Imagem: Instagram – Gazeta do Povo – Marcelo de Oliveira

 Desde o esfriamento das manifestações em 2013 tenho defendido a hipótese de que não haveria nova onda de protestos nacionais comparáveis até depois dos Jogos Olímpicos, mas não cheguei a comentar os motivos. Farei isso agora, mas antes vamos contextualizar.

Desde então as manifestações não sumiram, contudo foram incapazes de atingir massa crítica e se espalhar pelo país. Tivemos protestos (e motivos para protestar) sobre quase tudo nos últimos dois anos, desde reivindicações de respeito pela população das periferias até mobilizações contra a democracia.

No mês passado 50 mil pessoas foram às ruas no Paraná pela educação. Era de se esperar que esses protestos fossem a gota d’água para reacender mobilizações nacionais. Houve reflexos, mas pouco significativos e insuficientes para obter o apoio da mídia como chegou a ocorrer em 2013.

Manifestantes x Tropa de Choque no Paraná

As cenas das mobilizações são tão emocionantes ou até mais do que as de 2013, apenas sem a violência policial que catalisou a revolta popular no Rio e em São Paulo em 2013, mas tem havido violência contra caminhoneiros em greve.

O que está acontecendo (ou o que falta acontecer)?

Duvido da suposta “mídia golpista”. Posso concordar que há sinais de que, depois de décadas no governo, partidos como PSDB e PMDB ainda tem bons relacionamentos com grupos de mídia que não fazem grande esforço para comprometer esses partidos.

No entanto o interesse maior da mídia é vender e, para isso, é útil manter boas relações com o governo vigente e com os mais fortes candidatos para governos futuros, ou seja, ela também não se apressará para enfrentar a situação (exceto no caso de alguns veículos específicos).

Além disso a mídia, espero, sabe que pode ser o elemento catalisador de manifestações virais que não tornam seu trabalho mais fácil; podem criar situações delicadas com as forças no poder e, frequentemente, acabam se virando contra a mídia.

Estou dizendo que, sem a mídia não há mobilização nacional? Não.

O que estou dizendo que, sem a mídia só há mobilização nacional se houver outro catalisador. Em 2013 foi a violência do Estado contra os cidadãos. E agora?

Além disso é necessário que apareça outra estratégia de ocupação do espaço público que dê ao cidadão a sensação de que estará seguro contra a violência do Estado. Sem isso o gatilho para disparar mobilizações públicas massivas tem que ser muito mais sério, algo que faça com que as pessoas em casa se sintam sobre sério risco de dor física ou morte caso não se mobilizem nas ruas.

Portanto essa é a minha hipótese: as manifestações não estão se viralizando pela falta de um gatilho que suplante o receio da reação do Estado e/ou o surgimento de uma forma de ocupação segura das ruas.

Além disso há o fator Jogos Olímpicos.

Da mesma forma que indivíduos tem o impulso natural de agradar visitas, grupos sociais querem ser aceitos por outros grupos sociais.

A Copa do Mundo não foi capaz de fazer esse efeito pois “o sangue ainda estava quente” e o futebol sempre foi considerado um ópio do povo gerando um desejo consciente de mostrar que “gosto de futebol, mas não sou alienado”.

Já os Jogos Olímpicos tem outra conotação e não estamos com “sangue quente”, pelo menos não em massa. É basicamente por isso que trabalho com a hipótese de que não haverá mobilização nacional antes do fim dos Jogos.

Por outro lado o Estado não tem sido violento. Se essa percepção se espalhar entre a população podemos esperar intervenções performáticas em torno dos Jogos Olímpicos, tanto no Rio quanto em outras cidades.

O Impeachment e 15 de março

(a hipótese a seguir acabou sendo falseada. Vou comentar mais abaixo 18/04/15))

Nada acontecerá no dia 15, pelo menos é a minha hipótese desde que soube da articulação.

Bem… Por nada quero dizer nenhuma manifestação acima da faixa das 10 mil pessoas (em cidades como São Paulo e Campo Grande – MS) ou 4 mil em Recife, Rio etc.

O motivo da hipótese não é porque a causa é irracional (não há provas etc) afinal as massas podem ser irracionais e alienadas das suas leis com grande facilidade, principalmente porque movimentos de massa são fortemente emocionais e emoção é um dos mais poderosos alucinógenos para a razão e o bom senso.

Por outro lado emoções duram pouco tempo.

Se fosse uma mobilização relâmpago logo nos dias seguintes a uma campanha midiática que criasse a percepção de que havia provas contra a presidente talvez fosse possível reunir dezenas de milhares de pessoas por cidade.

Outros fatores que enfraquecem a mobilização de forma sutil, mas que podem se propagar pelas redes meméticas subterrâneas, são justamente casos como o do Paraná, a recusa dos políticos do PSDB em apoiar uma CPI para o caso HSBC e outras notícias que enfraquecem a imagem de uma suposta oposição ao PT.

Algumas coisas podem mudar esse quadro como uma nova campanha jornalística que convença a população de que há provas contra a presidente (no dia 11 ou 12) ou, pouco provável, o dia virar um protesto genérico contra a classe política.

Coloco essas previsões aqui como instrumento para falseamento das hipóteses futuramente.

Atualizando em 18/04/15

A hipótese falhou e não foi por ter havido algo novo que tenha convencido as pessoas a ir à ruas. Esse é o caso típico em que temos que abandonar uma hipótese e buscar outra.

De acordo com o Data Folha 210 mil pessoas foram às ruas em São Paulo no dia 15 de março. Um mês depois, no dia 12 de março uma segunda mobilização já mostrou algum enfraquecimento, mas ainda levou um número de pessoas às ruas que não pode ser ignorado.

Pesquisas do perfil dos manifestantes feitas em Porto Alegre (15/03) e em São Paulo (12/04) corroboram a hipótese de que se trata de um extrato com boa formação cultural e recursos econômicos, mas politicamente mal informados e ingênuos em suas escolhas de fontes de informação.

Há evidências que muitos deles participavam pela primeira vez de uma manifestação (infelizmente não suportado por uma pesquisa, apenas por algumas entrevistas ao vivo).

É provável que estejamos vendo nas ruas uma parte da sociedade que se alienava do processo político. Que dificilmente iria a qualquer manifestação pública.

É possível que a pressão desse contingente volte a encher as ruas bastando que os veículos em que eles confiam criem a impressão de que o impeachment é viável.

No entanto resta a pergunta se haverá reflexão, um aprofundamento no questionamento político que lhes mostre que o impeachment é mais fumaça e sombra do que o início de algum tipo de ação eficaz contra a corrupção.

No momento eles demonstram mais inclinação a enveredar pela negação da democracia do que para o seu fortalecimento (seria um ponto interessante a abordar em uma pesquisa) que pode emanar do seu histórico alienado de não participar como cidadãos da história do país.

Fim da atualização em 18/04/15

As pazes com a mídia

Por que as pessoas parecem ter voltado a acreditar na mídia?

“O único programa que presta é o Jornal Nacional”

A frase dita em um vídeo que criticava o BBB e foi muito compartilhado em 2013 sem que muita gente reclamasse da qualidade do jornalismo da Globo.

As sociedades modernas precisam de um olho público para criar a percepção de tribo em grupos que chegam a centenas de milhões de indivíduos, assim, ainda que não se confie na mídia quando ela contraria os nossos interesses, temos a tendência de aceitá-la quando fala de interesses com os quais nos identificamos menos como professores de outra cidade e caminhoneiros.

Foi apenas quando houve violência do estado contra a população em 2013 e ela pareceu acobertar que se formou um certo consenso anti-midiático que levou inclusive a ataques diretos contra alguns veículos jornalísticos.

Passado esse período voltamos a aceitar mais ou menos passivamente o que ela decide nos apresentar.

A polarização PT x PSDB

Esse é outro viés cognitivo que já  vi apontarem como um tipo de conspiração para distrair a opinião pública, que os dois partidos e seus candidatos se dão muito bem uns com os outros.

É fácil ter a impressão de que a maioria das pessoas entrou nesse jogo e reduziu a complexidade da economia, política etc. a um embate entre direita e esquerda, entre PT e PSDB…

Ah! Sim! Direita e esquerda… Isso é tema para um post separado, espero que baste por hora dizer que nosso viés cognitivo nos leva a essa polarização ainda que ela não exista, ou seja, os partidos não são de direita ou de esquerda, mas uma parte das pessoas tende a votar no que lhes parece ser esquerda e outra no que parece ser direita.

Então o marketing político procura nos entregar essa polarização.

No entanto os políticos não são o núcleo das decisões. Nem políticas e muito menos culturais, econômicas etc.

Competem na influência dos rumos da nossa civilização tanto a inteligência coletiva da sociedade (influenciada pela mídia, cultura, exposição a outras culturas online, crenças…) quanto interesses internacionais e corporativos além do zeitgeist (que é um tipo de força memética, outro assunto para post…)

É natural que nosso impulso seja simplificar a gestão do país à disputa entre dois partidos políticos ignorando inclusive a estrutura do nosso sistema democrático que impedem que o governo monopolize o poder, mas não é realista.

Também é natural que nem a classe política e nem a mídia queiram se esforçar para desfazer essa visão simplista porque nem é interessante para os seus interesses e nem é fácil (inclusive estou duvidando muito que algum leitor desse artigo vai entender).

Ainda assim tenho a impressão de que o eleitor em geral, as classes C, D e E não estão sob a influência do mesmo viés em virtude da longa história de abandono pelo Estado.

Podemos inferir isso do resultado das eleições que não mostram uma clara identificação dessas classes com o governo supostamente mais à esquerda do PT, por exemplo.

Resumindo

Estou lidando com essas hipóteses:

  • A população não está aceitando a polarização política direita x esquerda
  • Manifestações contra ou a favor dessa polarização só encontrarão eco em cidades com tradição para um lado ou outro
  • As pessoas estão esperando um estímulo muito sério para ir às ruas ou o surgimento de uma estratégia de ocupação do espaço público que não pareça arriscada (desde 2011 conto com instalações performáticas-artísticas)
  • Não haverá manifestações nacionais até o fim dos Jogos Olímpicos (talvez apenas em 2017) por desejo de não fazer vergonha internacional e receio de reações mais violentas do Estado
  • Temos experimentado um estado permanente de protestos públicos chegando a 50 mil pessoas recentemente em Curitiba. Isso não é pouco e nos coloca no limiar de protestos nacionais que podem eclodir se houver um evento que faça a população se sentir fisicamente ameaçada caso não vá para as ruas ou se tiver a impressão que o Estado não voltará a usar a violência (acho que voltará se for ameaçado novamente)

Links

Esses links mostram que o caso presente não é menos sério que o de 2013.

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