Vários amigos e conhecidos estão me fazendo essa pergunta e a maioria se divide entre dois grupos:

  1. Pessoas revoltadas com a Copa que esperam que eu diga que acho certíssimo qualquer tipo de protesto
  2. Pessoas que acham os protestos errados e querem me convencer disso.

Perfil dos que protestam

Bem, vou decepcionar os dois grupos e oferecer outras alternativas, mas antes temos que traçar o perfil do “protestador contra a Copa”.

Bem, não tem perfil 🙂

Tenho a impressão que boa parte das pessoas tentam entender as massas sociais como se fossem um indivíduo e dizem coisas como “destruir coisas não faz sentido” ou “o sujeito revoltado pode destruir coisas”.

Isso não me parece uma forma adequada de tentar entender grandes grupos de pessoas. Pode funcionar para umas poucas centenas de pessoas revoltadas, mas não para milhares.

Todas as pessoas insatisfeitas com a forma como a Copa foi conduzida tem uma participação na criação de um tipo de perfil coletivo.

Alguns vão entrar na festa colecionando o álbum, pagando para ver os jogos nos estádios, comprando artigos com as marcas do evento, mas estão indignados com os altos gastos, com as obras incompletas e diversos outros problemas. Podem até achar que teria sido melhor fazer o mesmo levantamento de recursos para investir em universidades, escolas, hospitais, cultura… Mas já que está feito é melhor ir em frente e fazer o melhor possível.

Um grupo que parece maior é o de excluídos do evento. Gente que está sendo sacrificada com obras, carência de serviços públicos básicos e falta de atenção do Estado e não terá qualquer benefício direto ou indireto perceptível. Esse mesmo grupo está acostumado a ser tratado pelo Estado com violência.

É claro que temos outros grupos, mas vou considerar que o primeiro é o que fala mais alto e o segundo é o mais numeroso. Posso estar errado e gostaria muito de ver pesquisas que confirmassem ou negassem a hipótese. Por hora vou seguir com esse insight.

O que controla o comportamento da massa?

“A Globo! A Mídia! A Fifa! O Bolsa Família!”

Essas são algumas das hipóteses mais comuns. Todas me parecem falhar a uma verificação mais lógica.

No Brasil e no restante do mundo me parece mais provável as forças que influenciam o comportamento das massas sejam a mídia que quer audiência e anunciantes, corporações que querem consumidores, políticos que recebem recursos dos dois primeiros, mas são eleitos pela população.

Era um móbile bem mais previsível até a década de 80 do século passado… Bem, sempre foi apenas parcialmente previsível.

Conforme a Internet ecoa cada vez mais vozes comuns, mais imprevisível esse móbile se torna.

É claro que vemos páginas, blogs, correntes, vídeos do Anonymous e outras manifestações aparentemente populares que são claramente produzidas com uma agenda política, mas elas continuam tendo que concorrer com uma algaravia crescente de vozes.

Quem controla a massa então? Ninguém. O que temos são redes de influência cujo sucesso é quase impossível definir e não vejo sinais de que alguém seja capaz de fazer isso no planeta atualmente.

Mas afinal, os protestos estão certos ou errados?

Não ficou claro? Nem um nem outro. Os protestos são uma combinação de tentativas bem sucedidas de causar caos por motivos políticos, grupos genuinamente revoltados, oportunistas que aproveitam para fazer saques, assaltos ou extravasar uma violência vazia de causas e toda uma constelação de manifestações pacíficas ou não.

O ideal, é claro, seria os mais de cem milhões de brasileiros que votam fazerem suas pesquisas e mostrar nas urnas o que desejam; que se formassem grupos para negociar com o Estado ou ainda que a população vigiasse as contas públicas (papel que a Imprensa não está fazendo como deveria).

É aqui que devo lembrar lá do primeiro item: não estamos falando de uma pessoa ou de um grupo organizado de pessoas, estamos falando de mais de 100 milhões de pessoas.

Vem agravar o caso as campanhas que os partidos políticos vem fazendo sistematicamente há duas décadas acusando a corrupção (real) dos seus companheiros em vez de discutir somente a qualidade dos seus planos para o país e a competência para cumprí-los.

Isso constrói a percepção de que não adianta contar com nenhum governo, nenhum político. Sensação aliás, agravada pela forma como as forças de segurança são usadas contra os cidadãos.

Convenhamos: não faltam razões para protestar e, em essência, protestar está certo. Protestar com violência nunca será certo, mas é o que temos. Não cabe a mim ou a ninguém condenar os protestos por sua violência pois as massas não reagem racionalmente. Simplesmente não faz sentido esperar isso delas.

Quem tem poder e responsabilidade para evitar que aconteçam protestos violentos é o Estado que, se for capaz ou estiver interessado, escuta o clamor popular e toma as medidas necessárias.

O que poderia impedir os protestos contra a Copa?

A princípio seria muito simples:

  1. Obras e mudanças que beneficiassem a população depois do evento
  2. Transparência nas contas
  3. Punição exemplar das irregularidades

No entanto tudo se complicou quando a população foi levada pelo Estado a engolir seu amor próprio ano passado quando foi às ruas pedir menos impunidade, transparência das contas do transporte público (e melhoria deles) seguido por protestos por melhor ensino e foi escorraçada para dentro de suas casas. Os protestos nas ruas sumiram, mas a raiva não.

Temos dois grupos nesse campo: uma multidão desorganizada e um governo (e aqui me refiro não ao governo eleito, mas ao conjunto dos políticos) que tem a responsabilidade e os recursos para atender ao menos as demandas mínimas da população.

Depois dos acontecimentos do ano passado e considerando que o Mundo vive uma crise da democracia representativa, já não bastaria fazer a Copa bem feita e, durante a greve dos professores, o clamor #NãoVaiTerCopa se levantou com força.

A mensagem é clara: se o Estado pode levantar bilhões para construir estádios para um punhado de pessoas então por que não levanta recursos para a saúde, a educação, universidades, pesquisa e outras áreas que realmente trariam benefício a todos a médio e longo prazo?

A essa altura a única coisa que, em minha opinião, impede protestos massivos contra a Copa é um senso comum de que não vale o risco de enfrentar a violência das forças de repressão do Estado. É um fator que pode mudar a qualquer momento pois esse valor é subjetivo.

Mas não poderia ser mais civilizado?

Não. Assim como não foi a Segunda Guerra Mundial, a independência da Índia, o relacionamento entre Israel e a Palestina, a guerra do petróleo no final do século passado…

Nós gostaríamos que fosse mais civilizado? Claro! Mas nossa civilização ainda não aprendeu a fazer isso. Pode não estar muito longe, mas por hora quem tem o osso na boca morde quem não tem e quem não tem junta os amigos para tomar um pedaço do osso.

Podemos não ser tão violentos quanto os outros animais, mas ainda temos dificuldade em ser racionais em certos momentos.

Vai servir para alguma coisa?

Quer me derrubar, né? Como posso prever como isso se refletirá em 200 milhões de pessoas? Aliás em 7 bilhões pois o processo é o mesmo em toda nossa civilização.

Alguma coisa está mudando e provavelmente continuará mudando. Minha aposta, por uma questão de seleção “memética” é que a tendência é parcelas cada vez maiores da sociedade terem voz ativa e, se isso se confirmar, teremos uma democracia mais participativa surgindo disso, uma sociedade mais humanista e igualitária.

Outros problemas surgirão, ainda haverá excluídos, mas minha hipótese é que o pão e circo será modificado e vamos querer algo que nos dê a sensação de que estão havendo avanços no desenvolvimento humano.

Ser brasileiro de coração já não será mais tanto torcer para que 11 pessoas vençam um jogo, mas para que 11 milhões deixem a miséria, 11 milhões a mais se formem na universidade, 11 milhões venham aumentar os quadros de pesquisa social e científica.

Por outro lado há a hipótese de que a repressão violenta seja uma tática para causar a desesperança e a alienação plantando um senso comum de que:

“Não adianta protestar porque sempre acaba em violência e aí perde a moral e nada muda”

Espero que isso nunca aconteça, mais do que isso, duvido que isso aconteça pois não é o que vemos ao longo da história da humanidade.

Dá para fazer algo para ser menos violento?

Será?

Francamente… Duvido. Mas suponho que, em uma utopia onde todos que estão insatisfeitos e não acreditam em violência escrevessem posts como esse, falassem com seus amigos, dedicassem um tempo diário a pensar em formas de manifestar sua insatisfação pressionando políticos, mídia e corporações nós poderíamos ter uma massa pacífica de protestos que suplantaria qualquer poder de repressão.

Nunca vi isso acontecer, mas estamos aí! Esse é o século das coisas que nunca aconteceram. Tanto na ciência quanto na sociedade.

Imagem

Créditos da imagem de cabeçalho: O Globo – A decoração anti-copa nas ruas do Rio.

Pin It on Pinterest

Share This

Compartilhe!

Mande para suas redes sociais