O gigantesco prédio na imagem acima é a Torre de David (imagem via Cochinopop em artigo sobre a série Homeland), a mais alta favela vertical do planeta.

Na segunda-feira passada assisti um documentário da Globo News sobre a história, estrutura social e política da Torre de David no centro de Caracas, na Venezuela.

Foi o segundo de quatro documentários de uma série que já comentei no artigo Para ver melhor: Passinho do Romano.

O documentário é estritamente jornalístico e não faz julgamentos de valores concentrando-se em nos transmitir uma visão satisfatoriamente imparcial.

Construído para ser parte do centro comercial de Caracas o prédio ficou abandonado por mais de 10 anos até ser ocupado por sete anos quando o governo começou a promover sua reintegração de posse deslocando os moradores para um conjunto habitacional construído a 80km do centro. Esse processo continua em andamento enquanto escrevo esse post.

Vemos que, ao longo dos 7 anos de ocupação, formou-se uma estrutura social dentro do prédio de 50 andares (ocupado até o 28º por impossibilidade de levar água e luz mais acima) com delegados para cada andar, regras de comportamento (o comércio de bebidas e drogas é proibido e os moradores criminosos foram afastados da comunidade). Fica claro que ali foi construída uma história social.

Os moradores tinham a vantagem de estar colados no centro da movimentação social, política e econômica do país permitindo o surgimento de pequenos negócios e participação da vida econômica seja como funcionários, ambulantes ou autônomos.

O grau de organização da comunidade é impressionante e acima da média, mas não é um fenômeno exclusivo da Torre de David.

Ao fim do documentário vemos a aproximação do governo levando lazer e médicos para o edifício como parte do processo de convencimento daquela comunidade para aceitar ser deslocada para longe da cidade. É notável que o próprio ministro participe e que os membros da comunidade pareçam aceitar a aproximação do governo nos fazendo pensar que, ou o nosso governo é bem mais violento que o da Venezuela (principalmente no Rio e em São Paulo) ou nosso povo está muito menos iludido que o da Venezuela. Esse é um ótimo tema para reflexões futuras.

Seguiu-se um debate com Júlio Molica (Gnews), Rodrigo Carvalho (Gnews), Marcus Faustini (Agência de Redes para a Juventude) e o urbanista Humberto Kzure-Cerquera que foi extremamente enriquecedor sobre o tema.

Júlio Molica (Gnews), Rodrigo Carvalho (Gnews) e Ana Paula Padrão (moderadora).

Júlio Molica (Gnews), Rodrigo Carvalho (Gnews) e Ana Paula Padrão (moderadora).

A experiência de Marcus Faustini, cujos avós eram moradores da comunidade Macedo Sobrinho no Rio de Janeiro fez a ponte da situação da Venezuela com a que vivemos no Brasil há, talvez, mais de cem anos. Ele chamou a atenção para a capacidade de organização desse extrato da população que é considerado “povão incapaz” (nas minhas palavras). A propósito vemos a mesma qualificação no caso do Passinho do Romano e do movimento funk em geral no Brasil.

Foi também o Faustini que lembrou da experiência de urbanização da Inglaterra que procura integrar a diversidade social à cidade.

As declarações mais contundentes vieram do urbanista Humberto Kzure-Cerquera que fez a contextualização histórica e observou que as cidades se encontram presas em um jogo de interesses entre políticos e grandes empreiteiras que alimentam o apartheid social que dissolve a cidade diversificada aumentando os hiatos entre as classes construindo um estado de violência mesmo quando não existe a agressão física, mas persiste a rejeição daquele extrato considerado pobre, marginal, e portanto discriminado e afastado do centro da vida social e econômica.

Ele observou a diferença entre o Favela Bairro que era positivo ao integrar a favela à cidade e o Minha Casa Minha Vida que repete o modelo que vemos na Venezuela transferindo a população “indesejada” para longe da cidade em conjuntos habitacionais mal projetados urbanisticamente (ou bem projetados, mas mal implementados).

Como podemos esperar a redução da violência se dividimos nossa sociedade entre ricos e pobres deixando bem claro que o país é para uns e não é para outros?

Esse processo se repete até mesmo em governos muito mais identificados com a esquerda (reforçando a ideia de que, sistemicamente, não existe mais essa distinção entre direita e esquerda ainda que nossa abordagem cognitiva individual siga esse padrão) como o da Venezuela sugerindo uma expectativa pessimista do nosso futuro.

Por outro lado:

  •  A capacidade de organização dos extratos marginalizados,
  • O crescente acesso à informação através da Internet e outros meios que não podem ser subtraídos por fazer parte das bases da economia digital que se impõe mais a cada dia e
  • A percepção dos grandes grupos de mídia que tem a maior parte do seu rendimento proveniente da audiência (alguns grupos menores são sustentados pelo aluguel direto de horário) e precisam se aproximar dos marginalizados…

Podem ser indicações de que as mudanças positivas são possíveis e até inevitáveis.

Me parece que o ponto central do debate foi o consenso de que a sociedade deve ser incluída nas decisões públicas, que comunidades como a Torre de David são evidências da capacidade da sociedade para o papel de protagonistas da sua realidade social, cultural e econômica.

Na plateia a grande maioria eram pessoas da terceira idade e alguns jovens que participam de um projeto local de integração entre as gerações. O ponto Cine pode não abrigar uma plateia de muitas centenas, mas sabemos como a transformação de um pequeno grupo, principalmente em tempos de Internet, pode se propagar. Ponto para o Ponto Cine e tantos outros projetos que muitas vezes nós, supostamente os formadores de opinião, não estamos vendo. Pense nisso antes de despejar opiniões sem pesquisar antes.

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