A BBC acaba de disponibilizar no YouTube (disponível para o Brasil, mas não para todos os países) o documentário em três partes que apresenta a ascensão do nazismo com a visão privilegiada que temos hoje e que nos permite, ou pelo menos facilita, identificar riscos à democracia oferecidos por alguns governos e grupos políticos de ultra-direita.

A personalidade de Hitler vai sendo delineada ao longo dos três episódios nos apresentando a uma figura que me pareceu narcisista e megalômana interessada apenas em ter poder e para quem as leis e limites morais ou sociais são apenas incômodos que interferem em seu desejo de fazer o que quiser… Qualquer semelhança com outros líderes de perfil anti-democrático pode não ser mera coincidência…

Parte 1: A estratégia que levou Hitler ao poder

É importante perceber que existem diferenças decisivas entre os anos 30 do século passado e hoje.

  • Na Alemanha da época um único homem tinha poder para determinar quem seria o líder do governo ou mesmo para dissolver o parlamento enquanto hoje as estruturas democráticas são mais resilientes na maioria dos países;
  • Talvez o ponto mais importante: A ideologia nazista-fascista não era claramente identificável na época com seus discursos apoiados em ultra-nacionalismo, segregação, preconceitos, eugenia (que aliás era bem vista na época).
  • Os nazistas souberam estender sua influência muito além da milícia que controlavam, mas em quase todos os níveis da estrutura política e jurídica e, se vemos casos semelhantes hoje estão longe de ter a profundidade e extensão que tiveram então (o que não quer dizer que não seja um dos pontos mais perigosos e a que devemos dar atenção especial);
  • Fica a impressão de que os jogadores do tabuleiro político na época buscavam poder enquanto hoje o objetivo principal seria uma acomodada vampirização do capital do estado para si e para financiadores… Não que isso não seja abjeto;
  • O apoio de um partido político subserviente ao líder (Hitler) parece ter sido decisivo enquanto modernamente não vemos tamanha subserviência, mas preocupa a subserviência a um tipo de quimera formada por nossos medos coletivos
  • Me parece que o aumento das relações políticas, econômicas e culturais entre os países desde então cria uma fricção, uma resistência maior, à instalação de regimes radicais a menos que o país se isole do mundo em todos esses pontos como é o caso da Coreia do Norte.

Parte 2: A violenta tropa de choque de Hitler

Os primeiros 6 meses
  • Em apenas seis meses Hitler foi capaz de suprimir a democracia na Alemanha, algo que não pode ser repetido por nenhum dos recentes governos que dão sinais de simpatizar com o pensamento nazista. Parece-me uma mutação do vírus: o objetivo não é mais suprimir a democracia, mas manter a população sobre efeito de terrores (morais principalmente, mas também econômicos e pessoais);
  • Hitler não só permitia, mas estimulava o conflito dos nazistas abaixo dele em uma estratégia darwiniana e isso é algo que temos visto em governos radicais de direita recentes. Tenho imaginado que era uma característica da postura egocêntrica dos atraídos por esse viés, mas seja isso ou não realmente devemos nos preocupar que assim sejam criados “macrófagos” capazes de consumir a democracia por onde passam…
  • O primeiro passo foi convocar eleições para aumentar o poder do partido nazista e, para isso, era necessário tirar do caminho o partido comunista, o maior no mundo depois do da Rússia então Hermann Göring usou a estrutura do governo para demonizar o comunismo, para acusá-lo de pretender dar um golpe. A extrema direita continua com essa obsessão como se fosse um zumbi e, espero, falta-lhe hoje cérebro para se adaptar;
  • Aproveitando que o presidente tinha poder quase absoluto, Hitler obtém autorização para prender os oponentes políticos sem qualquer outra interferência. Hoje o que vemos ser feito é a destruição da imagem dos vieses que não são de extrema direita através de campanhas de desinformação e guerra híbrida;
  • A estrutura policial é paulatinamente conquistada por Himmler absorvendo unidades políticas para dentro da estrutura da SS. No momento não vejo um paralelo para isso. Seria necessário ter uma força policial ou militar que concedesse status a quem fizesse parte dela, imagino…
  • Enquanto isso Göring usava o Pegasus, digo, as linhas telefônicas para criar uma estrutura de inteligência (a Gestapo) que o blindaria contra qualquer adversário e lhe daria instrumentos para exercer o poder dentro do próprio sistema nazista que, em alguns aspectos, se assemelha a uma tribo bárbara em que o mais forte tem poder…
  • E tudo começou com a declaração de um estado de exceção, dispositivo que continua a existir em muitas democracias…

Parte 3: O golpe final que deu a Hitler poder absoluto

A noite das facas longas
  • Uma vez no poder Hitler precisava da aparência de ordem e as milícias (2 milhões de nazistas) cuja violência antes lhe favorecia agora eram uma inconveniência. Parece que é um problema comum a quem utiliza o sistema nazi-facista para obter poder, né?
  • Essas milícias queriam o controle das formas armadas, mas na época isso não seria aceito pelas elites que ainda dominavam a política acima de Hitler. Também acho difícil nos Brasil ou nos EUA, por exemplo, que milícias ou fanáticos da NRA assumam o controle do poder militar…
  • Tem uma curiosa dinâmica de forças em torno do poder na Alemanha dos anos 30. De um lado a aristocracia que continua tendo um poder quase feudal sobre o país e os súditos representados por Hitler. A tal ponto que Edgar Jung, um intelectual de direita, procura articular a queda de Hitler. Parece com o momento que vivemos também.
  • É então que a SS e a Gestapo de Himmler e Göring criam a farsa de um golpe da antiga milícia e das elites de direita contra Hitler… Meio parecido com dizer que o STF quer dar um golpe, né? #Tenso, mas perceba que hoje temos estruturas bem diferentes e mais complexas tanto na política quanto na mídia.
  • No curto documentário fica a impressão que a aristocracia, tirando a que estava diretamente envolvida com o governo, não tem muito que se preocupar com o que Hitler faz com a Alemanha e seu povo, impressão que podemos ter também das elites econômicas modernas (falando aqui das que controlam recursos superiores aos de muitos países, claro).

Reflexões

Já deixei algumas nos comentários a cada vídeo, mas é bom dizer que as ideias pessoais que registrei aqui foram apenas as que me ocorreram enquanto assistia e devem ser vistas como pontos de partida para estudar adequadamente não apenas a história do nazismo, mas também possíveis paralelos com a história moderna. Me parece também que o documentário faz simplificações para tornar mais fácil traçar paralelos com os tempos modernos.

Minha impressão geral é que o fascismo é como um fantasma que paira sobre a humanidade e que sempre há pessoas que tem o delírio narcisista e ganância por poder que as farão se agarrar a esse fantasma sempre que a sociedade ou a estrutura da sociedade se mostrar vulnerável a sua influência.

Em cada período histórico, a cada retorno da assombração, ela se manifestará de outra forma e cabe a nós coletivamente a a quem se especializada no estudo da história e da antropologia, reconhecer seu retorno e encontrar os antídotos capazes de livrar a sociedade dos terrores que dele advém.

No momento me parece bem claro que o pesadelo já vem crescendo entre nós há tempos, que nunca nos abandonou se mantendo vivo na opressão a maiorias e minorias discriminadas culturalmente, racialmente, economicamente…

Imagem: by Greg Rosenke on Unsplash

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