Ando envolvido febrilmente em projetos que ainda não estão prontos para serem publicados ou que não podem ser públicos e estou sem tempo de me dedicar a posts mais longos aqui no Meme, mas esse tema precisa ser abordado o quanto antes, até mesmo por um blog com alcance restrito e de nicho como o meu.

Você talvez tenha ouvido falar nisso como QAnon, mas, por uma visão memética essa mega teoria da conspiração – ou talvez seja mais apropriado chamar de proto teoria da conspiração – provavelmente é apenas uma “encarnação do fenômeno”, que aliás já andei comentando tangencialmente em outros posts, e tem uma capacidade de retenção das suas vítimas que tem pouco a ver com “ter empenhado muito tempo e energia” às crenças que compõe a seita como diz o vídeo que coloco abaixo e considero um ótimo ponto de partida para percebermos a seriedade do fenômeno (o ponto acima é praticamente o único que questiono):

Famílias destroçadas pelo QAnon – BBC News Brasil

Alguns pontos importantes do vídeo para o contexto desse post:

Antes de seguir: É preciso coragem…

Entendo que começar um post avisando que ele pode ser perturbador é uma estratégia ruim de retenção, mas é necessário para aumentar as possibilidades de você ler com a mente livre.

O desafio está basicamente em dois pontos:

  1. Independente de quem você seja provavelmente não está imune a esse vírus mental. É como um brasileiro querer se considerar totalmente livre do pensamento judaico-cristão… Aliás essa afirmação já pode causar uma certa resistência e por isso a escolhi. Mesmo vivendo longe de escolas, televisão ou mesmo dos hábitos mais comuns da nossa sociedade a cultura judaico-cristã nos envolve desde a língua: nossa! e como, não é? Deus me livre! 😉 até pequenos hábitos que passam despercebidos.
    A pós verdade, a desconfiança que temos em relação às instituições, a falta de chão que sentimos diante da instabilidade de tradições centenárias (que temos a impressão de serem milenares), para citar alguns fatores contaminantes, atinge todas as pessoas, inclusive você e eu.
    Isso implica em perceber que não temos pleno controle do que pensamos – muitas das propagandas que aparecem em nossas TLs não são porque os robôs nos ouviram, mas porque eles nos fizeram pensar naquilo antes
  2. Estamos diante da necessidade de mudanças profundas na estrutura da nossa civilização, mudanças que ainda não entendemos, que dificilmente seguirão no sentido que achamos mais adequado e que, mesmo que tenhamos milhões de seguidores, somos incapazes de influenciar.
    Somos testemunhas de mudanças que apenas nossos descendentes entenderão, mas cujos mecanismos temos necessidade de entender, ao menos para reconquistar algum controle sobre nossas vidas, diluir nossas ansiedades e perseguir a satisfação das nossas necessidades emocionais, sociais e criativas básicas.

Grades invisíveis: a diferença entre as seitas antigas e as modernas proto-seitas

Vamos direto ao ponto: QAnon é uma seita (ou uma proto-seita como disse mais acima, que pode ser usada como modelo para estruturar outras, mas vou falar melhor disso mais abaixo) como diversas que vimos no século passado e recrutavam pessoas afastando-as de família e amizades.

Grupos terroristas fazem o mesmo se valendo do espaço online para criar células de recrutamento (o QAnon já vem sendo considerado grupo terrorista, mas eu diria que é um tipo de “fantasma na máquina” terrorista – vá abaixo para o item Proto-Seitas).

No entanto vemos uma grande diferença nas seitas modernas, aliás duas (a segunda vou comentar melhor mais abaixo também em proto-seitas):

  1. Elas não afastam seus seguidores fisicamente, eles continuam morando com suas famílias e convivendo com as velhas amizades, mas encontram novas redes de contato online que são acolhedoras ao compartilhar dos mesmos delírios e satisfazer suas inseguranças.
    Se tirar as pessoas do confinamento era um passo importante para resgatá-las dos modelos antigos de seitas, agora a “casa comunal” está em qualquer celular, qualquer conexão à Internet e é praticamente impossível resgatar alguém da Internet pois é um espaço de convivência, difusão e acesso à informação e conhecimento, trabalho e estudo que se impõe ainda mais à partir da pandemia de 2020, mas já era inescapável.
  2. Autonomia: elas não precisam de uma liderança centralizadora ainda que sejam alimentadas por grupos oportunistas que se aproveitam da estrutura estabelecida e, por exemplo, financiam o disparo de mensagens em massa alimentando afluentes que reforcem seus interesses.

Falar mais das prisões invisíveis

Proto-Seitas

Podemos achar que temos que coibir, identificar e isolar o QAnon, no entanto essa provavelmente é apenas a proto-seita da vez, ou seja, um “guarda-chuva” que cobriu diversos medos modernos como desvios morais (pedofilia) e ameaças individuais (o comunismo percebido como uma forma de roubo da propriedade e diversidade sexual quando não queremos repensar nosso próprio gênero e sexualidade), por exemplo, reunindo delírios que reforçam esses medos produzindo diversas teorias da conspiração que podem se conectar sob uma única alcunha: QAnon.

No entanto poderia ser qualquer outra alcunha, como já foi com a série de pseudo documentários Zeitgeist, que mereceria estar em uma análise “genética” desse sistema memético.

Proto-seitas talvez sejam estimuladas inicialmente por grupos com claras intenções políticas, religiosas ou econômicas (ou as três juntas), mas, enquanto persistirem as inseguranças inerentes a uma transição de paradigma como a que vivemos, em que praticamente todas as estruturas de poder, ordem e cultura estão em colapso ou pelo menos em intensa transformação elas serão capazes de assumir vida própria ao atingir uma massa crítica.

Quando isso acontece elas se estabelecem como um tipo de “nave mãe” (para usar um termo da transmídia) ou pilares ao redor dos quais outros grupos podem construir suas estruturas de controle.

Se uma “encarnação” de proto-seita é banida dessa ou daquela Rede, as pessoas que já estão seduzidas simplesmente se espalharão por outras redes onde poderão ser encontradas e “moduladas” (não acho que manipulado seja um termo preciso, então tenho tomado emprestado do Normose) por quem tenha oportunidade.

Cthulhu – O Terror Primal

Escolhi Cthulho para ilustrar esse post pensando nos paralelos com o conto de Lovecraft e com o próprio autor repleto de preconceitos, resistência a mudanças e elitismo.

A propósito os dois primeiros parágrafos do conto falam sobre vivermos em uma plácida ilha de ignorância nas névoas dos mares obscuros do infinito e que, um dia, a reunião de conhecimentos desconexos nos revelarão visões tão terríveis da realidade que nós enlouqueceríamos ou fugiríamos da luz mortal para a paz e segurança de uma nova era das trevas.

É mais ou menos consenso que grande parte da ruptura do tecido social vem da negação da realidade elegendo a ciência, que nos mostra a “luz mortal” e uma fuga para formas obscuras das crenças e religiões.

Tenho defendido que essa ruptura se dá porque o conhecimento está cada vez mais acessível, pesquisas científicas que demorariam anos entre as primeiras hipóteses, publicação das teorias resultantes, revisão por pares e finalmente revistas especializadas antes da mídia mais abrangente se propagam ainda nas primeiras hipóteses.

Além disso até mesmo as pesquisas maduras e bem testadas chegam em torrentes sobre uma civilização que não é científica, não tem o pensamento crítico e científico na base da sua cultura.

O choque é avassalador.

Me lembro quando, com cerca de 10 anos, me deparei com o conceito de infinito cósmico em um livro de física que não devia ter caído na minha mão sem alguém capaz de fazer aquela jornada comigo. Acho que foi a primeira vez na vida que sofri de profunda ansiedade, algo que foi raro em mim até o fim do primeiro ano da pandemia da covid-19.

Imagine agora jovens e adultos cercados pelas névoas dos avanços e suposições mais recentes abrangendo praticamente tudo que molda nossos mundos: religião, sociedade, economia, política, gênero, sexualidade, sanidade (já pesquisou sobre neurodiversidade?)

Cthulhu está despertando do da sua morte-sonho nas profundezas do oceano estendendo os ecos do seu terror por quem sente insegurança, desorientação, resistência ao ritmo de mudanças…

Isso inclui pessoas progressistas que tem dificuldade em perceber que as causas humanas também estão se transformando. Do feminismo à igualdade social, da diversidade de gênero às estruturas econômicas pós-capitalismo os caminhos e metas não são mais os mesmos de há dez anos, nem mesmo de 5 anos.

Pode-se dizer – com razão – que os delírios da direita (que passou a reunir conservadorismo, o capitalismo predatório concentrador de renda, totalitarismos fascistas) são muito piores que os da esquerda (que passou a reunir o progressismo, direitos humanos, capitalismo social ecológico e justiça social), no entanto devemos levar em consideração que a origem do terror de Cthulhu que se levanta é justamente o rápido avanço das mudanças, que vivemos uma era progressista. Diante disso, para ser conservador, defender as estruturas de poder que se tornam obsoletas, é necessário um descolamento da realidade cada vez maior, a ponto de negar obviedades como o funcionamento de uma vacina, a esfericidade da Terra ou a Mudança Climática.

O perigo do Rei dos Leviatãs

Capa do livro Leviathan, Thomas Hobbes

O Rei dos Ratos é um mito, medieval se não me engano, em que diversos ratos se mesclam em um só formando um novo organismo autônomo. O conceito foi explorado recentemente no jogo Last of Us 2 e nos serve como metáfora.

A proliferação de proto-seitas online criando estruturas meméticas para mega sistemas de crenças cada vez mais desconectados da realidade e mais conectados em nossos medos, inseguranças e estereótipos pode criar um tipo de “fantasma na máquina” capaz de fazer frente ao Estado Leviatã de Hobbes ainda que só tenha a oferecer – pelos menos a princípio – apenas conforto emocional a seus “cidadãos”.

O tempo… Eu não disse?

Ainda falta metade do texto e adicionar pelo menos alguns vídeos necessários do canal Normose aqui, mas, como eu disse… O tempo…

Decidi publicar discretamente assim como está para terminar hoje mais tarde ou no máximo amanhã.

Se deixar no rascunho tem risco de ficar semanas lá…

Dois dias se passaram… Pelo menos escrevi mais um tanto hoje, mas ainda falta…

Links:

Imagem: Chtulhu em Know Your Meme

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