Hoje comecei a frequentar o curso acima no Pontão Digital da Eco (UFRJ). Serão 14 aulas durante as quais pretende-se explorar justamente a cultura digital e o capitalismo em uma sociedade cada vez mais centrada no conhecimento e em serviços.

Naturalmente que não vejo sentido em fazer notas de aula offline onde ninguém mais pode compartilhar do conhecimento e podemos viver sempre a tola ilusão de que estamos certos e somos brilhantes (afinal só nós mesmos e alguns amigos selecionados temos acesso a isso). Portanto provavelmente farei um post para cada aula. Pelo que vi hoje não faltará material ou provocação.

A Ivana Bentes tem um ritimo de raciocínio e de fala que me agrada muito: rápido e aguçado. A turma definitivamente tem paixão o que, já nessa aula inaugural, rendeu pelo menos uma acalorada discussão.

Para muitos ali o curso será um primeiro mergulho na cultura digital que, a propósito, talvez pudéssemos chamar de protocultura do conhecimento com todos os microorganismos característicos das papas primordiais como a que deu origemà vida na Terra.

De um lado estavam alguns dos seres estranhos que já se sentem cidadãos da cultura digital defendendo a liberdade e o aparente caos da Internet e de outro pessoas mais sensatas preocupadas com a exposição de uma civilização formada por um sistema educacional em crise à cacofonia de informações disponíveis online (e nem se falou em privacidade ou anonimato).

Estou entre os seres estranhos que não sabem como vai funcionar, mas que entende que a Internet é apenas o elemento mais recente de algo que vem acontecendo a muito tempo (Bertold Brecht já falava em rádios abertas similares a um Twitter antes da segunda guerra mundial dica de Marcos Dantas) e cabe a nós descobrir não como conduzir a ambientação das pessoas a essa cultura (ou protocultura), mas como colaborar com elas.

Parece-me que as opiniões hoje se dividiam em dois grupos: um acredita que deve haver algum preparo fora da Internet para lidar com ela e o outro crê que a Internet é justamente o elemento externo ao sistema antigo onde as pessoas podem (e estão) aprendendo a criar conteúdo, desenvolver senso crítico e criar novos valores e ética.

Outra opinião que me pareceu comum a boa parte dos meus amigos de curso é a preocupação com a manipulação das pessoas na Internet o que achei curioso pois é justamente o tema do meu post anterior.

A preocupação é que as pessoas em geral entrariam na Internet principalmente para ver o conteúdo dos mesmos veículos que assitem passivamente offline.

Bem, em primeiro lugar já considero que há uma grande diferença entre consumir a novela da Globo passivamente e assistí-la no Youtube acrescentando comentários que outros podem ver.

Em segundo lugar não estou tão certo de que o conteúdo online mais consumido é a réplica do material offline. Basta ver os vídeos virais que normalmente são produções de anônimos ainda que algumas empresas venham fazendo algumas campanhas virais bem sucedidas.

Um caso emblemático que não posso deixar de citar, primeiro porque estou me sentindo agredido pela Puma no caso do Puma Lift e quero saborear a vingança e em parte porque é mais um exemplo de que os poderes antigos offline se esforçam cada vez mais para tentar cooptar as pessoas comuns deixando bem claro que eles reconhecem o poder dessa massa disforme formada “pelos internautas” (como se houvesse uma fronteira qualitativa entre humano internauta e não internauta).

Ao sair da aula encontrei com a @oonacastro (do Overmundo) que estava prestes a mediar um debate entre o Marcos Dantas (linkado mais acima) e o Diogo Moysés sobre o sistema público de comunicação no Brasil aproveitando o lançamento de um livro sobre o sistema público de comunicação em 12 países (disponivel para download no link).

Foi uma ótima oportunidade saltar direto da protocultura do conhecimento para um debate sobre a tentativa de oferecer à população um instrumento talvez ultrapassado como a TV.

Durante o debate ficou clara a preocupação com a regulamentação das comunicações que, afinal, são todas um serviço público (telefone, rádio, televisão e… Internet).

Acontece que na Internet convivem lado a lado o cidadão comum que a habita como se fosse praça, rua ou sala de estar da sua casa e os velhos poderes (religioso, político e corporativo).

Para Marcos Dantas não podemos aceitar que empresas como a Sky oferecem serviços de comunicação à margem da lei já que não há regulamentação para esse tipo de transmissão. Concordo com ele.

No entanto será que é o governo que nos garantirá essa regulamentação? Vale notar que ele, Marcos Dantas, aparentemente não mergulhou na tal protocultura e portanto não percebe que até o momento o que acontece é que o cidadão comum é vítima online dos ataques dos poderes que deveriam regulamentar as comunicações.

Mesmo sabendo que é uma visão utópica (no sentido de objetivo que só pode ser alcançado depois de uma sequência não definida de etapas) atualmente prefiro acreditar em um modelo novo de democracia onde o próprio cidadão é o orgão regulador e o governo cumpre apenas suas tarefas administrativas sob a vigilância de uma sociedade que tudo vê através dos olhos online que se aglutinam rapidamente aos olhos offline e solitários.

Leituras recomendadas pela Ivana:

P.S.: Já ia esquecendo que lembrei de dois vídeos bem ilustrativos durante a aula da Ivana:

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