Imagem: MC Dadinho lança o Passinho do Romano (34 milhões de views de maio/14 a março/15)

Temos o impulso de “completar” os hiatos da nossa percepção e poucas coisas tem mais hiatos que as fronteiras sociais. Em consequência nos tornamos míopes ou até cegos para a nossa própria realidade e isso é sério. Muito sério.

Ontem peguei uma van no Leblon e me dirigi a Guadalupe para assistir um documentário sobre o Passinho do Romano no Ponto Cine junto com duas turmas de alunos do sétimo ano. Projeto em conjunto com a Globo News e o Globo Universidade. Nas palavras do release:

Sessões de cinema com gostinho de encontro cultural.  Esta é a proposta da Mostra GloboNews de documentários, uma nova edição do Papus, fruto do Menos30 – plataforma de relacionamento da Globo com o público jovem. A cada segunda-feira, entre os dias 23 de março e 13 de abril, profissionais do setor audiovisual, universitários e especialistas se reunirão para assistir a documentários produzidos pela GloboNews e, em seguida, participar de um bate-papo com convidados especiais. O Ponto Cine Guadalupe, primeira sala popular de cinema digital do Brasil, localizado na zona norte do Rio, é parceiro da Globo nesta iniciativa e será o anfitrião do encontro.

Tudo nessa história é interessante, desde a jornalista cega que vê (e dança) melhor que muita gente até o espaço em Guadalupe onde ocorre, mas para esse blog o ponto principal é a construção de uma visão mais precisa da nossa sociedade.

Quem atravessa com frequência as fronteiras invisíveis de cidades grandes sabe que são muitos países em uma área muito pequena. E estávamos indo para Guadalupe para ouvir uma história de São Paulo, uma das periferias mais distantes de São Paulo, o Jardim Romano, onde nasceu o Passinho do Romano.

Nosso impulso inconsciente para preencher hiatos provavelmente já está desvendando toda a verdade para você que lê esse artigo: Passinho é aquele jeito retardado de funkeiros dançarem.

No entanto a história do passinho pode nos revelar coisas inesperadas sobre o tão menosprezado “povo” e até sobre a tão superestimada “elite” do país (opinião do autor, ok?)

Entretanto antes de entrar no Passinho de São Paulo…

O ponto mais alto do evento foram os alunos na faixa dos 12 anos. Quase todos com a pele marrom que caracteriza a “cor do povo” brasileiro. Eles assistiam um documentário chato. Sim, para um jovem de 12 anos até um documentário sobre a própria cultura dele é chato pois a estrutura de documentários não costuma ser planejada para eles. No entanto ouviam atentamente. Faziam alguma bagunça aqui ou ali e eles mesmos se repreendiam (com ajuda de umas duas ou três professoras presentes). Quando queriam sair para ir ao banheiro pediam desculpas, diziam obrigado, mas não com submissão e sim com educação. E havia o sorriso. Forte e sincero.

É claro que isso é uma das chamadas evidências anedóticas e aqueles cinquenta alunos e alunas podem não representar seu grupo completamente, mas espero que essa seja uma primeira pulga atrás da orelha do leitor da “elite”.

Costumo destacar “elite” e “povo” entre aspas não para seguir a onda raivosa que considera a elite como parte de uma conspiração contra o restante da população e nem para idealizar um povo perfeito, mas porque a era da informação transforma a essência das diferenças entre os grupos sociais no Brasil (e em qualquer outro país na verdade). O que diferencia “elite” e “povo” já não é mais a qualidade da cultura, mas o engajamento na cultura, por exemplo.

E aqui faço um salto sobre o abismo para chegar ao primeiro ponto chave desse artigo: O Passinho e similares são uma cultura auto-suficiente (ou quase)

Ao conhecer a história do Passinho do Romano (e de outros movimentos de MCs, Funk, HipHop) percebemos que trata-se de uma cultura auto-suficente, que se constrói a partir dela mesma, dos elementos e modelos da própria comunidade.

O criador do Passinho do Romano, que morreu em um acidente de moto um ano antes do documentário ser feito, não sabia dançar então criou os passos desconjuntados e difíceis de conectar a outras unidades culturais.

Primeiro seu passinho explodiu em sua comunidade, depois ganhou São Paulo, me parece, com o sucesso do clipe do MC Dadinho que usei para ilustrar esse post:

Em pouco menos de uma hora o documentário nos mostra um ecossistema que lembra o tecnobrega.

Tem produtores de vídeo como o Kaique Alves (valeu pela anotação Bia Quadros) que fica atrás das câmeras, aprendeu boa parte do que sabe no Youtube e hoje tem equipamentos profissionais de filmagem e até um drone. Ele é um empresário de 16 anos. É do tal povão despreparado, que não sabe votar de acordo com as pessoas que se apressam em preencher as lacunas sem o devido cuidado de se certificar de que estão preenchendo corretamente.

Há professores de canto, de dança, empresários e o dinheiro gerado já é usado para contratar músicos profissionais para fazer a batida, por exemplo.

Faz tempo que os sonhos dos jovens das periferias já não se dividem apenas entre o tráfico que está aberto para todos e o futebol que está fechado para a maioria.

Ser um MC está entre um e outro, mas ainda não é uma alternativa tão… democrática quanto o tráfico e outras atrações.

É necessário ter talento (sim, deixe seu preconceito de lado, é preciso talento, admita) para compor, dançar, administrar o negócio e as festas. Além de ter espírito empreendedor, coisa cada vez mais comum na classe C (procure por artigos no meu Delicious).

As opções mais abrangentes para os jovens das periferias deveriam estar na carreira acadêmica e preparação para preencher as necessidades de mão (e mente) de obra de uma civilização cada vez mais industrializada e “informacional”. As posições de trabalho podem até ser encontradas nos empreendimentos das próprias comunidades, mas infelizmente temos poucos estudos que mostrem uma visão geral das ofertas de emprego e do perfil dos jovens em nosso país.

E aqui chegamos ao segundo ponto chave desse artigo: para ver melhor precisamos de estudos e estatísticas.

Certamente grandes empresas fazem pesquisas para identificar o perfil dos seus consumidores e, apesar de vermos diversos casos de falha de marketing (cervejas e beleza lideram a lista), temos que admitir que essas falhas podem ser apenas outra deficiência da nossa percepção ao analisar pelo nosso viés cognitivo. Pode ser que as campanhas funcionem perfeitamente para seus públicos alvo, basta ver o resultado nas vendas. A propósito novelas são outro bom exemplo disso: algumas das novelas de maior sucesso foram alvo de campanhas de boicote.

No entanto é justamente a mídia que pode ter um papel determinante no estudo da nossa sociedade pois as empresas de bens de consumo guardam suas pesquisas para si como informação estratégica enquanto a mídia vive, ou deveria viver, de nos oferecer instrumentos para olharmos para nós mesmos.

Infelizmente esses estudos tem sido pífios limitando-se, por exemplo, à contagem de manifestantes em protestos públicos, mas qual era o perfil deles? O percentual de jovens? As classes sociais representadas? As ideologias políticas?

Espero que iniciativas como o Menos30 se estendam, se multipliquem e ganhem mais destaque na mídia, inclusive movendo conteúdo da Globo News (e similares) para a grade aberta. Nós precisamos de ferramentas para nos ajudar a entender 200 milhões de pessoas que estão inseridas em um universo de outras 7 bilhões…

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