Esse é um dos grandes mistérios para as mentes mais críticas, os espíritos mais subversivos: a ocorrência de mobilizações sociais onde predomina a alienada paixão religiosa pelo futebol (ou outras paixões religiosas “opientas”).

Ao assistir o documentário Dossiê 50 de Geneton Moraes Neto, iniciado por uma empolgante leitura de Folhas de Relva de Walt Whittman feita por Paulo César Peréio conseguimos alcançar alguns insights que ajudam a desvendar o mistério, insights reforçados por evidências quando vemos o documentário no Ponto Cine em Guadalupe na companhia de uma grande plateia de jovens e alguns idosos daquelas classes sociais que são chamadas de “povo despreparado”.

Cheguei a twittar: Sabe aquele povo brasileiro alienado? Então… Eu não sei.

É claro que ali não estava representada a população média do Brasil e nem mesmo de Guadalupe, pode-se até dizer que era um tipo de elite da região, mas a região mostrou que tem contingente crítico de cidadãos capazes de escutar atentos as palavras de Whittman sobre o som dissonante de Mannerheim Street Blues (Andrey Dobrovolskiy) e participar do debate que se seguiu com Júnior (Copa de 1982), Escobar (jornalista esportivo) e Antônio Leal (produtor do Cinefoot) colocando aproximadamente metade das perguntas em questões socais e políticas como o legado da Copa e o papel social do futebol.

Assista o documentário na íntegra: Dossiê 50

O documentário não é político, é humano. Mostra o drama dos onze jogadores que foram rebaixados de heróis da pátria a traidores tendo perdido apenas o último jogo.

No entanto esses fatos históricos nos inspiram várias reflexões.

A busca de uma supremacia esportiva que concede honra ao governo que a “criou” nos faz lembrar dos fantasmas da supremacia ariana em busca de louvores para o Estado.

Lá está a gravação do general declarando algo como “Eu lhes dei o estádio, agora é sua obrigação nos trazer a vitória”.

Lá estava o assédio dos candidatos políticos disputando uma foto com os futuros heróis da nação (pelo menos nisso avançamos e os atletas já são menos ingênuos) e também o sonho dos futuros heróis de, com a fama, encontrar carreiras como políticos já que esporte não garantiria o futuro de ninguém.

Vemos como mudamos em sessenta anos, mas não totalmente. A carreira política ainda é um sonho para quem encontra alguma fama, de palhaços a polêmicos.

Durante o debate escuto que o futebol de cada país parece ligado à alma daquele povo. Que o nosso é rico na criatividade enquanto o alemão é estudado e metódico por exemplo.

O futebol reflete o povo ou o povo reflete o futebol? O mesmo ocorre com outros esportes? Talvez as coisas que uma cultura produz e essa cultura estejam inevitavelmente ligadas a ponto de ser difícil identificar causas e efeitos.

Depois da derrota, aliás, justiça seja feita como sugere o documentário e o debate que se seguiu: depois de conquistar o primeiro título em uma Copa do Mundo (vice-campeão), o que mudou no Brasil?

Ganhamos cinco Copas do Mundo, mais do que qualquer outro país. Nos tornamos a nação do futebol. Participamos das transformações do século XX passando por ditaduras e nos colocando como uma pátria mediadora (apesar de vendermos artefatos bélicos que alimentam guerras) e agora estamos aprendendo a viver uma democracia a trancos e barrancos que podem lembrar muito bem nosso comportamento em campo.

Perdemos de 7 a 1 para a Alemanha logo depois de irmos às ruas pedir por transparência na gestão pública (especificamente no transporte para começar), uma democracia mais participativa e mais poder para o combate à corrupção. Agora vamos novamente para o espaço público pedir a saída do partido que passou a representar toda a corrupção da classe política da mesma forma que, em 1950, procurávamos um culpado para a derrota.

Talvez isso tudo seja apenas nossa capacidade ímpar de encontrar padrões me levando ao erro, talvez realmente o espírito de uma sociedade transborde em tudo que ela produz, até mesmo no comportamento de onze esportistas que nem mesmo atuam mais no país.

O ponto notável é que a relação direta entre o pão e circo do futebol já não aliena mais. Talvez nunca tenha alienado.

É claro que há mais lazer no esporte do que mobilização política, mas é possível que, no núcleo desse descanso a semente das mudanças também germine. Fascinante.

Imagem: Know Your Meme