Existe um lugar comum nas críticas às redes sociais. Vou partir de um artigo da Lara Vascouto no Obvious: 3 Efeitos Colaterais Bizarros da Cultura do Status.

Assim como outros colunistas do Obvious a Lara escreve muito bem e levanta questões importantes, mas acho que ela acabou fazendo coro com o lugar comum que, na minha opinião, simplesmente está errado.

Breves questionamentos sobre os três tópicos que ela destacou:

  1. Grandes Gestos de Amor… O Taj Mahal foi um gesto de amor velho pacas e que, sozinho, é maior do que todos os gestos de amor grandes dos últimos 10 anos! Hahahahaha!!
  2. Filhos Decorativos: Quando que filhos não foram decorativos? Ou para dar o golpe do baú, ou para prender marido ou por pressão da sociedade. Acho até o contrário. Vejo mais casais sem filho hoje do que no passado…. Aliás isso levanta outra questão, mas isso vou citar depois do próximo item.
  3. Autismo, ou seja, em vez de viver a vida e-piar (escrever no Twitter é emitir pios eletrônicos, né?) ou instagramar a vida: Tudo bem, até 2004 ninguém ficava no celular vendo os amigos ou se exibindo para… os… amigos… Pera, claro que ficavam, só que ligavam porque era a única alternativa. Antes do celular as pessoas andavam na rua com a cara fechada como zumbis, pelo menos agora metem a cara no celular e interagem com pessoas. E como assim não conhecem pessoas novas? Nunca se conheceu tanta gente nova como nos últimos anos! Mas isso pode ser uma experiência anedótica… Aí chego no que ia comentar acima.

Sem pesquisas, estatísticas e estudos quando a gente diz que 99,99% das pessoas isso ou quase todo mundo aquilo o que estamos mesmo dizendo é que a maioria dos nossos amigos são assim.

Se fosse eu a escrever a matéria o quadro seria o inverso já que a enorme maioria dos meus amigos usam a Internet de forma muito saudável.

As três coisas são ruins, é óbvio, mas se você observar bem todas podem ser reduzidas a uma patologia bem conhecida: Narcisismo.

A imagem que ilustra o post vem de um artigo que fala justamente nele: Racism is Narcissism, Narcissism is Racism.

Veja um resumo das características do chamado Distúrbio da Personalidade Narcisista de acordo com o artigo:

  • Reagir a críticas com raiva, vergonha ou humilhação
  • Tirar vantagem dos outros para atingir seus próprios objetivos
  • Exagerar sua importância, conquistas e talentos
  • Criar fantasias de sucesso, beleza, poder, inteligência ou romance
  • Necessidade de atenção constante e estímulo positivo de outros
  • Tornar-se facilmente invejoso ou invejosa
  • Falta de empatia e de respeito pelos sentimentos dos outros
  • Obsessão por si mesmo
  • Buscar basicamente objetivos egoístas
  • Dificuldade em manter relações saudáveis
  • Sentir-se rejeitado(a) ferido(a) facilmente
  • Estabelecer objetivos irreais
  • Querer o melhor de tudo
  • Parecer não ter emoções

Parece muito com boa parte do que vemos nas redes sociais, certo?

Todos nós temos vários amigos ou até fazemos algumas dessas coisas.

Isso é o bastante para disparar nossos instintos de preservação fazendo-nos crer que estamos diante de um narcisista. O susto é justificável e é melhor errar pelo excesso de cuidado.

Entretanto será que somos todos narcisistas? Será que a exposição à possibilidade de ser narcisista é como um contágio que nos infecta? Instagram é um vírus?

Bem, antes de mais nada o narcisismo não é novo. A imagem que ilustra o post se refere ao mito grego que tem origens há quase dois mil e quinhentos anos.

Em segundo lugar considera-se que 1% de nós sofre desse distúrbio formulado em 1968.

Vou me esquivar de entrar em longas considerações sobre o que causa o narcisismo e que efeitos a Internet pode ter sobre ele pois isso é tema para um psiquiatra, psicólogo ou psicanalista. Direi apenas que, da mesma forma que uma pessoa organizada não sofre de TOC, uma pessoa vaidosa não é necessariamente narcisista.

E me esquivo também porque, francamente, não vejo nem uma grande relação da hiperconectividade com o narcisismo e nem o vejo como um problema comum e sério. Desconfio mais que o nosso pavor diante dos paus de selfie e da cultura do status seja uma combinação dos nossos instintos nos avisando da possibilidade de estarmos diante de uma pessoa narcisista e do começo de uma rejeição à cultura do status.

Acho que vale a pena falar mais sobre esse começo de rejeição à cultura do status.

Quando as coisas começam a nos incomodar provavelmente é um sinal de que estamos criando uma massa crítica para mudar as coisas. Por exemplo. Quase ninguém se incomodava com o machismo antes de começarmos a notar que se tratava de um comportamento preconceituoso e perverso. O machismo era um problema muito maior há 50 anos, mas incomoda muito mais agora pois já não o aturamos (bem, a cada dia menos gente aprova e mais gente rejeita). O mesmo acontece agora com o egocentrismo e o individualismo que alimentam a chamada cultura do status.

O fim da cultura do Status

É justamente porque nos incomodamos tanto com o pau de selfie, o narcisismo não patológico, o egocentrismo, o esforço para criar a fantasia e outros hábitos que esses problemas serão cada vez mais abordados.

E qual é o papel da Internet nisso? Ela provocou esses comportamentos? Ou será que ela lançou luz sobre eles?

Se a Internet tem um efeito na chamada cultura do status eu apostaria no contrário

A Rede é uma região de fluxo de conhecimento, de demonstrar valor pelo que se é e não pelo que se tem. A pessoa bonita que sempre foi reduzida a “pessoa bonita” pode dar mais destaque às suas ideias e talentos tornando-se mais plena. Pessoas que não se enquadram nos padrões de beleza e são rotuladas de feias podem se mostrar belas online ao se manifestar também pelas ideias que criam laços emocionais e alteram a percepção de beleza (pessoas que se enquadram no padrão de beleza podem se tornar feias també, mas paciência).

Me parece bem provável que, pela super exposição da vaidade e por estimular o diálogo e empatia a Internet provavelmente está mais para um remédio contra o narcisismo não patológico do que parte do problema.

Mas então qual é o problema das redes sociais?

São vários… São sérios.

  • De perto todos são loucos: redes como o Facebook são como morar junto. Se o amigo usa diariamente a rede social nós acabaremos sabendo de opiniões, costumes, interesses e comportamentos deles que não gostaríamos de conhecer, que jamais veríamos se os encontrássemos apenas no trabalho, na praia, na academia ou nos bares. Quando entramos em contato com coisas estranhas de um amigo muito próximo é mais fácil lidar com aquilo pois compartilhamos outras histórias, laços de confiança e conhecemos qualidades que compensam os “defeitos”.
  • Sobrecarga de informação: esse é um problema também da Internet. Isso existe desde Gutemberg, mas nunca tivemos todo o conhecimento da humanidade (ou grande parte dele) nas nossas mãos o tempo todo. Ter amigos interessantes (e eles sempre são, por isso os escolhemos como amigos) piora as coisas pois eles estarão publicando coisas que nos interessam o tempo todo.
  • Obrigações sociais: Uma pessoa nos chama para sair, mas queremos sair com outra. O que dizer para a primeira sabendo que ela acabará sabendo que foi trocada por uma outra amizade? Até antes da Internet simplesmente mentíamos e, poucas vezes, éramos pegos no restaurante com a pessoa dois depois de termos dito que iríamos para a cama mais cedo por causa de um resfriado.
  • Círculos fechado de desafetos: você brigava com alguém antes da Internet e simplesmente se afastava da pessoa. Agora ela estará sempre aparecendo na sua TL, todos seus amigos notarão que vocês não estão mais se falando criando “climões” dos quais não podemos fugir.
  • Exclusão dos desconectados: quem não tem whatsapp, Facebook ou Twitter acaba excluído dos grupos. Como se morasse em um bairro distante sem telefone. Ninguém deve ser obrigado estar na Rede para ter amigos, ninguém devia ser obrigado a ter que lidar com todos os desafios dela somente para poder ser alcançado ou alcançada pelos amigos.
  • Falta de prática do pensamento linear: nosso raciocínio é naturalmente associativo, é preciso se treinar para abordar as coisas sequencialmente como “pegar o livro, ler um capítulo, escrever sobre ele”. Na Internet acabamos cedendo a “Link interessante sobre calçados, artigo associado sobre exercícios, vídeo no Youtube com música para malhar em casa, clipe novo da Madona, por onde anda a Cyndi Lauper? Google Cyndi Louper… Olha ela fez Goonies! Abre o Netflix”
  • Centenas de coisas novas que temos que aprender: como reconhecer um artigo ruim, uma matéria falsa, um golpe online…

A lista poderia ser muito mais extensa.

Me parece que a questão principal é que temos que observar na Internet o que está nos prejudicando ou que está prejudicando nossos amigos mais próximos e conversar com eles.

O narcisismo é um problema mais sério, mas uma pessoa que não é narcisista pode estar se sentindo fraca por ter encerrado um relacionamento, perdido um emprego e buscar compensação online fazendo #100DiasFelizes (ou podem ver todas as temporadas de Doctor Who em duas semanas). Elas precisam de ajuda, não para fugir da Internet, mas para enfrentar os problemas dos quais estão fugindo.

Seu amigo ou amiga adora tirar selfie e tem uma vida saudável? Deixa de ser mala e deixa a pessoa se curtir, ora bolas! 😉

Tá fazendo a viagem dos sonhos, teve a ideia de ouro, pensou numa ótima piada e quer compartilhar? Vai fundo! Mas se estiver fazendo isso para ter a ilusão de que te amam procure os bons amigos, aqueles que podem até estar do outro lado do planeta, mas em quem você pode confiar para contar o que está sentindo (mas sempre é melhor quando estão perto porque o olhar, o abraço são remédios poderosos!)

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