.

A dificuldade em distinguir o joio do trigo é um enorme desafio para a religiosidade moderna como mostra a charge abaixo (que usei para ilustrar o post), mas também é uma oportunidade de amadurecimento religoso.

 A minha, a sua, a deles…

Como diferenciar religião e ferramentas de ódio? É fácil diferenciar o joio do trigo pois são organismos distintos… Um te faz bem e o outro te mata e… Oh! Whait… – Roney Belhassof

Religiões mais antigas, analisadas como sistemas meméticos, são quase tão sólidas quanto um organismo genético, no entanto há um meme que concede carta branca para alterar totalmente o corpo de qualquer religião: a subjetividade da experiência religiosa.

Como toda religião em sua essência é construída sobre percepções subjetivas temos que admitir que a “revelação” é uma ferramenta tão válida quanto uma evidência concreta (textos antigos por exemplo).

Recentemente fiquei sabendo de uma seita que acredita na existência de três ondas de humanos com almas alienígenas sendo a terceira composta pelas crianças do início do século XXI que teriam seis pares de cromossomos. O fato de não existir ninguém com seis pares de cromossomos é irrelevante pois eles tem a “revelação” para suportar a crença. Talvez justifiquem dizendo que são “pares cromossomáticos espirituais” ou coisa assim.

Essa flexibilidade é um dos fatores que permitem que a religiosidade e as religiões estejam entre as manifestações humanas mais duradouras, ela é necessária para satisfazer a nossa natureza diversificada: todos temos direito de nos apropriar de uma religião da forma como a nossa cultura e experiência pessoal determinam ou criar uma nova (Whovian, Jedi… Posso?)

Como os alicerces das religiões contam fortemente com a intuição e a subjetividade acabamos tendo a tendência de assumir que a visão do outro, ainda que diferente, se alimenta na mesma fonte que a nossa: Deus.

Em conversas sobre diversidade religiosa é comum surgir o argumento de que “todos os Deuses são um só”.

Infelizmente é mais provável que a semelhança entre os Deuses emane da semelhança entre seus criadores, nós, humanos, mas esse não é o tema desse post, o ponto aqui é que não é nada trivial e muitas vezes é praticamente impossível determinar qual é a fonte e validade de uma revelação ou intuição religiosa.

Parece haver um certo consenso tácito de que agentes do ódio que se justificam através de um discurso religioso não encontram sua inspiração nos deuses das religiões que dizem seguir, no entanto ninguém tem como provar que sua própria inspiração é o Deus da religião que segue e então nos vemos de mãos atadas, impossibilitados de distinguir a minha, a sua a religião deles…

Diante da dificuldade de distinguir entre religiões surge a intolerância generalizada que inspira até mesmo pessoas sábias e racionais a condená-las quase indiscriminadamente.

Religiões, como toda e qualquer ideia deve ser desrespeitada, é assim que as ideias se desenvolvem, crescem e amadurecem, todavia o religioso entende sua religião como uma manifestação da realidade divina. Para piorar a situação o maniqueísmo nos leva a reduzir a realidade a bem e mal. Se é contra o bem (e minha religião sempre é o bem) então é a favor do mal.

Mesmo quando atacamos as ideias religiosas sem atacar os religiosos (e o mais frequente é o ataque direto ao religioso através da falácia do ataque ao argumentador) estamos nos colocando, aos olhos deles, ao lado do mal.

É por isso, e não por achar que a pessoa que não faz parte de uma religião não tem direito de criticá-la, que tenho defendido que os ataques mais sérios e organizados às distorções das religiões precisam partir delas mesmas. Dos seus líderes, pensadores, sacerdotes e seguidores mais dedicados.

As deturpações malignas das religiões são uma ameaça séria e crescente à liberdade religiosa.

“Religion, a mediaeval form of unreason, when combined with modern weaponry becomes a real threat to our freedoms. This religious totalitarianism has caused a deadly mutation in the heart of Islam and we see the tragic consequences in Paris today. I stand with Charlie Hebdo, as we all must, to defend the art of satire, which has always been a force for liberty and against tyranny, dishonesty and stupidity. ‘Respect for religion’ has become a code phrase meaning ‘fear of religion.’ Religions, like all other ideas, deserve criticism, satire, and, yes, our fearless disrespect.” – Salman Rushdie

Pessoalmente sou averso a religiões. Quando comecei a conhecê-las mais de perto a partir dos 11 anos de idade percebi que não eram para mim, no entanto tenho plena consciência de que o mundo não é formado por clones meus e, mesmo que fosse, eles teriam experiências diferentes, seriam diferentes de mim, e não estariam mais certos ou mais errados do que eu ao seguir essa ou aquela religião. Esses caminhos não são excludentes. Quem gosta de tulipas segue o caminho das tulipas, quem gosta de aventura segue pulando pelos galhos das árvores e mal nota que há tulipas ao redor.

O que estou sugerindo?

Estou sugerindo que as críticas às religiões devem ser vistas como um alerta para sua deturpação por pessoas e grupos que estão colocando essas instituições em perigo.

Estou sugerindo que temos que refletir sobre a religiosidade. Como ela está se transformando sob a pressão de uma civilização fortemente tecnológica. Como a estamos usando? Como podemos reduzir os riscos dela ser usada como uma arma contra a liberdade religiosa ao ser transformada em um instrumento para justificar o ódio, o crime, a imoralidade e a falta de ética.

Estou sugerindo que temos que defender a liberdade de expressão ainda que não gostemos ou até condenemos o que está sendo expresso.

You ask, What makes it worth defending? and the only answer I can give is this: Freedom to write, freedom to read, freedom to own material that you believe is worth defending means you’re going to have to stand up for stuff you don’t believe is worth defending, even stuff you find actively distasteful, because laws are big blunt instruments that do not differentiate between what you like and what you don’t, because prosecutors are humans and bear grudges and fight for re-election, because one person’s obscenity is another person’s art. – Neil Gaiman

Links

Pin It on Pinterest

Share This

Compartilhe!

Mande para suas redes sociais