Quando assistimos Matrix quase todos nós torcemos para o New escolher a pílula vermelha, a que lhe mostrará o mundo real, mas nós fazemos isso?

Mais importante: nós somos capazes naturalmente de ver o mundo real?

Nós evoluímos para reconhecer padrões de enfrentamento e fuga no mundo natural, ou seja, ao ar livre onde caçávamos, coletávamos ou éramos caçados.

Pode-se dizer que isso é o mundo real de fato, entretanto uma enorme parcela da nossa civilização nascerá, viverá e morrerá em outra realidade: sistemas monetários, estruturas políticas que gerenciam “tribos” de milhões ou até bilhões de indivíduos, situações sociais que só ocorrem entre os estreitos corredores de prédios em grandes cidades etc.

Não são suficientes para abandonarmos os processos e padrões cognitivos antigos os 10 ou 13 mil anos desde que passamos a nos fixar em povoados e menos ainda os 500 anos mais recentes que mudaram tantas coisas quanto os milhares de anos anteriores.

Decidi falar sobre isso depois de esbarrar em um artigo sobre “viés cognitivo” e outro sobre “distorções cogntivas” (ambos em inglês). O primeiro artigo é mais interessante enquanto o segundo tem um foco mais superficial mirando apenas na ansiedade e depressão que podem ser geradas por essas dificuldades cognitivas.

É claro que toda dificuldade em perceber adequadamente a realidade gera estresse, ansiedade e depressão, no entanto, mesmo quando não sentimos esses sintomas, eles tornam mais difícil lidar com a nossa realidade.

Resolvi fazer a minha própria lista. Alguns dos meus itens estarão também nesses dois artigos, mas vou comentar a partir de um ponto de vista mais antropológico (e memético, claro).

É importante destacar que falo em casos extremos em cada um dos itens a seguir, mas as formas mais suaves também atrapalham nossa capacidade de ver o mundo como realmente é.

Além disso… Acredite em mim, sem treinamento consciente não somos capazes de compensar as falhas desses processos e dissonâncias cognitivas.

  1. Egocentrismo: Nós temos a tendência de tentar entender o mundo a partir da nossa experiência pessoal e assumimos que os outros tem que ser similares a nós e até se curvar à nossa visão.
    É fácil imaginar como isso surgiu durante os 190 mil anos da nossa história (e talvez até em humanos anteriores ao Homo Sapiens) quando formávamos pequenos grupos nômades onde certamente éramos equalizados.
    Quando temos que viver em uma coletividade muito maior esse processo cognitivo se transforma em um problema que nos leva ao egocentrismo que é tão comum em conflitos religiosos, debates sobre direitos de minorias e até em grupos de colegas que reúnem várias classes e culturas e já não são equalizados.
    Pode estar ligada também à falta de mitos modernos de transição para a fase adulta mantendo muitos de nós em um estado infantilizado e egocêntrico… E não se engane, é bem provável que você seja vítima disso.
    Nos artigos acima foi chamado de “falácia da mudança” no segundo e projeção no primeiro.
  2. Generalização: tomamos como padrão algo que aconteceu conosco apenas uma vez ou poucas. Esse dispositivo funciona muito bem quando vivemos em ambientes restritos e percebemos, por exemplo, que o gelo do lago quebra quando passamos por cima. É melhor errar pelo excesso de cuidado, ou melhor, sobrevive mais tempo e reproduz mais aquele que generaliza mais rapidamente os perigos.
    Em uma realidade que não tem fronteiras a generalização se transforma em uma desvantagem cognitiva levando-nos a certezas incorretas, desde algo sem grande importância como “meu celular deu defeito na primeira semana, então essa marca é ruim” até outras literalmente mortais como “religiosos são todos loucos homicidas”.
    Só o segundo artigo falou nisso. Usei o mesmo nome.
  3. Percepção seletiva: Na vida selvagem temos que filtrar rapidamente o que pode nos ameaçar e o que pode nos alimentar. O resto é excesso de informação que temos que filtrar. Podemos até imaginar quando a nossa espécie passou a perceber, por exemplo, a Via Lactea! Me parece que não foi antes da era agrícola.
    Quando vivemos em uma situação estranha para os nossos instintos e capacidades cognitivas (praticamente qualquer grupo minimamente civilizado) nos tornamos animais inseguros e ansiosos. Nossa capacidade de seleção falha e deixa, por exemplo, de separar alimentos bons de ruins, movimentos perigosos (um predador) ou bons (uma presa) passando a buscar ameaças psicológicas e confortos emocionais.
    Para ser mais claro: vemos um mundo repleto de comportamentos perigosos de um lado e de reafirmações da nossa percepção egocêntrica do outro.
    Está aí bastante dos preconceitos (como a homofobia e misoginia que são os da vez por motivos que um dia ainda discutirei) e dos fanatismos religiosos.
    Os artigos chamaram de filtro e observação seletiva.
  4. Auto-comiseração: Ela pode ser fruto da depressão causada pelo reconhecimento (ainda que inconsciente) de que o mundo não gira ao nosso redor (egocentrismo, o primeiro item), mas também pode ser reflexo de uma estratégia de sobrevivência que tenta buscar apoio na empatia do restante do grupo ao se mostrar inadequado ou inadequada.
    Quase não incluí esse item por não ser precisamente um processo cognitivo, mas uma estratégia. Um exemplo simples é quem se diz feio para receber elogios ou quem critica o próprio trabalho antes de apresentá-lo para diminuir as expectativas aumentando assim a possibilidade de superá-las depois.
    Mantive porque, mesmo que seja algo derivado de fatores não cognitivos, acaba se tornando uma estratégia inconsciente para quem recorre demais a esse expediente.
    Foi chamado de “desqualificação do positivo” num dos artigos.
  5. Reafirmação: Quando procuramos aprofundar nossos conhecimentos, dados e interpretações damos preferência à reafirmação do que nos deixa confortáveis (ainda que algo perturbador algumas vezes seja o que nos deixa confortáveis, como “o mundo está a caminho do fim”).
    Está bem ligado ao primeiro item (não foi por nada que o coloquei em primeiro e disse que é um dos piores) já que nos sentimos melhores com uma má notícia que confirme nossa percepção egocêntrica do que uma boa que a negue.
    Você pode reconhecer que está cedendo a essa falha cognitiva sempre que sentir desconforto com dados ou conclusões lógicas rejeitando-os e procurando negá-los com raciocínios falaciosos. Exige coragem.
    A origem disso em nosso caminho evolutivo pode estar em parte na necessidade de encontrar grupos que sejam compatíveis com a nossa abordagem evitando que nos tornemos párias o que, em condições primitivas, seria mortal. Um indivíduo não era capaz de sobreviver sozinho até uns poucos milhares de anos.
    Foi chamado de Viés de Confirmação num dos artigos.
  6. Xenofobia (por falta de nome melhor): Esse é o desdobramento do anterior e consiste em assumir que o nosso grupo está certo rejeitando e até demonizando o que é externo a ele.
    Naturalmente isso nos favorece em pequenas tribos reforçando nossos laços, mas na realidade nova em que vivemos todas as tribos interagem sendo quase impossível se fechar em um grupo.
    Infelizmente parece haver nações fechadas em torno de um ou outro grupo religioso (eu disse parece pois isso é uma simplificação). No entanto também temos isso em menores escalas em grupos políticos no Brasil (incluindo grupos de eleitores) por exemplo.
    É claro que dificilmente um grupo detém a visão completa da realidade e essa segmentação limita nossa capacidade de compreender o nosso mundo, nosso ambiente e a nós mesmos.
    Foi usado Viés de Grupo num dos artigos. (ver pesquisa do Instituto Max Plank para psicologia evolutiva citada na revista Mind americana de março)
  7. A ratoeira do apostador: Quando algo se repete várias vezes assumimos que se repetirá sempre ou, pelo contrário, que acontecerá diferente porque já “queimou” as possibilidade. Um exemplo bem simples: jogamos uma moeda na mesa e dá cara 5 vezes e assumimos que a possibilidade de dar cara é diferente de 50%. Não é 😉
    A capacidade de raciocinar não é gratuita, nem mesmo é barata. Toda economia que o cérebro puder fazer é uma grande vantagem e, num ambiente natural, funciona muito bem, mas não no habitat e regras artificiais que criamos.
    Isso não é um problema apenas para quem se envolve com jogos de azar. Nós delegamos decisões importantes ao mesmo sistema de avaliação como, por exemplo, ao ignorar nossos instintos ao encontrar uma situação de perigo porque “já queimamos as chances de entrar em perigo”.
    Foi chamado de falácia do apostador, mas não é uma falácia.
  8. Orgulho do comprador: A gente faz uma compra estúpida, mas encontramos justificativas para ela evitando a vergonha de admitir que fizemos algo estúpido.
    Com esse exemplo parece uma trivialidade, mas acontece com ideias também.
    A pessoa se envolve com uma nova religião (ou posição filosófica, política ou uma ideia) apoiando as pessoas ou instituições que as apresentam. Em um dado momento fica claro que aquilo está absurdamente errado (é mais fácil encontrar exemplos em religiões, mas o mesmo ocorre com formas de ateísmo, ufologia, posições políticas e filosóficas).
    Mais uma vez o primeiro item se faz presente… (Eu disse que era o pior).
    Chegamos a mentir para nós mesmos para rejeitar a vergonha de ter defendido uma ideia absurda ou claramente errada. Isso gera angústia, é claro, mas somente depois de gerar uma visão de mundo cada vez mais distante da realidade (seja ela natural ou virtual como essa em que vivemos).
    Foi chamado de racionalização pós-compra num dos artigos.
  9. Sou minhas ideias (nome péssimo… Sugestões?): Também é fruto do primeiro item. Adotamos nossas experiências, ideias e percepções do mundo como se fossem nós. Colocar qualquer uma delas em dúvida é um ataque individual.
    Ela gera também a falácia do ataque ao adversário em que tentamos desqualificar uma ideia ao diminuir quem a está defendendo.
    Essa é uma abordagem que deve ter sido muito útil quando a experiência era quase tudo que tínhamos.
    Nosso instinto para saber quando atravessar ou não um rio era o nosso diferencial competitivo para ter uma posição de destaque na tribo. Colocar isso em dúvida era, de fato, um ataque direto e individual.
    Em um mundo virtual e elástico como é a civilização que nós construímos  (talvez toda civilização seja assim… Assunto para outros posts) o diferencial competitivo é a capacidade de adaptação e não o apego a ideias.
    Essa pode ser pior para o indivíduo do que todas as outras pois o impede de se conhecer. A pessoa se confunde com suas ideias tornando-se rígida, engessada, estagnada.
    Tem mais… Podia criar um item só para isso, mas deixarei aqui: esse equívoco cognitivo também gera uma estagnação nos demais setores da vida da pessoa: essa é a minha personalidade, esses são os meus defeitos, esse é o meu corpo, esses são os meus limites.
    Também pode nos levar a nos definir a partir de um hábito: se não beber refrigerante ou comer carne não sou eu.
    Esse não está em nenhum dos dois artigos.
  10. Involucionismo: A insegurança diante do mundo em transformação e transição entre sistemas de valores e ética produz a sensação de que hoje é pior que ontem e amanhã será pior que hoje.
    A construção de mundos “cor de rosa”para as crianças que “afinal serão crianças apenas uma vez” e “terão que sofrer no no mundo real então vamos poupá-las agora” também cria uma transição inevitável de um período onde a vida era boa (e de mentira) para uma realidade ruim durante o restante dos 90% da vida da pessoa.
    Esse é outro exemplo de dissonância cognitiva moderna que pode ser fruto da nossa dificuldade em nos ajustar à recente realidade virtual da civilização.
    Também não está nos dois artigos.
  11. Caso especial: A convicção de que coisas ruins que acontecem a, digamos, 90% das pessoas não acontecerão conosco e coisas boas que somente 1% consegue atingir estão à nossa espera.
    É outro fruto do primeiro item, da percepção de que o mundo gira em torno de nós.
    Para piorar a situação a dissonância cognitiva da percepção seletiva pode facilmente nos dar a impressão de que realmente somos favorecidos pelo Cosmos ou por alguma divindade criando assim um sistema de retroalimentação que nos impossibilita cada vez mais de perceber a realidade sobre nós mesmos e sobre o mundo ao redor.
    Num dos artigos que linkei foi parcialmente coberto por “Negação das Probabilidades”. Achei melhor apresentar uma possível explicação de por que ela acontece.
  12. Prazer e compensação: Esse também não é precisamente um processo cognitivo, mas é um método de decisão. Para dar um exemplo que muita gente achará útil: sabemos que uma refeição saudável nos dará muito mais compensação, mas temos uma enorme dificuldade em optar por ela se tem um alimento mais prazeroso ao nosso alcance, mesmo que saibamos que ele mal é um alimento. Vale para exercícios também: dormir ou correr?
    É claro que há problemas muito maiores nesse procedimento de decisão que nos leva a evitar mudanças e nos prende tanto individualmente quanto coletivamente a um ciclo vicioso. Destaque para a necessidade de restringir prazeres (inclusive econômicos) a fim de recuperar o equilíbrio climático do planeta, por exemplo.
    Esse pode não ser a falha mais fundamental, entretanto pode ser a mais nociva.
    Ficou como viés do momento (ou do imediatismo) em um dos artigos que linkei lá no começo.

O Antídoto

Essa lista nem mesmo é extensiva… Enfim: não estamos naturalmente preparados para entender o mundo que nós criamos coletivamente e sem planejamento, então o que podemos fazer?

A ciência não basta.

Ela é uma ferramenta surpreendente a ponto de muitos a considerarem perfeita para sua função, mas nós não somos perfeitos e erramos no uso dela.

Além disso nem tudo pode ser abordado cientificamente, ou seja, a ciência não é um canivete suíço e precisa de outras ferramentas se pretendemos entender emoções, arte, intuições e, quem sabe, o metafísico?

Apesar de estarmos filosoficamente impedidos de observar a realidade (inclusive não dispomos de dados) podemos evitar cada vez um número maior de dissonâncias cognitivas ou processos cognitivos obsoletos.

O primeiro passo é ter o desejo de respeitar a realidade, entender que buscá-la nunca será agradável, sempre gerará desconforto pois evoluímos para sobreviver e reproduzir, não para desvendar o Cosmos. No entanto o desconforto não é garantia de estarmos seguindo no caminho certo já que coisas boas realmente acontecem tanto local quanto globalmente.

O segundo passo é observar nossos sentimentos tentando identificar nossas falhas cognitivas ou raciocínios falaciosos. Procurar não nos apegarmos a convicções inclusive “brincando” de ficar contra nossas próprias ideias. Aliás isso é parte essencial da ciência.

Uma ferramenta muito útil está em algumas obras de fantasia e ficção científica: imaginar formas de consciência e processos cognitivos totalmente diferentes dos nossos.

Temos que nos libertar do nosso próprio ponto de vista buscando outros pontos de visão: Como seria uma inteligência que só conhece as profundezas escuras de um oceano subterrâneo?

Vou dedicar vários posts ainda a antídotos para as nossas dificuldades naturais para explorar a realidade que construímos.

Em todo caso a primeira regra, a regra de ouro, aquela que devemos ter sempre em mente a cada passo:

Duvide de tudo, principalmente de você e das suas convicções. Todas as ideias devem ser atacadas e desrespeitadas sem dó e sobreviver ou serem descartadas. Não se apegue a quem você é hoje ou se apegará também às ideias.

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